terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ronaldo Lima Lins: O estadista e o cafajeste

Há quem acredite que a política se transformou hoje numa questão de matemática. Afinal, não existem governos na atualidade sem economistas na equipe principal. E os economistas, frequentemente amparados em dados estatísticos, acumulam cálculos sobre cálculos, para chegar a duas ou três conclusões. A discussão lembra, no teatro, o confronto entre as correntes de Stanislavski e Brecht, uma imbuída do emprego das emoções e a segunda, sem dispensá-las, conservando-se atenta às possibilidades da razão. Isto por que, pensou o autor de Mãe coragem, o ator trabalha com públicos variados e tem de levá-los em conta. Diante de operários, poderá usar dicas, referências a situações que os mobilizem e os faça entender questões da própria vida. Não se trata aqui de desprezar emoções, mas de saber utilizá-las à luz do espetáculo.

Na política, igualmente, fatores ligados à razão e à emoção se conjugam numa espécie de todo às vezes confuso, sobretudo na modernidade ocidental. Depois do Iluminismo, por força de tecnologias sofisticadas, quase vivemos dominados, senão pelos algoritmos, sem dúvida pela matemática no sentido amplo da palavra. Distorções daí provenientes explicam exageros de comportamento infiltrando-se nos coordenadores de campanha a ponto de modelar candidatos e quase transformá-los em robôs com atitudes pré-determinadas. Foi o que se viu na postura de Flávio Bolsonaro, confrontado a Lula num de seus debates.  Instruído por Marçal (uma espécie de pária, condenado à inelegibilidade), o 01 surgiu feito marionete acionada à distância e programada para agredir, debochar e desrespeitar o adversário. Esperava que, assim agindo, derrotaria o oponente. Não derrotou. Emoções, ao contrário do que imaginam, conduzem o espírito humano. Este age segundo impulsos de alegrias, tristezas, melancolia etc. Quem assiste à cena se alegra, se entristece, chora e comemora com ele, motivado pelas agruras que por ventura sofreu. No combate entre o estadista – Lula – e o cafajeste – o filhote do Jair, não resta dúvida que o primeiro bateu de dez a zero.

Nas circunstâncias da existência, inteligência presta bons serviços e burrice atrapalha. Com a vitória na mão, reviravoltas acontecem exatamente por causa do brilhantismo de uns e da falta dele em outros. Estamos numa época marcada pelo grotesco e pela deselegância elevados à categoria de sucesso. Tem gente que faz de tais fatores ingredientes de afirmação pessoal. Por sorte, a estupidez em contrapartida da sensibilidade, das grandezas da aventura humana, do caráter e da dignidade de quem participa dos jogos, em todos os seus lances, acaba prevalecendo. Afinal, estadistas não os há aos montes. Ao contrário dos cafajestes, que abundam, aflorando dos subterrâneos, loucos por afirmação. Feliz do país que rejeita estes e privilegia os primeiros nas disputas eleitorais. Cada vez mais raros no panorama mundial, constituem verdadeiro patrimônio. Devemos defendê-lo com todas as forças. Foi o ensinamento das urnas.

•        Flávio Bolsonaro, um homúnculo rumo à cadeia. Por Paulo Henrique Arantes

Político vil, sem espinha dorsal, ligado desde tenra idade à ala podre da polícia carioca, Flávio Bolsonaro honrou o golpismo paterno ao perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. Chegou ao segundo turno da disputa por uma conjunção de fatores, sendo os principais deles a bactéria neofascista que corrói democracias pelo mundo, o analfabetismo político de metade do Brasil e a incapacidade da mídia de tratá-lo como risco real à democracia.

Tivessem bom gosto musical — mas preferem aqueles insuportáveis sertanejos —, seus eleitores poderiam entoar neste momento a resignada canção de Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda intitulada “Não quero mais amar a ninguém”, a qual descreve a frustração como “beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar”. A arte é franqueável até mesmo aos insensíveis.

A estatura moral de Flávio Bolsonaro é de rodapé. Ao afirmar, cinicamente, que não reconhece a derrota eleitoral, dá partida a uma nova rodada de narrativas golpistas bem ao gosto da família. Está no DNA. Claro, há um Donald Trump ao norte a lhe fornecer ombros para chorar, mas nada causará além de chateação. Um Trump que, depois das eleições parlamentares americanas de novembro, verá seu poder virar pó.

O senador que mentiu descaradamente durante a campanha eleitoral, como na vida inteira, terá enormes dores de cabeça judiciais. As chances de fazer dobradinha de condenados com o pai são grandes — até o mundo mineral sabe que a Presidência da República, e só ela, brindá-lo-ia contra investigações por crimes vários. Duas delas estão na ordem do dia.

Daniel Vorcaro e Willer Tomaz assombram o senador nos estertores do mandato. No caso da primeira assombração, só mesmo a figura partidária do ministro André Mendonça justifica a não prisão cautelar de Flávio após conhecimento da fraterna solicitação milionária para financiar um filme-lixo, segundo versão para boi dormir.

A ligação de Flávio com Tomaz é ainda mais cabeluda. A Polícia Federal, neste momento, cruza dados do Ministério da Fazenda que apontam que o advogado movimentou cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas digitais em um único ano, chegando a sacar quase R$ 200 milhões. Ele foi identificado como a pessoa física que mais depositou dinheiro em bets no Brasil. A suspeita é de que o mercado de apostas e loterias tenha sido usado para a fase de ocultação e lavagem de capitais. A PF apura se Flávio Bolsonaro possui participação societária oculta na empresa de apostas BestBet, vinculada à Rede Loto e controlada indiretamente por empresas de Tomaz. Recentemente, o STF determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e contas ligadas ao advogado e suas empresas.

Lula tascou uma diferença de quatro milhões de votos no lombo de Flávio, uma vitória acachapante. O questionamento do resultado, pela extensão desigual do horário de votação, é patético tanto quanto foi a inação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral no dia 25 de outubro. Ao longo do dia, diante das sólidas denúncias de que os prefeitos de São Paulo e Salvador prejudicavam a locomoção de eleitores, Kássio Nunes Marques optou pela inércia pusilânime. Apurados os votos, registre-se, agiu republicanamente ao proclamar de pronto a vitória de Lula. Pode partir feliz para novas aventuras com as ucranianas de Daniel Vorcaro.

À mídia nacional, que adora cobrar mea-culpa de governos progressistas, resta retratar-se por sentenças como estas:

“A resistência do eleitorado no interior e o cansaço com o modelo econômico sinalizam o esgotamento do projeto petista” – Estadão.

“O desalento com Lula e Bolsonaro faz crescer grupos de indecisos… [Mas] a expectativa de uma virada é vista como um milagre estatístico diante do teto de rejeição do petista” – O Globo.

“Lula assumiu em 2023 imaginando um mundo parecido com o de 2010… Lula estava desatualizado para o seu terceiro mandato no Planalto” – O Globo, de novo.

“A recuperação de Lula no segundo turno ainda não foi suficiente para ultrapassar Flávio Bolsonaro… A resistência do eleitorado é o fator-chave” – Veja.

“Nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou a disputa na rodada final” – Folha de S. Paulo.

•        Governo Trump segura nota sobre vitória de Lula após alegações de Flávio Bolsonaro sobre suposta fraude

O governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, decidiu reter a divulgação do comunicado oficial em que parabenizaria o povo brasileiro pela realização do pleito presidencial no domingo (25). A orientação para adiar a publicação e analisar a situação ocorreu logo após o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarar que não reconhecia a vitória do presidente Lula (PT) e solicitar a anulação da eleição, informa a Folha de São Paulo.

A minuta da nota já havia sido elaborada pelo Departamento de Estado norte-americano, atendendo ao procedimento diplomático padrão adotado pela Casa Branca para pleitos eleitorais em todo o mundo. A mudança de postura ocorreu depois que Flávio Bolsonaro afirmou, em entrevista concedida na noite de domingo, que teriam ocorrido irregularidades em razão da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, de estender o horário de votação.

A embaixada dos EUA no Brasil foi procurada pela Folha de São Paulo, mas não apresentou nenhuma previsão sobre quando o texto será divulgado. A postura adotada pela atual administração norte-americana diverge do histórico recente do país. Em 2022, na gestão de Joe Biden, os Estados Unidos se posicionaram entre as primeiras nações a cumprimentar o presidente Lula pelo resultado das urnas, em um momento em que Jair Bolsonaro (PL) lançava acusações de fraude sobre o processo eleitoral.

Mesmo entre aliados políticos e ideológicos da família Bolsonaro na América Latina, a reação foi distinta. Chefes de Estado de direita alinhados a Donald Trump — como Abelardo de la Espriella, da Colômbia, e José Antonio Kast, do Chile — já publicaram mensagens em suas redes sociais parabenizando o presidente Lula pela vitória.

Além do caso brasileiro, o governo norte-americano também não emitiu pronunciamento oficial sobre a votação realizada na Sérvia no mesmo domingo, ocasião em que o primeiro-ministro Aleksandar Vucic, outro aliado de Trump, foi derrotado.

<><> Filho de Trump ameaça Lula e compartilha publicação que o chama de próximo Maduro

Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou uma publicação nas redes sociais que questiona a legitimidade da eleição presidencial brasileira e compara o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao líder venezuelano Nicolás Maduro. A manifestação ocorreu no domingo (25), após a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais.

O filho do presidente americano repercutiu declarações de De Luca, que classificou o processo eleitoral brasileiro como uma suposta “manipulação descarada” e colocou em dúvida o reconhecimento internacional do resultado. As acusações foram feitas sem que fossem apresentadas provas de irregularidades na votação.

Na publicação compartilhada por Trump Jr., De Luca afirmou que a comunidade internacional não reconhecerá a eleição brasileira como livre e sugeriu que Lula estaria seguindo o caminho do dirigente venezuelano.

“A desesperança chegou a um ponto em que hoje é o dia em que a máscara cai completamente e Lula se torna o próximo Nicolás Maduro? Pelo bem do Brasil, rezo para que não seja o caso”, escreveu De Luca.

Ao compartilhar a mensagem, Donald Trump Jr. criticou a postura dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos diante das acusações sobre o processo eleitoral brasileiro. Segundo ele, a reação da imprensa seria diferente caso as mesmas circunstâncias envolvessem um governo conservador.

“Se um governo conservador no Brasil fizesse isso, todos na grande imprensa americana perderiam a cabeça, mas acho que eles estão apenas escolhendo ficar em silêncio porque é tudo pela causa”, escreveu o filho do presidente americano.

A manifestação representa uma nova intervenção de Donald Trump Jr. no debate político brasileiro. O empresário já havia comentado o resultado do primeiro turno das eleições, relacionando o desempenho eleitoral da direita na América Latina às mudanças promovidas pelo governo de seu pai na política de ajuda internacional dos Estados Unidos.

Na ocasião, Trump Jr. atribuiu parte do desempenho da direita ao desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), praticamente extinta durante a atual administração republicana.

Sem apresentar evidências, ele afirmou que bilhões de dólares anteriormente destinados à agência financiavam redes de ativistas que, segundo sua interpretação, “convenientemente sempre apoiavam o mesmo lado”.

A declaração buscava estabelecer uma relação entre o encerramento de programas de financiamento internacional dos Estados Unidos e os resultados eleitorais na América Latina. Entretanto, Trump Jr. não apresentou provas de que os recursos da Usaid tivessem sido utilizados para interferir nas eleições brasileiras.

•        Governo Lula vê Milei isolado na América do Sul após reconhecimento de líderes de direita

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma rápida reação de reconhecimento entre os governos da América do Sul, incluindo países comandados por líderes de direita. O movimento é interpretado pela diplomacia brasileira como um sinal de pragmatismo político na região, enquanto o presidente da Argentina, Javier Milei, permanece isolado por ainda não ter se manifestado sobre o resultado das eleições brasileiras.

Segundo informações da CNN Brasil, o Ministério das Relações Exteriores considera que a postura dos presidentes sul-americanos demonstra disposição para preservar as relações diplomáticas e comerciais com o Brasil, independentemente das diferenças ideológicas. A avaliação é que Milei se tornou uma exceção entre os principais líderes regionais ao não reconhecer publicamente a vitória de Lula.

O governo brasileiro já trabalhava com a expectativa de que os países vizinhos reconheceriam o resultado eleitoral. Entretanto, a velocidade das manifestações foi recebida como um indicativo da importância atribuída à manutenção dos vínculos com Brasília.

O primeiro presidente a cumprimentar Lula foi José Raúl Mulino, do Panamá, que se pronunciou pouco depois da confirmação do resultado. Em seguida, o paraguaio Santiago Peña também reconheceu a vitória do petista.

Outros presidentes identificados com a direita sul-americana seguiram o mesmo caminho. Daniel Noboa, do Equador, José Antonio Kast, do Chile, e Rodrigo Paz, da Bolívia, também enviaram congratulações ao presidente brasileiro reeleito.

A sequência de manifestações reforçou, na avaliação do Itamaraty, a percepção de que as divergências políticas não impedirão a continuidade das relações entre o Brasil e os demais governos da região.

<><> Milei permanece em silêncio e preocupa diplomacia brasileira

A ausência de uma manifestação de Javier Milei passou a concentrar a atenção dos diplomatas brasileiros. Até esta segunda-feira (26), o presidente argentino ainda não havia se pronunciado sobre a reeleição de Lula.

O Itamaraty acompanha os movimentos do governo argentino, que realiza uma reunião de gabinete nesta segunda-feira. A expectativa é observar se haverá alguma mudança na posição de Milei diante do reconhecimento praticamente generalizado do resultado eleitoral pelos demais líderes sul-americanos.

Na avaliação de integrantes da diplomacia brasileira, o silêncio do argentino evidencia seu isolamento político no continente, especialmente diante da decisão de outros presidentes de direita de reconhecer a vitória de Lula.

O cenário também é analisado à luz da política dos Estados Unidos. Segundo a reportagem, o governo brasileiro considera que uma eventual derrota do presidente norte-americano Donald Trump nas eleições legislativas de meio de mandato poderá enfraquecer ainda mais a posição regional de Milei.

A combinação entre a vitória de Lula, o reconhecimento dos demais governos sul-americanos e uma possível perda de força política de Trump é vista como um fator capaz de ampliar as dificuldades diplomáticas do presidente argentino.

<><> Até aliado de Flávio Bolsonaro reconheceu resultado

Um dos posicionamentos que despertavam maior expectativa no governo brasileiro era o do presidente colombiano Abelardo de la Espriella, que havia manifestado apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).

Apesar da preferência pelo adversário de Lula, o colombiano reconheceu o resultado eleitoral em uma publicação nas redes sociais. Ao comentar a disputa, afirmou que apoiou Flávio, mas ressaltou que “o povo decide”.

A manifestação foi particularmente significativa para a leitura feita pelo Itamaraty porque demonstrou que até mesmo lideranças que apoiaram explicitamente o candidato derrotado optaram por aceitar o resultado das urnas.

O reconhecimento também contribuiu para ampliar o contraste entre a postura dos demais governos da região e o silêncio mantido por Milei.

<><> Brasil aposta na continuidade da cooperação regional

Apesar do avanço de governos de direita na América do Sul, a diplomacia brasileira considera que existem condições para manter a agenda de cooperação com os países vizinhos durante o novo mandato de Lula.

Antes mesmo das eleições presidenciais, integrantes do governo já avaliavam que a chamada “onda azul”, expressão utilizada para descrever o fortalecimento de forças conservadoras no continente, não necessariamente representaria uma ruptura das relações regionais.

A expectativa é que interesses econômicos, comerciais e diplomáticos continuem estimulando a interlocução entre Brasília e os demais governos, mesmo diante de diferenças políticas relevantes.

O Itamaraty reconhece, contudo, que o avanço de pautas multilaterais poderá ocorrer em ritmo mais lento. A composição ideológica dos governos sul-americanos tende a impor dificuldades adicionais à construção de consensos em iniciativas que dependam de articulação coletiva.

 

Fonte: Brasil 247

 

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