Ronaldo
Lima Lins: O estadista e o cafajeste
Há quem
acredite que a política se transformou hoje numa questão de matemática. Afinal,
não existem governos na atualidade sem economistas na equipe principal. E os
economistas, frequentemente amparados em dados estatísticos, acumulam cálculos
sobre cálculos, para chegar a duas ou três conclusões. A discussão lembra, no
teatro, o confronto entre as correntes de Stanislavski e Brecht, uma imbuída do
emprego das emoções e a segunda, sem dispensá-las, conservando-se atenta às
possibilidades da razão. Isto por que, pensou o autor de Mãe coragem, o ator
trabalha com públicos variados e tem de levá-los em conta. Diante de operários,
poderá usar dicas, referências a situações que os mobilizem e os faça entender
questões da própria vida. Não se trata aqui de desprezar emoções, mas de saber
utilizá-las à luz do espetáculo.
Na
política, igualmente, fatores ligados à razão e à emoção se conjugam numa
espécie de todo às vezes confuso, sobretudo na modernidade ocidental. Depois do
Iluminismo, por força de tecnologias sofisticadas, quase vivemos dominados,
senão pelos algoritmos, sem dúvida pela matemática no sentido amplo da palavra.
Distorções daí provenientes explicam exageros de comportamento infiltrando-se
nos coordenadores de campanha a ponto de modelar candidatos e quase
transformá-los em robôs com atitudes pré-determinadas. Foi o que se viu na
postura de Flávio Bolsonaro, confrontado a Lula num de seus debates. Instruído por Marçal (uma espécie de pária,
condenado à inelegibilidade), o 01 surgiu feito marionete acionada à distância
e programada para agredir, debochar e desrespeitar o adversário. Esperava que,
assim agindo, derrotaria o oponente. Não derrotou. Emoções, ao contrário do que
imaginam, conduzem o espírito humano. Este age segundo impulsos de alegrias,
tristezas, melancolia etc. Quem assiste à cena se alegra, se entristece, chora
e comemora com ele, motivado pelas agruras que por ventura sofreu. No combate
entre o estadista – Lula – e o cafajeste – o filhote do Jair, não resta dúvida
que o primeiro bateu de dez a zero.
Nas
circunstâncias da existência, inteligência presta bons serviços e burrice
atrapalha. Com a vitória na mão, reviravoltas acontecem exatamente por causa do
brilhantismo de uns e da falta dele em outros. Estamos numa época marcada pelo
grotesco e pela deselegância elevados à categoria de sucesso. Tem gente que faz
de tais fatores ingredientes de afirmação pessoal. Por sorte, a estupidez em
contrapartida da sensibilidade, das grandezas da aventura humana, do caráter e
da dignidade de quem participa dos jogos, em todos os seus lances, acaba
prevalecendo. Afinal, estadistas não os há aos montes. Ao contrário dos
cafajestes, que abundam, aflorando dos subterrâneos, loucos por afirmação.
Feliz do país que rejeita estes e privilegia os primeiros nas disputas eleitorais.
Cada vez mais raros no panorama mundial, constituem verdadeiro patrimônio.
Devemos defendê-lo com todas as forças. Foi o ensinamento das urnas.
• Flávio Bolsonaro, um homúnculo rumo à
cadeia. Por Paulo Henrique Arantes
Político
vil, sem espinha dorsal, ligado desde tenra idade à ala podre da polícia
carioca, Flávio Bolsonaro honrou o golpismo paterno ao perder a eleição
presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. Chegou ao segundo turno da disputa
por uma conjunção de fatores, sendo os principais deles a bactéria neofascista
que corrói democracias pelo mundo, o analfabetismo político de metade do Brasil
e a incapacidade da mídia de tratá-lo como risco real à democracia.
Tivessem
bom gosto musical — mas preferem aqueles insuportáveis sertanejos —, seus
eleitores poderiam entoar neste momento a resignada canção de Cartola, Carlos
Cachaça e Zé da Zilda intitulada “Não quero mais amar a ninguém”, a qual
descreve a frustração como “beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar”. A
arte é franqueável até mesmo aos insensíveis.
A
estatura moral de Flávio Bolsonaro é de rodapé. Ao afirmar, cinicamente, que
não reconhece a derrota eleitoral, dá partida a uma nova rodada de narrativas
golpistas bem ao gosto da família. Está no DNA. Claro, há um Donald Trump ao
norte a lhe fornecer ombros para chorar, mas nada causará além de chateação. Um
Trump que, depois das eleições parlamentares americanas de novembro, verá seu
poder virar pó.
O
senador que mentiu descaradamente durante a campanha eleitoral, como na vida
inteira, terá enormes dores de cabeça judiciais. As chances de fazer dobradinha
de condenados com o pai são grandes — até o mundo mineral sabe que a
Presidência da República, e só ela, brindá-lo-ia contra investigações por
crimes vários. Duas delas estão na ordem do dia.
Daniel
Vorcaro e Willer Tomaz assombram o senador nos estertores do mandato. No caso
da primeira assombração, só mesmo a figura partidária do ministro André
Mendonça justifica a não prisão cautelar de Flávio após conhecimento da
fraterna solicitação milionária para financiar um filme-lixo, segundo versão
para boi dormir.
A
ligação de Flávio com Tomaz é ainda mais cabeluda. A Polícia Federal, neste
momento, cruza dados do Ministério da Fazenda que apontam que o advogado
movimentou cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas digitais em um único
ano, chegando a sacar quase R$ 200 milhões. Ele foi identificado como a pessoa
física que mais depositou dinheiro em bets no Brasil. A suspeita é de que o
mercado de apostas e loterias tenha sido usado para a fase de ocultação e
lavagem de capitais. A PF apura se Flávio Bolsonaro possui participação
societária oculta na empresa de apostas BestBet, vinculada à Rede Loto e
controlada indiretamente por empresas de Tomaz. Recentemente, o STF determinou
o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e contas ligadas ao advogado e suas
empresas.
Lula
tascou uma diferença de quatro milhões de votos no lombo de Flávio, uma vitória
acachapante. O questionamento do resultado, pela extensão desigual do horário
de votação, é patético tanto quanto foi a inação do presidente do Tribunal
Superior Eleitoral no dia 25 de outubro. Ao longo do dia, diante das sólidas
denúncias de que os prefeitos de São Paulo e Salvador prejudicavam a locomoção
de eleitores, Kássio Nunes Marques optou pela inércia pusilânime. Apurados os
votos, registre-se, agiu republicanamente ao proclamar de pronto a vitória de
Lula. Pode partir feliz para novas aventuras com as ucranianas de Daniel
Vorcaro.
À mídia
nacional, que adora cobrar mea-culpa de governos progressistas, resta
retratar-se por sentenças como estas:
“A
resistência do eleitorado no interior e o cansaço com o modelo econômico
sinalizam o esgotamento do projeto petista” – Estadão.
“O
desalento com Lula e Bolsonaro faz crescer grupos de indecisos… [Mas] a
expectativa de uma virada é vista como um milagre estatístico diante do teto de
rejeição do petista” – O Globo.
“Lula
assumiu em 2023 imaginando um mundo parecido com o de 2010… Lula estava
desatualizado para o seu terceiro mandato no Planalto” – O Globo, de novo.
“A
recuperação de Lula no segundo turno ainda não foi suficiente para ultrapassar
Flávio Bolsonaro… A resistência do eleitorado é o fator-chave” – Veja.
“Nenhum
candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou a disputa na
rodada final” – Folha de S. Paulo.
• Governo Trump segura nota sobre vitória
de Lula após alegações de Flávio Bolsonaro sobre suposta fraude
O
governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, decidiu reter a
divulgação do comunicado oficial em que parabenizaria o povo brasileiro pela
realização do pleito presidencial no domingo (25). A orientação para adiar a
publicação e analisar a situação ocorreu logo após o candidato Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) declarar que não reconhecia a vitória do presidente Lula (PT) e
solicitar a anulação da eleição, informa a Folha de São Paulo.
A
minuta da nota já havia sido elaborada pelo Departamento de Estado
norte-americano, atendendo ao procedimento diplomático padrão adotado pela Casa
Branca para pleitos eleitorais em todo o mundo. A mudança de postura ocorreu
depois que Flávio Bolsonaro afirmou, em entrevista concedida na noite de
domingo, que teriam ocorrido irregularidades em razão da decisão do ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, de estender o horário de
votação.
A
embaixada dos EUA no Brasil foi procurada pela Folha de São Paulo, mas não
apresentou nenhuma previsão sobre quando o texto será divulgado. A postura
adotada pela atual administração norte-americana diverge do histórico recente
do país. Em 2022, na gestão de Joe Biden, os Estados Unidos se posicionaram
entre as primeiras nações a cumprimentar o presidente Lula pelo resultado das
urnas, em um momento em que Jair Bolsonaro (PL) lançava acusações de fraude
sobre o processo eleitoral.
Mesmo
entre aliados políticos e ideológicos da família Bolsonaro na América Latina, a
reação foi distinta. Chefes de Estado de direita alinhados a Donald Trump —
como Abelardo de la Espriella, da Colômbia, e José Antonio Kast, do Chile — já
publicaram mensagens em suas redes sociais parabenizando o presidente Lula pela
vitória.
Além do
caso brasileiro, o governo norte-americano também não emitiu pronunciamento
oficial sobre a votação realizada na Sérvia no mesmo domingo, ocasião em que o
primeiro-ministro Aleksandar Vucic, outro aliado de Trump, foi derrotado.
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Filho de Trump ameaça Lula e compartilha publicação que o chama de próximo
Maduro
Donald
Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou
uma publicação nas redes sociais que questiona a legitimidade da eleição
presidencial brasileira e compara o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
ao líder venezuelano Nicolás Maduro. A manifestação ocorreu no domingo (25),
após a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais.
O filho
do presidente americano repercutiu declarações de De Luca, que classificou o
processo eleitoral brasileiro como uma suposta “manipulação descarada” e
colocou em dúvida o reconhecimento internacional do resultado. As acusações
foram feitas sem que fossem apresentadas provas de irregularidades na votação.
Na
publicação compartilhada por Trump Jr., De Luca afirmou que a comunidade
internacional não reconhecerá a eleição brasileira como livre e sugeriu que
Lula estaria seguindo o caminho do dirigente venezuelano.
“A
desesperança chegou a um ponto em que hoje é o dia em que a máscara cai
completamente e Lula se torna o próximo Nicolás Maduro? Pelo bem do Brasil,
rezo para que não seja o caso”, escreveu De Luca.
Ao
compartilhar a mensagem, Donald Trump Jr. criticou a postura dos principais
veículos de comunicação dos Estados Unidos diante das acusações sobre o
processo eleitoral brasileiro. Segundo ele, a reação da imprensa seria
diferente caso as mesmas circunstâncias envolvessem um governo conservador.
“Se um
governo conservador no Brasil fizesse isso, todos na grande imprensa americana
perderiam a cabeça, mas acho que eles estão apenas escolhendo ficar em silêncio
porque é tudo pela causa”, escreveu o filho do presidente americano.
A
manifestação representa uma nova intervenção de Donald Trump Jr. no debate
político brasileiro. O empresário já havia comentado o resultado do primeiro
turno das eleições, relacionando o desempenho eleitoral da direita na América
Latina às mudanças promovidas pelo governo de seu pai na política de ajuda
internacional dos Estados Unidos.
Na
ocasião, Trump Jr. atribuiu parte do desempenho da direita ao desmonte da
Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid),
praticamente extinta durante a atual administração republicana.
Sem
apresentar evidências, ele afirmou que bilhões de dólares anteriormente
destinados à agência financiavam redes de ativistas que, segundo sua
interpretação, “convenientemente sempre apoiavam o mesmo lado”.
A
declaração buscava estabelecer uma relação entre o encerramento de programas de
financiamento internacional dos Estados Unidos e os resultados eleitorais na
América Latina. Entretanto, Trump Jr. não apresentou provas de que os recursos
da Usaid tivessem sido utilizados para interferir nas eleições brasileiras.
• Governo Lula vê Milei isolado na América
do Sul após reconhecimento de líderes de direita
A
reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma rápida
reação de reconhecimento entre os governos da América do Sul, incluindo países
comandados por líderes de direita. O movimento é interpretado pela diplomacia
brasileira como um sinal de pragmatismo político na região, enquanto o
presidente da Argentina, Javier Milei, permanece isolado por ainda não ter se
manifestado sobre o resultado das eleições brasileiras.
Segundo
informações da CNN Brasil, o Ministério das Relações Exteriores considera que a
postura dos presidentes sul-americanos demonstra disposição para preservar as
relações diplomáticas e comerciais com o Brasil, independentemente das
diferenças ideológicas. A avaliação é que Milei se tornou uma exceção entre os
principais líderes regionais ao não reconhecer publicamente a vitória de Lula.
O
governo brasileiro já trabalhava com a expectativa de que os países vizinhos
reconheceriam o resultado eleitoral. Entretanto, a velocidade das manifestações
foi recebida como um indicativo da importância atribuída à manutenção dos
vínculos com Brasília.
O
primeiro presidente a cumprimentar Lula foi José Raúl Mulino, do Panamá, que se
pronunciou pouco depois da confirmação do resultado. Em seguida, o paraguaio
Santiago Peña também reconheceu a vitória do petista.
Outros
presidentes identificados com a direita sul-americana seguiram o mesmo caminho.
Daniel Noboa, do Equador, José Antonio Kast, do Chile, e Rodrigo Paz, da
Bolívia, também enviaram congratulações ao presidente brasileiro reeleito.
A
sequência de manifestações reforçou, na avaliação do Itamaraty, a percepção de
que as divergências políticas não impedirão a continuidade das relações entre o
Brasil e os demais governos da região.
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Milei permanece em silêncio e preocupa diplomacia brasileira
A
ausência de uma manifestação de Javier Milei passou a concentrar a atenção dos
diplomatas brasileiros. Até esta segunda-feira (26), o presidente argentino
ainda não havia se pronunciado sobre a reeleição de Lula.
O
Itamaraty acompanha os movimentos do governo argentino, que realiza uma reunião
de gabinete nesta segunda-feira. A expectativa é observar se haverá alguma
mudança na posição de Milei diante do reconhecimento praticamente generalizado
do resultado eleitoral pelos demais líderes sul-americanos.
Na
avaliação de integrantes da diplomacia brasileira, o silêncio do argentino
evidencia seu isolamento político no continente, especialmente diante da
decisão de outros presidentes de direita de reconhecer a vitória de Lula.
O
cenário também é analisado à luz da política dos Estados Unidos. Segundo a
reportagem, o governo brasileiro considera que uma eventual derrota do
presidente norte-americano Donald Trump nas eleições legislativas de meio de
mandato poderá enfraquecer ainda mais a posição regional de Milei.
A
combinação entre a vitória de Lula, o reconhecimento dos demais governos
sul-americanos e uma possível perda de força política de Trump é vista como um
fator capaz de ampliar as dificuldades diplomáticas do presidente argentino.
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Até aliado de Flávio Bolsonaro reconheceu resultado
Um dos
posicionamentos que despertavam maior expectativa no governo brasileiro era o
do presidente colombiano Abelardo de la Espriella, que havia manifestado apoio
à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Apesar
da preferência pelo adversário de Lula, o colombiano reconheceu o resultado
eleitoral em uma publicação nas redes sociais. Ao comentar a disputa, afirmou
que apoiou Flávio, mas ressaltou que “o povo decide”.
A
manifestação foi particularmente significativa para a leitura feita pelo
Itamaraty porque demonstrou que até mesmo lideranças que apoiaram
explicitamente o candidato derrotado optaram por aceitar o resultado das urnas.
O
reconhecimento também contribuiu para ampliar o contraste entre a postura dos
demais governos da região e o silêncio mantido por Milei.
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Brasil aposta na continuidade da cooperação regional
Apesar
do avanço de governos de direita na América do Sul, a diplomacia brasileira
considera que existem condições para manter a agenda de cooperação com os
países vizinhos durante o novo mandato de Lula.
Antes
mesmo das eleições presidenciais, integrantes do governo já avaliavam que a
chamada “onda azul”, expressão utilizada para descrever o fortalecimento de
forças conservadoras no continente, não necessariamente representaria uma
ruptura das relações regionais.
A
expectativa é que interesses econômicos, comerciais e diplomáticos continuem
estimulando a interlocução entre Brasília e os demais governos, mesmo diante de
diferenças políticas relevantes.
O
Itamaraty reconhece, contudo, que o avanço de pautas multilaterais poderá
ocorrer em ritmo mais lento. A composição ideológica dos governos
sul-americanos tende a impor dificuldades adicionais à construção de consensos
em iniciativas que dependam de articulação coletiva.
Fonte:
Brasil 247

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