A
escola é capaz de educar os afetos políticos?
Após o
recreio, os alunos entram ruidosos em uma sala de aula. A professora tenta
iniciar uma discussão sobre a Constituição, mas um gesto simples, de um
estudante colando no quadro uma bandeira improvisada desenhada às pressas em
uma folha de caderno, muda o clima. No Brasil de hoje, a bandeira deixou de ser
apenas um símbolo nacional para se tornar signo de polarização. Para alguns,
convoca orgulho e pertencimento; para outros, remete ao autoritarismo e à
exclusão. Esse deslocamento basta para acionar afetos contrastantes, como
entusiasmo, desaprovação, medo e esperança, que se inscrevem nos corpos
adolescentes antes mesmo da lição começar. A escola é laboratório vivo dessa
gramática da política, onde se ensaiam, em escala cotidiana, os conflitos que
atravessam a vida democrática.
É nesse
horizonte que a filosofia de Spinoza nos serve de guia. O afeto, entendido como
variação da potência de agir, sempre em relação e marcado pelo comum, permite
compreender como disposições individuais se deslocam e passam a operar como
forças coletivas. Tornam-se afetos políticos, capazes de atravessar corpos e
discursos, de orientar debates públicos, de traçar fronteiras entre inclusão e
exclusão, de instituir formas de pertencimento e de sustentar ou desafiar
estruturas de poder.
A
indignação diante de uma injustiça que mobiliza estudantes ir para as ruas é
expressão de um afeto político. Do mesmo modo, a esperança que se compartilha
em assembleias, o medo instigado por discursos autoritários e o ódio dirigido a
grupos estigmatizados revelam como os afetos atravessam e movem instituições e
sociabilidades.
Os
afetos que atravessam a escola deixam ver que a política não é algo que chega
de fora, mas se constrói nas relações que estruturam o cotidiano escolar.
Reconhecê-los implica admitir que a democracia se ensaia nesses espaços de
tensão e convivência, onde pertencimentos são negociados, fronteiras são
erguidas e se delineiam as condições para a disputa e a reinvenção do comum.
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Afetos em disputa
A
potência afetiva que circula dentro da escola não é autônoma ou independente.
Ela é disputada por grupos que exploram a vulnerabilidade da juventude
oferecendo respostas fáceis para desconfortos afetivos complexos. Transformam a
incerteza em medo, canalizam frustrações em ressentimento e apresentam
minorias, instituições e professores como causa simplificada de todos os males.
Essa dinâmica já foi identificada em relatórios nacionais e internacionais que
alertam para as estratégias de captura de jovens por redes extremistas.
Um
documento das Nações Unidas sobre as formas contemporâneas de racismo,
discriminação racial, xenofobia e intolerância (A/HRC/41/55), apresentado ao
Conselho de Direitos Humanos em 2019, já alertava para novas modalidades de
aliciamento extremista que ocorrem sobretudo em ambientes digitais. Essas
estratégias se valem da música, de jogos, de personagens de desenhos animados e
de outras expressões da cultura popular. Crianças e adolescentes, descritos
como impressionáveis, solitários, marginalizados e em busca de pertencimento,
tornam-se os principais alvos. Essa vulnerabilidade afetiva, feita de carência
de reconhecimento e desejo de vínculo, é manipulada por discursos de ódio que
convertem disposições elementares em combustível para práticas violentas e
excludentes.
No
Brasil, a análise produzida pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação em
2022, reforça que a violência juvenil é alimentada por redes ultraconservadoras
e de extrema-direita que operam em aplicativos de mensagens, fóruns de jogos e
redes sociais, convertendo adolescentes em agentes de difusão de ódio e
intolerância. O relatório identifica que os principais alvos da cooptação pela
extrema-direita são adolescentes brancos e heterossexuais, frequentemente
atravessados por frustrações e ressentimentos típicos da adolescência,
mobilizados em fóruns e comunidades online marcadas pela misoginia. Nesse
ecossistema, destacam-se grupos neointegralistas como a Frente Integralista
Brasileira (FIB), a Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrela (ACCALE) e
a Nova Resistência, além de movimentos separatistas como “O Sul é o meu
país”.
O
contraste entre a potência relacional dos afetos da juventude e sua captura por
estratégias extremistas evidencia que a disputa política contemporânea é, antes
de tudo, uma disputa pela formação afetiva das novas gerações.
Diante
desse quadro, a defesa de uma educação pública, laica, gratuita e de qualidade
se afirma como condição indispensável para a saúde democrática do país. É nesse
sentido que ressoa o pensamento de Theodor Adorno em Educação após Auschwitz:
“Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e
importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita” (Adorno, 1995, p.
21).
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A dimensão socioemocional e a (auto)gestão dos afetos
Na
escola, os afetos políticos podem se converter em aprendizado democrático ou
ser desviados por lógicas de exclusão, o que torna decisivo o modo como a
instituição os acolhe. A escola reúne sujeitos de diferentes origens sob a
promessa de igualdade e configura um espaço em que crianças e jovens vivenciam,
de forma ampliada, experiências de pertencimento e de conflito mediadas por
regras comuns e por uma autoridade legitimada institucionalmente.
Não
surpreende, portanto, que documentos oficiais como a BNCC tenham inscrito a
dimensão socioemocional como uma das competências centrais da educação básica,
no entanto, o fazem sob uma lógica outra.
A Base
Nacional Comum Curricular (BNCC), documento normativo que orienta a educação
básica no Brasil desde 2017, estrutura-se em dez competências gerais. Entre
elas, a dimensão socioemocional ganha destaque na competência 8, formulada como
“autoconhecimento e autocuidado”. O texto acrescenta ainda a noção de
autocrítica, que pode ser interpretada como uma forma de autogestão dos afetos,
articulada à ideia de resiliência. A ênfase desloca-se do reconhecimento das
condições sociais que moldam os afetos para a responsabilização individual de
cada estudante, em sintonia com uma agenda supranacional que vincula educação à
teoria do capital humano (Schultz, 1961) e à racionalidade gerencial,
sustentada por organismos como a OCDE e o Banco Mundial.
Vemos a
construção de um perfil afetivo neoliberal, marcado por resiliência, adaptação,
autorregulação em resposta às crises do capital. Mas esse perfil contrasta
fortemente com o que seria necessário para a formação de afetos políticos
capazes de sustentar vínculos democráticos e resistir à captura extremista.
Quando é urgente promover experiências comuns de solidariedade e indignação
coletiva diante de estruturas injustas, a escola é disputada como espaço de
treinamento afetivo de indivíduos para que administrem o sofrimento psíquico
que é, muitas vezes, derivado da própria engrenagem produtiva.
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Do léxico das competências à educação dos afetos políticos
A BNCC
converte os afetos políticos em práticas de autogestão e desloca a formação
democrática para a adaptação individual. A escola passa a produzir sujeitos
solitários e mensuráveis, treinados para ajustar-se às crises, mas incapazes de
sustentar solidariedades coletivas e, assim, vulneráveis às paixões tristes que
alimentam o extremismo. Como a escola pode ser capaz de reposicionar e
engendrar novas práticas de pertencimento, solidariedade e resistência?
Em uma
chave spinozana, essa capacidade dependeria do reconhecimento de que não se
trata de treinar condutas individuais para a resiliência, mas de criar
condições para bons encontros que aumentam a potência coletiva – encontros que
transformam medo em esperança, indignação em luta comum. Este autor nos lembra
que um afeto pode ser superado por outro mais forte. Deste modo, o ódio não se
dissolveria pela censura ou repressão, mas pela produção de vínculos capazes de
gerar alegria ativa.
No
entanto, a filósofa feminista britânico-paquistanesa Sara Ahmed, em diálogo com
Spinoza, mostra que, em tempos de extremismo, o amor não deve ser visto como
energia intrinsecamente positiva, mas como uma orientação que se cola a signos
e delimita comunidades. Em The Cultural Politics of Emotion, ela demonstra que
grupos supremacistas já não se apresentam em nome do ódio, mas invocam o “amor
à nação” e, sob esse signo, legitimam práticas de segregação.
O que
esse impasse nos revela é que a política dos afetos não se define pela oposição
entre positivo e negativo, mas pela disputa sobre os mundos que eles tornam
possíveis.
Isso
pode ser visto quando a dor de estudantes diante de desigualdades como o
racismo, homofobia ou machismo, não é silenciada em nome de uma paz
performática, mas convertida em projetos coletivos, como uma peça de teatro,
uma campanha ou um mural que transforma afetos tristes em produção cultural e
reconhecimento.
Também
quando um gesto misógino em sala de aula não é simplesmente punido ou ignorado,
mas analisado coletivamente, permitindo compreender de onde vem esse discurso,
que circuitos o alimentam e que efeitos produz, abrindo espaço para que
ressentimento se desloque em crítica.
Do
mesmo modo, assembleias e conselhos estudantis que realmente decidem sobre
regras, espaços e projetos culturais oferecem uma experiência de pertencimento
com possibilidade de inverter a apatia e a hostilidade.
O mesmo
ocorre quando tutorias solidárias substituem a lógica da competição por
cooperação, ou quando conflitos entre colegas deixam de ser tratados como mera
indisciplina e se tornam ocasiões de práticas restaurativas baseadas na escuta
e na reparação.
Assim,
a organização da vida comum pela amizade, pela hospitalidade e pela confiança
na criação compartilhada revela que a escola é também um espaço de produção
social dos afetos. Afetos políticos educados em chave democrática podem
funcionar como barreira ao aliciamento extremista, contrapeso às dinâmicas do
trabalho precarizado e proteção contra o sofrimento psíquico que essas mesmas
dinâmicas engendram.
Fonte:
Por Lidiane Grützmann, no Le Monde

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