Édi
Augusto Benini: A vitória abriu uma brecha
Comecei
a escrever este artigo às 11 horas da manhã de 25 de outubro de 2026. Ainda não
havia votado. O título provisório era “A derrota que aconteceu antes das
urnas”. Queria registrar algumas conclusões que me pareciam independentes do
resultado eleitoral: a concentração extrema da riqueza, a insegurança material
de milhões de trabalhadores, o poder privado sobre a esfera pública digital, o
crescimento da extrema direita e os limites de uma democracia que alcançou o
governo político muito mais do que as estruturas econômicas e tecnológicas que
condicionam nossas vidas.
Então
veio a noite. E o Brasil produziu uma virada histórica. Depois de terminar o
primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva venceu o
segundo turno com 51,79% dos votos válidos, mais de 64 milhões de votos.
Escrevo novamente na manhã de 26 de outubro e resolvi mudar o título. Não
porque aquilo que escrevi tenha deixado de ser verdadeiro, mas porque alguma
coisa importante aconteceu.
A
democracia mostrou reservas extraordinárias de resistência. Trabalhadores,
estudantes, movimentos sociais, artistas, militantes, organizações e milhões de
pessoas comuns ocuparam ruas, redes e conversas cotidianas. Pessoas que há
muito não participavam diretamente de uma mobilização política voltaram a
sentir que sua ação podia fazer diferença. Há algo precioso nessa energia. Ela
precisa ser celebrada.
Mas
justamente por isso precisamos fazer uma pergunta mais difícil: o que faremos
com essa vitória?
Uma
vitória eleitoral pode impedir um enorme retrocesso histórico, mas não
desmonta, sozinha, as estruturas que produziram as condições sociais desse
retrocesso. Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro. A
concentração patrimonial continua gigantesca, as grandes plataformas digitais
permanecem sob controle privado, a crise ambiental avança e milhões de pessoas
seguem possuindo pouco poder sobre as condições materiais das quais dependem
para viver.
Este
não é, portanto, um texto contra a celebração. É um convite para levarmos a
sério a vitória. Vitórias históricas tornam-se realmente históricas quando
abrem caminhos que antes pareciam impossíveis. Talvez esta tenha aberto uma
brecha. Nossa responsabilidade é fazê-la crescer.
<><>
Quando produzir mais deixa de significar viver melhor
Nunca
tivemos tamanha capacidade técnica de produzir. Máquinas, automação,
inteligência artificial, biotecnologia e sistemas logísticos realizam em horas
tarefas que exigiam semanas. A humanidade produz alimentos em enorme escala,
realiza cirurgias inimagináveis, conversa instantaneamente entre continentes e
acessa em segundos grande parte do conhecimento acumulado. A promessa parece
evidente: quanto maior a produtividade, menor deveria ser o esforço necessário
para assegurar uma vida digna.
Mas
produzir valor econômico não é o mesmo que produzir riqueza substantiva. Uma
mercadoria feita para durar pouco movimenta novamente a economia quando precisa
ser substituída. Uma embalagem descartável é contabilizada como produção mesmo
quando se transforma, minutos depois, em lixo. Uma atividade industrial pode
elevar a produção monetariamente registrada enquanto degrada recursos naturais
ou produz custos sanitários e ambientais suportados pela sociedade. Depois, os
gastos necessários para reparar parte desses danos voltam a aparecer como
atividade econômica.
Isso
não torna o PIB inútil. Ele mede algo importante, mas não foi concebido para
medir integralmente bem-estar, sustentabilidade ou preservação das bases
naturais e sociais das quais dependerá a vida futura. Precisamos recuperar uma
distinção elementar: riqueza não é simplesmente aquilo que possui preço.
Riqueza substantiva é aquilo que sustenta e melhora a vida: alimentação de
qualidade, moradia digna, água limpa, saúde, conhecimento, cultura, segurança,
relações humanas, mobilidade, natureza preservada e tempo livre.
A
questão civilizatória não é apenas quanto produzimos, mas quanto dessa produção
permanece como ganho efetivo depois de considerados seus custos humanos,
sociais e ecológicos.
A
contradição torna-se ainda mais evidente quando observamos quem controla a
riqueza acumulada. No Brasil, os 10% mais ricos concentram cerca de 70% do
patrimônio; o 1% mais rico controla aproximadamente 37%; à metade mais pobre
correspondem apenas 2,4%.
Patrimônio
não significa apenas consumo. Significa segurança ao longo do tempo,
possibilidade de atravessar crises, escolher onde morar, estudar, investir,
transmitir recursos aos filhos e controlar ativos dos quais outras pessoas
dependem. Desigualdade patrimonial também é desigualdade de poder.
Vivemos,
assim, cercados pela demonstração permanente da abundância possível e,
simultaneamente, pela experiência cotidiana da escassez. Vemos tecnologias
extraordinárias e estilos de vida que pareceriam ficção científica poucas
décadas atrás, enquanto milhões calculam se conseguirão pagar aluguel,
alimentos ou manter uma fonte de renda. A humanidade demonstra aquilo que já
seria materialmente capaz de proporcionar, mas o acesso permanece profundamente
desigual.
Essa
distância entre promessa e experiência produz efeitos subjetivos. Quando a
sociedade apresenta prosperidade individual como medida de sucesso e mantém
extremamente desigual o acesso às condições dessa prosperidade, abre terreno
para frustração, ansiedade, ressentimento e perda de sentido. O futuro se
estreita.
Isso
não significa, porém, descrever o trabalho brasileiro como uma deterioração
linear. Em 2025, a taxa média de desemprego caiu para 5,6%, a menor da série do
IBGE, o emprego com carteira atingiu recorde e o rendimento real cresceu. Esses
avanços são reais. Ao mesmo tempo, cerca de 38% dos ocupados permaneciam na
informalidade e milhões dependiam do trabalho sem carteira ou por conta
própria.
O
problema estrutural, portanto, não se resume à taxa de desemprego. Mesmo quando
emprego e renda melhoram, a maioria continua dependendo de condições que
controla pouco: decisões empresariais, preços, juros, aluguel, crédito,
plataformas e oscilações econômicas. A questão diz respeito ao grau de controle
que as pessoas possuem sobre as condições materiais de sua própria existência.
<><>
A crise não produz automaticamente o autoritarismo
É nesse
terreno que precisamos compreender a extrema direita. Não considero suficiente
explicar o bolsonarismo apenas como produto de ignorância, mentira ou
manipulação. Proponho compreender determinados traços desse fenômeno como
pertencentes a um repertório protofascista: culto à força, fabricação de
inimigos, hostilidade às mediações institucionais, nostalgia de uma ordem
perdida, desprezo pelo pensamento crítico e naturalização das desigualdades.
Isso
não significa classificar como fascistas todos os seus eleitores. Crises
econômicas não produzem automaticamente autoritarismo. Entre condições
materiais e consciência política existe um amplo campo de mediações: família,
religião, território, cultura, organizações políticas, escola, memória, meios
de comunicação e relações comunitárias. Contradições estruturais podem produzir
inseguranças materiais e simbólicas; essas inseguranças são politicamente
disputadas, e uma de suas possibilidades históricas é a canalização
autoritária.
A
eleição também mostrou a possibilidade oposta: solidariedade, mobilização,
esperança e defesa democrática. É essa possibilidade que precisamos cultivar.
Na
crítica marxiana da economia política, o extraordinário desenvolvimento das
forças produtivas convive com a necessidade permanente de valorização do
capital. Mészáros amplia essa discussão ao falar em crise estrutural: não
apenas uma recessão passageira, mas os limites de uma forma de sociometabolismo
que precisa expandir continuamente a acumulação, mesmo quando encontra limites
humanos, sociais e ecológicos.
Historicamente,
essa expansão incorporou novos mercados, financeirização, privatizações,
mercantilização de dimensões antes externas ao mercado, apropriação privada do
conhecimento e, mais recentemente, da própria atenção humana. Não há um comando
único chamado “capital”, mas uma lógica sistêmica de valorização que orienta
incentivos e decisões e gera pressões recorrentes sobre direitos, proteção
ambiental, salários e distribuição de renda.
A
extrema direita consegue operar sobre parte das angústias produzidas nesse
terreno porque reconhece uma dor real e lhe oferece culpados concretos. O
problema passa a ser o beneficiário de uma política social, o professor, a
universidade, o feminismo, o negro que reivindica direitos, o indígena que
reivindica território, o ambientalista ou o “comunista”. É mais fácil odiar uma
pessoa identificável do que compreender uma estrutura social. A angústia é
verdadeira; a causalidade é deslocada; a revolta permanece, mas sua direção
muda.
<><>
Plataformas privadas e a disputa pela atenção
Há
outro aprendizado importante desta eleição. Uma parcela crescente da vida
política ocorre em territórios que não são públicos. Facebook, Instagram,
TikTok, YouTube, X, mecanismos de busca, aplicativos de mensagens e sistemas de
inteligência artificial tornaram-se infraestrutura da esfera pública, mas essa
infraestrutura pertence majoritariamente a corporações privadas.
Não é
necessário supor conspiração. O problema está na arquitetura. Algoritmos
selecionam, ordenam, recomendam e ocultam conteúdos. Um experimento publicado
em 2026 na Nature mostrou que, no X, a ativação do feed algorítmico, comparada
ao feed cronológico, aumentou o engajamento e deslocou algumas atitudes dos
participantes em direção conservadora, embora os próprios autores ressaltem que
o resultado é específico à plataforma e ao período estudado.
Não
sabemos que efeitos cada arquitetura produzirá. Sabemos que pode haver efeitos
e que suas regras permanecem, em grande medida, privadas. A própria Justiça
Eleitoral reconheceu o problema ao estabelecer procedimentos específicos sobre
propaganda, inteligência artificial, moderação e desinformação nas eleições de
2026.
As
redes podem mobilizar, construir agendas e conectar pessoas. Mas alcance não é
organização. Um vídeo com milhões de visualizações pode desaparecer amanhã;
relações de confiança construídas ao longo de anos permanecem. Nenhuma
plataforma substitui integralmente uma conversa entre vizinhos, uma associação,
um sindicato, um movimento, uma cooperativa, uma comunidade religiosa, uma
universidade ou uma amizade. Democracia depende desses vínculos porque
confiança não é apenas informação. É relação.
Também
precisamos observar a economia política da atenção. Cada segundo diante da tela
possui valor econômico. Vídeos curtos, rolagem infinita, notificações e
recompensas intermitentes competem por nosso tempo consciente. Uma meta-análise
de 2025, com 71 estudos e mais de 98 mil participantes, encontrou associação
entre maior uso de vídeos curtos e pior desempenho especialmente em atenção e
controle inibitório, sem provar causalidade unidirecional.
A
questão social é mais ampla: construímos um modelo econômico no qual capturar
atenção tornou-se fonte de renda, enquanto a democracia necessita exatamente de
tempo, concentração, dúvida, paciência e capacidade de lidar com complexidade.
A democracia exige atenção prolongada justamente quando o capitalismo digital
descobriu como lucrar fragmentando-a.
<><>
Democracia de menos e a política dentro da gaiola
A
vitória poderia nos levar a concluir que tudo funcionou. A democracia resistiu,
e isso é real. Mas talvez justamente essa vitória permita enxergar seus limites
sem derrotismo. O problema não é democracia demais. Ainda temos democracia de
menos.
Democratizamos
a escolha periódica de representantes, mas deixamos vastas dimensões da
existência submetidas a poderes sobre os quais quase nunca votamos. Trabalhamos
grande parte da vida sem decidir como o trabalho será organizado. Dependemos de
sistemas financeiros sem deliberar sobre a criação do crédito. Somos
atravessados por algoritmos sem participar da definição de seus critérios.
Produzimos riqueza coletivamente, mas sua propriedade se concentra
extraordinariamente.
Pode-se
objetar que governos progressistas ainda dispõem de instrumentos importantes:
investimento público, política industrial, tributação progressiva, regulação,
proteção social e, conforme as condições institucionais, políticas monetárias e
creditícias menos restritivas. É verdade. Governos fazem escolhas e devem
responder por elas. Reconhecer condicionantes estruturais não pode servir de
desculpa para conservadorismo, timidez ou erro político.
Mas
também seria ilusório imaginar que um governo nacional contemporâneo possui a
mesma margem de autonomia econômica de outros períodos. Florestan Fernandes
mostrou como o capitalismo dependente combina desenvolvimento interno com
heteronomia externa. Hoje, mobilidade de capitais, cadeias produtivas
transnacionais, mercados financeiros, propriedade intelectual, plataformas
digitais e concentração tecnológica ampliam os mecanismos pelos quais decisões
tomadas além do espaço democrático nacional condicionam aquilo que governos
conseguem fazer dentro dele.
As
ferramentas keynesianas não desapareceram, mas operam em terreno diferente
daquele do pós-guerra, quando controles maiores sobre fluxos financeiros davam
aos Estados mais espaço para políticas nacionais de emprego e desenvolvimento.
Isso não torna a transformação impossível. Torna insuficiente a expectativa de
que bastaria conquistar o governo e administrar melhor o mesmo metabolismo
econômico.
Talvez
exista aqui também uma crise do pensamento transformador. Uma parte do campo
progressista foi absorvida pela administração do existente; outra permanece
ligada a imagens de ruptura formuladas em condições históricas que já não são
as nossas. Entre a gestão resignada do capitalismo e a expectativa de uma
ruptura total, ainda sabemos pouco sobre como construir instituições capazes de
transferir progressivamente poder econômico, tecnológico e territorial para a
sociedade organizada.
Não
temos um mapa pronto dessa transição. Mas seria igualmente equivocado concluir
que, porque o caminho não está pronto, ele não existe. Ele aparece em
cooperativas, redes comunitárias, tecnologias abertas, experiências de
autogestão, formas compartilhadas de propriedade e políticas de
desmercantilização. O desafio talvez seja começar a enxergar essas experiências
como laboratórios de uma nova institucionalidade.
<><>
Da vitória defensiva à construção do Comum
É
precisamente aqui que a vitória adquire um significado maior. Derrotar
eleitoralmente a extrema direita foi necessário, mas não é suficiente derrotar
nas urnas aqueles que expressam relações autoritárias.
Precisamos
começar a desmontar as condições materiais que continuamente regeneram essas
relações. Isso significa enfrentar a impotência social, a insegurança
permanente, a concentração extrema da propriedade, a competição destrutiva, a
mercantilização crescente da vida e a perda de controle sobre trabalho,
território e tempo. Uma vitória democrática torna-se transformação histórica
quando começa a desarmar as fontes que reproduzem a dominação.
Isso
não ocorrerá por decreto nem apenas pela ação do governo federal. Exige Estado
e sociedade organizada. Exige políticas públicas que não somente distribuam
renda ou prestem serviços, mas também transfiram progressivamente capacidades,
infraestrutura, conhecimento e poder decisório para pessoas e comunidades.
É aqui
que aparece aquilo que venho chamando de “bem comum pleno”. Não como modelo
acabado, sociedade uniformizada ou estatização integral da existência, mas como
direção política: aquilo que determina as condições fundamentais da vida
coletiva precisa estar, em última instância, submetido ao controle democrático
da própria coletividade.
O Comum
significa construir instituições pelas quais pessoas livremente associadas
possam ampliar seu controle sobre trabalho, terra, infraestrutura, tecnologia,
conhecimento, energia, cuidado, produção e território. Significa ampliar a
democracia para os lugares onde efetivamente vivemos.
A pior
coisa que poderíamos fazer agora seria recolher novamente milhões de pessoas
para dentro de suas casas e dizer: “Obrigado. Voltamos a nos encontrar daqui a
quatro anos.” A energia democrática precisa produzir organização, vínculos,
instituições e capacidade econômica compartilhada. Precisa transformar cidadãos
mobilizados em sujeitos capazes de decidir também sobre as condições materiais
da própria existência.
Não
sabemos ainda qual será a arquitetura completa dessa transição. Ela não está
pronta. Mas isso não significa que não exista. Ela começa toda vez que
trabalhadores se associam, comunidades recuperam capacidade de decisão,
tecnologias são colocadas a serviço da vida, patrimônio se torna coletivo e
aquilo que determina o destino de todos começa a deixar de ser monopólio de
poucos. Ontem defendemos a democracia. Hoje podemos começar a ampliá-la.
A
democracia liberal nos ensinou um princípio extraordinariamente poderoso:
nenhum governante deveria possuir sozinho o direito de decidir o destino de
todos. Talvez tenha chegado o momento de aplicar esse mesmo princípio às forças
econômicas e tecnológicas que governam silenciosamente grande parte de nossas
vidas.
Não
basta perguntar quem governará o Estado. Precisamos perguntar quem governará o
trabalho, a riqueza, a tecnologia, o território, o tempo e as condições
materiais das quais depende o nosso futuro. A vitória abriu uma brecha. Nossa
tarefa histórica é não deixá-la fechar.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário