A
virada de Lula no segundo turno é a mais importante eleição desde a Nova
República
A
vitória do presidente Lula na eleição deste ano entrará para a história como um
dos “maiores atos políticos” desde a Campanha das Diretas Já, nos anos 1980.
Trata-se de “a eleição mais importante da Nova República”, diz Michelangelo
Torres, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP),
na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por
email. A defesa da democracia, avalia o entrevistado, impulsionou a virada
histórica no segundo turno. “A maioria do eleitorado compreendeu o perigo
representado pela candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O nome
de Flávio está associado a relações com integrantes de milícias criminosas, a
vínculos políticos com pessoas envolvidas em atividades criminosas e a um
projeto golpista que não conseguiu se consolidar no país”, sublinha.
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Eis a entrevista.
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O que explica a virada do presidente Lula no segundo
turno?
Michelangelo
Torres – O que vimos nas eleições de 2026 foi um cenário de intensa disputa,
incertezas e enfrentamentos. O resultado do primeiro turno foi desfavorável a
Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente da República, que agora conquistou
a reeleição. Contrariando a maioria das pesquisas de opinião pública, o
candidato petista alcançou 45,16% dos votos válidos, enquanto o candidato de
extrema-direita, Flávio Bolsonaro, obteve 47,03%. Uma diferença de 1,87 ponto
percentual, equivalente a 2.224.965 votos. Assim, Lula chegou ao segundo turno
em desvantagem em relação ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. No primeiro
turno, é preciso considerar também que 21,08% do eleitorado não compareceu às
urnas, o equivalente a cerca de 33 milhões de pessoas. Além disso, os votos
brancos e nulos somaram quase 5% do total. Lula tinha, portanto, o desafio não
apenas de conquistar votos de eleitores que haviam optado por outras
candidaturas, mas também de disputar o apoio daqueles que não compareceram às
urnas ou anularam seus votos no primeiro turno. Soma-se a isso o universo dos
chamados votos flutuantes, estimado em 7,8% do eleitorado e composto, em
particular, por pessoas que haviam votado em candidaturas derrotadas no
primeiro turno, especialmente Cury, Renan e Caiado. A disputa por esses votos,
assim como o esforço de convencimento de quem se absteve ou anulou o voto, foi
decisiva para definir o desfecho eleitoral. Contudo, o que vivemos nas três
semanas seguintes foi um momento histórico da política brasileira.
Desenrolou-se uma intensa campanha eleitoral, que foi muito além do petismo e
de seus bastidores de articulação. Se é verdade que a campanha de Lula mudou de
rumo no segundo turno, passando de uma campanha mais fria para uma disputa
política mais acirrada, com diálogo mais direto com a população e enfrentamento
mais contundente de seu adversário, também — e isso é essencial — vimos uma
mobilização extraordinária nas ruas e nas redes.
Grandes
atos de massa foram mobilizados em diversas cidades e estados brasileiros para
reeleger Lula ou, mais precisamente, para barrar a possibilidade de eleição de
Flávio Bolsonaro e tudo o que seu projeto político neofascista representa. Os
atos pela virada de Lula tomaram as ruas do país. Só nas duas últimas semanas,
tivemos, possivelmente, os maiores atos políticos da história brasileira desde,
pelo menos, a campanha das Diretas Já, na década de 1980. Para se ter uma ideia
da dimensão dessa mobilização, apenas na Avenida Paulista reuniram-se cerca de
1 milhão de pessoas, e, no sábado que antecedeu as eleições, o público também
ultrapassou a marca de 1 milhão. Somados aos atos de massa, o ativismo digital
e a intensa disputa nas redes sociais também assumiram papel central na
campanha. Travou-se uma verdadeira batalha permanente contra a desinformação e
as fake news bolsonaristas, em meio a denúncias de assimetrias no alcance dos
conteúdos, restrições à circulação de publicações favoráveis à candidatura de
Lula e intervenções judiciais que afetaram a dinâmica da disputa eleitoral.
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Disputa pela opinião pública
Nesse
cenário, ganhou projeção o chamado “exército do Lula”, impulsionado, entre
outros, pela atuação do deputado federal André Janones, que convocou militantes
e apoiadores a romper a bolha da esquerda e disputar diretamente a opinião
pública nas plataformas digitais. A dimensão alcançada por essa mobilização,
com milhões de seguidores em seus canais, evidenciou a importância estratégica
da comunicação digital na disputa política brasileira. O canal atingiu a marca
de 10 milhões de seguidores, apesar das intervenções da Justiça Eleitoral que
afetaram a mobilização digital pró-Lula. Outra modalidade de militância, em
parte relegada a segundo plano por setores da esquerda brasileira nos últimos
anos, voltou a ganhar força: o trabalho de base. O contato olho no olho, o
diálogo direto dos ativistas — para além dos militantes petistas — com a
população, a escuta atenta e a conversa franca com os trabalhadores nas ruas,
nas panfletagens e nas atividades de mobilização imprimiram um novo tom
militante à campanha de Lula. Mais do que a disputa nas redes sociais e nos
espaços institucionais, procurou-se recuperar a presença cotidiana junto à
classe trabalhadora, compreender suas inquietações, dialogar com suas
experiências concretas e reconstruir laços de confiança e solidariedade. Essa
disposição para a mobilização demonstrou que existe energia social para
enfrentar uma conjuntura adversa e disputar os rumos políticos do país em
defesa da democracia.
Em
outras palavras, o que impulsionou a virada no segundo turno não foi apenas o
programa político ou o legado de Lula, mas, sobretudo, a unidade em defesa da
democracia. A maioria do eleitorado compreendeu o perigo representado pela
candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O nome de Flávio está
associado a relações com integrantes de milícias criminosas, a vínculos
políticos com pessoas envolvidas em atividades criminosas e a um projeto
golpista que não conseguiu se consolidar no país. Flávio Bolsonaro se
apresentou como o principal representante do bolsonarismo, uma corrente de
extrema-direita marcada pelo autoritarismo e pela oposição aos direitos
humanos, aos direitos trabalhistas e às liberdades democráticas. Trata-se de um
campo político que ameaça conquistas históricas da sociedade brasileira, cuja
agenda coloca em questão direitos fundamentais, garantias democráticas e a
própria convivência política plural.
·
Que retrato de Brasil se revela a partir do resultado das
urnas?
Michelangelo
Torres – Esta talvez tenha sido a eleição mais importante da Nova República. A
chapa Lula-Alckmin, da coligação Brasil Pronto para Mais, formada pela
Federação Brasil da Esperança (Fé Brasil), composta por PT, PCdoB e PV, além de
PSB, PDT e Federação PSOL-Rede, obteve 51,77% dos votos válidos no segundo
turno, reelegendo Lula à Presidência da República. A chapa de Flávio Bolsonaro
(PL), com Alfredo Gaspar (PL) como candidato a vice-presidente, recebeu 48,23%
dos votos válidos. Foi um resultado eleitoral extremamente acirrado, com uma
diferença de apenas 3,54 pontos percentuais. Foi com emoção!
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Brasil socialmente fraturado e politicamente polarizado
Apesar
da importante vitória de Lula, o resultado revela um Brasil socialmente
fraturado e politicamente polarizado. Engana-se a imprensa comercial ao
vislumbrar qualquer possibilidade de “pacificação” entre forças políticas
antagônicas no cenário brasileiro. O bolsonarismo foi derrotado na disputa
presidencial, mas poderá sair politicamente fortalecido para 2027. O primeiro
turno já havia evidenciado o avanço das forças de direita e extrema-direita e a
configuração de um Parlamento ainda mais conservador e reacionário. O
desempenho eleitoral do PL e de seus aliados aponta para um cenário
particularmente adverso a partir de 2027. A esquerda acumula derrotas políticas
importantes, terá sua capacidade de atuação institucional ainda mais limitada e
precisará enfrentar uma correlação de forças desfavorável. Portanto, apesar da
expressiva vitória eleitoral de Lula na disputa presidencial, o horizonte será
de intensa disputa política e de persistente polarização.
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Bolsonarismo
Vale
lembrar o cenário posterior às eleições de 2014. Embora Dilma Rousseff tenha
sido reeleita, a margem de votos foi estreita, e seu governo passou a enfrentar
um Congresso Nacional cada vez mais hostil, além de uma oposição de direita
fortemente mobilizada. Foi nesse contexto que a nova direita reacionária ganhou
amplitude, deslocando o PSDB, representante da direita liberal tradicional, da
posição de principal força de oposição ao lulopetismo. O desfecho foi o golpe
parlamentar que impôs o impeachment da presidenta. Esse perigo volta a se
colocar como uma possibilidade que não pode ser subestimada. O bolsonarismo
representa hoje um bloco político cujo núcleo duro constitui uma ameaça às
liberdades democráticas, aos direitos sociais consagrados pela Constituição
Federal de 1988 e ao conjunto das conquistas históricas da sociedade
brasileira. Não nos enganemos quanto aos seus objetivos: o que está em jogo é
um projeto de subversão da ordem democrática construída ao longo da Nova
República. A derrota eleitoral na disputa presidencial não significa, portanto,
o fim do bolsonarismo, tampouco o esvaziamento de sua capacidade de mobilização
política e social.
·
Considerando a perspectiva histórica e a conjuntura
nacional e internacional, qual é o significado político, econômico e social do
quarto mandato do presidente Lula?
Michelangelo
Torres – Para o Brasil, a vitória eleitoral de Lula tem um significado imenso,
sobretudo para a esquerda brasileira. Entretanto, os desafios também serão
enormes. O resultado eleitoral brasileiro deverá influenciar os rumos políticos
da América Latina e, em particular, a correlação de forças na disputa entre
projetos de soberania nacional — ainda que submetidos aos constrangimentos
impostos pelo capital financeiro — e a ofensiva imperialista norte-americana e
ultraconservadora na região nos próximos anos. Esse cenário ganha ainda mais
relevância diante da crescente ofensiva do governo de Donald Trump sobre a
América Latina. É nesse contexto que a eleição brasileira adquire uma dimensão
que ultrapassa as fronteiras nacionais, em razão da posição estratégica do
Brasil, de seu peso econômico e demográfico e de sua capacidade de projeção
política no continente e no mercado mundial. Afinal, a América Latina está no
centro de disputas geopolíticas contemporâneas que envolvem interesses
econômicos, estratégicos e políticos de grandes potências. O quarto mandato de
Lula representa, assim, uma oportunidade importante para a defesa da
democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional, além de abrir
possibilidades para a reconstrução de políticas públicas voltadas à redução das
desigualdades. Contudo, a vitória eleitoral, por si só, não garante avanços
nessa direção. Será necessário enfrentar os interesses do capital financeiro,
as pressões do mercado, as limitações impostas pela correlação de forças no
Congresso Nacional e a atuação de uma direita que continuará mobilizada. E
neste ponto, certamente teremos uma monumental oposição, somada às pressões do
capital e da grande mídia corporativa.
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Melhorias concretas
Do
ponto de vista econômico e social, o desafio será transformar a vitória nas
urnas em melhorias concretas nas condições de vida da classe trabalhadora, com
geração de empregos de qualidade, valorização dos salários, ampliação dos
direitos sociais, fortalecimento dos serviços públicos e redução das
desigualdades de classe, raça e gênero. Do ponto de vista político, será
fundamental ampliar a participação popular, fortalecer as organizações da
classe trabalhadora e reconstruir vínculos entre a esquerda e os setores
populares. A questão talvez seja: o governo de ampla aliança encabeçado por
Lula estará disposto a isso? Em perspectiva histórica, portanto, o quarto
mandato de Lula não deve ser compreendido apenas como a continuidade de um
governo, mas como parte de uma disputa mais ampla pelos rumos do Brasil e da
América Latina. A vitória abre uma possibilidade concreta de resistência à
ofensiva da extrema-direita e ao imperialismo norte-americano, mas o desfecho
dessa disputa dependerá da capacidade de mobilização social, da organização
política e da disposição para enfrentar os interesses que se opõem à ampliação
da democracia e dos direitos sociais. Assim, respondendo diretamente à questão
sobre o significado desta eleição, estamos diante de uma vitória eleitoral que
pode representar uma conquista política de grande importância em uma conjuntura
profundamente adversa. Trata-se de uma vitória capaz de conter, ao menos
temporariamente, o avanço das forças reacionárias no plano federal. Uma
conquista expressiva em meio a tantas derrotas, um suspiro necessário em um
ambiente político sufocante.
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Riscos de desestabilização e crise do STF
Mas não
nos enganemos: as tentativas de bloquear, desestabilizar e até mesmo
inviabilizar o governo Lula serão intensas. Esse cenário se torna ainda mais
preocupante diante da crise institucional envolvendo o STF, da composição
conservadora do próximo Congresso Nacional, especialmente do Senado, e do
expressivo número de governadores alinhados à direita e à extrema-direita.
Embora tenham perdido a Presidência da República, os bolsonaristas continuarão
existindo e preservando considerável força política, institucional e social,
inclusive sua capacidade de mobilização de massas. Não há motivos para
acreditar que aceitarão passivamente a derrota. Ainda são incertos os próximos
passos de Flávio Bolsonaro e de seu grupo político, mas uma coisa é certa: a
oposição de extrema-direita continuará atuante, buscando ampliar sua influência
e recompor suas forças. Não se podem descartar novas tentativas de ruptura
institucional, assim como articulações com setores do Centrão para bloquear
iniciativas, desestabilizar e inviabilizar o governo Lula.
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Desafios
Contudo,
os principais desafios da esquerda brasileira não se limitam a resistir à
ofensiva da direita. Será necessário enfrentar também as contradições e os
limites da própria política econômica do governo. Um dos pontos centrais dessa
disputa será o aprofundamento do ajuste fiscal, com possíveis consequências
para os investimentos públicos, os direitos sociais e as condições de vida da
classe trabalhadora. Nesse horizonte, ganham particular relevância as propostas
de reforma administrativa e previdenciária, defendidas por setores que integram
a própria base governista ou gravitam em torno dela. O desafio da esquerda,
portanto, será duplo: barrar a ofensiva reacionária e, ao mesmo tempo, disputar
os rumos do governo, enfrentando as políticas que subordinam os direitos
sociais e as necessidades da população aos imperativos da austeridade fiscal e
dos interesses do capital. A vitória eleitoral abre uma possibilidade
importante, mas sua transformação em conquistas efetivas dependerá da
capacidade de organização, mobilização e pressão independente da classe
trabalhadora e dos movimentos populares.
·
As mobilizações sociais que ocorreram no Brasil antes do
segundo turno tendem a ganhar um novo impulso a partir do resultado das
eleições ou foram manifestações pontuais, restritas ao contexto eleitoral?
Michelangelo
Torres – Conforme mencionei, as manifestações foram extraordinárias. Vivemos
uma verdadeira jornada de mobilização e ativismo em defesa da democracia.
Estiveram ombro a ombro a base social do lulopetismo, praticamente todo o campo
político da esquerda partidária, os movimentos populares, a juventude, as
mulheres, setores independentes e uma ampla aliança de setores sociais e
políticos comprometidos com a tarefa de barrar o bolsonarismo nas urnas. Trata-se,
sem dúvida, de uma das expressões mais significativas da vanguarda política
brasileira na conjuntura atual. Mas seria um equívoco restringir essas
mobilizações à vanguarda militante: elas tiveram, de fato, um caráter de
massas, revelando uma expressiva capacidade de mobilização social em um momento
decisivo da vida política nacional. Há um aprendizado importante nessa
experiência. Poucas vezes, na história recente da esquerda brasileira,
diferentes tradições políticas, correntes de pensamento e organizações
estiveram tão próximas, ombro a ombro, colocando momentaneamente suas
divergências em segundo plano para levantar uma bandeira comum: a defesa da
democracia. Essa unidade não eliminou as diferenças, tampouco as contradições
existentes entre esses setores, mas demonstrou que é possível construir
convergências políticas amplas diante de ameaças históricas aos direitos e às
liberdades democráticas.
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Energia social
A
questão central, agora, é saber se essa energia social conseguirá ultrapassar
os limites da conjuntura eleitoral. O grande desafio será preservar e ampliar a
capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora, dos movimentos
populares e da juventude, transformando a unidade construída em torno da defesa
da democracia em uma força política duradoura. Lula governará sob cerco. Mais
do que nunca estará na hora de colocarmos nosso bloco nas ruas e pressionar a
conjuntura em torno de nossas pautas – com independência de classe. Essas
mobilizações poderão constituir um importante ponto de apoio para resistir à
ofensiva da extrema-direita, reorganizar as forças progressistas e reconstruir
alternativas políticas capazes de enfrentar os problemas concretos vividos
pelos trabalhadores. Mais do que isso, poderão contribuir para recolocar no
horizonte a possibilidade de transformações sociais profundas. Entretanto, nada
disso acontecerá espontaneamente. Será necessário investir no trabalho de base,
fortalecer as organizações populares e sindicais, ampliar o diálogo com os
setores da classe trabalhadora que permanecem distantes da esquerda e construir
espaços permanentes de participação e mobilização. A unidade eleitoral foi
fundamental para derrotar a extrema-direita na disputa presidencial, mas a
construção de uma alternativa política consequente exige organização,
enraizamento social e capacidade de enfrentar também os limites das políticas
econômicas e sociais do próprio governo.
Portanto,
não considero que essas manifestações tenham sido meramente pontuais. Elas
revelaram uma potencialidade política real. A questão decisiva é saber se
teremos capacidade de transformar essa experiência extraordinária de
mobilização em organização permanente, consciência política e força social para
disputar os rumos do país. É nesse terreno que se decidirá se a energia das
ruas será apenas uma lembrança de uma campanha eleitoral vitoriosa ou o ponto
de partida para novas conquistas democráticas e sociais.
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Que perspectivas se desenham para o Brasil nos próximos
anos a partir do quarto mandato do presidente Lula e a nova composição do
Congresso Nacional?
Michelangelo
Torres – A perspectiva é de um governo Lula submetido a fortes contradições e
pressões políticas. De um lado, deverá continuar sinalizando ao mercado
financeiro seu compromisso com o ajuste fiscal e poderá avançar em pautas de
orientação neoliberal. De outro, será pressionado por sua própria base social,
que o elegeu e que tem demandas concretas por melhores condições de vida,
valorização dos salários, ampliação dos direitos sociais, fortalecimento dos
serviços públicos e políticas voltadas aos interesses da classe trabalhadora. Será,
como mencionei, um governo sob cerco político. A composição conservadora do
Congresso Nacional, as barganhas com setores do Centrão, a amplitude das
alianças que sustentam o governo e a pressão de uma oposição de extrema-direita
fortalecida eleitoralmente, mobilizada e disposta a radicalizar o
enfrentamento, tendem a limitar sua margem de ação. Há o risco de que o governo
seja progressivamente condicionado pelos interesses desses setores,
comprometendo a implementação de medidas que correspondam às expectativas de
sua base social. O cenário, portanto, será de intensa disputa. A questão
fundamental é saber até que ponto o governo estará disposto a enfrentar os
interesses econômicos e políticos que se opõem à ampliação dos direitos sociais
e à redução das desigualdades. Ao mesmo tempo, caberá à esquerda, aos
sindicatos e aos movimentos populares preservar sua autonomia política, manter
a capacidade de mobilização e pressionar por mudanças efetivas.
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Ampliação dos direitos sociais
A
vitória eleitoral de Lula abre possibilidades importantes, mas não resolve, por
si só, os impasses estruturais do país. Muito longe disso… O rumo dos próximos
anos dependerá não apenas das decisões do governo e da correlação de forças no
Congresso, mas também da capacidade de organização da classe trabalhadora e dos
setores populares para intervir nos rumos da política nacional. Sem pressão
social organizada, há o risco de que a defesa da governabilidade se sobreponha
às transformações sociais que justificaram a mobilização de amplos setores da
sociedade para barrar a extrema-direita nas urnas. Neste momento, estamos todos
embriagados pela felicidade da reeleição de Lula — ou, mais precisamente, pela
derrota eleitoral do bolsonarismo no segundo turno. É compreensível. Trata-se
de uma vitória política de enorme importância, sobretudo diante da ameaça que a
extrema-direita representa para a democracia e os direitos sociais. Mas não
tenhamos ilusões: a euforia da vitória não pode obscurecer os desafios que temos
pela frente. Um governo reformista, com margens estreitas para implementar
reformas progressistas, de orientação social-liberal e estruturado em torno da
conciliação de classes, terá enormes dificuldades para se sustentar e avançar
no próximo período, que será ainda mais adverso. As contradições entre os
compromissos assumidos com o mercado financeiro, as pressões da direita e do
Centrão e as demandas concretas da classe trabalhadora tendem a se aprofundar.
A derrota eleitoral do bolsonarismo não elimina essas contradições, tampouco
garante, por si só, avanços sociais. Será preciso transformar a vitória nas
urnas em força política organizada, capaz de disputar os rumos do governo e
enfrentar os interesses que se opõem à ampliação dos direitos sociais.
·
Deseja acrescentar algo?
Michelangelo
Torres – É fundamental reconhecer a dimensão e o significado histórico desta
vitória eleitoral. Nestas eleições, não estava em jogo apenas a reeleição de
Lula, mas também a derrota de um projeto de extrema-direita autoritário,
antidemocrático e hostil aos direitos sociais. Barrar o bolsonarismo nas urnas
foi uma conquista de enorme importância para a democracia brasileira e para a
classe trabalhadora. Temos, portanto, razões de sobra para celebrar. Mas
celebrar a vitória não significa alimentar ilusões. Precisamos ter clareza
tanto da conjuntura adversa que se desenha quanto dos limites do próprio
governo Lula, assentado na conciliação de classes e em alianças com setores
cujos interesses são, muitas vezes, antagônicos aos dos trabalhadores. A
extrema-direita continuará atuante, com força social e institucional, enquanto
as pressões do mercado financeiro e os compromissos com a governabilidade
poderão restringir o alcance das mudanças prometidas. O desafio da esquerda,
portanto, é saber reconhecer a importância dessa vitória sem renunciar à sua
independência política. Precisamos defender a democracia, combater a
extrema-direita e, simultaneamente, fortalecer a organização da classe
trabalhadora, os sindicatos e os movimentos populares, mantendo a capacidade de
mobilização e de pressão sobre o governo. Afinal, a vitória eleitoral abriu uma
possibilidade; transformá-la em conquistas sociais efetivas dependerá da luta
política que seremos capazes de travar a partir de agora.
Fonte:
Entrevista com Michelangelo Torres, para Luana de Oliveira e Patricia Fachin,
em IHU

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