Avanços
e limites da MP dos data centers
O
Governo Federal lançou, em 18 de setembro de 2025, uma medida provisória com o
objetivo de atrair mais data centers para o território nacional. Mas será que
essa iniciativa vai funcionar? Ela realmente pode suprir as necessidades do
país no segmento de infraestruturas digitais?
Basicamente,
a Medida Provisória nº 1.318/2025 institui benefícios fiscais válidos até 31 de
dezembro de 2026. Durante esse período, os incentivos financeiros podem chegar
a R$ 5,2 bilhões, antecipando resultados que antes se esperavam apenas após a
efetivação da reforma tributária. Para isso, foi criado o Regime Especial de
Tributação para Serviços de Data Center (REDATA).
Os
principais objetivos declarados pelo Governo Federal são: reduzir os custos dos
serviços digitais para os consumidores brasileiros; gerar emprego e renda no
país; atrair investimentos; e garantir que o armazenamento e o processamento de
dados ocorram dentro do Brasil. Vamos analisar cada um desses pontos.
Atualmente,
utilizar serviços de data center fora do Brasil é significativamente mais
barato do que fazê-lo internamente. Isso se deve a diversos fatores, como
sistemas de energia e refrigeração, espaço físico (o prédio onde o data center
está instalado), softwares, hardwares e outros equipamentos, infraestrutura de
telecomunicações, mão de obra especializada e carga tributária.
Segundo
pesquisa publicada pela consultoria Frost & Sullivan em 2021, que comparou
os custos operacionais de um data center médio (Tier 3) em quatro países
sul-americanos, o Brasil foi o menos competitivo em todos os itens avaliados:
energia, conectividade, recursos humanos e manutenção. O país no subcontinente
mais barato para instalação de data centers foi a Argentina, seguida pela
Colômbia e, depois, pelo Chile.
Aqui
temos o primeiro problema: a medida provisória atua sobre apenas um dos
componentes do custo dos data centers, sem contemplar toda a cadeia envolvida.
Ainda assim, é inegável que representa um avanço — e que é preciso começar de
algum ponto. O que não se sabe é se será suficiente para reduzir os preços ao
nível praticado por provedores sediados nos Estados Unidos. Mesmo com a redução
da carga tributária, não há garantia de que as empresas conseguirão aumentar
sua competitividade a ponto de derrubar os preços no mercado interno.
O
Brasil, embora seja uma potência global na geração de energia limpa, enfrenta
um grande desafio relacionado ao aumento da produtividade. Segundo projeção da
Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo de energia no país deverá
crescer, em média, 2,1% ao ano até 2034. Atrair data centers significa elevar a
demanda por investimentos na produção energética. Um estudo do Lincoln
Laboratory, vinculado ao MIT, aponta que os data centers serão responsáveis por
21% do consumo global de energia até 2030. Para efeito de comparação, todo o
consumo residencial de energia no Brasil representa 10,7% do total produzido,
segundo o Balanço Energético Nacional de 2024.
No que
diz respeito à geração de empregos, é preciso ter clareza: data centers não são
empresas que demandam grandes contingentes de profissionais. Um data center de
grande porte costuma empregar entre 150 e 250 pessoas. Já os data centers de
hiperescala podem contar com pouco mais de 400 funcionários. Evidentemente,
cada emprego criado é relevante, mas não serão os data centers os responsáveis
por uma redução significativa nos índices de desemprego no país.
Os
perfis mais comuns de profissionais que atuam nesses ambientes incluem técnicos
de infraestrutura e manutenção, técnicos em redes e conectividade, equipes de
segurança física e digital, profissionais de suporte, além de pessoal
administrativo e operacional. A maioria das vagas não exige alta
especialização.
Os
serviços de alto valor agregado — como softwares e aplicativos que geram
conteúdo e produtos de qualidade — não são desenvolvidos dentro dos data
centers, mas em empresas que criam os sistemas que neles operam. Como exemplo,
pensemos em uma plataforma de entrega de comida. A riqueza está na qualidade do
aplicativo que conecta clientes e restaurantes, localiza e distribui
entregadores, e no arranjo produtivo socialmente construído para que essa
operação funcione. Onde e sobre quais máquinas esse aplicativo roda é
secundário.
No que
se refere à atração de investimentos, o vice-presidente da República e ministro
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, declarou, durante a
cerimônia de lançamento da medida provisória, que a expectativa é de R$ 2
trilhões em investimentos em data centers no Brasil ao longo dos próximos dez
anos, com recursos oriundos do setor privado.
É
verdade que o Brasil tem se consolidado como um dos destinos preferenciais para
investimentos em data centers, recebendo cerca de 40% dos recursos totais
destinados à América Latina, segundo relatório da ReportLinker, publicado em
2021. Mais recentemente, a consultoria JLL estimou que os investimentos na
construção de data centers no país devem girar em torno de US$ 400 milhões em
2025 e US$ 1,5 bilhão em 2026. Ou seja, considerando apenas este e o próximo
ano, e convertendo os valores para reais, teremos cerca de R$ 10 bilhões em
investimentos no biênio. Para alcançar o montante anunciado pelo ministro, será
necessário um salto bastante ousado.
O
último ponto — fazer com que o processamento e o armazenamento de dados ocorram
no Brasil — merece atenção especial. Trata-se do debate sobre a localização de
dados, que normalmente envolve a exigência legal de que determinados dados
(como os pessoais) não sejam transferidos para fora do país onde foram
coletados.
Se um
data center está localizado em determinado território, ele está,
consequentemente, submetido à autoridade que governa esse território, a qual
pode exercer seu poder de coerção legal para obrigar empresas a cumprir regras
e determinações. A localização de dados é, portanto, um elemento central na
discussão sobre soberania digital.
No
entanto, a localização por si só é insuficiente. Em uma sociedade
hiperconectada, data centers compartilham dados entre si por diversas razões
técnicas — é o que conhecemos como computação em nuvem. Pouco importa onde uma
informação está sendo processada: grandes empresas de tecnologia operam
múltiplos data centers espalhados pelo mundo, muitos dos quais funcionam como
espelhos ou cópias de segurança uns dos outros.
Se há
preocupação com dados sigilosos — especialmente aqueles coletados pelo setor
público — não basta que sejam processados e armazenados em território nacional.
A infraestrutura tecnológica que os abriga precisa estar protegida contra a
possibilidade de acessos indevidos por parte de empresas ou governos
estrangeiros, que poderiam copiar total ou parcialmente essas informações sem o
consentimento do titular.
A
verdadeira soberania digital exige atenção a diversos aspectos: controle e
propriedade da energia, das telecomunicações, dos centros de dados, dos
hardwares e equipamentos utilizados, dos softwares, aplicativos e sistemas, e
das bases de dados. A localização é apenas um dos componentes — importante, mas
não exclusivo.
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Conclusão
A
iniciativa do Governo Federal do Brasil é elogiável. A Medida Provisória nº
1.318/2025 acerta ao buscar reduzir os custos de instalação e operação de data
centers, ao tentar mitigar déficits na balança comercial causados por serviços
digitais e ao buscar diminuir o volume de dados nacionais processados no
exterior.
No
entanto, a MP não aborda o ponto essencial: a capacidade do país de proteger os
dados que aqui são gerados, processados e armazenados. O Brasil precisa, sim,
de mais data centers. Essas infraestruturas são as “fábricas modernas”,
desempenhando para a sociedade em rede um papel semelhante ao que as indústrias
tradicionais tiveram na Revolução Industrial.
Conceder
incentivos fiscais para que Big Techs estrangeiras se instalem no país,
utilizem nossa capacidade de geração de energia, nossos recursos hídricos para
refrigeração de ambientes tecnológicos e operem nossos dados não é suficiente.
Corremos o risco de, mais uma vez, ocuparmos o papel de exportadores de
matérias-primas — energia limpa e dados — e importadores de produtos de alto
valor agregado, como sistemas, aplicativos e seus conteúdos.
Uma
política nacional de data centers precisa considerar quem detém a propriedade
dessas infraestruturas, a qualidade dos empregos gerados, as tecnologias
utilizadas nas operações críticas e os mecanismos de proteção dos dados. Quem
controla os data centers deve ter, de fato, compromisso com a democracia e com
a soberania nacional do Brasil.
• YouTube abre brecha para criadores
banidos por desinformação
O
YouTube anunciou nesta terça-feira (23) que permitirá que contas banidas
anteriormente solicitem reintegração, revertendo uma política que considerava
certas violações como permanentes. A medida se aplica a canais removidos por
informações incorretas sobre a Covid-19 ou relacionadas a eleições, segundo uma
carta da Alphabet, controladora do YouTube, enviada ao presidente do Comitê
Judiciário da Câmara, Jim Jordan, republicano de Ohio.
Até
então, os canais que violavam essas regras enfrentavam proibições perpétuas,
mesmo que a política fosse posteriormente desativada. “Hoje, as Diretrizes da
Comunidade do YouTube permitem uma gama mais ampla de conteúdo sobre a Covid e
a integridade das eleições”, escreveu o advogado Daniel Donovan, da Alphabet,
na carta.
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Projeto piloto de reintegração
Em
postagem no X, antigo Twitter, o YouTube explicou que a reintegração será parte
de um projeto piloto limitado, aberto a um subconjunto de criadores e também a
canais encerrados por políticas que já foram descontinuadas. A plataforma
informou que o programa será lançado em breve, mas não confirmou se canais
específicos serão restabelecidos.
Entre
os canais anteriormente banidos estavam nomes de destaque, incluindo conteúdos
associados ao vice-diretor do FBI, Dan Bongino, ao ex-estrategista-chefe de
Donald Trump, Steve Bannon, e ao secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert
F. Kennedy Jr. Ainda não há definição sobre a reintegração desses casos.
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Pressão política e mudanças de políticas
A
decisão do YouTube ocorre em meio à pressão crescente de republicanos sobre
empresas de tecnologia para reverter políticas de moderação de conteúdo
adotadas durante o governo Biden, especialmente relacionadas a vacinas e
desinformação política. Em março, o deputado Jim Jordan chegou a intimar o CEO
da Alphabet, Sundar Pichai, acusando o YouTube de ser “participante direto do
regime de censura do governo federal”.
Em
2021, a plataforma havia declarado que removeria conteúdos que espalhassem
informações incorretas sobre todas as vacinas aprovadas. Donovan explicou na
carta que, durante a pandemia, altos funcionários do governo pressionaram a
empresa a remover certos vídeos sobre Covid-19, mesmo quando não violavam
tecnicamente as políticas do YouTube. Ele classificou essa pressão como
“inaceitável e errada”.
O
advogado também confirmou que o YouTube encerrou suas regras autônomas de
desinformação sobre Covid em dezembro de 2024 e reforçou que a plataforma não
autorizará verificadores de fatos terceirizados a moderar conteúdo, mantendo um
compromisso declarado com a liberdade de expressão. Apesar disso, o YouTube
ainda oferece painéis informativos abaixo dos vídeos, com links para
verificações independentes, com o objetivo de fornecer contexto adicional aos
usuários.
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Contexto histórico de verificação de fatos
Essa
abordagem é parte de uma trajetória mais ampla de políticas de verificação de
fatos do Google e do YouTube. Em 2017, o Google lançou uma ferramenta que
adicionava rótulos de verificação nos resultados de pesquisas e notícias. Da
mesma forma, o Facebook e o Instagram, da Meta, encerraram seu programa de
verificação de fatos em janeiro deste ano.
Com
essa mudança, o YouTube sinaliza uma abertura maior para criadores que
anteriormente haviam sido banidos, em meio a debates sobre moderação, liberdade
de expressão e influência política nas plataformas digitais.
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Lula defende regulação de big techs e proteção digital na ONU
Durante
a abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, o presidente do Brasil, Luiz Inácio
Lula da Silva, destacou o papel das grandes empresas de tecnologia — as
chamadas big techs — e alertou para os riscos que o crescimento dessas
plataformas representa quando não há regulamentação adequada.
Segundo
Lula, a regulação do setor é essencial para evitar que a internet se torne uma
“terra sem lei”, colocando em perigo a vida e a saúde das pessoas. “A
democracia também se mede pela capacidade de proteger as famílias e a
infância”, afirmou o presidente.
O líder
brasileiro reconheceu os aspectos positivos das plataformas digitais,
destacando que elas permitiram uma aproximação sem precedentes entre pessoas ao
redor do mundo. No entanto, ressaltou que essas mesmas tecnologias também têm
sido usadas para difundir intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação.
“Regular
não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no
mundo real seja tratado assim no ambiente virtual”, explicou Lula. Ele
acrescentou que ataques à regulamentação muitas vezes servem para encobrir
interesses escusos e dar espaço a crimes graves, como fraudes, tráfico de
pessoas, pedofilia e ações contra a democracia.
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Avanços legislativos no Brasil
No
discurso, Lula destacou a rapidez do parlamento brasileiro em tratar do tema,
resultando em uma das legislações mais avançadas do mundo voltadas à proteção
de crianças e adolescentes na esfera digital. A lei, chamada de ECA Digital,
foi promulgada pelo presidente na última semana e visa criar mecanismos de
segurança e proteção no ambiente online.
Além
disso, Lula mencionou que o governo enviou ao Congresso Nacional projetos de
lei para estimular a concorrência nos mercados digitais e incentivar a
instalação de datacenters sustentáveis. Em relação à inteligência artificial, o
presidente enfatizou a aposta do Brasil em uma governança multilateral, em
consonância com o Pacto Digital Global, aprovado na ONU no ano passado, para
mitigar riscos e promover um ambiente tecnológico seguro e responsável.
Fonte:
Por João Francisco Cassino, em Outras Palavras/CNBC

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