Por
uma outra Secom
O
cenário político brasileiro é marcado pela intensa polarização entre a
centro-esquerda lulista e a extrema direita bolsonarista. No terceiro mandato
de Lula, um fenômeno se destaca: o eleitorado parece ser mais influenciado pela
comunicação direta, emocional e simplificada da direita do que pela fraca e
apagada estratégia de comunicação do próprio governo.
Este é
um paradoxo gritante. O Brasil pós-Bolsonaro apresenta melhorias significativas
em indicadores sociais e econômicos, como a queda do desemprego, a redução da
pobreza e a valorização da bolsa de valores. Diante deste panorama favorável, o
apagão comunicacional do governo em traduzir esses avanços para a vida real do
eleitorado é um erro estratégico de proporções alarmantes.
Por
que, então, a desaprovação ao governo Lula cresceu, mesmo com resultados
positivos que deveriam ser facilmente capitalizados? A resposta reside na
profunda desconexão com a dinâmica da comunicação digital contemporânea.
Desde
2016, a extrema direita estabeleceu um domínio quase hegemônico nas plataformas
digitais, utilizando táticas de comunicação altamente eficazes. O sucesso
reside na produção incessante de “cortes” de aparições de seus representantes,
que atingem milhões de visualizações. O apelo é majoritariamente emocional, a
linguagem é simples, direta e muitas vezes agressiva, e a capacidade de prender
a atenção do eleitor em vídeos curtos é inigualável. Essa estratégia busca a
identificação tribal e o engajamento imediato, mobilizando a base de forma
constante.
Em
contraste, a comunicação da esquerda, ao tentar ser cautelosa, didática e
abarcar todo o espectro político, torna-se truncada, longa, tediosa e
excessivamente “acadêmica” para o cidadão comum. O eleitor médio, imerso na
correria do dia a dia, consumindo informação em pílulas rápidas, não tem tempo
nem paciência para uma comunicação digital “pedagógica” e demorada.
A
ineficácia governamental é, portanto, um sintoma de uma profunda miopia
estratégica. A esquerda falha em capturar a atenção em um ambiente saturado de
estímulos curtos, enquanto a direita viraliza narrativas. A complexidade dos
temas governamentais exige uma tradução que a Secom (Secretaria de Comunicação
do Governo) não tem conseguido efetuar de forma eficaz, perdendo a batalha da
narrativa no campo digital.
O
sucesso do então deputado Flávio Dino, com suas respostas diretas, curtas e
irônicas no Senado, demonstrou o caminho. Os “cortes” de suas falas
viralizaram, provando que a simplicidade, a ironia e a assertividade funcionam
como ferramentas poderosas de engajamento, mesmo em um ambiente hostil.
Exemplos
não faltam. Agora em 2026, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira obtiveram votação
record. Outros exemplos que se traduziram em vitória nas urnas nesse pleito,
mas do espectro político de esquerda, foram Jones Manoel e Sâmia Bomfim, que
adotam a mesma tática de confronto, exposição ao máximo em debates, podcasts e
cortes pras redes sociais.
Este
não é um convite para a esquerda adotar táticas de desinformação ou
agressividade vazia, mas um alerta crucial: a forma de entrega da mensagem é
tão crucial quanto o seu conteúdo. A verdade precisa ser embalada de forma
atraente.
Os
casos Flávio Dino, Jones Manoel e Sâmia Bomfim revelam a necessidade urgente da
esquerda encontrar um ponto de equilíbrio: manter a profundidade e a verdade
dos fatos, mas embalá-los em formatos consumíveis e engajadores. A comunicação
deve focar menos em números macroeconômicos e mais em como o que foi feito
melhorou a vida do eleitor, no dia a dia. É imperativo traduzir o dado
macroeconômico (queda do dólar, alta da bolsa) para a realidade micro (o preço
do alimento, a vaga de emprego, o acesso à saúde).
A Secom
precisa urgentemente abandonar a postura de mera emissora de comunicados
oficiais e adotar a de contadora de histórias que ressoam com a experiência
cotidiana do brasileiro. A inação da Secom é um luxo que a centro-esquerda não
pode mais se permitir. A comunicação é a ponte essencial entre o governo e o
cidadão; se essa ponte está em ruínas, o mérito do trabalho governamental
jamais chegará ao seu destino final.
A hora
de reconstruir essa ponte é agora, no quarto mandato de Lula. A esquerda corre
o risco de perder a próxima eleição não por ter feito um mau governo, mas por
sua cegueira comunicacional frente às táticas de seu adversário político. A
urgência é clara: é preciso aprender e colocar em prática uma nova estratégia
de comunicação que seja ágil, emocionalmente conectiva e, acima de tudo,
compreensível para o eleitor que vive a correria do dia a dia.
O
governo não atingirá as massas se não entender o novo formato de comunicação
digital exitosa que se consolidou desde 2016. Nikolas Ferreira, Jones Manoel
etc., em polos opostos do espectro, mostraram o caminho de como se portar
digitalmente de forma que cause ampla repercussão e engajamento. É hora de
mudar, e agir pensando não só no pleito de agora, mas na futura composição das
câmaras a longo prazo para a esquerda.
Tivemos
uma eleição para o Senado desastrosa em 2026, nos compete fazer a leitura
adequada da nova era da comunicação, que já não é mais a era futura mas a
presente. Não há nenhum vislumbre do fim das redes sociais no Brasil a curto ou
a longo prazo. O Brasil é um dos países que mais tem influenciadores e mais
usam a internet no mundo. A praça onde o político do hoje passa já não é tão
mais a praça física, mas a praça digital, em que todos com acesso a celular
possuem imediata participação.
O
recorde de votos para políticos brasileiros está mudando do político
tradicional da televisão para o político da rede social, ou à dizer, o
“político influenciador”. E isso não é de todo um mal. Se vermos as redes
sociais como uma praça pública onde o púlpito do político é o “post” nessa
rede, entende-se que essa mensagem terá um alto grau de ressonância se a
linguagem for a correta.
A
esquerda precisa renovar a forma como se comunica. E já há nesse espectro
político, políticos eleitos que entenderam como se faz. Entender como se faz e
replicar. Replicar a fórmula para aumentar a representatividade. A direita está
quase numa corrida solo exitosa nessa prática. Se fazer presente como um
político de esquerda passa por entender o mecanismo que o colocará lá. Urgente.
Fonte:
Por Leonardo Maia Pires, em A Terra é Redonda

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