Petrobras
paga influencers para convencer gen Z sobre transição energética
No
Instagram da Petrobras, que tem mais de 390 mil seguidores, destaca-se a
influencer Francine Oliveira. Com 728 mil seguidores – quase o dobro do perfil
da petroleira -, ela aparece em um vídeo com mais de 4,5 milhões de
visualizações que mostra como a empresa inova na transição energética justa. Oliveira
não é uma influencer qualquer no perfil da Petrobras. Ela é uma dos sete
membros do novo time de influenciadores fixos da empresa, o chamado squad, que
somam juntos quase 3 milhões de seguidores. No grupo estão outras figuras como
Pedro Primark e Mylly Biologando, biólogos e influenciadores. Desde o início de
junho, a equipe de influenciadores da campanha acumulou mais de 200 milhões de
visualizações em suas postagens sobre a Petrobras somente no Instagram, além de
quase três milhões de curtidas, segundo análise da Agência Pública. Seus vídeos
também foram assistidos quase 900 mil vezes no TikTok, a rede social favorita
da Geração Z, com mais de 40 mil curtidas. Segundo a reportagem apurou, o time
tem trabalhado para a Petrobras para reforçar a imagem positiva da transição
energética. A empresa tem buscado ativamente influenciadores da área ambiental
para tentar melhorar a sua imagem junto ao público que se preocupa com os
efeitos dos combustíveis fósseis na mudança climática.
<><>
E a COP30 com isso?
A
Petrobras e outras petroleiras têm usado influencers para criar campanhas que
tentam melhorar a imagem junto ao público dos impactos ambientais reais do seu
negócio. A prática é conhecida como greenwashing; Uma das principais
expectativas em torno da 30ª Conferência do Clima da ONU, que será realizada em
Belém, é que ela dê encaminhamento a uma decisão tomada em 2023, na COP28, em
Dubai, de que os países iniciem uma “transição para longe” dos combustíveis fósseis.
Todos os perfis citados nesta reportagem foram procurados para se posicionar. A
Pública incluiu as falas de todos que responderam. O perfil Mylly Biologando
respondeu à reportagem que “todos os conteúdos sejam em vídeos ou podcasts que
gravamos são referentes à pesquisas verdadeiras que têm acontecido na empresa e
podem ser confirmadas em outras documentações ou in loco nos laboratórios
visitados”.
<><>
Influencers são estratégia para ganhar a gen-Z
Os
perfis de influenciadores estão diretamente ligados ao público que a Petrobras
tenta sensibilizar. Segundo uma pesquisa feita pelo Núcleo Brasileiro de
Estágios (Nube), com participantes de 15 a 28 anos, a maioria dos jovens
prefere se informar em plataformas virtuais, sendo 38,30% optantes pelas redes
sociais. Já o Instagram foi a principal rede social usada pelos brasileiros
para se informar em 2024, de acordo com o relatório do Aláfia Lab de 2025.
Existem
diversas variáveis para se calcular o preço de um reels, stories ou parcerias
grandes, que envolvam viagens e gravações externas. Segundo a reportagem
apurou, um influenciador de 300 mil seguidores pode cobrar entre R$ 20 a R$ 25
mil por cada feed. Para stories, é um valor mais baixo, em torno de R$ 7,5 mil.
Para o
influenciador é uma grande vantagem estar em um squad, ou seja, em um contrato
de longo período, que dura normalmente de seis meses a um ano. E quando a marca
é “familiarizada” pelo influenciador, a informação é passada com mais
facilidade, diz Laila Zaid, atriz e comunicadora socioambiental. “Os benefícios
de um squad é que você vai criando fiéis. Com uma frequência de postagem maior,
cria-se também uma fidelidade da audiência com a marca. E quanto mais a
mensagem é repetida, mas ela impacta”, explica.
Adriano
Liziero, geógrafo e influenciador por trás do projeto Geopanoramas, explica que
a estratégia do squad não se trata mais de uma publicidade, e sim de trazer um
rosto para a empresa: “as marcas identificam perfis, mantém uma parceria
constante e essas pessoas se tornam porta-vozes da empresa para um determinado
nicho”.
O
influenciador considera “grave” o fato da Petrobras estar atrás justamente do
nicho que a criticaria, como é o do meio ambiente, biologia, animais e ciência.
A prática remete ao greenwashing, quando organizações criam campanhas positivas
para mascarar os impactos ambientais reais do seu negócio.
<><>
Petroleiras seguem cartilha para tentar conquistar o público das redes
A
Petrobras não é a única empresa de petróleo a apostar em influenciadores para
suas campanhas. Pelo contrário, ela segue cartilha de outras gigantes
petroquímicas, como Shell e BP, que usam personalidades do Reino Unido para
estimular uma imagem mais familiar com o público e promover soluções para a
crise climática – mesmo que essas soluções não consigam resolver o problema da
queima de combustíveis fósseis.
Uma das
narrativas é a promoção do hidrogênio como um combustível verde, apesar do
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimar que a fonte
representará, no melhor cenário, 2,1% do consumo total de energia em 2050. O
DeSmog, uma organização internacional com foco em jornalismo ambiental
investigativo e ciência climática, mostrou que, entre os influenciadores, estão
um popular ex-apresentador da BBC, um explorador de regiões polares e um pai de
cinco filhos. “As campanhas foram implementadas em diversas plataformas de
mídia social e fazem parte de um esforço global para dar aos ‘millennials um
motivo para se conectarem emocionalmente’ com empresas de petróleo e gás e
combater sua percepção como ‘os vilões'”, destaca a investigação. Entre os
documentos das empresas de relações públicas que representam a Shell, um deles
se gaba que a campanha com o explorador Robert Swan tornou o público da
petroleira “31% mais propenso a acreditar” que a petrolífera está “comprometida
com combustíveis mais limpos”.
Em
2020, documentos internos vazados da BP mostraram como a petroleira buscava
“alcançar influenciadores” para se tornar “mais identificável, apaixonada e
autêntica” e “conquistar a confiança da geração mais jovem”. O uso da imagem do
influenciador para estes fins acaba por anestesiar quem estaria propenso a
combater o greenwashing, pondera Alexandre Costa, físico, professor e
ambientalista brasileiro. “Você tem um setor da sociedade polarizado que toma
muitos sinais invertidos, então não acredita na ciência, vive numa realidade
paralela. E você tem outro que ainda mantém os pés no chão, confia nas
instituições, ouve a ciência. A tática das petroleiras de usar figuras da
ciência para reforçar sua propaganda de transição é um desserviço muito grande.
É desmobilizar esse segundo grupo”, afirma.
A
Petrobras usa, por exemplo, a imagem e confiabilidade de influencers como o duo
Nunca Vi Uma Cientista – que possuem 779 mil seguidores no Instagram e se
descrevem como “Ciência com credibilidade e bom humor” – e a bióloga Bianca
Witzel, que possui 539 mil seguidores na mesma plataforma. A influencer Nunca
Vi 1 Cientista respondeu à Pública que “foram contratadas exclusivamente para
apresentar o podcast Nosso Energia, da Petrobras, conduzindo entrevistas com
convidados previamente definidos pela empresa”. Veja a resposta completa aqui.
Há um
movimento crescente em diversas cidades do mundo para proibir publicidade de
empresas e produtos altamente poluentes, como os combustíveis fósseis. É o caso
das cidades de Edimburgo e Sheffield, no Reino Unido, a cidade holandesa de
Haia, a capital sueca Estocolmo e redes de transportes em Gotemburgo (Suécia),
Montreal e Toronto (Canadá). Assim como países, muitas cidades também têm
compromisso com sua descarbonização. Os vereadores de Edimburgo afirmam que
reconhecer as metas climáticas da cidade exige “uma mudança na percepção de
sucesso da sociedade” e que “a promoção de produtos com alto teor de carbono é
incompatível com os objetivos de emissão líquida zero”. A proposta de proibir
campanhas publicitárias de petroleiras também é defendida pelo secretário-geral
da ONU, António Guterres. Para Guterres, as empresas de combustíveis fósseis
são “padrinhos do caos climático” e não poderiam mais fazer publicidade às custas
da destruição do clima.
<><>
Nadando contra a corrente: influenciadores rejeitam pedidos da Petrobras para
campanhas
Adriano
Liziero viralizou em 2024 após criticar a participação do cientista Átila
Iamarino com a petroleira Shell. Não foi a primeira vez que ele apontou a união
de grandes influenciadores com indústrias que buscam se mostrar mais
sustentável: outro vídeo viral foi sobre a parceria de Fernanda Cortez,
criadora da plataforma Menos 1 Lixo, na campanha “Vai de Etanol”, da União da
Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) em fevereiro deste ano. À reportagem,
Cortez justificou a participação dizendo não ter “dúvidas de que o etanol é a
melhor opção de combustível para a frota brasileira e que não necessita de
mudança estrutural de frota”. Depois das críticas que viralizaram, ele passou a
ser procurado por outros influenciadores para opinar sobre convites de
parcerias. “Eu parei de responder porque estava sendo muito procurado e senti
que não era apenas porque as pessoas estavam preocupadas com o tema, mas sim
com a própria imagem”, explica.
A
consultoria informal era feita de forma gratuita. “Eu acho muito problemático
que esses influenciadores que ganham bastante dinheiro com publicidade não
montem uma consultoria especializada para dar suporte sobre essas questões. Eu
sei que é difícil fazer essa avaliação, é preciso pesquisar, mas essas pessoas
teriam dinheiro para remunerar esses profissionais”, ressalta. A reportagem
conversou com dois influenciadores que negaram convites para produzir conteúdos
para a Petrobras.
Elle
Monielle, conhecida nas redes como “Ecofada”, fala sobre clima e sistemas
alimentares. A influencer já participou das COPs 26 e 27 do Clima e do Fórum
Mundial da Alimentação. O convite de parceria veio através de uma agência que
pedia valores para dois reels e stories. “Eles queriam que eu falasse sobre
transição energética justa e sustentável. O que eu achei muito irônico diante
de tudo que tá acontecendo em relação à Foz do Amazonas e o debate sobre
combustíveis fósseis”, relata. “Eu não dei segmento, nem respondi”, completa. Outro
influenciador que fechou as portas para a parceria foi Francisco Figueiredo,
comunicador de ciência e clima e colunista de O Eco, uma mídia independente com
foco em temas ambientais. A abordagem foi feita da mesma forma que a Monielle.
“[A agência] Dizia que a empresa estava na vanguarda da transição energética
justa, prezava por valores ambientais”, recorda. Para Figueiredo, o interesse
da petroleira em seu perfil é para “enganar sua audiência”. “Grandes empresas
extrativistas investem milhares em propaganda para criar uma boa imagem com a
população, o que valida seus projetos de destruição ambiental. Se eles veem
tanto valor no meu perfil, é porque sentem que eu sou capaz de enganar as
pessoas em favor deles”, reflete.
Para se
prevenir de cair em parcerias que promovem greenwashing, Francisco adverte
sobre empresas que investem milhões em publicidade e indica ao público
pesquisar em fontes não patrocinadas pelas empresas. “Com uma pesquisa rápida
dá para descobrir que o setor de ‘transição energética’ da Petrobras investe
mais em petróleo e gás do que em energias limpas”.
<><>
Camila Pitanga sorri no comercial da transição energética justa
No
comercial que encabeça a nova campanha da Petrobras, em 60 segundos, Camila
Pitanga repete sete vezes o termo “transição energética justa”. Já somente a
palavra “justa”, doze vezes. Mas apesar do sorriso carismático da atriz e do
investimento da empresa na propaganda, para os investidores internacionais, a
Petrobras passa um recado diferente: diz aos seus acionistas que essa tal de
transição custará caro aos seus bolsos e está sujeita a incertezas. A
propaganda da transição também não sai barato. A responsável pela campanha é a
Propeg, uma das duas empresas de marketing que têm contrato com a Petrobras
entre 2022 a 2027. A Propeg e a Ogilvy Brasil fecharam cada uma um contrato de
R$ 449,750 milhões para o período.
Em
resposta à Pública, a Propeg afirmou que “segue os critérios técnicos e legais
dentro do escopo definido em seu contrato” e que “por questões estratégicas e
em respeito às regras de mercado, não divulgamos valores individualizados de
campanhas ou de faturamento específico”.
Já a
Ogilvy Brasil limitou-se a dizer que a empresa “não teve participação na
campanha mencionada”. No entanto, a Ogilvy já liderou campanha de mesmo tema da
Petroleira em abril de 2024.
Questionada
sobre o uso de influenciadores para sua campanha, a Petrobras informou que “a
presença de ‘celebridades’ é extremamente comum em todo o mercado publicitário,
não somente nas campanhas da Petrobras”. Quanto aos valores, a petroleira
afirmou que “os valores pagos são divulgados em caráter geral, por tipo de
serviço e meio de divulgação. Por questões de confidencialidade e respeito aos
acordos, a companhia não divulga nomes ou valores individualizados de
influenciadores, nem o investimento detalhado por campanha, tratando essas
informações como estratégicas”. A resposta completa da Petrobras está aqui.
A
Pública também utilizou a Lei de Acesso à Informação (LAI), no entanto, recebeu
uma negativa. Na resposta, a empresa afirma que a “divulgação dos valores
solicitados, no nível de detalhamento exigido, acarreta impactos na estratégia
de comunicação da Petrobras e no seu posicionamento diante de seus públicos de
interesse, afetando a sua competitividade”. Como disposto na LAI, a reportagem
entrou com recurso. Advogados ouvidos pela Pública informaram que a lei é clara
em relação ao que é considerado sigiloso e os dados em questão não se enquadram
nessa categoria. Em resposta, a Controladoria-Geral da União (CGU), afirmou:
“verificamos a necessidade de coletar esclarecimentos adicionais a fim de
subsidiar uma decisão justa sobre o caso, de acordo com o art. 23, §1º, do
Decreto n.º 7.724/2012”. O pedido segue, portanto, em análise.
Na
falta de informação oficial sobre os números, a reportagem conversou com um
especialista em mercado de mídia que já trabalhou com Pitanga. Segundo ele, a
campanha pode ter custado R$ 1 milhão apenas para pagar o cachê da atriz.
Além da
participação de Pitanga como apresentadora principal dos filmes, a campanha
também conta com uma música tema inédita interpretada pelo cantor Diogo
Nogueira. Além da peça, a empresa lançou ações com memes, um vídeo do jingle e
um desafio para redes sociais a partir da música.
O cachê
de Pitanga parece pequeno frente ao que a Petrobras afirma que destinará para a
transição energética. Segundo o Plano de Negócios 2025-2029, serão 16,3 bilhões
de dólares, cerca de R$ 88 bilhões. Contudo, para o especialista em mudanças
climáticas e energia Shigueo Watanabe, as ações propostas não são suficientes.
“Todo o esforço de diminuir as emissões da operação não está direcionado para
parar de explorar petróleo e gás, estão direcionadas para emitir menos para
produzir petróleo e gás. O que seria perfeito se o produto dela não fosse
exatamente o alvo de toda transição”, aponta. A reportagem procurou a
assessoria da atriz pedindo mais informações sobre a campanha, que não
respondeu.
<><>
O que significa uma verdadeira transição
Enquanto
gasta milhões para promover a transição energética, a Petrobras pressiona, há
meses, o Ibama pela liberação da licença ambiental para Avaliação
Pré-Operacional (APO) no bloco FZA-M-59, na foz do rio Amazonas. Mais
recentemente, em 27 de agosto, a petroleira encerrou a avaliação no bloco 59. O
procedimento, que demorou dois dias, foi acordado com o Ibama e é a última
etapa antes da liberação da licença ambiental para o empreendimento. Agora, o
IBAMA analisa os resultados dos diversos postos de observação e decide se dá ou
não a licença ambiental para a exploração. A realização da APO foi contestada
pela Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Segundo a
entidade, antes do procedimento, a Petrobras deveria ter consultado povos
originários e tradicionais do entorno do projeto. Para eles, o avanço do teste
evidencia o racismo ambiental, “ignorando salvaguardas internacionais e o
protagonismo das comunidades da região, contradiz o compromisso climático que o
Brasil pretende apresentar ao mundo”.
A
região da foz do Amazonas é considerada de alta sensibilidade ambiental e já
foi protagonista de uma tentativa falha de perfuração da empresa em 2011, em um
bloco próximo, que resultou em uma multa de R$ 280 mil.
Uma
matéria da Folha de S. Paulo detalha que, na época, a estatal teve que
interromper a atividade, porque as correntes marítimas da região arrastaram a
sonda de perfuração do poço. O incidente resultou no vazamento de fluido
hidráulico. Por conta disso, o Ministério Público Federal (MPF) intimou a
petroleira a pagar a compensação ambiental. Esse é o mesmo motivo que levou o
Ibama a negar tantas vezes a licença de operação do bloco 59: não há tecnologia
para operar em uma região com fortes correntes marítimas. Em resposta, a
Petrobras afirmou que: “analisa tecnicamente e juridicamente cada multa que
recebe e se resguarda o direito de questionar aquelas que entende que não tem
mérito nem embasamento jurídico”.
O
ambientalista Alexandre Costa afirma que a petroleira está na contramão. “O
debate deveria ser: o que a gente faz com as jazidas que já estão em uso? Qual
limite nós vamos impor aos empreendimentos já funcionando? Qual vai ser a
escala de tempo, o cronograma que eu tenho para encerrar essas operações de
forma segura, em conjunto com o planejamento energético, para fazer uma
transição rápida?”, exemplifica.
<><>
Mesmo com melhorias no processo, produção de combustíveis a partir do petróleo
tem enorme impacto no clima
As
operações da Petrobras são responsáveis por 20% das emissões dos gases de
efeito estufa de todo ciclo de vida do petróleo. É aí onde a petroleira
consegue por esforços para descarbonização. Um exemplo dessa ação, descrita no
plano de 2025 a 2029, são as operações na plataforma. Todo petróleo extraído no
Brasil vem com um pouco de gás natural, explica Shigueo Watanabe. A maior parte
desse gás é queimado em turbinas para gerar eletricidade para a plataforma,
logo, o que a petroleira pode fazer é queimar do jeito mais eficiente possível.
Outra opção é reinjetar o gás de volta à terra. Já a refinaria é uma etapa com
emissões pesadas, mas também existem formas de otimizá-la. Quase todas as
refinarias da Petrobras foram construídas nas décadas de 1960 e 1970 e, apesar
de terem sido reformadas, não é possível mexer nas suas estruturas. “O que ela
está fazendo é investir em melhorar a eficiência do refino para diminuir as
emissões, mas, de novo, isso ainda é apenas 20% das emissões que ela produz”,
ressalta Watanabe.
Os
outros 80% de emissões de gases de efeito estufa ligados à Petrobras estão na
queima da gasolina nos veículos. “Todo esse esforço de descarbonização não
resolve a crise climática. A transição significa não ter mais petróleo e gás.
Portanto, a refinaria não vai mais funcionar, as plataformas não vão mais
funcionar”, sintetiza.
Os R$
16,3 bilhões anunciados para a transição energética não fazem sentido, na
avaliação do especialista. O dinheiro está “respingando” em energia eólica
offshore, em biocombustível, mas “a Petrobras não tem que entrar na área de
eletricidade, ela não é a Eletrobras”, explica.
Watanabe,
que é também co-autor do relatório A Petrobras que Precisamos, sugere que a
Petrobras faça associações com empresas de geração elétrica, oferecendo sua
expertise no território brasileiro. Para ele, seria um grande desperdício a
empresa investir em energia eólica e na operação de torres eólicas, já que a
empresa tem o know-how do refino, venda e logística de distribuição. “Existem
poucas empresas que conhecem tão bem a geografia do país quanto ela. Um rápido
exemplo: por conta da BR Distribuidora, ela sabe quais os melhores lugares para
ter um posto de recarga de carro [elétrico]”, cita. Mas para isso, a empresa
precisa redirecionar drasticamente suas ações. Algo que o plano atual não faz.
O que precisaria estar em um plano de transição energética justa de verdade
seria “reposicionar a empresa para que continuasse na área da energia, mas que
não se vinculasse mais ao petróleo”.
Para
Costa, os combustíveis fósseis, a essa altura do campeonato, devem ser tratados
como armas de destruição em massa. “Pensar na expansão disso, é pensar na
lógica da corrida nuclear. Sendo que a diferente do arsenal nuclear é que ele
está guardado, enquanto nós estamos usando esse arsenal [dos fósseis]. Então, o
mínimo que se deveria ter era um tratado de não proliferação de combustíveis
fósseis, para deixá-los no chão”, sintetiza.
>>>
Entenda o ciclo de vida do Petróleo:
O ciclo
de vida do petróleo envolve tudo o que se emite do momento que faz o furo na
terra até o momento que a gasolina é queimada no motor. No Brasil, a maior
parte do petróleo da Petrobras é extraído no mar, em plataformas longe da
costa. Existe a etapa do transporte desse óleo e o refino, que irá
transformá-lo em gasolina. Refinar significa esquentar o petróleo, nessa etapa,
se queima e emite o CO2.
Esse é
o escopo 1, os 20% que a Petrobras busca otimizar. Do transporte da gasolina ao
posto até a queima da gasolina, estão os 80% restantes das emissões.
Fonte:
Por Juliana Aguilera, da Agencia Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário