Como
Janones montou um exército digital na campanha de Lula — e qual espaço pode ter
no novo governo
Antes
mesmo de a apuração confirmar o vencedor, André Janones já
havia distribuído uma tarefa para depois da eleição.
"Última
missão", escreveu no Exército do Lula, o canal que criou no WhatsApp para
mobilizar apoiadores pela reeleição do presidente: quando a vitória se
confirmasse, os seguidores deveriam recuperar as publicações em que ele havia
previsto o resultado e o tamanho da diferença.
A
mensagem resumia duas marcas da atuação do deputado federal da Rede de Minas
Gerais: mobilizar os apoiadores de Lula e reivindicar reconhecimento pelo
próprio papel na campanha.
No
WhatsApp, seu canal chegou a cerca de 10,8 milhões de seguidores, convocados a
compartilhar vídeos, promover hashtags e atrair mais participantes.
Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva
sobre Flávio Bolsonaro, essa disputa por reconhecimento ganha outra dimensão:
quanto espaço Janones terá no próximo governo?
Com
100% das seções totalizadas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%
do adversário, segundo os dados do TSE.
Depois
da confirmação do resultado, Janones cobrou reconhecimento. "Onde tá sendo
formada a fila para os que duvidaram de mim pedirem desculpas?", escreveu
no X.
No
discurso de vitória, na noite de domingo (25), Lula chamou Janones para seu lado e
agradeceu a atuação do deputado na campanha. Referiu-se a ele como "nosso
general" e destacou seu papel de "levantar todo dia a moral da nossa
tropa".
O
presidente também associou o resultado à maneira como pretende conduzir o
próximo mandato. Prometeu ampliar a participação popular nas decisões e afirmou
que "a comunicação digital vai ganhar muito espaço".
O
Exército do Lula ganhou escala depois do primeiro turno.
No
canal, os administradores publicam textos, áudios, vídeos e links para os
seguidores, que podem reagir e encaminhar o conteúdo. Janones usava esse espaço
para orientar ações em outras plataformas e nas conversas com conhecidos:
compartilhar um vídeo no Instagram, promover uma hashtag no X ou convidar
contatos para aderir à mobilização.
Nas
mensagens, havia modelos prontos de convite para amigos e grupos. Cada
convocação oferecia aos seguidores uma tarefa concreta para ampliar a presença
de Lula nas redes.
O
crescimento também apareceu no perfil pessoal de Janones. Segundo o
SocialBlade, site que acompanha estatísticas de redes sociais, seu Instagram
passou de 2.781.320 seguidores no primeiro turno para 6.876.228, em consulta
feita em 23 de outubro. Foram 4.094.908 seguidores a mais, alta de 147,2%.
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Do auxílio emergencial às missões digitais
O
deputado, que tem 42 anos, construiu sua audiência falando de assuntos de
impacto imediato na vida dos seguidores.
Ganhou
projeção na greve dos caminhoneiros de 2018 e ampliou a presença nas redes com
a defesa do auxílio emergencial na pandemia. Em 2022, depois de retirar sua
candidatura presidencial e apoiar Lula, tornou-se um dos personagens da
ofensiva digital contra Jair Bolsonaro.
Em
2022, Janones já recebia elogios de aliados pela atuação nas redes. À revista
piauí, o marqueteiro Sidônio Palmeira, que chefia a Secretaria de Comunicação
Social (Secom), destacou sua rapidez para reagir e mudar o foco do debate. À
GZH, plataforma digital do conglomerado gaúcho de mídia Grupo RBS, o deputado
federal Paulo Pimenta (PT) defendeu a diversidade de estilos na campanha e
disse que Janones "atinge um público diferente".
O
reconhecimento ultrapassou o campo dos aliados de Lula.
Em
publicação no X em 23 de outubro, antes do segundo turno, Renan Santos,
fundador do MBL e adversário de Lula, colocou Janones no mesmo patamar de
comunicação de Cleitinho e Nikolas Ferreira e previu que os três mineiros
influenciariam os rumos do país.
"O
que ele fez na campanha do Lula será estudado nos próximos anos",
escreveu.
Renan
retomava uma publicação própria de janeiro de 2021, na qual já exaltava o
potencial político de Janones e apresentava tanto Bolsonaro quanto Lula como
ultrapassados.
Os
elogios conviviam com resistência dentro da esquerda. Em 2022, a Folha de
S.Paulo relatou o receio de petistas de que o estilo de Janones afetasse a
imagem moderada que pretendiam associar a Lula. A mesma reportagem registrou o
apelido "Carlucho do bem", atribuído a um aliado, em referência ao
senador eleito Carlos Bolsonaro, conhecido por sua atuação nas redes sociais
durante o governo do pai, Jair Bolsonaro.
A
controvérsia sobre o método atravessou o governo Lula. Ao comentar seu livro, Janonismo
Cultural: O uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil (Civilização
Brasileira), em 2023, Janones sustentou que usava blefes, não notícias falsas.
A Agência Lupa — de checagem de fatos — já havia documentado publicações
desinformativas do deputado na campanha.
Entre o
primeiro e o segundo turno de 2026, a campanha de Flávio levou o canal
Exército do Lula ao TSE e o acusou de divulgar mentiras. Janones negou a
disseminação de fake news. Um relatório técnico não localizou, nas publicações
de 2 a 11 de outubro, as afirmações examinadas nos autos.
O
alcance nacional contrasta com o desempenho de Janones na disputa por uma vaga
na Câmara. Ele foi reeleito deputado federal por Minas Gerais com 78.780 votos
em 2026, contra 238.967 em 2022 — queda de 67%, segundo o TSE. A expansão
acelerada do canal veio depois do primeiro turno, quando a eleição para a
Câmara já estava encerrada.
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Da influência nas redes à influência no governo
O
reconhecimento no discurso de vitória deu continuidade aos elogios que Lula já
vinha fazendo a Janones durante a campanha.
Na
madrugada de sábado (24), em uma live com Janones depois do debate da Globo, o
presidente agradeceu a mobilização e disse ao deputado: "Você vai subir de
patente". Chamou-o ainda de "general vitorioso".
Para o
cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, a vitória pode
aproximar a trajetória de Janones do governo, sobretudo na comunicação.
"Se
o Lula ganhar, eu acho que ele se torna alguém importante dentro do governo,
até para manter essa comunicação nas redes sociais", afirmou à BBC News
Brasil, antes do segundo turno.
Ao
comparar Janones a Pablo Marçal, Consentino vê proximidade nos mecanismos de
confronto e mobilização nas redes, apesar da diferença ideológica.
Marçal,
influenciador digital e um dos principais nomes engajados na campanha digital
de Flávio Bolsonaro, é conhecido por seu estilo agressivo, provocativo e
confrontador no ambiente digital.
A
distinção, na avaliação de Consentino, está na trajetória: Marçal teria levado
para a política métodos que já utilizava antes, enquanto Janones os teria
desenvolvido na própria atuação política. "Do ponto de vista da mecânica,
me parece muito próximo", afirmou.
A
cientista política e coordenadora do Curso de Graduação em Sociologia e
Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo),
Tathiana Chicarino, reconhece que Janones e Marçal compreendem o funcionamento
das redes e o uso de recursos emocionais, mas considera essa uma semelhança
instrumental, que não equipara o conteúdo nem os limites éticos de suas
atuações.
Para
Consentino, o avanço desse tipo de comunicação também pode alterar o espaço dos
profissionais de campanha. Ele sugere que o marketing político tradicional,
associado a nomes como Duda Mendonça e João Santana, esteja dando lugar a
estrategistas de redes sociais.
Ao
mencionar Sidônio Palmeira, questiona se essa comunicação tradicional teve o
efeito que Lula e seu entorno esperavam. É nessa possível mudança de peso entre
os métodos que situa a influência de Janones.
A
passagem da campanha para o governo traria um desafio para esse estilo de
confronto.
Ao
comparar as exigências de atacar um governo e de defender suas políticas,
Consentino afirmou: "Eu acho que esse tipo de estratégia funciona melhor
quando você é oposição".
Consentino
avalia que esse protagonismo tornou Janones uma referência na esquerda, com
utilidade para outros candidatos além de Lula. Isso não significa uma aprovação
do método: "Não vejo isso como algo necessariamente positivo, mas algo
dado da realidade", disse. Para ele, a comunicação direta com o eleitor
convive com o risco de campanhas mais personalistas e menos voltadas ao debate
de políticas públicas.
Para
Tathiana Chicarino, a discussão sobre o futuro de Janones também precisa passar
pelo partido e pelas organizações políticas, e não apenas por uma eventual
função no governo. Ela espera que o aprendizado sobre comunicação digital seja
incorporado tanto pelo governo quanto por partidos e movimentos sociais, mesmo
que o deputado não exerça influência diretamente.
A
pesquisadora vê a possibilidade de mudança na forma de a esquerda fazer
política, mas ressalta que ela não depende de Janones isoladamente.
Na sua
avaliação, compreender as redes exige conectá-las à mobilização presencial:
"É importante articular sempre redes e ruas", afirma. As missões e os
apelos de urgência da reta final podem funcionar para a decisão eleitoral, diz,
mas têm pouca possibilidade de manutenção no médio e longo prazo.
Fonte:
BBC News Brasil

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