Taxação
de bilionários: eleitores da Califórnia podem aprovar primeiro imposto do tipo
no mundo?
Poucos lugares no planeta têm tantos
moradores ultrarricos quanto a Califórnia, estado americano conhecido pelo
glamour, pelas mansões à beira-mar e por abrigar pessoas ricas e famosas.
Agora, os eleitores estão prestes a decidir
se os super-ricos do estado — entre eles a magnata da mídia Oprah Winfrey, o
presidente da Meta, Mark Zuckerberg, Kim Kardashian, cofundadora da Skims e
estrela de reality shows, e o cineasta George Lucas — devem desembolsar bilhões
de dólares para financiar melhorias na área da saúde.
A Proposição 40 tem como objetivo instituir
um imposto único de 5% sobre o patrimônio líquido de todos os bilionários da
Califórnia.
Há pouco mais de 200 pessoas nessa categoria
no estado, mas isso não impediu que a proposta dividisse lideranças e levasse
alguns de seus moradores ultrarricos a deixar a região. Um empresário
bilionário afirma ter gerado empregos na Califórnia, mas diz que a proposta o
fez se sentir "um pouco como se eu não fosse bem-vindo".
A votação também está dando aos cidadãos
comuns a oportunidade de se manifestar sobre uma questão que provoca
turbulência na política há décadas.
"Eu acredito que este é o primeiro
imposto sobre bilionários — ou seja, um imposto sobre o patrimônio direcionado
a uma parcela extremamente restrita da distribuição de riqueza", afirma
Francesco Trebbi, professor de políticas públicas da Universidade da Califórnia
em Berkeley. Ele destaca o caráter histórico da medida e como ela poderia
ajudar a reduzir a desigualdade patrimonial no estado.
A Califórnia tem a maior economia entre os
estados americanos e a quarta maior economia do mundo, superior às da Índia e
do Reino Unido. O estado também abriga uma das maiores concentrações de
bilionários do planeta. Ao mesmo tempo, tem a maior proporção de pessoas em
situação de rua do país e uma das maiores desigualdades patrimoniais.
Os defensores da proposta argumentam que ela
ajudaria a garantir que os ultrarricos contribuam com sua parcela justa de
impostos e compensaria déficits no orçamento estadual. A iniciativa pretende
arrecadar US$ 100 bilhões (cerca de R$ 496 bilhões) para compensar cortes no
financiamento federal do sistema de saúde do estado.
Suzanne Jimenez, chefe de gabinete do
Sindicato Internacional dos Empregados em Serviços — Trabalhadores da Saúde
Unidos do Oeste (SEIU-UHW), que ajudou a liderar a campanha pela iniciativa,
afirma que a medida é uma "solução de curto prazo" para os grandes
cortes de recursos federais que a Califórnia deverá enfrentar em consequência
do abrangente pacote tributário e de gastos do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump.
"Se não fizermos nada, veremos nosso
sistema de saúde entrar em colapso enquanto buscamos uma solução de longo prazo
para financiá-lo", disse ela à BBC.
Embora a proposta tenha muitos apoiadores —
incluindo alguns bilionários, como Jensen Huang, CEO da Nvidia —, ela enfrenta
forte oposição de diferentes figuras, de bilionários ao governador liberal do
estado.
Sergey Brin, cofundador do Google, doou mais
de US$ 100 milhões a uma organização política que financia medidas eleitorais
capazes de bloquear o imposto sobre o patrimônio, segundo o Los Angeles Times.
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, que
está chegando ao fim de seu mandato, é talvez a liderança política mais
importante a se opor à proposta. Ele manifestou preocupação de que a medida
leve os ricos a deixar o estado, provocando a perda de receitas essenciais
provenientes do imposto de renda.
Uma pesquisa realizada em setembro pelo
Instituto de Estudos Governamentais de Berkeley e pelo Los Angeles Times
constatou que a proposta ainda não conquistou claramente a maioria dos
eleitores: 45% dos eleitores com maior probabilidade de votar eram favoráveis
ao imposto, 42% eram contrários e 13% estavam indecisos.
A medida, submetida à votação em todo o
estado, precisará ser aprovada pela maioria dos eleitores.
A Califórnia não é o primeiro lugar a
considerar a possibilidade de tributar os ricos. Também na costa oeste, os
eleitores do estado americano de Washington estão avaliando se aprovam ou
rejeitam um "imposto sobre milionários": uma alíquota de 9,9% sobre
rendimentos anuais superiores a US$ 1 milhão.
Embora os impostos sobre o patrimônio tenham
sido relativamente comuns na Europa, eles perderam popularidade rapidamente e
hoje existem em apenas três países europeus — Espanha, Noruega e Suíça —,
afirma o dr. Kristian Niemietz, chefe de economia política do Instituto de
Assuntos Econômicos.
Niemietz considera que os impostos sobre o
patrimônio "dão mais trabalho do que valem a pena", pois criam
dificuldades administrativas, desestimulam investimentos, provocam a saída de
capitais e, no fim das contas, arrecadam pouco.
No caso da Noruega, uma organização de
notícias local constatou que o aumento do imposto sobre o patrimônio levou mais
super-ricos a deixar o país em 2022 do que nos 13 anos anteriores somados. Um
estudo sobre a Suíça concluiu que um aumento de 0,1 ponto percentual na
alíquota do imposto sobre o patrimônio reduziu em 3,5% o patrimônio tributável.
Se aprovada, a medida da Califórnia será
aplicada retroativamente a pessoas com patrimônio líquido de pelo menos US$ 1
bilhão que residiam no estado em 1º de janeiro de 2026. Pelo menos seis dos
mais de 200 bilionários da Califórnia teriam deixado o estado antes dessa data
para evitar o imposto.
Entre eles estão os cofundadores do Google
Larry Page e Sergey Brin, o investidor de capital de risco Peter Thiel, o
ex-CEO da Uber Travis Kalanick e Don Hankey, fundador do Hankey Group.
Hankey, bilionário de Los Angeles que viveu
toda a vida na Califórnia, disse à revista Forbes que se mudou para o estado de
Nevada por causa da proposta de imposto sobre o patrimônio.
"Acho que criamos muitos empregos na
Califórnia. Temos alguns milhares de pessoas trabalhando para nós e um plano de
participação nos lucros. E preciso deixar o estado", afirmou. Ele
acrescentou que a medida o fez sentir que não era "bem-vindo" no
estado.
Mark Zuckerberg, presidente-executivo da
Meta, disse ao conselho de administração da empresa no mês passado que estava
considerando transferir sua residência principal para fora da Califórnia por
causa do imposto proposto.
Para evitar que ele deixe o estado — onde
fica a sede da empresa —, a Meta concordou com um novo acordo de remuneração em
ações que concede a Zuckerberg, cuja fortuna é estimada em mais de US$ 200
bilhões, ainda mais participações na companhia. O objetivo é compensá-lo pelos
bilhões de dólares que perderia caso a medida fosse aprovada em novembro.
Estimativas indicam que ele poderia ter de pagar até US$ 12,5 bilhões.
Andy Fang, cofundador da DoorDash, cuja
fortuna é estimada em US$ 1,6 bilhão, classificou a medida como
"estúpida" e escreveu na rede social X que "propostas como essa
tornam irresponsável da minha parte não planejar deixar o estado".
Enquanto isso, o empresário Tom Steyer, que
disputou sem sucesso o governo da Califórnia no início deste ano, é um dos
poucos bilionários que declararam que votarão a favor do imposto. Steyer
afirmou que, embora considere "problemática" a forma como a medida
foi redigida, ela é necessária para proteger os californianos mais vulneráveis.
Huang também declarou que apoia o pagamento
do imposto.
"Não me importo de pagar impostos.
Quanto mais você ganha, mais impostos paga. Para mim, tudo bem", afirmou o
presidente da Nvidia em uma entrevista à CBS, parceira americana da BBC.
"Eu sou a personificação do sonho americano."
O senador Bernie Sanders, do estado de
Vermont, conhecido por sua atuação contra a desigualdade de renda, tem feito
campanha em apoio à Proposição 40.
Durante um ato em Los Angeles, Sanders disse
que os bilionários "acreditam, assim como os monarcas do século 19, que
têm um direito divino de governar".
"Eles têm toda a riqueza, têm todo o
poder, e quem diabos vocês pensam que são para desafiá-los? Bem, acho que em 3
de novembro eles vão aprender uma lição muito importante."
A desigualdade de renda nos Estados Unidos
está entre os níveis mais altos em mais de três décadas. No terceiro trimestre
de 2025, o 1% mais rico das famílias detinha quase 32% de toda a riqueza do
país. Na Califórnia, a desigualdade também está próxima de níveis
historicamente elevados.
A desigualdade econômica preocupa a maioria
dos californianos. Segundo uma pesquisa estadual do Instituto de Políticas
Públicas da Califórnia, 72% acreditam que a distância entre ricos e pobres está
aumentando, e uma proporção semelhante considera que o governo estadual deveria
fazer mais para reduzir essa diferença.
Trebbi afirma que a política é impulsionada
por um "sentimento antielite e antissistema".
"Na verdade, isso não se trata da
Proposição 40", diz ele, mas de uma tentativa de "reequilibrar um
pouco a balança".
¨
Por que taxar os
super-ricos fortalece a pauta de direitos humanos no Brasil
O Brasil é um dos países mais desiguais do
mundo, segundo o Índice de Gini, e também um dos poucos que ainda não
regulamentou o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), apesar de ser previsto na
Constituição desde 1988.
Somente em 2024, o país ganhou 19 novos
bilionários, totalizando 60 pessoas no topo da pirâmide econômica (Forbes).
Para se ter uma dimensão da desproporção e concentração de riqueza, um bilhão
de segundos equivale a mais de 31 anos, enquanto mil segundos são pouco mais de
16,6 minutos.
No mesmo ano, apesar de o rendimento médio
real da população brasileira ter atingido o maior valor desde 2012, esse valor
foi de apenas R$ 3.057 por mês, segundo o IBGE.
Os dados revelam a profunda desigualdade no
país, onde uma pequena elite acumula a maior parte da riqueza, enquanto milhões
enfrentam dificuldades para acessar direitos básicos como saúde, educação,
moradia e alimentação.
Relatórios da Oxfam mostram que os 10% mais
ricos detêm 45% da riqueza global. No Brasil, o 1% mais rico concentra 63% da
riqueza nacional — e paga proporcionalmente menos impostos do que os mais
pobres.
A injustiça tributária é um pilar da
desigualdade no país: enquanto trabalhadores não conseguem escapar dos impostos
sobre o consumo, que incidem sobre até 70% de sua renda, os mais ricos se
beneficiam de isenções sobre lucros e dividendos, incentivos fiscais e ausência
de tributação sobre grandes patrimônios, conforme explicou a diretora da Oxfam
Brasil, Viviana Santiago, à Agência
Brasil.
Assim, a luta por justiça fiscal, em especial
a taxação de grandes fortunas, lucros e dividendos, não é apenas uma pauta
econômica: é uma pauta de direitos humanos. Quando o Estado arrecada de forma
injusta, são os mais pobres que pagam a conta.
Sociedade civil busca ampliar a pauta
Nesta quinta-feira (10), movimentos sociais,
partidos de esquerda e organizações de defesa de direitos humanos realizam
protestos em várias capitais do país em defesa da taxação de grandes
fortunas.
As manifestações são realizadas no dia que a
Câmara dos Deputados analisa o projeto do Governo Federal que aumenta o limite
de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, a partir
de 2026 (PL 1087/25) e dias após os legisladores derrubarem o projeto de
decreto legislativo que revoga o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF).
Organizados pelos movimentos Frente Brasil
Popular e Povo Sem Medo, a ação visibiliza ainda o Plebiscito por
um Brasil Mais Justo, que também consultam a população sobre o
fim da escala de 6 dias de trabalho por 1 dia de folga, sobre a redução da
jornada sem redução salarial, e ainda sobre a privatização de direitos como a
água e saneamento básico.
Ampliação do debate no Brasil e no
mundo
Internacionalmente, cresce o reconhecimento
de que uma tributação justa é essencial para combater desigualdades estruturais
e fortalecer a democracia. Em 2023, durante sua presidência do G20, o Brasil
defendeu a criação de normas internacionais para taxar os super-ricos. Em 2024,
na cúpula dos BRICS realizada no Rio de Janeiro, o país reafirmou seu apoio à
Convenção-Quadro da ONU sobre Cooperação Tributária Internacional, cujas
negociações começaram oficialmente em fevereiro deste ano.
Apesar disso, em julho de 2024, a Câmara dos
Deputados rejeitou uma proposta que previa a taxação de fortunas superiores a
R$ 10 milhões. A resistência política à pauta é significativa: mais de 70% dos
parlamentares são empresários ou fazendeiros, diretamente beneficiados pelo
modelo regressivo em vigor.
Quem paga a conta e… quem se beneficia dela?
De acordo com a Oxfam Brasil, os 10% mais
pobres pagam, proporcionalmente, três vezes mais impostos do que os 10% mais
ricos. Isso se deve ao peso dos tributos indiretos (como o ICMS), embutidos no
consumo e que afetam principalmente quem ganha menos. Já os mais ricos, além
das isenções legais, contam com mecanismos de elisão fiscal e deslocamento de
lucros para paraísos fiscais — práticas que drenam recursos públicos e
comprometem a oferta de serviços essenciais.
Grandes corporações dos setores financeiro,
agroexportador, minerador e energético — como Itaú, Bradesco, JBS, Vale e
Petrobras — seguem acumulando lucros bilionários enquanto contribuem
proporcionalmente muito pouco aos cofres públicos. A origem de muitas dessas
fortunas está associada a práticas de exploração de recursos naturais,
violações de direitos e concentração de poder econômico.
Um estudo da Oxfam aponta ainda a conexão
entre o acúmulo extremo de riqueza, estruturas coloniais e instituições
concentradas nos países do Norte Global. A manutenção dessa dinâmica se apoia
em sistemas tributários injustos, imposições de dívidas impagáveis por
organismos como o FMI e a taxação excessiva sobre bens essenciais para
populações empobrecidas — como alimentos e medicamentos.
Justiça fiscal é elemento do debate sobre
empresas e direitos humanos
A justiça fiscal também é uma dimensão
central do debate sobre empresas e direitos humanos. O Princípio 11 dos
Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos afirma que as
empresas devem evitar causar impactos adversos e enfrentar danos relacionados
às suas atividades — o que inclui a evasão fiscal e os fluxos ilícitos de
capitais. Práticas fiscais injustas, como o deslocamento de lucros para
paraísos fiscais ou o uso de brechas legais para não pagar impostos,
comprometem diretamente a capacidade do Estado de proteger, respeitar e
realizar os direitos humanos.
A coordenadora do programa de Justiça
Socioambiental e Climática da Justiça Global, Melisanda Tretin, explica que
essa agenda está no centro das discussões da ONU, que desde 2014 negocia um
Tratado Internacional Vinculante sobre Empresas e Direitos Humanos. “Um dos
pontos centrais é a devida diligência* obrigatória das empresas, que deve
abranger também suas práticas fiscais. A responsabilidade corporativa sobre
arrecadação justa de tributos já é reconhecida internacionalmente como parte do
dever de respeito aos direitos humanos”, diz.
Uma agenda rumo à equidade
A adoção de um sistema tributário progressivo
— que cobre mais de quem pode mais — é uma condição essencial para que o Estado
brasileiro avance nos compromissos assumidos nos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), especialmente o ODS 10 (Redução das Desigualdades) e o ODS
16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes). A proposta de taxar grandes
fortunas, lucros e dividendos é também coerente com a defesa de uma ordem
econômica justa e democrática.
Essa é a agenda defendida pela Coalizão
Direitos Valem Mais, da qual a Justiça Global faz parte. Criada em 2018, a
coalizão reúne mais de 200 organizações da sociedade civil, movimentos sociais,
fóruns e conselhos em defesa de uma política fiscal justa como base para a
efetivação dos direitos humanos. A coalizão denuncia os impactos das políticas
de austeridade e propõe alternativas concretas para o fortalecimento do Estado.
Vale destacar ainda que o tema também foi
discutido na última edição da Conferência Internacional sobre Financiamento
para o Desenvolvimento, promovida pelas Nações Unidas, realizada na
Espanha.
Em atividade paralela ao evento, que terminou
em na semana passada, representando a organização não-governamental brasileira Inesc e a Latindadd (Rede Latino-Americana e do Caribe por
Justiça Econômica, Social e Climática), Nathalie Beghin reforçou a importância
do papel ativo da sociedade civil na construção de uma nova arquitetura
financeira internacional, baseada em justiça fiscal, transparência e direitos
humanos.
A economista criticou, porém, a falta de
ambição dos resultados da conferência. “Há uma enorme aposta no setor
privado, mesmo sabendo que ele historicamente não demonstra compromisso com a
realização dos direitos humanos”, afirmou Beghin.
Taxar os super-ricos não é apenas uma medida
econômica. É um compromisso com a equidade, com a justiça social e com a
construção de um país onde todas as pessoas possam viver com dignidade. O
Brasil precisa romper com a lógica em que os pobres pagam mais e recebem menos.
Uma política fiscal justa é indispensável para a democracia, os direitos
humanos e o futuro do país.
Fonte:
BBC News Mundo/Justiça Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário