César
Fonseca: Tentação autoritária alcolumbriana bolsonarista
O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), rasga a fantasia de democrata:
quer assumir a prerrogativa do presidente da República, conforme a
Constituição.
Indicar
ministro do Supremo cabe, constitucionalmente, ao presidente Lula.
Alcolumbre
queria um aliado seu para o cargo: o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Não
cabe a ele essa autoridade para o exercício da governabilidade.
Insistindo
nessa linha, atua como imperador, ditador de meia tigela, rasgando a
Constituição.
Uso de
cachimbo faz a boca torta: depois do golpe neoliberal de 2018, o Legislativo,
que o apoiou para produzir retrocesso institucional, vestiu o figurino
inconstitucional do semipresidencialismo.
Passou
a forçar a barra, emparedando o presidencialismo constitucional.
A
aprovação de emendas constitucionais exorbitantes, que somam mais de R$ 50
bilhões/ano, é a prova do evidente golpe semiparlamentarista inconstitucional
que prejudica a governabilidade, para favorecer a classe política em suas ações
obscuras ao arrepio da lei.
Herança
maldita deixada pelo ex-presidente fascista Jair Bolsonaro, que delegou ao
Legislativo tal prerrogativa para ter a cumplicidade dele em suas ações
golpistas.
Pura
ditadura compartilhada.
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Reação ao autoritarismo bolsonarista
O STF,
por meio do ministro Flávio Dino, indicado por Lula, move ação contra essa
exorbitância semipresidencialista, que fere a Constituição.
Por
isso, o Legislativo quer influir no STF por meio de indicações de membros seus
para serem ministros da Suprema Corte.
Esse é
o objetivo central de Alcolumbre ao indicar Pacheco para o cargo.
Teria
lá um aliado seu para barrar Flávio Dino.
O
presidente não caiu nessa armadilha autoritária, tipo bolsonarista, de
Alcolumbre.
Preferiu
Jorge Messias, da AGU, homem de sua confiança, além de ser evangélico, para
ajudá-lo no trânsito com os pastores, categoria atualmente forte no cenário
político.
Lula
tenta atrair pastores para a esquerda na disputa eleitoral de 2026.
O
Estado é laico, mas a Realpolitik determina o pragmatismo lulista.
O STF,
hoje, não é aliado do Legislativo, que quer controlá-lo a fim de manipular o
Executivo, como vem fazendo pela prática semipresidencialista inconstitucional.
Messias,
no STF, fortalece a ação de Flávio Dino contra o abuso legislativo
relativamente às emendas parlamentares, escândalo que produz corrupção na
compra de votos.
Consequentemente,
o novo membro do STF, se for aprovado pelo Senado, fortalece Lula na batalha
contra o Legislativo, onde não tem maioria parlamentar.
As
derrotas que poderá sofrer para a oposição, como eventual aprovação de anistia
para Bolsonaro, como quer a direita fascista, seriam barradas no STF.
Afinal,
a Constituição considera inconstitucional a anistia para condenados por
atentado ao Estado Democrático de Direito, crime praticado por Bolsonaro, pelo
qual pagará por 27 anos e 3 meses de cadeia.
Fica,
então, a constatação óbvia: a indicação para o cargo na Suprema Corte é,
essencialmente, política, não uma questão de saber jurídico como fator
absoluto.
Como
gênio político, Lula, vencedor nessa parada, vai conversar com Alcolumbre para
preservar o trânsito executivo-legislativo, mediante diálogo republicano.
• Quais bolsonaristas podem, precisam e
devem ser resgatados? Por Jair de Souza
Tenho o
pressentimento de que todos já nos deparamos com gente que, apesar de estar
visivelmente incluída no grupo das menos favorecidas, aparece fazendo a defesa
de Bolsonaro. Isso já ocorreu comigo por diversas vezes. A mais recente foi
durante um corte de cabelo, quando o barbeiro que me atendia resolveu falar
sobre os problemas que, segundo ele, estamos enfrentando pelo fato de o governo
Lula preferir sustentar vagabundos com o Bolsa Família, em lugar de obrigá-los
a trabalhar.
Essas
constatações deveriam servir para induzir-nos a entender claramente que nem
todos os simpatizantes de Bolsonaro são do mesmo quilate. Por mais difícil que
nos seja aceitar a ideia, temos de admitir que, entre os que dão aval ao
ex-capitão de extrema direita, há muitos que o fazem por crerem estar atuando
no sentido oposto do que nós sabemos ser o rumo real do bolsonarismo.
Evidentemente,
quando estamos diante de grandes proprietários do agronegócio, de acionistas e
controladores de bancos e empresas financeiras, ou mesmo de pessoas da alta
classe média, não nos parece nada anormal ou contraditório que estejam
expressando sua concordância e pregando as propostas políticas do bolsonarismo.
Afinal, eles demonstram saber muito bem que seus atuais privilégios existem em
dependência umbilical com a existência de um sistema político-social que lhes
garante a possibilidade de explorar ao máximo as maiorias trabalhadoras e
excluí-las de direitos.
Porém,
pela lógica, não haveria como justificar que elementos pertencentes aos setores
populares também se somem ao apoio de uma corrente política que nada de
positivo tem para lhes oferecer. Sem dúvidas, em tais situações, nunca é a
coerência de raciocínio o que se impõe, mas sim seu oposto.
Sem
pretensões paternalistas de arvorar-me em dono da verdade, considero que a
precariedade das condições de vida torna mais difícil o discernimento dos
fatores causadores das angústias e penúrias que afligem amplas parcelas das
massas populares. E, por sua vez, as classes dominantes demonstram que também
têm plena consciência disso. Assim, desenvolvem estratégias de modo a tirar
proveito das deficiências e debilidades que elas mesmas engendram.
Com um
mínimo de conhecimento histórico, vamos recordar que não é restrita à
atualidade a implementação de medidas de diversionismo ideológico, visando
conduzir o povo oprimido por um caminho contrário ao da resolução efetiva das
mazelas que padece. Já em nossos estudos sobre o antigo Império Romano,
constatamos o uso recorrente que se fazia da política de oferecer “pão e circo”
para manter as massas alienadas e afastadas de lutas por direitos fundamentais
para uma vida digna.
É por
isso que, vira e mexe, nos encontramos com trabalhadores humildes que se
colocam em defesa de seus opressores. Eles foram ganhos, ou melhor, enganados,
pela gigantesca máquina ideológica das classes dominantes. Portanto, para
recuperar essas pessoas para o campo popular, temos de aprender a travar a
disputa ideológica que se faz presente. Não podemos acreditar que, tão somente
por tomar medidas governamentais que as beneficiem, elas aderirão às nossas
posições. Então, além de oferecer-lhes perspectivas de melhoria no campo
material, precisamos igualmente sensibilizá-las em termos ideológicos.
As
classes dominantes saem vitoriosas quando conseguem induzir massas
significativas a se limitarem a disputar valores de cunho moral, familiar ou
religioso, mantendo inquestionadas as injustiças sociais. E seu êxito se vê
facilitado por nosso abandono de travar a luta também em relação a tais
aspectos. Por isso, seremos capazes de derrotar as pretensões dos opressores à
medida que avancemos no trabalho de esclarecer que todos os grandes problemas
morais, familiares e religiosos estão inseparavelmente vinculados à enorme
desigualdade imperante em nosso sistema social.
Se
tivermos a coragem e a disposição que o momento requer, estaremos aptos a
convencer boa parte da gente humilde que ainda apoia o famigerado clã
bolsonarista de que o bolsonarismo é exatamente o oposto de tudo o que pode ser
entendido como respeitador e defensor da moral, da família e do cristianismo de
Jesus. Para isso, é preciso fazer os enlaces necessários entre esses aspectos e
a base social que temos.
É
impossível aceitar que não podemos desmascarar aqueles que descaradamente
roubam bilhões, privam os mais humildes de atendimentos básicos para sua
sobrevivência, sonegam o máximo possível dos impostos devidos e deixam o peso
da manutenção da estrutura do Estado nas costas do povo. E, para isso, não
precisamos lançar mão de nenhuma mentira: basta atermo-nos aos fatos reais,
expor a roubalheira multibilionária de adeptos do bolsonarismo e deixar patente
que essa desigualdade é o principal fator gerador do desvirtuamento moral de
nossa sociedade.
No
tocante à família, a questão me parece ainda menos difícil de elucidar, posto
que é bastante compreensível que a miséria e a carência sirvam como
potencializadores do rompimento dos laços familiares. Assim, os que querem de
verdade manter unida a família devem, em primeiro lugar, lutar para que cada
lar disponha dos recursos necessários para criar e educar dignamente suas
crianças. Para tal, é imprescindível que haja salários justos e proteção
laboral, para evitar que pais não consigam proporcionar a seus filhos o mínimo
requerido para uma formação conforme a dignidade humana.
Em
relação à religião, temos um instrumento demolidor para destruir e arrasar toda
a argumentação do charlatanismo religioso do bolsonarismo: o legado de vida de
Jesus. É confrontando os ensinamentos de vida de Jesus expostos nos Evangelhos
com a hipocrisia de pastores e padres bolsonaristas que não deixaremos ficar
pedra sobre pedra do trabalho diabólico daqueles que se apropriam do nome de
Jesus para defender tudo o que, durante sua vida, ele tenazmente combateu. Em
outras palavras, temos plenas condições de demonstrar que, quanto mais afinada
com o bolsonarismo uma igreja estiver, mais associada às prédicas do diabo ela
será; e, ao contrário, quanto mais afastada dessa ideologia maligna, mais
possibilidade terá de seguir de verdade as trilhas indicadas por Jesus.
Em
síntese, nossa preocupação não deve estar concentrada em atrair para o campo da
decência humanista os que estão potencialmente entrelaçados com as injustiças
inerentes ao bolsonarismo. É claro que, se algum banqueiro, explorador do
agronegócio, rentista etc. quiser passar-se para nosso lado, ninguém daqui
deveria fazer objeção. Mas isso terá de ser, essencialmente, uma iniciativa do
próprio interessado. De nossa parte, nosso objetivo explícito deve estar
dirigido a sensibilizar aqueles que, em função da máquina de desinformação do
grande capital, estão girando em torno da órbita do bolsonarismo, apesar de
terem tudo a ver com o povo do qual fazem parte.
Fonte:
Brasil 247

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