Paulo
Kliass: Mutações do financismo na era digital
Os
impactos provocados pelo desenvolvimento tecnológico sempre impuseram
transformações efetivas na organização das forças produtivas. Os novos
patamares alcançados na capacidade de produzir bens e serviços provocam
mudanças na forma de se produzir e na definição daquilo que passa a ser
manufaturado. Esse processo implica em alteração também nas formas de
organização das empresas e em sua composição societária. Tais inovações
acompanham a evolução da humanidade muito antes do advento do próprio capitalismo.
Assim foi com a introdução de técnicas de manufatura em substituição ao
artesanato. O mesmo ocorreu com a chegada da mecanização nos mais variados
processos vinculados à agricultura.
A
evolução na obtenção de novas fontes de energia, por outro lado, também
contribuiu sobremaneira para mudanças estruturais na forma de produção. A
máquina a vapor e depois a energia elétrica revolucionaram os processos
produtivos. A capacidade de navegação para atravessar oceanos, a inovação das
ferrovias, o transporte por veículos e depois a aviação proporcionaram
transformações profundas na circulação e nas trocas mercantis. Foram criadas
novas formas de capital e de mercadorias, bem como surgiram ramos, setores e
empresas até então inexistentes.
O
ingresso no terceiro milênio teve o significado de um profundo salto nesse
longo processo de transformações. A era digital e a economia do conhecimento
estão promovendo alterações de qualidade substancial em nossa forma de
organização social e econômica. Dentre as inúmeras mutações observadas, salta
aos olhos o que se verifica no âmbito do sistema financeiro. No que se refere à
dimensão monetária, por exemplo, parece ter sido enterrado de uma vez por todas
o uso do papel moeda e das moedas metálicas como instrumentos de troca. Em um
primeiro momento, o avanço nos processos da financeirização e da
internacionalização colocou em destaque o uso crescente dos cartões de crédito
nas operações de compra e venda de mercadorias e de serviços.
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Inovação tecnológica e mudança no sistema financeiro
No
entanto, uma quase-revolução surge na sequência com a generalização do uso dos
chamados dispositivos móveis. Nem mesmo a tendência anterior foi respeitada: o
dinheiro de plástico representado pelos cartões foi sendo substituído em larga
escala por meros impulsos digitais, quando os valores monetários são então
transferidos de um titular de recursos a outro por simples comandos nos
instrumentos utilizados. A tendência à digitalização completa de nossa vida
social passou a incluir também a concentração dos serviços bancários e
financeiros nos computadores pessoais ou nos aparelhos de telefonia celular.
A ideia
de instituições bancárias como um sistema amplo e complexo, ostentando uma
extensa rede de agências para oferecer todo o tipo de serviços aos clientes e
correntistas, passa a ser, com o passar do tempo, um conceito tão desnecessário
quanto ultrapassado. Como dizia uma campanha de marketing pouco tempo atrás,
“você passa a ter o seu banco ao alcance de suas mãos”. A grande maioria dos
usuários do sistema quase não se dirige mais fisicamente a uma unidade de
atendimento presencial de seu banco. Tudo se resolve digitalmente por meio de
comandos no aparelho celular ou no computador pessoal.
Essa
transformação radical no modelo de uso de tais serviços levou a uma mudança
igualmente profunda nas empresas do setor. As chamadas “fintech” e os bancos
digitais passaram a competir com os bancos tradicionais, oferecendo soluções
mais ágeis, mais rápidas, menos burocráticas e com menores custos para os
clientes. Esse processo de metamorfose do sistema bancário e financeiro
continua em pleno movimento atualmente. Inovações tecnológicas específicas
realizadas no Brasil, como o sistema de transferência e pagamento PIX, estão
operando como catalisadores de tal processo de aceleração da obsolescência dos
bancos que operaram no modelo até então vigente.
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Oligopólio financeiro mudando de perfil
O
sistema bancário brasileiro tem suas origens na constituição de alguns poucos
conglomerados de origem nacional, com forte influência de patrimônio de
famílias tradicionais. O poder econômico derivado da concentração bancária e
financeira proporcionou o crescimento do poder político de tais grupos. Alguns
exemplos podem ser listados para ilustrar um determinado período da história
brasileira, onde a associação do núcleo familiar e o respectivo banco e sua
origem de atuação regional eram muito evidentes. Peguem-se os seguintes casos:
i) família Magalhães Pinto (Banco Nacional-MG); ii) família Safra (Banco
Safra-SP); iii) família Aguiar (Banco Bradesco-SP); iv) família Setúbal (Banco
Itaú-SP); v) família Calmon de Sá (Banco Econômico-BA); dentre tantos outros
casos.
Esse
oligopólio bancário privado sofreu alterações em sua composição interna ao
longo das últimas décadas, mas sempre marcou a sua existência por uma
convivência relativamente harmoniosa com a estrutura existente dos bancos
estatais. Até a década de 1990, havia um importante sistema de bancos
pertencentes a cada uma das 27 unidades subnacionais, os bancos estaduais. Esse
conjunto foi privatizado e a rede de bancos públicos se restringiu aos bancos
comerciais federais — Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF),
Banco do Nordeste e Banco da Amazônia. Além disso, havia o Banco Nacional da
Habitação (BNH — que foi extinto em 1986 e incorporado à CEF) e permanece bem
atuante o BNDES, como banco de investimento.
A longa
tradição sempre foi marcada pela presença dos dois grandes bancos federais (BB
e CEF) se revezando com alguns dos grandes conglomerados privados na disputa
pela posição dos cinco maiores gigantes do sistema bancário e financeiro. O
grupo multinacional de origem espanhola Santander penetrou no mercado
brasileiro a partir da privatização do banco estadual de São Paulo, o Banespa.
O desenho do oligopólio da banca privada foi se redefinindo por meio de
aquisições e fusões, com a presença sempre marcante de Itaú/Unibanco e do
Bradesco.
No
entanto, o fenômeno da digitalização e das novas empresas de natureza bancária
e financeira promovem uma reviravolta no sistema. Um levantamento realizado
pelo jornal Valor Econômico aponta para o ingresso do Banco BTG e do Nubank
nesse seleto grupo das maiores empresas bancárias e financeiras atuando no
Brasil. De acordo com o estudo, o banco presidido por André Esteves
ultrapassou, segundo dados do segundo trimestre de 2025, o BB e o Bradesco em
termos de valor de seu ativo patrimonial a preços de mercado. Assim, o BTG
teria se tornado o terceiro maior banco da América Latina, atrás somente do
Nubank e do Itaú.
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Empresas financeiras e bancos digitais na liderança
Esta
informação, por outro lado, coloca em questão a presença de empresas no setor
financeiro que não são consideradas juridicamente bancos pela nossa legislação.
Esse é o caso do Nubank brasileiro, por exemplo. O Banco Central (BC) não o
classifica como “banco”, apesar de que sua atuação seja muito similar à
concorrência. Não obstante, o Nubank é classificado, segundo dados de setembro
de 2025, como a segunda maior empresa de todos os ramos e setores operando no
Brasil, com seu valor de mercado apenas superado pelo da Petrobrás. A própria
empresa se apresenta como “uma das maiores plataformas de serviços financeiros
digitais do mundo”.
É
evidente que existem diferentes critérios para se avaliar o peso e a
importância das empresas, em especial os bancos. Considerar apenas o valor de
mercado delas, segundo a cotação das ações nas bolsas de valores, talvez não
seja o mais indicado. Há outras variáveis relevantes que podem ser introduzidas
na análise, a exemplo do número de clientes e correntistas, do valor
patrimonial contabilmente apurado, do lucro realizado no exercício, dentre
tantas outras possibilidades. No entanto, o que não pode ser deixado de lado é
a confirmação da tendência de uma importância crescente a ser exercida pelas
novas organizações empresariais.
Assim,
com certeza não é coincidência o fato de que o ministro da Fazenda quase sempre
escolhe os eventos organizados por grupos como o BTG ou a XP para realizar suas
palestras direcionadas ao mercado. Ou ainda que o Nubank tenha trazido para
exercer um estratégico cargo na direção do grupo ninguém mais nem menos do que
o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto. Quer seja no passado do talão de
cheque e da fila na agência física, quer seja no mundo atual das transações
digitais, as instituições financeiras jamais deixaram de exercer seu poder
efetivo junto aos tomadores de decisão no interior do aparelho de Estado.
As
relações incestuosas entre o capital privado e o setor público não se alteraram
em sua essência. Mudam apenas as faces de seus representantes, os sobrenomes
dos dirigentes e as avenidas em que se localizam suas sedes suntuosas. Mas a
influência do capital financeiro só aumenta com os novos tempos. A ponto de que
o BTG construiu um terminal próprio no aeroporto internacional de Guarulhos
(SP), justamente aquele que registra o maior movimento de passageiros em todo o
país. Questão de oferecer comodidade, luxo e serviços exclusivos para sua
seleta clientela, que sempre exige o melhor para satisfazer seus desejos e
necessidades.
• Brasil: tudo será como antes. Por Luís
Nassif
Vale a
pena ler o excelente “Entre Oligarquias , as Origens da República Brasileira
(1870-1920)”, de Rodrigo Goyena Soares (FGV Editora).
O autor
reconstitui e interpreta o período que antecedeu a Proclamação da República até
o apogeu da República Velha, o pacto oligárquico das elites fazendeiras.
Não se
recomenda a leitura para os que julgam que o Brasil consegue aprender com a
própria história. Na formação da República Velha há todos os ingredientes do
país atual.
Os
ruralistas, os extrativistas da época, já dominavam completamente a economia. A
começar pelo sistema tributário. Conta o livro:
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A tributação do ganho agrícola
“Tomando
o aluguel imobiliário como referência de custo, pontuavam que enquanto o
tributo da taverna “esta[ va] na razão de 70% […], o imposto sobre os
mercadores de café permanec[ ia] na de 27%”. Uma injustiça, salientava-se ao
fim, visto que o valor lucrativo do café era muito mais alto do que o do
taverneiro.
A
resposta veio a galope. Por meio da Associação Comercial do Rio de Janeiro e de
São Paulo, e do Centro da Lavoura e Comércio do Café, os produtores agrícolas
assinalaram que o protecionismo teria o efeito duplamente negativo de
inflacionar os preços finais ao consumidor e de desabastecer o mercado interno,
porque a indústria nacional, segundo eles, era de estufa”.
(…)
Mais particularmente, bradavam pelo transbordamento do fardo tributário para o
setor cafeeiro, considerado por eles o baluarte de um Império cuja classe
dirigente seria imoral, devido à vilipendiada transformação de interesses
particulares, próprios ao mundo agrícola, em objetivos coletivos.
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A Revolta do Vintém:
A
revolta do vintém contra o reformismo da época manifestava o resultado
desequilibrado de uma lógica de endividamento público que premiava com a venda
de títulos as instituições financeiras em detrimento da massa populacional, que
pagava o preço com tributos diretos e indiretos, quando as classes mais
privilegiadas se negavam a fazê-lo.
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A influência dos bancos:
Também
conclamavam pelo relaxamento dos juros bancários, um setor julgado concentrado
demais, e pela institucionalização do crédito ao consumo.
As
instituições políticas
As
instituições da Primeira República — federalismo em teoria, oligarquias
estaduais, política dos governadores, eleições restritas, práticas de poder
local — e mostra os limites: desigualdade civil e racial persistente, exclusão
da maior parte da população, mecanismos de controle eleitoral, clientelismo.
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A expansão dos novos bancos
Não foi
apenas Campos Netto quem facilitou a multiplicação de bancos;
Farejando
melhor o vapor das usinas do que o cheiro do café, Rui Barbosa autorizou os
novos bancos a participarem do capital das empresas incorporadas. Todos teriam
carteiras comerciais e hipotecárias, e preferências em contratos ferroviários,
mineiros e migratórios, tal qual o direito de expropriar as terras requeridas
para essas finalidades prioritárias.
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A resistência negra
Traz
também informações sobre as organizações civis criadas na época, e sobre o
Quilombo do Jabaquara:
Quando
não, optaram pelo confronto e pela resistência, tão bem plasmados no Quilombo
de Jabaquara, formado em Santos no ano de 1882. Somando algo próximo a 10 mil
libertos por si mesmos, a comunidade prontamente chamada de Canaã dos Cativos
ergueu barracas de palha e taipa — e chegou a estabelecer um comércio local
blindado por sentinelas que expulsavam os capitães-do-mato.
No
mesmo ano de 1882, denotando a força de um contágio rebelde não apreensível na
simples procura de uma liderança escrava nacional, de resto, inexistente,
irromperam fugas coletivas no sul da Bahia que se desdobraram, igualmente, em
formações quilombolas. Muitas vezes incitados por estrangeiros abolicionistas
que penetravam as fazendas mesmo após os galos cantarem, os escravos eram
reiteradamente auxiliados pelo estratégico fenômeno dos quilombos volantes.
Eram agrupamentos que podiam alcançar mais de 30 pessoas — entre elas, escravos
fugidos e homens livres. O objetivo era auxiliar as fugas em massa, fornecendo
um amparo imediato aos que rompiam os grilhões.
Os
fenômenos militares
Outro
dado interessante é como os militares que foram à guerra se organizaram
politicamente posteriormente: no livro, a experiência da Guerra do Paraguai; no
Brasil moderno, o simulacro de guerra do Haiti.
Para os
autores — veteranos do Prata que citavam a torto e a direito os pais fundadores
dos Estados Unidos, o advento de um Executivo forte no México e a
desfeudalização de um Japão agora industrializante —, somente os militares,
vozeando os anseios populares, teriam legitimidade e representação para
formular novos projetos para o Brasil: “eles não sabem governar, aviltando-se
ante um título de distinção”, lia-se como que ouvindo berros novamente na
imprensa militar, num tom próprio ao binarismo do nós contra eles e, portanto,
à radicalização contra o governo.86
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O associativo operário
Representativo
de uma parcela ainda pequena da população, o associativismo operário não logrou
naquele momento erguer uma liderança orgânica e nacional, formada na própria
classe e capaz de pautar suas reivindicações em escala única.
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A intenção de taxar os mais ricos
Previu-se
a criação de um imposto territorial, cujo fim último era promover indiretamente
uma política de reforma agrária. Tratava-se de forçar, com uma tributação mais
agressiva sobre a propriedade fundiária, a venda de lotes improdutivos num
momento, nas próprias palavras de Gaspar Silveira Martins então na Fazenda,
“que se vai preparando a substituição do regime de trabalho [servil]”.
Tal
como ocorreu quase três décadas antes, na ocasião dos debates sobre a aprovação
da Lei de Terras, o novo imposto permaneceu letra morta. Alcançou-se meramente
a criação de uma taxa de 20 réis por metro quadrado em terrenos não edificados,
exclusivamente na Corte: um valor irrisório para uma cobrança que terminaria ao
fim revogada em 1880.
O
segundo insucesso tributário concerniu à criação de um imposto de renda mais
rigoroso e, portanto, com maior extensão do que o tributo sobre indústrias e
profissões, que não ultrapassava 3% da receita nacional. Objetivava-se taxar as
rendas apuradas a partir da Lei do Terço, que havia estabelecido critérios mais
rígidos de comprovação salarial. Na percepção do deputado pelo Maranhão Fábio
Alexandrino de Carvalho Reis, o “imposto sobre a renda [seria] o único
racional, o único imposto em que se pode guardar melhor proporcionalidade, o
único em que se pode evitar a repercussão sobre terceiros e, por conseguinte, o
único imposto legítimo”.
Fonte:
Outras Palavras/Jornal GGN

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