Antibolsonarismo
ou defesa da soberania: o que foi mais importante na vitória de Lula?
Em
entrevista à Sputnik Brasil, especialistas analisam o que pesou mais para os
eleitores na hora de votar: a defesa da soberania frente à ingerência externa
ou o antibolsonarismo.
A eleição presidencial brasileira encerrou
neste domingo (25), com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre
Flávio Bolsonaro (PL). O pleito foi considerado o mais disputado desde a
redemocratização do país.
Lula
obteve 51,79% contra 48,21% de Flávio, em uma vitória de virada que reverteu a
derrota sofrida em primeiro turno. Com o resultado, ele conquistou o quarto
mandato,
um feito inédito na história da política brasileira.
À
Sputnik Brasil, o doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim
Brand Arenari avalia que a vitória de Lula é histórica por alguns motivos.
"O
primeiro deles é a pouca crença da maioria dos analistas e dos observadores de
que era possível uma virada nessas condições. E a outra é que coloca o
presidente Lula como um dos líderes políticos mais longevos no poder do
Brasil", afirma.
Arenari,
que chefia o Departamento de Ciência Política da Universidade Federal
Fluminense (UFF), acrescenta que o quarto governo Lula terá pela frente um
desafio em relação à governabilidade, por conta da configuração do Congresso,
onde paramentares da oposição ampliaram a presença.
Ele
afirma que o governo terá de ter criatividade para compor os ministérios e
enfrentar problemas que são urgentes para a população, como a segurança
pública.
"O
governo Lula entra em uma vitória histórica, mas, do ponto de vista de
governabilidade política, só que muito espremido sobre uma série de
contextos."
Na
visão do especialista, é difícil prever o futuro da relação do Brasil com os
EUA, com Lula reeleito após uma forte pressão de Washington no pleito
brasileiro em favor de Flávio. Ele avalia que o presidente estadunidense,
Donald Trump, é uma figura difícil de ler, por ser um dos líderes mais
imprevisíveis do cenário internacional.
"Ninguém
se surpreenderia se ele tivesse um discurso parabenizando o presidente Lula,
dizendo que torceu muito pelo presidente Lula, como ele teve movimentos
erráticos nesse processo todo em que ele esteve com Lula, disse que adorou
Lula, que o Lula é um amigo dele, pessoa maravilhosa, aí depois vai e ataca o
Lula de novo."
Porém,
ele afirma que o Brasil certamente vai sofrer pressão, citando como exemplo as
terras raras, que já vinham sendo alvo de cobiça, sobretudo após Flávio
prometer que os recursos seriam a salvação dos EUA contra a dependência da
China.
"As
pressões serão grandes para Lula. E nos últimos tempos ele não tem demonstrado
uma inclinação muito grande de enfrentamento a Trump. Há alguma ou outra
retórica, mas a natureza política de Lula é de um político de composição, não
de enfrentamento. [....] É difícil esperar que agora, no que parece ser seu
último mandato, ele vai mudar seu jeito de governar."
Arenari
considera que o tema da soberania foi decisivo em alguns momentos do governo Lula, e a resposta forte
do presidente reeleito refletiu positivamente em sua popularidade.
"É
um sinal de que a ideia de uma dignidade, de soberania nacional está na cabeça
dos brasileiros e precisa ser mais falada", afirma.
Gabriel
Guimarães, cientista político pela FGV, mestre e doutorando pelo Instituto de
Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(IESP-UERJ), considera que o anti-bolsonarismo teve um papel mais decisivo que
a soberania no resultado das eleições.
Ele diz
que, embora a soberania seja um tema importante para alguns eleitores, a
incerteza em relação a um governo Flávio, associada a investimentos importantes
que Lula fez nos últimos meses das eleições, fizeram a diferença.
"Não
sei se o eleitor, de forma geral, do Nordeste, o eleitor que tem realidades
materiais mais precárias, racionaliza nesse ponto de vista da soberania
internacional. Agora, sem sombra de dúvidas, esse foi um tema marcante nesse
processo eleitoral, mas entendo que essa é uma vitória do
anti-bolsonarismo", afirma.
Guimarães
acrescenta que considera difícil que duas derrotas consecutivas possam reduzir
a força do bolsonarismo, que ele diz que continuará relevante no cenário
político do país. Porém, ele diz que alguns membros da direita moderada
precisam refletir e repensar sobre o próprio futuro político.
"Nomes
como Tarcísio de Freitas, como Raquel Lira, que são mais de centro-direita,
precisam refletir qual será o futuro desse campo político daqui para a
frente."
Para
Guimarães, com a vitória neste domingo, ganhou uma nova chance de decidir que
governo ele quer fazer, compondo com forças de uma direita democrática, não
bolsonarista, como poderia ter feito em 2022.
"Eu
acho que o país deu ao presidente uma nova oportunidade de compor com forças de
centro-direita, que são forças democráticas, que durante muito tempo fizeram
oposição aos governos do PT, mas que fizeram uma escolha de não abraçar o
bolsonarismo."
¨ 'O Brasil não aceita
ser quintal de ninguém', declara Lula em discurso após reeleição
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (25), após ser
reeleito para um quarto mandato presidencial, que o Brasil não aceitará
interferências externas e defendeu a regulação das plataformas digitais.
Em
discurso da vitória, o petista classificou o resultado como uma derrota para a
"intromissão de fora para dentro" e prometeu ampliar a participação
popular
nas decisões do governo.
"Essa
eleição foi uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão, vinda de
fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que
regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime do
mundo digital tenha que ser tratado igual ao crime da vida real",
declarou.
Lula
também afirmou que pretende desenvolver uma inteligência
artificial brasileira
e disse que a comunicação digital terá espaço importante em seu próximo
governo. Segundo o presidente reeleito, a campanha eleitoral lhe trouxe lições
que devem influenciar a maneira de governar e a relação com a população.
O
petista agradeceu aos brasileiros que foram às ruas e às urnas para defender a
democracia, com destaque para a participação dos jovens. Lula também afirmou
que o resultado representou uma vitória da "honradez, do nacionalismo e da
democracia" e uma derrota para o negacionismo e a mentira. "Eu fui
escolhido por Deus", acrescentou.
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Lula critica Flávio Bolsonaro e fala sobre a oposição no Congresso
Durante
o discurso, Lula afirmou que se sentiu constrangido nos debates do segundo
turno e criticou o adversário, Flávio
Bolsonaro (PL),
a quem chamou de representante do milicianismo no país.
"Já
participei de muitas eleições, já me reúno todo ano com o G20, com os BRICS,
com o G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo. [...] mas
eu nunca pensei em me deparar com o representante genuíno do milicianismo desse
país. Nunca imaginei. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com
tanta desfaçatez", declarou.
O
presidente reeleito também comentou a composição do Congresso Nacional, que
terá parlamentares de diferentes partidos e muitos representantes da oposição.
Lula minimizou as dificuldades que poderá enfrentar para aprovar propostas e
afirmou que pretende trabalhar com os congressistas eleitos.
"Tem
gente falando que eu vou ter dificuldade de governar. Foi o povo que escolheu o
Congresso e é com ele que vou trabalhar, vou votar e aprovar as coisas",
afirmou.
Lula
ainda agradeceu aos apoiadores e integrantes da campanha, entre eles o deputado
federal André Janones (Rede-MG), que coordenou o canal de WhatsApp*
"Exército do Lula". O presidente também celebrou o apoio do Novo Banco de
Desenvolvimento (NBD),
presidido por Dilma Rousseff, ao financiamento da área da saúde.
O
vice-presidente reeleito, Geraldo Alckmin, também agradeceu aos eleitores, com
menção especial aos jovens, às mulheres e aos idosos. Alckmin atribuiu a Lula
um papel central na defesa da democracia brasileira.
¨ Centrão contra-ataca:
voto distrital pode incentivar radicalização, diz cientista político
Proposta
de voto distrital misto divide partidos e, segundo cientista político, pode
fortalecer cúpulas partidárias e lideranças regionais sem reduzir a
polarização.
Após se
ver espremido pela esquerda e pelo PL, os partidos do centrão articulam a
elaboração de uma reforma eleitoral no país para instituir o voto distrital
misto. No dia 28 de outubro, partidos do bloco pretendem discutir possíveis
mudanças no sistema eleitoral brasileiro três dias depois da eleição.
A
proposta por voto distrital não é inédita e já é
adotada em países como Alemanha, Japão e México,
onde o sistema combina a eleição de representantes por distritos com a votação
em listas partidárias, buscando conciliar representação regional e
proporcionalidade política.
Se para
o Centrão está ruim, para o PL, o status quo é ótimo do jeito que está,
enquanto o PT vem defendendo o voto por lista. A ideia do projeto é minimizar o
impacto dos chamados influenciadores "puxadores de voto" como Nikolas Ferreira
(PL-MG),
Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP), que fazem milhões de votos e,
com isso, conseguem eleger outros candidatos da legenda.
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Debate de idas e vindas
A
questão do voto distrital é antiga, com diferentes versões do sistema debatidas
desde a época do Brasil Império. O atual presidente da Câmara dos Deputados,
Hugo Motta (Republicanos-PB), já se pronunciou em sua defesa, assim como os
ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal (STF).
Motta já disse que o tema deve ser discutido no ciclo eleitoral de 2030,
avaliando que a mudança ajudaria a evitar representantes do crime organizado na
política brasileira.
Um
exemplo é o Código Eleitoral de 1932, que introduziu um sistema misto de
representação, combinando elementos majoritários e proporcionais. Décadas
depois, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988, o modelo
distrital voltou a ser debatido, mas o país manteve a representação
proporcional para a eleição de deputados federais.
Mais
recentemente, propostas de adoção do voto distrital misto voltaram à pauta do
Congresso. O modelo combina a eleição de representantes por distritos, nos
quais vence o candidato mais votado, com a escolha de parlamentares por listas
partidárias, buscando conciliar representação territorial e proporcionalidade.
Segundo
Rafael Marino, doutor e mestre em ciência política pela Universidade de São
Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento (NDD-CEBRAP), a retomada do debate acontece em meio à
busca do Centrão de recuperar espaço após perder cadeiras para o bolsonarismo,
fortalecendo as direções partidárias e as lideranças regionais.
Marino
relaciona esse movimento às reformas políticas de 2015 e 2017, que ampliaram o
poder das cúpulas partidárias sobre a distribuição de recursos e a organização
das candidaturas. Na sua avaliação, a mudança no sistema eleitoral pode dar
mais controle às direções das legendas sobre candidatos com grande votação
individual.
"Eu
acho que, na verdade, o sentido dela é de centralização", afirma, vendo
que partidos com estruturas regionais consolidadas, como MDB, PSD, União
Brasil, PP e Republicanos, poderiam se beneficiar da mudança.
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Representação de minorias e polarização
Entre
os argumentos favoráveis ao voto distrital misto estão a aproximação entre
eleitores e representantes, a redução da influência de "puxadores de
votos" e o estímulo a campanhas mais baratas. O pesquisador, porém,
questiona se esses objetivos seriam alcançados no cenário político brasileiro e
alerta para possíveis efeitos sobre a representação de grupos minoritários.
"O
risco é bastante real de candidatos que apresentam ali causas urbanas,
mulheres, pessoas LGBTQIA+ etc., terem uma dificuldade maior de ter uma base
territorial concentrada."
Candidaturas
ligadas a pautas sociais podem perder espaço caso precisem concentrar seus
votos em determinadas regiões para conquistar uma cadeira. O pesquisador também
contesta a ideia de que o modelo necessariamente reduziria a polarização
política. A disputa em distritos não garante que os candidatos busquem posições
moderadas, especialmente em regiões onde predominam eleitores alinhados à
direita ou à extrema-direita.
"Eu
acho que ele teria incentivos dentro do sistema para uma radicalização, não
para uma moderação necessária."
Outro
risco apontado pelo cientista político é o fortalecimento de lideranças locais
que já mantêm redes de influência sobre o eleitorado. Em vez de reduzir a
interferência de grupos políticos tradicionais, o voto distrital poderia
ampliar a dependência de candidatos em relação a máquinas regionais e à
distribuição de recursos públicos.
"Você
pode enfatizar determinadas figuras políticas, aumentar o paroquialismo e o
clientelismo". Nesse cenário, a disputa eleitoral poderia ficar ainda
mais ligada à capacidade de parlamentares de entregar obras e benefícios
localizados, em detrimento de debates de alcance nacional.
O
modelo também não resolveria, por si só, o problema da influência do crime
organizado nas eleições. Ao contrário, a concentração territorial dos votos
pode criar condições para que facções exerçam maior pressão sobre candidatos e
eleitores.
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Impactos na relação entre Executivo e Legislativo
Sobretudo,
o voto distrital misto não garantiria uma relação mais equilibrada entre o
governo federal e o Congresso, avalia Marino. O fortalecimento da autonomia
parlamentar sobre o orçamento, especialmente por meio das emendas, já ampliou a
capacidade dos deputados de negociar recursos diretamente com o Executivo.
Com
representantes eleitos por distritos, a pressão por obras e investimentos em
regiões específicas poderia ganhar ainda mais peso nas negociações políticas.
"Se
cada deputado distrital depende das entregas no local, ali no seu curral
eleitoral, por assim dizer, a negociação passa a ser muito mais no varejo via
emenda e obra."
Na
avaliação do pesquisador, portanto, os possíveis benefícios democráticos da
mudança não são garantidos. O efeito mais provável, em sua análise, seria o
fortalecimento das cúpulas partidárias e das lideranças regionais, sem
assegurar maior moderação política ou melhorias na governabilidade.
"Acho
que dificilmente vai ter algum efeito virtuoso de uma possível mudança no
sentido distrital misto para o Brasil e para a democracia no Brasil."
Fonte:
Sputnik Brasil

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