terça-feira, 27 de outubro de 2026

Austrália estava otimista em relação às terras raras de Jaén, mas ainda tem vários obstáculos pela frente

A busca, cada vez mais intensa, por terras raras e minerais críticos para a indústria tecnológica levou uma empresa australiana ao distrito mineiro de Linares-La Carolina, em Jaén. O plano era investigar uma área de cerca de 86 quilômetros quadrados em busca de minerais — como zircônio, háfnio e outras terras raras — que impulsionam tecnologias como baterias, veículos elétricos e a transição energética.

Contudo, a dependência de países como a China e a escassez desses materiais transformaram esse crescimento em um gargalo. Um ano após seus planos de pesquisa terem esbarrado em restrições devido ao risco de incêndios na Andaluzia, o projeto Orión deu um passo importante: a empresa apresentou uma primeira estimativa dos recursos minerais que a região poderia conter, além de um estudo preliminar sobre sua possível exploração.

Os cálculos da empresa apontam para cerca de 60 milhões de toneladas de matérias-primas críticas, incluindo terras raras, titânio, zircônio e háfnio. O projeto abrange uma superfície de aproximadamente 232 quilômetros quadrados; no entanto, esse número refere-se à área total sob investigação, e não a uma jazida confirmada em toda a sua extensão.

A estimativa de recursos baseia-se em trabalhos realizados até o momento em uma pequena parte desse território, o que significa que ainda há muito a ser pesquisado antes de se conhecer o potencial real da iniciativa.

Até agora, o norte de Jaén não conta com a exploração desse tipo de mineral em escala industrial. Contudo, o projeto Orión já apresenta uma dimensão econômica mais concreta: a Osmond Resources estima que uma eventual implementação exigiria um investimento inicial de cerca de 270 milhões de euros (aproximadamente R$ 1,5 bilhão) e poderia gerar aproximadamente 460 empregos diretos e 1.500 indiretos.

Vale ressaltar, porém, que se trata de previsões da própria empresa — não de compromissos de investimento ou vagas de emprego garantidas —, e que a viabilidade da futura mina depende da confirmação por meio dos estudos que ainda faltam ser concluídos.

<><> O risco de incêndio em relação às minas de Jaén

O avanço do projeto permitiu a transição da fase inicial de prospecção mineral para um cenário preliminar de como poderia funcionar uma futura operação de mineração. A Osmond estuda uma mina subterrânea e uma planta de processamento modular, capaz de tratar cerca de dois milhões de toneladas por ano.

Em um horizonte de 20 anos, o cenário proposto equivaleria a cerca de 40 milhões de toneladas processadas; contudo, a empresa ainda precisa realizar mais estudos para determinar a viabilidade do empreendimento.

A companhia já obteve uma Autorização Ambiental Unificada favorável para a licença de pesquisa do projeto Orión e recebeu uma concessão provisória de 250.000 euros do governo (cerca de R$ 1,4 milhão) para dar continuidade à exploração dos recursos minerais.

Esses avanços não significam que a mina tenha autorização para iniciar suas operações: ainda restam estudos técnicos, econômicos e ambientais a serem concluídos, além dos trâmites necessários para o desenvolvimento de uma operação de mineração.

O problema é que, mesmo superada essa etapa fundamental, as atividades nessas áreas envolvem o uso de materiais e maquinários inflamáveis. Somados aos resíduos — como pneus, óleos e outros elementos típicos desse tipo de trabalho —, esses fatores criam o risco de alimentar incêndios quando o calor retornar no próximo verão.

Em outras palavras, a empresa australiana Osmond Resources terá de aderir aos planos de autoproteção da região para evitar possíveis acidentes. Na prática, isso implica uma série de medidas — como a instalação de extintores, a adoção de protocolos de parada de emergência, a criação de aceiros (barreiras contra o fogo), vigilância rigorosa, entre outras — que podem comprometer a exploração mineral, ao afetar diretamente a sua rentabilidade.

<><> A justificativa do projeto

Um dos grandes atrativos do empreendimento é a possibilidade de reduzir a dependência europeia em relação a matérias-primas estratégicas provenientes do exterior. A indústria necessita desses materiais para diversas aplicações tecnológicas e industriais, ao passo que grande parte das cadeias de suprimentos globais encontra-se concentrada em um número reduzido de países.

Nesse contexto, a Orión aspira a tornar-se uma fonte adicional de terras raras, titânio, zircônio e háfnio para o mercado europeu.

No entanto, os números apresentados pela Osmond Resources descrevem, por ora, apenas um cenário preliminar. Os cerca de 60 milhões de toneladas identificados também não equivalem a reservas que possam ser extraídas de forma rentável.

As próximas sondagens e os estudos técnicos, econômicos e ambientais determinarão se o projeto consegue superar a distância entre o potencial geológico de Jaén e uma exploração mineral real.

<><> Região espanhola parece promissora para mineração de terras raras, mas fenômeno pode não dar em nada

Em Aldeaquemada, na Espanha, uma empresa australiana acabou de extrair um testemunho de sondagem e anunciar que se trata de “uma área de alta qualidade” para minerar terras raras.

A empresa em questão é a Osmond Resources. No furo SOR-08, a empresa encontrou mais mineral do que o previsto ao norte da província. Trata-se de um projeto que cobre 756 unidades mineiras entre Aldeaquemada e Santisteban del Puerto e busca “titânio, zircônio, háfnio e terras raras” presos em quartzitos que, há centenas de milhões de anos, eram areia de praia.

O anúncio tem uma pegadinha, no entanto. O que foi divulgado é uma confirmação “durante” a perfuração. As análises de laboratório (as que realmente importam) levarão semanas. Mas, na prática, isso nem é o ponto central. Basta uma rápida busca na internet para confirmar que toda a região de Jaén está sendo perfurada com entusiasmo há meses.

E de onde vem todo esse entusiasmo? Em princípio, de três fatores relativamente independentes. O primeiro é geopolítico: em 2024, a União Europeia acelerou a estratégia de “soberania mineral” e aprovou um regulamento de matérias-primas críticas. A ideia era garantir que a extração, o processamento e a reciclagem de matérias-primas estratégicas realizados na Europa cubram, respectivamente, 10%, 40% e 25% da demanda da UE.

Um projeto como o Orion, voltado para terras raras, é o tipo de iniciativa que, na Europa, soa como algo promissor.

Há apenas alguns meses, o governo espanhol aprovou um plano de matérias-primas de 414 milhões de euros que inclui a maior campanha de prospecção mineral na Espanha em mais de meio século. Nele, a Sara Aagesen afirmou que “com toda certeza” surgirão terras raras no país. Esse é o segundo fator.

O terceiro é que empresas como a Osmond Resources vivem dos depósitos, mas, sobretudo, vivem do ciclo de notícias. No fim das contas, sua capitalização de mercado depende mais da “batalha midiática” do que dos resultados finais. Em um terreno tão complexo quanto a mineração, o fracasso é quase dado como certo.

E por que isso importa? Porque, por trás de todo esse ruído, há um conjunto de pequenos municípios envelhecidos aos quais se vende um novo futuro. O prefeito de Aldeaquemada não demorou a celebrar os resultados da Osmond como uma forma de “gerar emprego e riqueza”.

Mas a realidade é que a maioria dos projetos de exploração nunca chega de fato à produção. A transição energética serviu de justificativa para voltar a olhar para o subsolo, mas o setor mudou tanto que, para a imensa maioria dos atores, começa a ser mais útil a expectativa do que a realidade. E isso, na Espanha esvaziada, é um problema existencial.

 

Fonte: Xataka Brasil

 

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