PF
indiciou futuro secretário de Meio Ambiente do Pará por obstruir fiscalização
ambiental
DOIS
MESES antes de ser anunciado como futuro secretário do Meio Ambiente do Pará, o
advogado Vinícius Borba foi indiciado pela PF (Polícia Federal) por incitação
ao crime, difamação contra servidores públicos federais e embaraço à
fiscalização ambiental em uma terra indígena tomada pela criação ilegal de bois
no estado.
O
relatório da PF, obtido pela Repórter Brasil, foi finalizado em 6 de agosto –
antes, portanto, de Borba ser indicado para o cargo pelo governador eleito do
Pará, Dr. Daniel (Podemos), em 9 de outubro.
A
investigação trata da reação de pecuaristas à Operação Eraha Tapiro (“levar
boi”, na língua do povo indígena Assurini). A força-tarefa foi deflagrada em
2023 por diversos órgãos do governo federal para retirar gado criado
ilegalmente na Terra Indígena Ituna-Itatá, entre os municípios de Altamira e
Senador José Porfírio.
O
relatório da corporação descreve como publicações nas redes sociais feitas por
Borba, também conhecido como “advogado do agro”, teriam estimulado a reação da
população local à força-tarefa do governo federal e atingido a reputação de
dois fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Renováveis) que coordenavam a operação.
Na
defesa apresentada à PF, Borba negou ter incitado manifestações violentas e
afirmou que buscava uma solução pacífica para a retirada voluntária dos
animais. Sustentou que suas publicações faziam parte do exercício da advocacia
e da liberdade de expressão, classificou a investigação como retaliação à sua
atuação profissional e pediu o arquivamento do caso.
Segundo
o relatório da PF, Borba publicou uma postagem atribuindo a um dos
coordenadores da segunda etapa da operação uma suposta promessa de que os
animais não seriam removidos, e associou o servidor a expressões como “extrema
má-fé”, “extremo despreparo” e “ser humano sem palavra”.
O
servidor, no entanto, disse à PF que a promessa não havia partido dele. A
análise policial aponta que a fala teria sido feita por um integrante da Força
Nacional.
As
publicações, segundo o depoimento resumido no relatório, repercutiam
imediatamente entre moradores de Altamira e Senador José Porfírio. O servidor
relatou que passou a ser chamado de “mentiroso” e de pessoa que “não tem
palavra” em grupos de mensagem de moradores locais e em redes sociais usadas
por pecuaristas com interesse na terra indígena. Também chegou a ser alvo de
comentários nas ruas de Altamira.
A
exposição comprometia a credibilidade das informações da operação e ampliava a
hostilidade contra as equipes em campo. O servidor afirmou ainda que a
exposição foi um dos fatores considerados para deixar o Pará e assumir uma
função no Amazonas.
Ainda
segundo a PF, outro analista ambiental do Ibama, que coordenava uma base
instalada dentro da terra indígena durante a operação, também foi alvo. Segundo
a investigação, Borba teria divulgado de forma fragmentada uma gravação em que
o servidor usava a palavra “bandidos”, dando a entender que ele se referia a
produtores rurais de maneira geral.
O
servidor do Ibama explicou à PF que falava dos grupos que destruíam pontes,
colocavam objetos para furar pneus e criavam obstáculos à passagem das equipes.
Relatou também que os vídeos o apresentavam como responsável por impedir o
acesso a informações e o exercício da defesa dos produtores. O que fazia,
afirmou, era exigir que os pedidos fossem formalizados pelos canais
administrativos.
O
analista afirmou ainda que a divulgação de seu nome e rosto o tornou
reconhecido na região e dificultou seus deslocamentos e o contato com
moradores. Em seu relato, as publicações teriam aumentado a hostilidade e
alimentado a resistência à retirada dos animais.
Procurada
para se manifestar em nome de Borba e de Dr. Daniel, a assessoria do governo
eleito não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.
Em
nota, o Ibama afirmou que é “inadmissível qualquer tipo de agressão à honra ou
à integridade física de servidores públicos”.
Segundo
a autarquia, a investigação da PF é “fundamental para resguardar as ações de
proteção ambiental exercidas por esses profissionais”.
<><>
O gado na terra dos isolados
A Terra
Indígena Ituna-Itatá estava sob restrição de uso para proteger indígenas
isolados. A Funai havia interditado a área em 2011 — a medida, renovada ao
longo dos anos, impedia a exploração agropecuária por particulares.
Borba
representava produtores atingidos pela operação. De acordo com o relatório,
reuniu moradores e publicou vídeos para contestar a legalidade da retirada dos
rebanhos.
A PF
analisou sete gravações divulgadas em sua conta profissional no Instagram.
Nelas, o advogado dizia que a área não era uma terra indígena e a tratava como
“pretensão indígena”.
Segundo
a análise policial, as postagens diziam que os órgãos federais pretendiam se
apropriar do patrimônio dos produtores e encaminhar os animais a “abates
clandestinos sem controle de sanidade animal”. Para os investigadores, a
repetição dessas mensagens ajudava a desacreditar a operação entre os
moradores.
Uma das
pessoas que acompanhavam esses vídeos era o agricultor Marcelo Ananias de
Sousa, preso durante a operação. Em interrogatório à PF, em 20 de outubro de
2023, ele disse que recebia pelo WhatsApp gravações de um “advogado chamado
Vinícius”, identificado pela investigação como Borba, e que elas o levaram a
entender a área como uma pretensão de terra indígena.
No
mesmo depoimento, Marcelo contou que havia comparecido, no início daquela
semana, a uma manifestação na estrada Transunião. Os participantes bloquearam a
estrada para impedir a passagem dos caminhões. Ele negou manter gado dentro da
terra indígena.
<><>
Um motorista ferido e três pontes destruídas
Em 19
de outubro de 2023, a reação à retirada do rebanho deixou um motorista ferido.
Segundo o depoimento de um agente da PF, manifestantes haviam montado uma
barricada na rota dos caminhões usados
na remoção do gado, e uma tentativa de negociar a liberação da estrada teria
fracassado. A tropa de choque da Força Nacional acabou dispersando o grupo.
Durante
a passagem dos veículos, uma pedra lançada por um manifestante atingiu um dos
motoristas na cabeça. Ele precisou ser resgatado de helicóptero e levado ao
Hospital Regional de Altamira. Uma informação policial produzida no dia
seguinte inclui a fotografia do homem ferido, com sangue no rosto e na roupa.
Enquanto
os caminhões eram carregados com o gado apreendido, três pontes foram
derrubadas, segundo o agente da PF. A destruição impediu o retorno pelo trajeto
planejado. Os policiais tiveram de procurar outra rota e verificar as condições
das pontes por onde o comboio passaria.
Foi
nesse percurso alternativo que a polícia prendeu Marcelo com um revólver e
apreendeu seu celular. No dia seguinte, a Justiça autorizou a análise do
aparelho.
A
análise do telefone, descrita no relatório final, revelou conversas sobre a
movimentação dos fiscais, a reunião de manifestantes e formas de impedir a
passagem do comboio. Integrantes do grupo discutiam bloqueios, destruição de
pontes e o uso de pedras e estilingues.
A PF
registra que não há elementos de que Borba tenha participado ou orientado a
destruição de pontes ou a execução de bloqueios. A conclusão do inquérito se
concentra no que os investigadores chamam de “contribuição moral e intelectual”
para formar e manter a resistência à fiscalização, por meio das publicações e
da mobilização dos moradores.
Uma das
gravações analisadas atribuiu a Borba a afirmação “a manifestação vai
continuar, e doa a quem doer”. A própria polícia ressalva que, isoladamente, a
frase poderia expressar apoio a um protesto pacífico. Para sustentar o
indiciamento, relaciona as publicações aos depoimentos, às reuniões com
moradores e aos obstáculos impostos à operação.
O
episódio da Ituna-Itatá já havia rendido a Borba uma multa de R$ 20,5 mil do
Ibama, por dificultar a fiscalização. O processo administrativo dessa autuação
foi incorporado ao inquérito. O indiciamento é a conclusão da investigação
policial e não equivale a uma condenação.
Como
mostrou a Repórter Brasil em reportagem publicada em 22 de outubro, Borba e seu
escritório também representaram cinco autuados em oito processos da secretaria
estadual que ele foi escolhido para comandar. Seis multas comunicadas nesses
processos equivalem a R$ 3,03 milhões pela referência de 2026 da unidade fiscal
paraense. Esses casos são distintos da autuação federal e da investigação sobre
a retirada do gado.
O
inquérito tramita na Justiça Federal de Altamira. O MPF (Ministério Público
Federal) informou que o inquérito está finalizado e não há diligências
pendentes. Os fatos ainda serão analisados pelo procurador responsável, que
avaliará o oferecimento de uma possível denúncia. O órgão também informou que
ainda não analisou a viabilidade de acordo ou de outras medidas
despenalizadoras.
Na
segunda-feira (19), Borba esteve no alto de um trio elétrico em Marabá, no
sudeste do Pará, ao lado de Flávio Bolsonaro (PL). No ato de campanha, o
candidato à Presidência prometeu, se eleito, acabar com os “entraves
ambientais”, que atribuiu a “razões ideológicas”.
Fonte:
Repórter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário