terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Jean Marc von der Weid: O gato subiu no telhado

Desde o início deste governo Lula III, tenho questionado a estratégia adotada para a difícil relação com um Congresso dominado por interesses mesquinhos de suas excelências ou pelos interesses de corporações de vários tipos, representados por bancadas conhecidas como “da bala”, “do boi” e “da bíblia”, para citar apenas as mais atuantes.

Em franca minoria no Congresso (sobretudo na Câmara de Deputados) e sem os instrumentos de pressão (controle da liberação das emendas parlamentares) e de aliciamento (mensalão e petrolão) usados nos governos populares de 2003 a 2016, a atual administração procurou ganhar suporte entregando ministérios e outros cargos para o Centrão e fazendo grandes concessões no conteúdo dos projetos de lei em debate. O resultado foi muito ruim, com uma crescente perda de identidade das bancadas de esquerda, que se confundiram com a geleia geral do Congresso de maioria direitista e extremista.

A estratégia não funcionou. Aquilo que se convencionou chamar (sem ironia) de “base do governo” ficou reduzida à fidelidade do PT, do PCdoB e do PSOL, enquanto os partidos ditos de centro esquerda (PDT, PSB, PV e REDE) racharam e os ditos de centro (MDB, União Brasil, PSD e outros) votaram majoritariamente contra as propostas do governo. E os eleitores passaram a ver as bancadas de esquerda como parte de um conjunto pouco valorizado de um Congresso distante dos interesses da população.

Defendi desde sempre que o governo deveria ter enfrentado o Congresso e aceitado perder votações, mas com posições claras capazes de gerar apoio na sociedade. Esta postura permitiria galvanizar a militância social para se manifestar em apoio do governo e desgastar politicamente a direita, preparando o caminho para um enfrentamento eleitoral mais equilibrado em 2026.

O sucesso desta outra estratégia ficou demonstrado nas grandes manifestações recentes contra a PEC da blindagem ou da bandidagem, mas a iniciativa foi da sociedade e em discordância com as conciliações sucessivas do PT nas negociações com a Câmara. Com a massa na rua, o Congresso dobrou a espinha e recuou, abandonando, de quebra, a tentativa de votar uma anistia para Jair Bolsonaro et caterva.

A partir deste momento, o governo adotou uma postura mais combativa, embora tortuosa em várias ocasiões.

O norte deste enfrentamento tem que estar lastreado por dois elementos chave: a escolha de temas de alta popularidade (o que aconteceu, em parte, na votação da isenção do imposto de renda para os mais pobres) e a clara apresentação das posições governamentais em campanhas de divulgação (o que também aconteceu no exemplo citado, apontando para a contradição entre a defesa dos pobres pelo governo e a dos ricos pela Câmara).

A direita recuperou a iniciativa com o foco no tema da segurança, provocado pelo massacre da operação policial nos complexos do Alemão e da Penha. O governo caiu na defensiva e bateu cabeça sem saber enfrentar a barbárie proclamada pela direita, que teve o suporte da população.

O governo se intimidou com a popularidade do massacre apontado pelas pesquisas de opinião e perdeu a chance de mostrar firmeza na defesa da sua correta estratégia de combater as facções com as eficientes ações da PF e apontar a ineficácia da barbárie policial. Atrasado, Lula condenou a matança e defendeu as ações da PF que atingiram o coração das facções, mas este pronunciamento ficou prejudicado pela escorregada verbal do presidente, apontando os traficantes como vítimas dos consumidores de drogas.

Os projetos de lei sobre o tema da segurança propostos pelo governo estavam corretamente formulados, mas foram desfigurados pela Câmara sem que o governo procurasse mobilizar o apoio da sociedade. A busca de acordos com o Congresso evitou algumas das piores propostas de Guilherme Derrite, mas, mais uma vez, as contradições ficaram mal explicadas para o público e o governo perdeu na votação sem conseguir mostrar as diferenças.

Caiu-se, de novo, na estratégia de negociação e na confiança na “base do governo”. Apenas os três partidos fiéis deram todos os seus votos para o governo e o resto, direita, extrema direita, centrão, e centro esquerda votaram contra. Era melhor perder com uma posição mais clara.

A escandalosa tentativa da direita de enfraquecer a PF (polícia com alta aprovação na opinião pública) e blindar políticos, repetindo a manobra derrotada após as manifestações de massa, poderia ter gerado um movimento semelhante, mas o governo se perdeu em negociações com Hugo Motta e o Centrão e deu no que deu.

A cereja do bolo deste equívoco foi a escolha do futuro ministro do STF que deve ocupar a vaga de Luís Roberto Barroso.

Este não é um tema onde exista uma atenção da opinião pública. O povão não acompanha os meandros da política nos tribunais superiores e não conhece direito os personagens envolvidos. Tudo fica, aparentemente, em uma contradição entre um amigo do presidente (Jorge Messias) e um amigo dos senadores (Rodrigo Pacheco).

Qual seria a alternativa correta para o governo?

Em primeiro lugar, o governo deveria respeitar uma regra que parece ter caído em desuso no Brasil. O primeiro critério de uma escolha para o STF deveria ser o chamado “notório saber jurídico” e não a fidelidade de um ou outro candidato ao presidente, ou sua identidade religiosa (caso dos dois bolsonaristas do STF).

O segundo critério importante seria a representatividade social do candidato. O governo deveria ter feito uma consulta aberta à sociedade e buscado candidatos que tivessem, além do já apontado notório saber jurídico, uma identidade que diversificasse a composição da Corte, desde sempre composta por homens brancos, com apenas três mulheres brancas participando em toda a sua história.

Ao manter a tradição de buscar fidelidade ao presidente, apesar de escaldado por algumas traições em passado recente (notoriamente Joaquim Barbosa, o algoz do mensalão e Dias Tóffoli, o algoz do petrolão), Lula foi atrás de um personagem juridicamente insignificante, mas, supostamente, caninamente fiel.

Não importou o que o personagem possa pensar sobre temas importantes que o STF tem que enfrentar. Ele pode ser mais fiel do que um cão ao presidente, mas trata-se de um evangélico com um pensamento conservador nos temas como aborto (entre outros do tipo “costumes”). Além disso, Jorge Messias é simpático à forte pressão das igrejas por privilégios contrários ao princípio do Estado laico, inscrito na Constituição, mas frequentemente distorcido por sucessivas leis votadas no Congresso por iniciativa da bancada da Bíblia e não vetadas pelo STF.

Ao escolher Jorge Messias, apesar de saber da oposição de seu mais recente aliado no Senado, Davi Alcolumbre, Lula se colocou em posição fragilizada e corre o risco de ter um troco pesado do presidente do Senado. Alcolumbre não piou com a definição de Lula, mas seu entorno já está indicando que as votações de interesse do governo estão ameaçadas. O presidente do Senado já disse que vai pautar um projeto de lei elevando as aposentadorias dos funcionários de saúde que pode gerar um rombo sinistro nas contas do governo para o próximo ano.

Não se trata apenas de travar a escolha de Jorge Messias no Senado, coisa que Davi Alcolumbre já fez por quase dois meses no governo Bolsonaro. O perigo reside mais na votação da PEC da Devastação, na da LDO e em outras mais. E, neste caso, Lula não pode apelar para o apoio da sociedade. O fato de que o anúncio da escolha de Jorge Messias foi feito no Dia da Consciência Negra piorou o quadro. Se a escolha tivesse sido a de uma respeitada jurista negra, Lula teria um argumento forte para enfrentar os arreganhos de Davi Alcolumbre.

A sociedade pode se sensibilizar pela candidatura de uma mulher e mais ainda de uma mulher negra, mas o critério de fidelidade prevaleceu. Ao escolher Jorge Messias ele se dispôs a enfrentar o Senado sem qualquer respaldo na sociedade e está comprando um grande risco de ser atropelado pela vingança de Davi Alcolumbre.

O gato de Lula (Jorge Messias) subiu no telhado e pode não ser ungido pelo Senado, o que seria um raríssimo caso na história da Corte. Ou ainda, o gato (Lula) subiu no telhado e pode ser batido em votações importantes no choque de poder com o presidente do Senado.

E la nave va...

•        Votos e negócios em nome de Cristo

Cada vez mais políticos ostentam sua fé religiosa para defender posições ideológicas ultraconservadoras, disseminar propaganda ou recrutar apoiadores para vencer eleições.

“Gostaria de compreender, com meus pequenos olhos mortais, como nos veremos depois. Seria belíssimo se houvesse luz.” Com essas palavras, Aldo Moro despediu-se da esposa em uma carta antes de ser assassinado pelas Brigadas Vermelhas em maio de 1978. O político italiano havia sido primeiro-ministro e, na época de seu sequestro, era o líder da Democracia Cristã, partido que governou por mais de 40 anos e cujo nome incorporava não apenas uma declaração de intenções, mas a própria razão de ser. Moro era católico; podia até expressar dúvidas, como sugere a expressão, mas, acima de tudo, era um estadista. Como ele, muitos líderes desse partido mantinham sua fé em sua esfera mais privada: um comportamento próprio de qualquer representante público maduro e responsável, que contrasta com uma tendência cada vez mais consolidada, especialmente nos Estados Unidos e na América Latina, de exibir constrangedoras contorções religiosas em público e nas redes sociais. Tudo isso para defender posições ideológicas ultraconservadoras, disseminar propaganda ou angariar seguidores para ganhar votos. Ou dinheiro.

Dias antes de anunciar sua aposentadoria da política de linha de frente e seu rompimento com Donald Trump, a congressista Marjorie Taylor Greene, uma das figuras mais radicais do movimento MAGA (Make America Great Again), respondeu a uma pergunta com uma interpretação cristológica. “Obedecer a Jesus, perdoar e pedir perdão não significa ajoelhar-se; significa andar em obediência a Cristo, nosso Senhor, e colocar nossa fé em ação. Nada mudou em mim, exceto que me recuso a continuar fazendo parte da loucura maligna e tóxica do complexo político-industrial que está destruindo nosso país”, publicou ela em seu perfil no X.

A linha divisória entre a ideologia do Trumpismo, forjada por um de seus primeiros políticos, Steve Bannon, e a face mais reacionária e intolerante das igrejas cristãs está se tornando cada vez mais tênue. O próprio Bannon sabe que funciona, talvez se apoiando em teorias da conspiração fantasiosas ou deliberadamente falsas. Na cenografia de seus vídeos de proselitismo, pelo menos uma imagem de Cristo Pantocrator e outras três geralmente aparecem em destaque ao fundo. Duas semanas atrás, em uma dessas gravações, ele proclamou: “Trump não é perfeito; ele é um instrumento imperfeito, mas imbuído de providência divina”. Essa confusão ficou evidente no funeral de Charlie Kirk, o jovem ativista assassinado em setembro, um evento que demonstrou a ascensão de figuras que transitam entre a política e a pregação.

Na América Latina, onde as igrejas evangélicas vêm ganhando terreno há décadas, a música e as letras do discurso religioso permeiam a vida pública de uma forma difícil de reverter. Uma das frentes da ofensiva da direita contra o governo de Claudia Sheinbaum no México apela precisamente a um fanatismo que lembra a tradição Yunque. O ator Eduardo Verástegui aparece recitando o terço em forma de X, atirando com um rifle em um alvo, criticando a Maçonaria e classificando as políticas de gênero e climáticas como "terroristas".

O fenômeno, em todo caso, se estende por diversos setores ideológicos. Nos últimos dias de crescente tensão com os Estados Unidos, Nicolás Maduro também capitalizou sobre a onda de fervor religioso. “Como Presidente da República Bolivariana da Venezuela, eu, Nicolás Maduro Moros, voluntariamente, do Palácio de Miraflores, hoje, terça-feira, 18 de novembro de 2025, declaro que ratifico Nosso Senhor Jesus Cristo como Senhor e Mestre da Venezuela”, proclamou em uma cerimônia solene. Enquanto isso, influenciadores sinistros proliferam. “Vocês sabem por que quem me segue tem sucesso? Sabem por que quem me segue recebe críticas? Não… não é porque eu sou o maldito chefe… eu não sou o motivo. Porque quem me segue está, na verdade, seguindo Jesus”, escreveu ele na semana passada em uma publicação no Instagram que terminava com duas passagens do Evangelho de João. Sem o menor traço de ironia.

 

Fonte: A Terra é Redonda/El País

 

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