PF
acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil
dólares”
Uma
anotação salva no aplicativo de notas usado pelo advogado Willer Tomaz de
Souza, amigo do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), chamou a atenção
dos investigadores da Polícia Federal (PF). A nota continha um valor de “180
mil dólares” (R$ 908 mil, na cotação atual) atrelado às palavras
“Corregedoria”, “Agosto/21” e ao nome Paulo Maurício Fortunato.
Naquele
mesmo mês, Paulo Fortunato havia deixado o comando do Departamento de Operações
de Inteligência (DOINT) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do governo
de Jair Bolsonaro, em um período de atividade da chamada “Abin Paralela”, como
ficou conhecido o grupo que fazia uso, principalmente, do DOINT para comandar
buscas contra adversários políticos, e até mesmo aliados, de Jair Bolsonaro
(PL) por meio do software israelense de espionagem First Mile – o que a PF
classificou como “organização criminosa”.
Ao
resumir as acusações contra Paulo Fortunato, o relatório final da PF no caso
“Abin Paralela” aponta que “o DOINT, sob sua direção [Fortunato], era a unidade
central para a execução de buscas no sistema First Mile”, com “uso da estrutura
para fins políticos e a perseguição de servidores”. A PF apontou que Fortunato
teria sido “a autoridade demandante e o principal gestor da aquisição do
sistema First Mile” em 26 de dezembro de 2018, nos últimos dias de governo
Michel Temer (MDB) – imputação negada pela defesa de Fortunato, segundo apurado
pela Agência Pública.
Para os
investigadores, o ex-diretor da Abin “omitiu-se dolosamente no seu dever de
implementar controles efetivos sobre o uso do First Mile e evitar a execução de
ações clandestinas no DOINT. Sua omissão foi crucial para a continuidade das
atividades clandestinas” e que “havia conhecimento, desde a origem, da ‘real
natureza’ e das ‘características intrusivas’ da ferramenta, que permitiam a
localização de dispositivos móveis sem autorização judicial por meio de
interceptação de sinais, explorando vulnerabilidades do sistema de telefonia
nacional”.
Segundo
a PF, o DOINT “era o principal demandante e utilizador da ferramenta para
monitorar alvos de interesse da ORCRIM [organização criminosa], incluindo
políticos, jornalistas, advogados e servidores públicos, muitas vezes sem
amparo em investigações formais ou finalidades institucionais legítimas”. Como
já se sabe hoje, um dos alvos foi a então repórter da Agência Pública Alice
Maciel.
Em
agosto de 2021, o oficial de inteligência deixou a chefia do DOINT,
oficialmente pedindo aposentadoria da Abin, mas retornou para o órgão de
inteligência no atual governo Lula (PT), após a posse do atual diretor da
agência, Luiz Fernando Corrêa. Fortunato passou a comandar a Secretaria de
Planejamento e Gestão (SPG), setor responsável por aquisições de ferramentas e
programas – como o First Mile – onde permaneceu até 20 de outubro de 2023. O
oficial de carreira da Abin foi alvo de busca e apreensão da PF e foi afastado
do cargo por suspeita de envolvimento nas atividades ilegais do órgão durante o
governo Bolsonaro – como reportado pela Pública à época.
Em
2025, Fortunato foi indiciado pela PF por seu suposto envolvimento com a Abin
Paralela, pelos crimes de organização criminosa, realizar interceptação de
comunicações sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei,
peculato, prevaricação de forma continuada e violação de sigilo funcional. Ele
foi desligado oficialmente do governo somente em 9 de janeiro deste ano, com a
conclusão do processo administrativo disciplinar contra ele por parte da
Controladoria-Geral da União (CGU).
<><>
O que dizem Paulo Fortunato e Willer Tomaz
O
advogado responsável pela defesa do ex-diretor da Abin, Oscar Luís de Morais,
disse à Pública que a decisão da CGU foi “protocolar”, pois referia-se a um
processo de exoneração de cargo em comissão na Abin. “O próprio senhor Paulo
Maurício Fortunato pediu seu afastamento do órgão após a operação da Polícia
Federal em outubro de 2023, e à época ele já estava aposentado, após 38 anos de
serviço público sem qualquer registro de punição disciplinar durante sua
carreira”, disse, acrescentando que ele é inocente no caso Abin Paralela e que
seus atos à frente do DOINT se respaldam em um parecer técnico elaborado pelo
próprio órgão de inteligência à época.
“Não
tem nenhum ato que implique ele a não ser os atos de ofício, determinados por
seus superiores naquele período”, afirmou. Além disso, a defesa alega que o
ex-diretor da Abin “não conhece, nem tem qualquer relação com os senhores
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro” e desconhece qualquer contato do ex-diretor da
Abin com o escritório de Willer Tomaz.
O
advogado do ex-diretor da Abin nega o recebimento de quaisquer recursos de
Willer Tomaz por seu cliente e informa que os US$ 171,8 mil [R$ 868 mil, em
cotação da época] apreendidos pela PF durante as investigações do caso Abin
Paralela, ainda em 2023, seriam fruto do trabalho do oficial de inteligência
como adido militar na Argentina. “Foi o próprio senhor Paulo Maurício Fortunato
quem mostrou aos investigadores o cofre onde os valores estavam guardados,
tendo justificado a posse dos dólares e inclusive aberto, espontaneamente, seus
sigilos bancário e fiscal para as autoridades”, afirmou o advogado Oscar
Morais.
“A
suspeita levantada pela Polícia Federal acerca de um suposto recebimento
indevido de valores provenientes de Willer Tomaz exige uma análise
particularmente criteriosa, sobretudo quanto à existência de provas concretas
que demonstrem a origem, a natureza e a finalidade de eventual transferência de
recursos. Não se pode transformar uma suspeita em afirmação de responsabilidade
sem que existam elementos probatórios suficientes para sustentá-la”, afirmou.
Já
Willer Tomaz respondeu à Pública por meio de nota enviada por sua assessoria.
“A anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em
2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para
avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de
corregedoria a que ele respondia”.
“O
advogado [Willer] não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato.
Não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer
natureza. Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a
Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o
resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício
elementar da advocacia”, segundo a nota enviada pela assessoria do advogado.
Fonte:
Por Caio de Freitas, na Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário