Os
heróis do bolsonarismo torturaram mulheres e crianças
Em
1999, durante uma entrevista, Jair Bolsonaro declarou, sem nenhum
constrangimento, que era favorável à tortura. À época deputado federal,
Bolsonaro defendeu a utilização do pau de arara, um dos instrumentos empregados
pela ditadura militar para torturar opositores políticos, afirmando que
funcionava. E, como se a brutalidade da declaração não fosse suficiente,
acrescentou que o povo brasileiro também era, como ele, favorável àquela
prática.
Dezessete
anos depois, em abril de 2016, Bolsonaro ocupou a tribuna da Câmara dos
Deputados para votar pela abertura do processo de impeachment de Dilma
Rousseff, a primeira e, até aqui, única mulher a chegar à Presidência da
República no Brasil. Diante de todo o país, dedicou seu voto à memória do
coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, antigo comandou o antigo DOI-CODI de
São Paulo, reconhecido pela Justiça brasileira como responsável por atos de
tortura praticados durante a ditadura militar.
Dilma,
a mulher cujo afastamento estava sendo decidido naquela sessão, foi presa e
torturada pelo regime militar. Ao homenagear Ustra, Bolsonaro ainda fez questão
de chamá-lo de “o pavor de Dilma Rousseff”. Não havia nenhuma ambiguidade
naquela homenagem. Bolsonaro escolheu exaltar publicamente um antigo comandante
do aparato repressivo justamente durante a votação que decidiria o afastamento
de uma mulher que carregava no próprio corpo a memória da violência praticada
pela ditadura. E fez isso no mesmo pronunciamento em que declarou votar “pela
família e pela inocência das crianças em sala de aula”.
A
contradição entre essas duas homenagens – uma à família e à infância, outra a
um torturador – não poderia ser mais eloquente.
Flávio
Bolsonaro, filho de Jair e candidato à Presidência da República, herdou do pai
a admiração pelo torturador e pelo regime militar. Em livro publicado em 2017,
Flávio descreveu Ustra como um homem correto e íntegro, que teria cumprido seu
papel de defender a pátria. Na mesma obra, atacou os trabalhos da Comissão
Nacional da Verdade, responsável por investigar as graves violações de direitos
humanos cometidas pelo Estado brasileiro. Quando Jair e Flávio Bolsonaro
exaltam Ustra, estão homenageando um homem que comandou um dos principais
órgãos de repressão da ditadura militar, no qual opositores políticos foram
presos ilegalmente, torturados e mortos; uma estrutura na qual mulheres foram
espancadas, submetidas a choques elétricos e violentadas sexualmente; e até
crianças foram ameaçadas e usadas como instrumentos de tortura contra os pais –
quando não foram elas mesmas também torturadas psicologicamente.
A
história da ditadura militar já foi contada muitas vezes a partir das disputa
entre homens. Generais, presidentes, dirigentes partidários, guerrilheiros,
torturadores e militantes homens ocupam o centro das narrativas sobre o
período. As mulheres, quando aparecem, são apresentadas como personagens
secundárias, companheiras de militantes ou vítimas de uma violência descrita de
forma genérica. Mas as mulheres estavam lá. Eram jovens estudantes,
professoras, trabalhadoras, jornalistas, artistas, mães, filhas, irmãs.
Mulheres que tinham convicções políticas, projetos de vida, relações afetivas e
perspectivas de um futuro pelo qual consideravam que valia a pena lutar.
Algumas integraram organizações revolucionárias; outras participavam de
movimentos estudantis, sindicatos e iniciativas de oposição à ditadura; outras,
ainda, foram perseguidas simplesmente por seus vínculos familiares com pessoas
consideradas inimigas do regime.
Para
muitas dessas mulheres, o próprio corpo se tornou território de exercício do
poder repressivo. A violência sexual, por exemplo, integrou práticas brutais de
humilhação, coerção e dominação documentadas pela Comissão Nacional da Verdade.
Práticas que também são observadas em contextos de guerra, nos quais a
violência contra o corpo feminino é empregada como instrumento de dominação e
submissão. Mulheres foram obrigadas a permanecer nuas diante de grupos de
homens, sofreram choques elétricos, violências sexuais. Gestantes foram
submetidas a torturas que provocaram a perda de gestações. A maternidade, a
sexualidade e a própria possibilidade de ter filhos foram utilizadas como
instrumentos de coerção e humilhação.
É
difícil encontrar palavras capazes de transmitir a dimensão dessas violências
sem transformar a dor das vítimas em espetáculo, mas o silêncio também não pode
ser a resposta. É preciso dizer o que aconteceu, identificar os responsáveis e
compreender o que significou a atuação daqueles que, décadas depois, continuam
sendo tratados como heróis. Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, foi
presa em dezembro de 1972, juntamente com seu marido, César Augusto Teles, e o
dirigente comunista Carlos Nicolau Danielli. No DOI-CODI de São Paulo,
comandado por Ustra, Amelinha foi submetida a torturas físicas e sexuais. Seus
filhos, Janaína e Edson, tinham cinco e quatro anos de idade, respectivamente,
quando foram levados pelos agentes da repressão ao local onde os pais estavam
presos. As crianças foram obrigadas a presenciar as condições em que a mãe se
encontrava depois das torturas, como parte das estratégias de violência
psicológica empregadas contra a família.
É
impossível pensar nessa cena sem imaginar o desamparo dessas crianças diante de
uma violência que elas sequer tinham condições de compreender, mas também é
impossível não pensar na mãe e na mulher que, já submetida a agressões e
humilhações, foi obrigada a enfrentar a presença dos próprios filhos naquele
ambiente, enquanto seus algozes usavam as duas crianças para ampliar seu
sofrimento. Não bastava violentá-la, era necessário também atingir seus filhos,
transformando até os vínculos afetivos daquela família em mais um instrumento
de tortura. O homem que comandava aquela estrutura é o mesmo que Jair Bolsonaro
homenageou na Câmara dos Deputados e que Flávio Bolsonaro apresentou como
íntegro e defensor da pátria.
Maria
Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, também conheceu de perto a violência
praticada pelo regime militar. Estudante de medicina, Dora se envolveu na
resistência à ditadura e passou a integrar organizações revolucionárias. Em
novembro de 1969, aos 24 anos, foi presa e submetida a torturas físicas e
sexuais. Depois de mais de um ano presa, foi banida do Brasil, em janeiro de
1971, quando passou a viver no exílio. Viveu no Chile, no México e em países
europeus, até se estabelecer na Alemanha, onde buscou retomar os estudos e
reconstruir a vida que a perseguição política tinha interrompido. Em junho de
1976, aos 31 anos, Dora encerrou a própria vida, em Berlim. A Comissão Nacional
da Verdade reconheceu sua morte como decorrente dos traumas relacionados à prisão
e às torturas sofridas durante a ditadura.
Como
mulher, é extremamente revoltante ver e ouvir homens poderosos falarem sobre
torturadores com admiração, como se os testemunhos daquelas mulheres que
sofreram nas mãos dos agentes repressivos fossem insignificantes. Além da
violência simbólica em si existe o silenciamento, tão brutal quanto
contemporâneo.
E o que
dizer quando essa admiração parte de homens que se apresentam publicamente como
defensores da família, da infância e dos valores morais? De que família, de que
infância e de quais valores morais estamos falando? A família de Amelinha,
cujos filhos foram levados a um centro de tortura, está incluída nessa defesa?
E as mães que perderam seus filhos para a repressão e nunca puderam sepultar
seus corpos? Que valores familiares são compatíveis com a homenagem a pessoas
que participaram dessas práticas?
No
mesmo voto em que Jair Bolsonaro exaltou a família e a inocência das crianças,
também homenageou um homem que comandou uma estrutura na qual os filhos de
Amelinha foram usados para ampliar o sofrimento da mãe. É impossível, portanto,
discutir a admiração de Jair e Flávio Bolsonaro por torturadores sem
confrontá-la com aquilo que esses homens fizeram às pessoas submetidas ao seu
poder. Foi por isso que decidimos produzir o episódio especial de Cálice: O
Brasil e seu avesso. Nesse minidocumentário, quisemos confrontar as declarações
de Jair e Flávio Bolsonaro com aquilo que suas homenagens deixam de fora da
cena: as histórias das mulheres e crianças submetidas à violência justamente
pelos agentes que eles exaltam. A história dessas mulheres, marcada tanto pela
dor quanto pela resistência, é parte da história brasileira. Nenhuma mulher
deveria precisar contar como foi violentada para convencer uma sociedade de que
o homem que a torturou não é um herói.
Amelinha
Teles morreu em setembro deste ano, 2026, depois de dedicar décadas de sua vida
à luta pelos direitos das mulheres, à preservação da memória dos perseguidos
políticos e à busca pelo esclarecimento e pela responsabilização dos crimes da
ditadura militar. Amelinha sobreviveu à tortura, enfrentou a tentativa de
silenciamento e continuou lutando para que outras mulheres jamais fossem
submetidas à mesma violência. Sua trajetória, como a de tantas outras,
demonstra que a história da ditadura foi escrita também pelas mulheres que
resistiram, denunciaram seus crimes e lutaram para preservar a memória daqueles
que não sobreviveram. Dedicamos o episódio Cálice: O Brasil e seu avesso à
memória e à de todas as mulheres que enfrentaram a repressão, sobreviveram para
contar suas histórias ou tiveram suas vidas interrompidas pela violência de
Estado.
Memória,
verdade e justiça. Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.
• (RELEMBRANDO) Todos os heróis do clã
Bolsonaro. Por João Filho
A
cerimônia de posse do novo diretor-geral da hidrelétrica de Itaipu tinha tudo
para ser uma ocasião corriqueira na agenda de Bolsonaro. O ex-capitão nomeou um
general para o cargo e aproveitou o evento para exaltar os ditadores
brasileiros que participaram da construção da usina binacional junto com o
Paraguai. Afirmou que Castello Branco foi “eleito em 1964” e saudou Costa e
Silva, Médici e Geisel. O último ditador militar, Figueiredo, foi merecedor de
um afago especial: “saudoso e querido”. Nada demais até aí. Prestar homenagens
à ditadura militar é um cacoete do então presidente. Mas o que era pra ser um
evento trivial acabou ganhando destaque pela exaltação que o presidente
brasileiro fez do general Alfredo Stroessner, o ditador sanguinário que comandou
o Paraguai com mão de ferro por 35 anos (1954 – 1989), sendo o que mais tempo
ficou à frente de um país na história do continente. “É um homem de visão e
estadista, que sabia perfeitamente que seu país, Paraguai, só poderia progredir
se tivesse energia. Então, aqui, a minha homenagem ao general Alfredo
Stroessner”, discursou Bolsonaro para uma plateia de jornalistas, em sua
maioria paraguaios. Desnecessário dizer
que o presidente brasileiro mentiu. O legado de Stroessner para o seu país é
trágico sob qualquer ponto de vista, inclusive do econômico. Ariel Palacios,
correspondente internacional que cobre América Hispânica e Caribe há 23 anos,
relembrou no Twitter algumas das atrocidades do ditador que inspira o nosso
presidente. Apresento algumas a seguir. Foi Stroessner o grande responsável por
transformar o Paraguai em um país marcado pelo contrabando. Durante seu regime,
as Forças Armadas paraguaias eram incentivadas a participar do contrabando dos
mais variados produtos — principalmente whisky e carros de luxos roubados — e
do tráfico internacional de cocaína. “Ah, mas esse é o preço da paz” era o
argumento do ditador paraguaio para justificar o envolvimento das suas tropas
com o crime. Os altos lucros mantinham os militares — ou devemos chamar de milicianos?
— satisfeitos. O facínora paraguaio comandou o assassinato de aproximadamente 5
mil civis e, segundo a Comissão Verdade e Justiça do Paraguai, torturou cerca
de 18.772 pessoas. Muitos opositores foram torturados e mortos. Alguns foram
cortados ao meio por serra elétrica, outros queimados lentamente com maçarico.
Talvez seja esse um dos pontos que mais encantam Bolsonaro, que já disse
textualmente ser “favorável à tortura”. Stroessner mantinha um campo de
concentração perto da capital Assunção e protegeu criminosos de guerra nazistas
como o médico Josef Mengele, o “Anjo da Morte”.
O
“estadista de visão” foi também responsável por instalar uma “pedofilocracia”
no governo paraguaio. Stroessner e parte da cúpula do regime cometeram uma
série de estupro de menores, especialmente de meninas virgens. O ditador
ordenava que seus assessores buscassem garotas entre 10 e 15 anos de idade para
o seu desfrute. Exigia também que o plantel de meninas fosse renovado
regularmente. Investigações do Departamento de Memória Histórica e Reparação do
Ministério da Justiça em Assunção, Stroessner estuprava em média 4 crianças por
mês. Uma dessas foi Julia Ozorio, sequestrada da casa dos seus pais por um
coronel e mantida como escrava sexual de Stroessner durante três anos. Julia
foi abusada também por oficiais, suboficiais e soldados. Ela relatou sua história
em um livro chamado “Uma rosa e mil soldados”. O bolsonarismo, que vê pedófilo
até embaixo da cama, deveria explicar a exaltação que o seu grande líder fez de
um abusador de menores em série dos mais cruéis que a humanidade já conheceu.
Mas no
altar dos heróis de Jair Bolsonaro cabe muita gente. Há uma lista grande de
ladrões, assassinos e torturadores que ganharam elogios públicos. O presidente
da República tem muitos bandidos de estimação. Como bem lembrou Clóvis Rossi em
sua coluna na Folha, “quem admira um torturador admira todos eles”.
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Pinochet
“Pinochet
fez o que tinha que ser feito, porque no Chile havia mais de 30 mil cubanos.
Então tinha que ser de forma violenta para reconquistar o seu país”, afirmou
Bolsonaro no programa de TV de João Kleber. O ex-capitão nunca escondeu a
admiração pelo ditador chileno. Quando Pinochet foi preso pelo governo
britânico, o então deputado subiu à tribuna da Câmara para defendê-lo.
Perguntou o que seria pior para um povo: “o que o general Pinochet talvez tenha
feito no passado, exterminando, matando baderneiros, ou a democracia no país,
que hoje mata milhões pelo descaso?” Mas o chileno não ganhou fama
internacional de monstro sanguinário por matar “cubanos” e “baderneiros”. Em
2011, um relatório publicado por uma comissão que investiga crimes da ditadura
de Pinochet concluiu que 40 mil chilenos foram torturados ou assassinados. Mas
para Bolsonaro, “Pinochet devia ter matado mais gente.” O regime tinha um
apreço especial por torturar e estuprar mulheres, sempre com requintes
crueldade. O testemunho de uma das vítimas, revelado em 2004, é aterrorizador:
“Fiquei grávida depois de um estupro e abortei na prisão. Levei choques
elétricos, fiquei pendurada, fui afogada em um tonel de água, queimada com
charutos. (…) Fui obrigada a tomar drogas, ameaçada sexualmente com cachorros,
ratos vivos foram colocados na minha vagina. Também me obrigaram a ter relações
sexuais com meu pai e meu irmão, que estavam detidos, e tive que ver e escutar
as torturas deles. (…) Eles me puseram na grelha elétrica, fizeram cortes com
uma espada no estômago. Tinha 25 anos. Fiquei detida até 1976. Não tinha nenhum
processo.”
Pinochet
foi autor do primeiro atentado terrorista internacional com bomba em
Washington, capital dos EUA. Logo depois de derrubar o presidente eleito
Salvador Allende com um golpe militar, uma das suas primeiras ações foi ordenar
o assassinato de Orlando Letelier, ex-chanceler chileno, que estava exilado em
Washington. Seu carro carregava uma bomba e explodiu a menos de 20 quarteirões
da Casa Branca. O que diria o mais notável fã brasileiro de Pinochet sobre
isso? “Fez o que tinha que ser feito?” Ano passado, depois de investigação que
durou 14 anos, a justiça chilena ordenou que a família de Pinochet devolvesse
R$ 19,6 milhões aos cofres públicos. Boa parte do dinheiro roubado durante a
ditadura estava escondido em 125 contas secretas nos EUA. Em 2006, quando já se
conhecia todas as atrocidades do chileno, o então deputado Jair Bolsonaro
enviou telegrama em solidariedade ao neto do ditador, que havia sido afastado
do Exército por fazer um pronunciamento no sepultamento do avô sem autorização. A paixão do presidente brasileiro por
Pinochet é grande. Quando o governo britânico prendeu o ditador, Jair Bolsonaro
considerou uma injustiça e chegou a enviar um fax para Tony Blair, então
primeiro-ministro britânico, pedindo a imediata libertação do ladrão, torturador,
terrorista e assassino chileno.
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Fujimori
Em
1991, Fujimori aplicou um autogolpe no Peru, fechando o Congresso e a Suprema
Corte do país. Quatro anos depois, o ditador peruano veio ao Brasil e não foi
recebido pelas principais autoridades brasileiras. José Sarney, presidente do
Senado, Luís Eduardo Magalhães, presidente da Câmara, e Sepúlveda Pertence,
presidente do STF, se recusaram a encontrá-lo como forma de protesto. Jair
Bolsonaro, deputado do baixo clero, lamentou a decisão dos brasileiros e
afirmou que Fujimori era um “homem digno”, que fazia um “excelente governo”.
Fujimori governou o Peru por dez anos (1990 – 2000) e comandou uma ditadura
sanguinária. Perseguiu, sequestrou, torturou e matou opositores. Em entrevista
para o New York Times em 1993, Bolsonaro disse que tem “simpatia por Fujimori”
e que a saída para o Brasil seria a “fujimorização”.
A face
mais cruel da “fujimorização” no Peru talvez tenha sido o programa de
esterilização em massa. Em 2002, a investigação de uma comissão do Congresso
peruano revelou que o governo obrigou 314 mil mulheres, a maioria indígenas, a
fazerem laqueaduras. A versão oficial era a de que o programa de esterilização
era voluntário. Só as mulheres que quisessem receberiam a cirurgia do governo.
Jair Bolsonaro, claro, comprou imediatamente a versão da ditadura peruana e
elogiou o programa em declaração na Câmara: “Pela sua coragem, quero agora
louvar o excelentíssimo Sr. Presidente do Peru, Alberto Fujimori, que implantou
em seu país, como forma de conter a explosão demográfica, a esterilização
voluntária”. No mesmo discurso, o então deputado, vejam só, culpou a Igreja
Católica — “uma das grandes responsáveis pela miséria que grassa em nosso meio”
— pelo aumento desordenado da população. Em 2009, o ídolo peruano de Bolsonaro
foi condenado a 25 anos de cadeia por corrupção e por comandar dois massacres
contra civis, usados como justificativa para combater o grupo guerrilheiro
Sendero Luminoso. Fujimori se utilizava de esquadrões paramilitares — você pode
chamar de milícias se quiser — para executar homicídios e sequestros. Esse é o
homem que Bolsonaro considerava “digno” e que fez um “excelente governo”.
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Coronel Brilhante Ustra
O
torturador Ustra talvez seja uma das grandes referências políticas do
presidente da República. Não é à toa que o livro de memórias do coronel seja
sua leitura de cabeceira. Ustra foi o líder das torturas durante o regime
militar e o único torturador condenado pela Justiça. No período em que ficou à
frente do DOI-CODI, órgão de repressão onde ficavam os presos políticos, 50
pessoas que estavam sob a custódia do Estado foram assassinadas. Ele se
destacava pelo sadismo e pela crueldade. Espancou grávida e torturou uma mãe na
frente dos seus filhos. O vereador Gilberto Natalini (PV-SP) tinha 19 anos
quando foi torturado pelo herói de Bolsonaro: “Enquanto me dava choques, Ustra
me batia com cipó e gritava”. A ex-presidente Dilma Rousseff também foi
torturada por Ustra quando tinha 19 anos. Com muito sadismo, Bolsonaro o
homenageou no famoso voto a favor do impeachment da ex-presidente: “o pavor de
Dilma Rousseff”.
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Coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel
Em
2012, o Ministério Público Federal moveu ação civil pública contra o coronel da
reserva por prisão ilícita, tortura e homicídio de quatro militantes do
Movimento de Libertação Popular (Molipo), que combatia a ditadura militar no
Tocantins.
Lício
se orgulha de ter comandado o fim da guerrilha do Araguaia e prendido o José
Genoíno, seu principal líder, que afirma ter sido torturado durante meses após
a prisão. Em 2005, quando Genoíno foi prestar depoimento na CPI do Mensalão,
Bolsonaro mais uma vez demonstrou o sadismo típico dos seus heróis: levou Lício
no plenário para acompanhar o depoimento. Políticos de todos os partidos se
revoltaram com a presença do coronel, mas Bolsonaro não se intimidou: “Ele é
meu convidado, eu paguei a passagem de avião dele. É um direito meu.”
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Grupos de extermínio e milícias
Em
2003, grupos de extermínio aterrorizavam a Bahia. Comandados em sua maioria por
policiais e ex-policiais civis e militares, os grupos assassinaram centenas de
jovens negros de periferia por supostamente terem cometidos crimes. Bolsonaro
subiu ao plenário da Câmara e fez uma defesa apaixonada dos criminosos: “Quero
dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um Parlamentar criticar os
grupos de extermínio — que enquanto o estado não tiver coragem de adotar a pena
de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não
houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio. Se depender de mim, terão
todo o meu apoio, porque no meu estado só as pessoas inocentes são dizimadas.
Na Bahia, pelas informações que tenho — lógico que são grupos ilegais —, a
marginalidade tem decrescido. Meus parabéns”!
Em
2008, na CPI das Milícias, que pediu o indiciamento de 266 pessoas suspeitas de
ligação com grupos paramilitares no Rio, Bolsonaro novamente saiu em defesa da
bandidagem: “Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e
pior do que os traficantes. Existe miliciano que não tem nada a ver com
‘gatonet’, com venda de gás. Como ele ganha R$ 850 por mês, que é quanto ganha
um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a
segurança na sua comunidade”Torturadores, homicidas, sequestradores,
estupradores, corruptos e pedófilos. Os heróis do presidente da República não
morreram de overdose, mas o inspiraram usando o estado para cometer os crimes
mais odiosos, sempre em nome do bem. (OBS.: Reportagem publicada em 03 de março
de 2019)
Fonte:
Por Orlando Calheiros e Gabriella Ventura, em Café Amargo/The Intercept

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