terça-feira, 27 de outubro de 2026

Antibolsonarismo ou defesa da soberania: o que foi mais importante na vitória de Lula?

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas analisam o que pesou mais para os eleitores na hora de votar: a defesa da soberania frente à ingerência externa ou o antibolsonarismo.

A eleição presidencial brasileira encerrou neste domingo (25), com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). O pleito foi considerado o mais disputado desde a redemocratização do país.

Lula obteve 51,79% contra 48,21% de Flávio, em uma vitória de virada que reverteu a derrota sofrida em primeiro turno. Com o resultado, ele conquistou o quarto mandato, um feito inédito na história da política brasileira.

À Sputnik Brasil, o doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim Brand Arenari avalia que a vitória de Lula é histórica por alguns motivos.

"O primeiro deles é a pouca crença da maioria dos analistas e dos observadores de que era possível uma virada nessas condições. E a outra é que coloca o presidente Lula como um dos líderes políticos mais longevos no poder do Brasil", afirma.

Arenari, que chefia o Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), acrescenta que o quarto governo Lula terá pela frente um desafio em relação à governabilidade, por conta da configuração do Congresso, onde paramentares da oposição ampliaram a presença.

Ele afirma que o governo terá de ter criatividade para compor os ministérios e enfrentar problemas que são urgentes para a população, como a segurança pública.

"O governo Lula entra em uma vitória histórica, mas, do ponto de vista de governabilidade política, só que muito espremido sobre uma série de contextos."

Na visão do especialista, é difícil prever o futuro da relação do Brasil com os EUA, com Lula reeleito após uma forte pressão de Washington no pleito brasileiro em favor de Flávio. Ele avalia que o presidente estadunidense, Donald Trump, é uma figura difícil de ler, por ser um dos líderes mais imprevisíveis do cenário internacional.

"Ninguém se surpreenderia se ele tivesse um discurso parabenizando o presidente Lula, dizendo que torceu muito pelo presidente Lula, como ele teve movimentos erráticos nesse processo todo em que ele esteve com Lula, disse que adorou Lula, que o Lula é um amigo dele, pessoa maravilhosa, aí depois vai e ataca o Lula de novo."

Porém, ele afirma que o Brasil certamente vai sofrer pressão, citando como exemplo as terras raras, que já vinham sendo alvo de cobiça, sobretudo após Flávio prometer que os recursos seriam a salvação dos EUA contra a dependência da China.

"As pressões serão grandes para Lula. E nos últimos tempos ele não tem demonstrado uma inclinação muito grande de enfrentamento a Trump. Há alguma ou outra retórica, mas a natureza política de Lula é de um político de composição, não de enfrentamento. [....] É difícil esperar que agora, no que parece ser seu último mandato, ele vai mudar seu jeito de governar."

Arenari considera que o tema da soberania foi decisivo em alguns momentos do governo Lula, e a resposta forte do presidente reeleito refletiu positivamente em sua popularidade.

"É um sinal de que a ideia de uma dignidade, de soberania nacional está na cabeça dos brasileiros e precisa ser mais falada", afirma.

Gabriel Guimarães, cientista político pela FGV, mestre e doutorando pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), considera que o anti-bolsonarismo teve um papel mais decisivo que a soberania no resultado das eleições.

Ele diz que, embora a soberania seja um tema importante para alguns eleitores, a incerteza em relação a um governo Flávio, associada a investimentos importantes que Lula fez nos últimos meses das eleições, fizeram a diferença.

"Não sei se o eleitor, de forma geral, do Nordeste, o eleitor que tem realidades materiais mais precárias, racionaliza nesse ponto de vista da soberania internacional. Agora, sem sombra de dúvidas, esse foi um tema marcante nesse processo eleitoral, mas entendo que essa é uma vitória do anti-bolsonarismo", afirma.

Guimarães acrescenta que considera difícil que duas derrotas consecutivas possam reduzir a força do bolsonarismo, que ele diz que continuará relevante no cenário político do país. Porém, ele diz que alguns membros da direita moderada precisam refletir e repensar sobre o próprio futuro político.

"Nomes como Tarcísio de Freitas, como Raquel Lira, que são mais de centro-direita, precisam refletir qual será o futuro desse campo político daqui para a frente."

Para Guimarães, com a vitória neste domingo, ganhou uma nova chance de decidir que governo ele quer fazer, compondo com forças de uma direita democrática, não bolsonarista, como poderia ter feito em 2022.

"Eu acho que o país deu ao presidente uma nova oportunidade de compor com forças de centro-direita, que são forças democráticas, que durante muito tempo fizeram oposição aos governos do PT, mas que fizeram uma escolha de não abraçar o bolsonarismo."

¨      'O Brasil não aceita ser quintal de ninguém', declara Lula em discurso após reeleição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (25), após ser reeleito para um quarto mandato presidencial, que o Brasil não aceitará interferências externas e defendeu a regulação das plataformas digitais.

Em discurso da vitória, o petista classificou o resultado como uma derrota para a "intromissão de fora para dentro" e prometeu ampliar a participação popular nas decisões do governo.

"Essa eleição foi uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão, vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime do mundo digital tenha que ser tratado igual ao crime da vida real", declarou.

Lula também afirmou que pretende desenvolver uma inteligência artificial brasileira e disse que a comunicação digital terá espaço importante em seu próximo governo. Segundo o presidente reeleito, a campanha eleitoral lhe trouxe lições que devem influenciar a maneira de governar e a relação com a população.

O petista agradeceu aos brasileiros que foram às ruas e às urnas para defender a democracia, com destaque para a participação dos jovens. Lula também afirmou que o resultado representou uma vitória da "honradez, do nacionalismo e da democracia" e uma derrota para o negacionismo e a mentira. "Eu fui escolhido por Deus", acrescentou.

<><> Lula critica Flávio Bolsonaro e fala sobre a oposição no Congresso

Durante o discurso, Lula afirmou que se sentiu constrangido nos debates do segundo turno e criticou o adversário, Flávio Bolsonaro (PL), a quem chamou de representante do milicianismo no país.

"Já participei de muitas eleições, já me reúno todo ano com o G20, com os BRICS, com o G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo. [...] mas eu nunca pensei em me deparar com o representante genuíno do milicianismo desse país. Nunca imaginei. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez", declarou.

O presidente reeleito também comentou a composição do Congresso Nacional, que terá parlamentares de diferentes partidos e muitos representantes da oposição. Lula minimizou as dificuldades que poderá enfrentar para aprovar propostas e afirmou que pretende trabalhar com os congressistas eleitos.

"Tem gente falando que eu vou ter dificuldade de governar. Foi o povo que escolheu o Congresso e é com ele que vou trabalhar, vou votar e aprovar as coisas", afirmou.

Lula ainda agradeceu aos apoiadores e integrantes da campanha, entre eles o deputado federal André Janones (Rede-MG), que coordenou o canal de WhatsApp* "Exército do Lula". O presidente também celebrou o apoio do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido por Dilma Rousseff, ao financiamento da área da saúde.

O vice-presidente reeleito, Geraldo Alckmin, também agradeceu aos eleitores, com menção especial aos jovens, às mulheres e aos idosos. Alckmin atribuiu a Lula um papel central na defesa da democracia brasileira.

¨      Centrão contra-ataca: voto distrital pode incentivar radicalização, diz cientista político

Proposta de voto distrital misto divide partidos e, segundo cientista político, pode fortalecer cúpulas partidárias e lideranças regionais sem reduzir a polarização.

Após se ver espremido pela esquerda e pelo PL, os partidos do centrão articulam a elaboração de uma reforma eleitoral no país para instituir o voto distrital misto. No dia 28 de outubro, partidos do bloco pretendem discutir possíveis mudanças no sistema eleitoral brasileiro três dias depois da eleição.

A proposta por voto distrital não é inédita e já é adotada em países como Alemanha, Japão e México, onde o sistema combina a eleição de representantes por distritos com a votação em listas partidárias, buscando conciliar representação regional e proporcionalidade política.

Se para o Centrão está ruim, para o PL, o status quo é ótimo do jeito que está, enquanto o PT vem defendendo o voto por lista. A ideia do projeto é minimizar o impacto dos chamados influenciadores "puxadores de voto" como Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP), que fazem milhões de votos e, com isso, conseguem eleger outros candidatos da legenda.

<><> Debate de idas e vindas

A questão do voto distrital é antiga, com diferentes versões do sistema debatidas desde a época do Brasil Império. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já se pronunciou em sua defesa, assim como os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Motta já disse que o tema deve ser discutido no ciclo eleitoral de 2030, avaliando que a mudança ajudaria a evitar representantes do crime organizado na política brasileira.

Um exemplo é o Código Eleitoral de 1932, que introduziu um sistema misto de representação, combinando elementos majoritários e proporcionais. Décadas depois, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988, o modelo distrital voltou a ser debatido, mas o país manteve a representação proporcional para a eleição de deputados federais.

Mais recentemente, propostas de adoção do voto distrital misto voltaram à pauta do Congresso. O modelo combina a eleição de representantes por distritos, nos quais vence o candidato mais votado, com a escolha de parlamentares por listas partidárias, buscando conciliar representação territorial e proporcionalidade.

Segundo Rafael Marino, doutor e mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDD-CEBRAP), a retomada do debate acontece em meio à busca do Centrão de recuperar espaço após perder cadeiras para o bolsonarismo, fortalecendo as direções partidárias e as lideranças regionais.

Marino relaciona esse movimento às reformas políticas de 2015 e 2017, que ampliaram o poder das cúpulas partidárias sobre a distribuição de recursos e a organização das candidaturas. Na sua avaliação, a mudança no sistema eleitoral pode dar mais controle às direções das legendas sobre candidatos com grande votação individual.

"Eu acho que, na verdade, o sentido dela é de centralização", afirma, vendo que partidos com estruturas regionais consolidadas, como MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos, poderiam se beneficiar da mudança.

<><> Representação de minorias e polarização

Entre os argumentos favoráveis ao voto distrital misto estão a aproximação entre eleitores e representantes, a redução da influência de "puxadores de votos" e o estímulo a campanhas mais baratas. O pesquisador, porém, questiona se esses objetivos seriam alcançados no cenário político brasileiro e alerta para possíveis efeitos sobre a representação de grupos minoritários.

"O risco é bastante real de candidatos que apresentam ali causas urbanas, mulheres, pessoas LGBTQIA+ etc., terem uma dificuldade maior de ter uma base territorial concentrada."

Candidaturas ligadas a pautas sociais podem perder espaço caso precisem concentrar seus votos em determinadas regiões para conquistar uma cadeira. O pesquisador também contesta a ideia de que o modelo necessariamente reduziria a polarização política. A disputa em distritos não garante que os candidatos busquem posições moderadas, especialmente em regiões onde predominam eleitores alinhados à direita ou à extrema-direita.

"Eu acho que ele teria incentivos dentro do sistema para uma radicalização, não para uma moderação necessária."

Outro risco apontado pelo cientista político é o fortalecimento de lideranças locais que já mantêm redes de influência sobre o eleitorado. Em vez de reduzir a interferência de grupos políticos tradicionais, o voto distrital poderia ampliar a dependência de candidatos em relação a máquinas regionais e à distribuição de recursos públicos.

"Você pode enfatizar determinadas figuras políticas, aumentar o paroquialismo e o clientelismo". Nesse cenário, a disputa eleitoral poderia ficar ainda mais ligada à capacidade de parlamentares de entregar obras e benefícios localizados, em detrimento de debates de alcance nacional.

O modelo também não resolveria, por si só, o problema da influência do crime organizado nas eleições. Ao contrário, a concentração territorial dos votos pode criar condições para que facções exerçam maior pressão sobre candidatos e eleitores.

<><> Impactos na relação entre Executivo e Legislativo

Sobretudo, o voto distrital misto não garantiria uma relação mais equilibrada entre o governo federal e o Congresso, avalia Marino. O fortalecimento da autonomia parlamentar sobre o orçamento, especialmente por meio das emendas, já ampliou a capacidade dos deputados de negociar recursos diretamente com o Executivo.

Com representantes eleitos por distritos, a pressão por obras e investimentos em regiões específicas poderia ganhar ainda mais peso nas negociações políticas.

"Se cada deputado distrital depende das entregas no local, ali no seu curral eleitoral, por assim dizer, a negociação passa a ser muito mais no varejo via emenda e obra."

Na avaliação do pesquisador, portanto, os possíveis benefícios democráticos da mudança não são garantidos. O efeito mais provável, em sua análise, seria o fortalecimento das cúpulas partidárias e das lideranças regionais, sem assegurar maior moderação política ou melhorias na governabilidade.

"Acho que dificilmente vai ter algum efeito virtuoso de uma possível mudança no sentido distrital misto para o Brasil e para a democracia no Brasil."

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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