Miguel
do Rosário: A Marselhesa do Sul Global
O
Brasil escreveu uma das páginas mais bonitas e emocionantes da história da
humanidade.
Quem
olhar com a mente aberta para a dimensão e a repercussão da vitória de Lula no
segundo turno, sobretudo nas circunstâncias dramáticas em que ela se deu,
enxergará o tamanho desse acontecimento. Foi uma virada espetacular, construída
por milhões de pessoas que ocuparam as ruas e colocaram o próprio corpo em
movimento para defender suas ideias, sua dignidade e a soberania do país.
Na
história universal, há raros momentos que brilham até hoje como exemplos da
força invencível da alegria, da coragem e do sentido de união de um povo em
prol de uma causa maior. O que o Brasil acaba de viver pertence a essa linhagem
de episódios luminosos.
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O canto de Valmy e o nascimento de um mundo novo
Quando
observamos a energia popular que tomou conta do Brasil, vem imediatamente à
memória a Batalha de Valmy, travada em 20 de setembro de 1792, no norte da
França, próxima à região das Ardenas e de Varennes. Foi a primeira grande
vitória militar da Revolução Francesa.
Naquele
momento, as monarquias absolutistas da Europa, encabeçadas pelos exércitos
profissionais da Prússia e da Áustria, haviam se coligado para invadir a França
e esmagar a Revolução no berço. A jovem república francesa encontrava-se
falida, com suas forças regulares desorganizadas e acossada por conspirações
aristocráticas e rebeliões contrarrevolucionárias internas.
De
repente, de todos os cantos do país, cidadãos comuns começaram a marchar em
direção a Paris e às fronteiras, muitos deles armados apenas com paus, foices,
piques e mosquetes improvisados. Uma coluna decisiva de voluntários veio do sul
pobre e valente da França, marchando desde Marselha até a capital, entoando a
plenos pulmões um canto de guerra composto meses antes no leste francês, em
Estrasburgo, por um obscuro capitão de engenharia chamado Claude Joseph Rouget
de Lisle, um oficial sem grandes feitos militares que teve, naquela noite de
abril de 1792, um instante de gênio absoluto antes de voltar ao quase anonimato
da história, pois a canção foi imediatamente apropriada pelo povo como criação
coletiva dos marselheses.
O
grande historiador francês Jules Michelet, em sua monumental História da
Revolução Francesa, descreve com emoção o instante em que esses voluntários
maltrapilhos, os sans-culottes, encararam a máquina de guerra prussiana nas
colinas de Valmy. Quando a névoa se dissipou e os regimentos revolucionários
avançaram sob o fogo da artilharia cantando A Marselhesa e gritando “Viva a
Nação!”, algo inédito aconteceu.
Segundo
Michelet, aquela energia moral abalou profundamente os exércitos inimigos.
Soldados e generais veteranos, acostumados à guerra fria de mercenários e
súditos obedientes, jamais haviam presenciado uma força espiritual como a
daqueles homens livres dispostos a morrer cantando por uma ideia. O exército
invasor recuou. Naquela mesma noite, presente no campo de batalha, o poeta
alemão Goethe pronunciou a célebre frase “Deste lugar e deste dia data uma nova
época na história do mundo”. Valmy eletrizou a França e foi o prelúdio da
consolidação, para a eternidade, dos valores democráticos que ali se erguiam.
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A lealdade de Outubro na Argentina e o legado de Vargas no Brasil
Na
nossa América do Sul, a história também registrou momentos em que o povo entrou
em cena como uma avalanche para mudar o destino de uma nação.
Na
Argentina, em 17 de outubro de 1945, data que entrou para a história como o Día
de la Lealtad, a elite oligárquica e setores militares conservadores haviam
destituído e prendido o então coronel e secretário do Trabalho Juan Domingo
Perón, confinando-o primeiro na Ilha Martín García e depois sob custódia no
Hospital Militar central em Buenos Aires. Parecia o fim. Mas das periferias, do
interior e dos cinturões industriais de Avellaneda e Berisso, centenas de
milhares de trabalhadores, os “descamisados”, atravessaram pontes a pé ou a
nado pelo rio Riachuelo e ocuparam a Plaza de Mayo exigindo a libertação de seu
líder.
Aquela
insurreição popular pacífica e gigantesca não apenas libertou Perón e o levou à
presidência meses depois, como fundou a emancipação política da classe
trabalhadora argentina, consolidando leis trabalhistas históricas, direitos
sociais e a própria identidade cultural da Argentina moderna.
No
Brasil, vivemos jornadas de igual potência épica em torno de Getúlio Vargas.
Primeiro, na campanha presidencial de 1950, numa época sem o aparato moderno de
pesquisas eleitorais, quando Vargas rompeu o isolamento de São Borja e, a cada
estação de trem e praça pública por onde passava, multidões imensas se
levantavam espontaneamente pelo país inteiro, revelando a força invencível do
querer popular contra quase toda a grande imprensa. E, quatro anos depois, no
trágico 24 de agosto de 1954, quando o tiro no peito de Getúlio fez milhões de
brasileiros invadirem as ruas do Rio de Janeiro e das principais capitais, em
pranto e em fúria, rasgando jornais golpistas e empastelando a Tribuna da
Imprensa. Aquele levante de dor e coragem popular virou a página da história e
adiou o golpe militar em dez anos, garantindo uma década inteira de experiência
democrática e desenvolvimento nacional.
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A grandeza planetária da vitória brasileira
As
grandes vitórias populares costumam ser seguidas de imensos desafios, pois as
forças do atraso não descansam. Mas esses momentos de epifania coletiva ficam
gravados na alma dos povos e iluminam o caminho por gerações.
A
vitória popular brasileira de agora carrega, contudo, uma grandeza particular.
Não apenas pela dimensão continental do Brasil e pelas dezenas de milhões de
eleitores envolvidos numa disputa corpo a corpo, mas pelo momento crítico que
atravessa o planeta.
Vivemos
dias em que a principal potência militar do mundo utiliza abertamente uma
linguagem de extermínio e intimidação. Praticamente toda semana, o presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, lança ameaças de destruição total contra o
Irã ou contra qualquer nação que desafie a sua vontade. O mundo assiste
apreensivo à escalada da barbárie. Nesse cenário, uma vitória da extrema
direita subalterna a Trump no Brasil teria sido um golpe devastador contra a
luta pela paz mundial, contra o multilateralismo e contra o próprio futuro da
civilização.
Não é
possível falar em democracia da boca para fora, apenas no plano doméstico,
enquanto se apoia a tirania nas relações internacionais. A verdadeira
democracia exige uma governança mundial que respeite o direito internacional, a
autodeterminação dos povos e a paz. Nenhum país tem o direito de tiranizar o
planeta. A humanidade não tem imperador.
O que
os povos desejam é construir uma comunidade de futuro compartilhado para a
humanidade, a grande bandeira diplomática que hoje une o discurso do presidente
Lula e o do presidente da China, Xi Jinping, consolidando a liderança moral,
política e econômica do Sul Global.
Quando
milhões de brasileiros tomaram as avenidas entoando “Lula Lá”, não estavam
apenas celebrando um líder ou vencendo uma eleição difícil. Estavam entoando um
hino de resistência civilizatória que ecoou de Pequim a Buenos Aires, de
Joanesburgo a Paris. “Lula Lá” tornou-se a Marselhesa do Sul Global. Parabéns
ao povo brasileiro por escrever, com coragem e alegria, uma das páginas mais
bonitas da história humana.
• Vitória histórica de Lula, do povo e da
juventude. Por Aldo Fornazieri
Foi uma
vitória histórica de Lula, do povo e da juventude. O impossível foi buscado
para conquistar o possível. Foi uma vitória da liberdade, dos direitos, da
justiça, da igualdade e da democracia. Foi a vitória do meio ambiente, da paz e
da esperança de construir um futuro melhor.
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Foi a
vitória contra o golpismo, contra o crime organizado, contra os milicianos,
contra a mentira, contra a hipocrisia, contra a imoralidade, contra a
corrupção, contra o neofascismo, contra os predadores do meio ambiente, das
riquezas nacionais, contra as big techs. Foi uma vitória das mulheres, dos
negros, dos pobres, dos povos indígenas, das periferias, dos idosos, dos
humilhados, dos desamparados, dos doentes e da dignidade das pessoas. Foi uma
vitória da educação, da ciência, da saúde, do Estado laico, do pluralismo
religioso, do multiculturalismo e da diversidade étnica.
Foi a
vitória da energia, do entusiasmo, da paixão, da vibração, da virtude, do amor
e do calor da juventude. Foi uma vitória de Janones, o maior general da
campanha, o maior cabo eleitoral que Lula já teve em todas as suas campanhas. A
conexão entre a energia espontânea das ruas e a energia das redes comandadas
por Janones produziu essa explosão anímica de entusiasmo que produziu uma
vitória extraordinária.
No
artigo “O Povo Toma a Campanha em suas Mãos”, chamei a atenção sobre a potência
avassaladora que mobilizações espontâneas desencadeiam. A queda da Bastilha, em
1789, foi produzida por uma mobilização espontânea, sem liderança central
pré-organizada. As massas tomaram a fortaleza-prisão que simbolizou a queda da
monarquia francesa.
Em
1974, um levante militar espontâneo de jovens oficiais se conectou com a
mobilização espontânea das massas na rua, produzindo a Revolução dos Cravos e a
queda da ditadura portuguesa. Em 1989, após semanas de protestos populares,
multidões de berlinenses orientais e ocidentais se reuniram espontaneamente e,
por enorme pressão humana, puseram abaixo o Muro de Berlim.
As
mobilizações espontâneas ocorrem quando inexistem lideranças no contexto de
acontecimentos graves ou quando as lideranças existentes são omissas e
incompetentes. Foi isso que aconteceu no segundo turno: milhões de pessoas
saíram às ruas para derrotar o bolsonarismo e dar a vitória a Lula.
Poderíamos
citar, ainda, como exemplos, o início da campanha das Diretas Já, a Marcha
sobre Washington por Trabalho e Liberdade em 1963, a Primavera Árabe e o
movimento Black Lives Matter mais recentemente. Não se pode duvidar da potência
da vontade das multidões quando elas decidem agir.
Também
não se pode duvidar da capacidade de líderes idosos de conectar-se com a
energia das massas quando as outras lideranças falham ou inexistem. Foi isso o
que Lula fez no segundo turno, depois de perceber que a campanha do primeiro
turno foi a mais desorganizada de todas as que ele participou.
Exemplos
históricos não faltam. Em 1940, Churchill, com 65 anos, assumiu o comando da
Inglaterra no pior momento da Segunda Guerra Mundial e, com discursos poderosos
e firmeza estratégica, unificou a população na luta contra o nazismo. Nelson
Mandela, depois de passar 27 anos na prisão, liderou difíceis negociações para
pôr fim ao apartheid e eleger-se como primeiro presidente negro na África do
Sul aos 75 anos, em 1994. Mahatma Gandhi, com idade avançada, conduziu a luta
pela independência da Índia do domínio do Império Britânico, conquistada em
1947, quando o líder tinha 77 anos. O Cacique Raoni, com mais de 90 anos, ainda
é um dos maiores líderes indígenas do planeta e está na vanguarda da defesa da
Amazônia, dos povos originários e do meio ambiente.
Lula,
em 2022, com 77 anos, e em 2026, com 81 anos, precisou colocar-se à frente de
disputas eleitorais para derrotar o golpismo do bolsonarismo e garantir a
democracia. O campo democrático, progressista e de esquerda precisa se
perguntar acerca da razão de não existirem lideranças nacionais significativas
capazes de empalmar tão difícil tarefa na luta pela democracia, direitos e
liberdade.
Os
jovens que foram às ruas no segundo turno precisam se inspirar nesses líderes
históricos e nos exemplos de suas lutas, de sua dedicação e coragem para
comandar multidões, liderar batalhas e construir vitórias. Esses jovens
precisam saber que somente nas lutas dos povos se forjam lideranças autênticas.
Precisam saber que após as mobilizações espontâneas é necessário construir
organizações para que aquela energia das mobilizações não se dissipe e se
evapore.
Esse
foi o mal que acometeu tantos desses movimentos maravilhosos que fizeram
brilhar um sol intenso em poucos dias na história e, depois, o céu se tornou
novamente cinza com a restauração das velhas dominações. Foi mais ou menos isso
o que aconteceu com a Primavera Árabe, com os Indignados de Madri e com tantas
outras mobilizações.
Lula
não recebeu um cheque em branco dos jovens e do povo que foram às ruas para
garantir a vitória. No discurso que fez no domingo à noite, após as eleições,
Lula reconheceu que se tornou devedor das ruas, das massas do asfalto. Os
milhões que foram às ruas também sabem que são devedores de Lula, que buscaram
a vitória para homenageá-lo e honrá-lo pelo que fez. Essas dívidas de mão dupla
sacramentam um mútuo compromisso de produzir um novo tipo de governo. Um
governo que seja permeado e penetrado pelas forças que vêm das ruas.
Neste
momento de descompressão de tensões, angústias e ansiedades, neste momento de
euforia, não dá para esquecer que enormes desafios e perigos estão logo ali. As
vitórias costumam apagar erros e diluir responsabilidades. Desta vez não pode
ser assim. Por pouco, o Brasil quase caiu nas mãos do neofascismo e do crime
organizado. Não dá para esquecer que o bolsonarismo continua vivo e forte. Não
dá para esquecer que a extrema-direita avançou na América Latina e no mundo.
Não dá para esquecer os erros que foram cometidos pelo governo e pela campanha.
É uma
enorme consagração e honra para Lula ter sido eleito presidente
democraticamente por quatro vezes. Ele precisa medir essa consagração pelo
metro de suas responsabilidades para com o povo e para com o Brasil. Que a
arrogância desça a rampa do Palácio do Planalto e saia dos cômodos gabinetes
brasilienses. E que o senso de responsabilidade, recordando Weber, seja a
estrela polar, o guia absoluto a conduzir Lula e os demais dirigentes do futuro
governo.
• Contra todas as evidências em contrário,
a alegria. Por José Sócrates
Os
brasileiros me desculpem, mas ontem ganhou o mundo. A vitória de Lula da Silva
travou a vaga da extrema-direita na política mundial, o multilateralismo ganhou
um novo fôlego, os BRICS não ficaram coxos e o Sul Global conserva uma
liderança empenhada e reconhecida. Há eleições assim, cujo significado
ultrapassa largamente as fronteiras do país onde se realizam. Ontem, o mundo
contava com o Brasil. E quem conta com o Brasil encontra sempre mais do que a
conta. Que noite histórica. Que alegria. Saravá!
É
talvez cedo — e talvez maçador, para quem ainda está a acordar — entrar em
profundas análises de sociologia eleitoral. Nada me puxa agora para esse
exercício. O meu sentimento desta manhã, o sentimento de quem acompanhou de
longe, mas com muita, muita atenção, é que a vitória eleitoral de ontem
pertence, antes de mais, à sociedade civil brasileira. Nada sei sobre
estratégias de campanha ou estratégias nas redes sociais. O que sei, o que
senti, foi a reação das ruas do Brasil. Foram as ruas que construíram a
vitória. O segredo do êxito esteve na mobilização popular em defesa da
tolerância, do pluralismo, da liberdade e do Estado de direito. Foi a
mobilização de uma sociedade que recusou aceitar como inevitáveis a violência
verbal, a intolerância e a desvalorização das instituições democráticas.
A
beleza da campanha foi o protagonismo politicão dos jovens, dos intelectuais,
dos artistas, das universidades e de tantos cidadãos que decidiram sair à rua e
mudar o rumo da eleição. Também ali vi o resto do mundo atento e com
responsabilidade percebendo exatamente oi que estava em causa. Ali vi Mark
Ruffalo, Javier Bardem, Sónia Braga e Wagner Moura e senti-me imediatamente
entre os meus, que o meu Brasil também se escreve com S. No final, a verdade
essencial: a democracia pertence ao povo, e se pertence ao povo é também ao
povo que compete defendê-la. Ontem, o povo brasileiro defendeu a sua
democracia.
Finalmente,
a dimensão pessoal desta vitória. Quem havia de dizer que Lula da Silva
acrescentaria ainda um capítulo tão invulgar à sua já extraordinária biografia?
O carisma do combatente político regressou com tudo o que dele seria legítimo
esperar. Nada lhe foi oferecido na vida. Tudo teve de conquistar. Venceu a
pobreza familiar, fez-se operário metalúrgico, dirigente sindical, fundador de
um partido, presidente da República. Conheceu a prisão injusta e de lá saiu
diretamente para a Presidência. Ontem, voltou ao palco mundial para
protagonizar uma reviravolta política em que poucos acreditavam. Este
personagem é extraordinário.
A
democracia brasileira enfrentará, naturalmente, desafios imensos. A História
não está escrita antecipadamente e a incerteza sempre foi uma das
características mais fascinantes da política. Mas o que me fica no espírito,
depois de ter vivido a noite de ontem, é o sentimento que os brasileiros
compreenderam que o legado democrático “é uma coisa bela, preciosa, frágil e
perecível”. E decidiram defendê-lo. Contra todas as evidências em contrário, a
alegria (do poema “A velocidade da luz”, de Manuel Gusmão).
Fonte:
O Cafezinho/ICL Notícias

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