terça-feira, 27 de outubro de 2026

Por uma outra Secom

O cenário político brasileiro é marcado pela intensa polarização entre a centro-esquerda lulista e a extrema direita bolsonarista. No terceiro mandato de Lula, um fenômeno se destaca: o eleitorado parece ser mais influenciado pela comunicação direta, emocional e simplificada da direita do que pela fraca e apagada estratégia de comunicação do próprio governo.

Este é um paradoxo gritante. O Brasil pós-Bolsonaro apresenta melhorias significativas em indicadores sociais e econômicos, como a queda do desemprego, a redução da pobreza e a valorização da bolsa de valores. Diante deste panorama favorável, o apagão comunicacional do governo em traduzir esses avanços para a vida real do eleitorado é um erro estratégico de proporções alarmantes.

Por que, então, a desaprovação ao governo Lula cresceu, mesmo com resultados positivos que deveriam ser facilmente capitalizados? A resposta reside na profunda desconexão com a dinâmica da comunicação digital contemporânea.

Desde 2016, a extrema direita estabeleceu um domínio quase hegemônico nas plataformas digitais, utilizando táticas de comunicação altamente eficazes. O sucesso reside na produção incessante de “cortes” de aparições de seus representantes, que atingem milhões de visualizações. O apelo é majoritariamente emocional, a linguagem é simples, direta e muitas vezes agressiva, e a capacidade de prender a atenção do eleitor em vídeos curtos é inigualável. Essa estratégia busca a identificação tribal e o engajamento imediato, mobilizando a base de forma constante.

Em contraste, a comunicação da esquerda, ao tentar ser cautelosa, didática e abarcar todo o espectro político, torna-se truncada, longa, tediosa e excessivamente “acadêmica” para o cidadão comum. O eleitor médio, imerso na correria do dia a dia, consumindo informação em pílulas rápidas, não tem tempo nem paciência para uma comunicação digital “pedagógica” e demorada.

A ineficácia governamental é, portanto, um sintoma de uma profunda miopia estratégica. A esquerda falha em capturar a atenção em um ambiente saturado de estímulos curtos, enquanto a direita viraliza narrativas. A complexidade dos temas governamentais exige uma tradução que a Secom (Secretaria de Comunicação do Governo) não tem conseguido efetuar de forma eficaz, perdendo a batalha da narrativa no campo digital.

O sucesso do então deputado Flávio Dino, com suas respostas diretas, curtas e irônicas no Senado, demonstrou o caminho. Os “cortes” de suas falas viralizaram, provando que a simplicidade, a ironia e a assertividade funcionam como ferramentas poderosas de engajamento, mesmo em um ambiente hostil.

Exemplos não faltam. Agora em 2026, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira obtiveram votação record. Outros exemplos que se traduziram em vitória nas urnas nesse pleito, mas do espectro político de esquerda, foram Jones Manoel e Sâmia Bomfim, que adotam a mesma tática de confronto, exposição ao máximo em debates, podcasts e cortes pras redes sociais.

Este não é um convite para a esquerda adotar táticas de desinformação ou agressividade vazia, mas um alerta crucial: a forma de entrega da mensagem é tão crucial quanto o seu conteúdo. A verdade precisa ser embalada de forma atraente.

Os casos Flávio Dino, Jones Manoel e Sâmia Bomfim revelam a necessidade urgente da esquerda encontrar um ponto de equilíbrio: manter a profundidade e a verdade dos fatos, mas embalá-los em formatos consumíveis e engajadores. A comunicação deve focar menos em números macroeconômicos e mais em como o que foi feito melhorou a vida do eleitor, no dia a dia. É imperativo traduzir o dado macroeconômico (queda do dólar, alta da bolsa) para a realidade micro (o preço do alimento, a vaga de emprego, o acesso à saúde).

A Secom precisa urgentemente abandonar a postura de mera emissora de comunicados oficiais e adotar a de contadora de histórias que ressoam com a experiência cotidiana do brasileiro. A inação da Secom é um luxo que a centro-esquerda não pode mais se permitir. A comunicação é a ponte essencial entre o governo e o cidadão; se essa ponte está em ruínas, o mérito do trabalho governamental jamais chegará ao seu destino final.

A hora de reconstruir essa ponte é agora, no quarto mandato de Lula. A esquerda corre o risco de perder a próxima eleição não por ter feito um mau governo, mas por sua cegueira comunicacional frente às táticas de seu adversário político. A urgência é clara: é preciso aprender e colocar em prática uma nova estratégia de comunicação que seja ágil, emocionalmente conectiva e, acima de tudo, compreensível para o eleitor que vive a correria do dia a dia.

O governo não atingirá as massas se não entender o novo formato de comunicação digital exitosa que se consolidou desde 2016. Nikolas Ferreira, Jones Manoel etc., em polos opostos do espectro, mostraram o caminho de como se portar digitalmente de forma que cause ampla repercussão e engajamento. É hora de mudar, e agir pensando não só no pleito de agora, mas na futura composição das câmaras a longo prazo para a esquerda.

Tivemos uma eleição para o Senado desastrosa em 2026, nos compete fazer a leitura adequada da nova era da comunicação, que já não é mais a era futura mas a presente. Não há nenhum vislumbre do fim das redes sociais no Brasil a curto ou a longo prazo. O Brasil é um dos países que mais tem influenciadores e mais usam a internet no mundo. A praça onde o político do hoje passa já não é tão mais a praça física, mas a praça digital, em que todos com acesso a celular possuem imediata participação.

O recorde de votos para políticos brasileiros está mudando do político tradicional da televisão para o político da rede social, ou à dizer, o “político influenciador”. E isso não é de todo um mal. Se vermos as redes sociais como uma praça pública onde o púlpito do político é o “post” nessa rede, entende-se que essa mensagem terá um alto grau de ressonância se a linguagem for a correta.

A esquerda precisa renovar a forma como se comunica. E já há nesse espectro político, políticos eleitos que entenderam como se faz. Entender como se faz e replicar. Replicar a fórmula para aumentar a representatividade. A direita está quase numa corrida solo exitosa nessa prática. Se fazer presente como um político de esquerda passa por entender o mecanismo que o colocará lá. Urgente.

 

Fonte: Por Leonardo Maia Pires, em A Terra é Redonda

 

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