Flávio
altera rota para buscar reversão da derrota
O
senador Flávio
Bolsonaro (PL) disse nesta segunda-feira (26/10) que pretende pedir
ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cassação da chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
que saiu vencedor do segundo turno com 51,79% dos votos válidos contabilizados
neste domingo.
"Não
fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou", disse ele, acusando Lula, sem
provas, de "abuso de poder politico e econômico sem precedentes"
Só
partidos, coligações, candidatos ou o Ministério Público podem apresentar este
tipo de pedido à Justiça Eleitoral, no mais tardar até a diplomação dos
candidatos, em dezembro.
O
pronunciamento sinaliza uma retração da intenção de apostar num pedido de
anulação do segundo turno, anunciada por Flávio na véspera, logo após a sua
derrota nas urnas vir a público. O motivo alegado pelo senador seria a
prorrogação em duas horas da votação para parte das seções eleitorais.
A
chance de a empreitada jurídica por um "terceiro turno" prosperar
vem, desde então, sendo considerada remota por especialistas. Segundo o jornal Folha
de S.Paulo, Flávio foi convencido por aliados e advogados a desistir desse
caminho para reverter a
própria derrota.
Também
nesta segunda-feira, o deputal federal Nikolas
Ferreira (PL-MG), expoente do bolsonarismo, reconheceu que a
possibilidade de anulação das eleições é "praticamente nula", pedindo
que apoiadores da extrema direita não saíssem às ruas para protestar.
Logo
após a fala de Flávio, o seu partido, o PL, reconheceu o resultado do pleito,
em nota assinada pelo presidente Valdemar Costa Neto. A legenda, porém,
ressaltou que "questionamentos levantados precisam ser devidamente
esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático".
"Seguiremos
acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência
e respeito às instituições", diz a nota.
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Contestação já era esperada
O TSE
reconheceu no domingo a reeleição de Lula, considerada uma virada
histórica no segundo turno. Ao anunciar o resultado das urnas, o ministro
Kassio Nunes Marques, que preside a corte, afirmou ter "absoluta
segurança" de todo o processo eleitoral.
Nos
seus últimos minutos, a votação foi prolongada em duas horas (das 17h às 19h)
pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas a determinação só pôde ser aplicada para seções eleitorais onde as urnas
ainda não haviam sido fechadas.
Pedidos
de atraso do encerramento da votação haviam sido submetidos mais cedo ao TSE
pelas duas campanhas, mas para estados diferentes.
Flávio
criticou já no domingo a decisão de Zanin, alegando que ela quebrou a isonomia
entre eleitores que conseguiram ou não votar após as 17h. Análise de dados do
TSE, porém, revelaram que apenas cerca de 34 mil votos foram depositados após
às 17h, sendo mais de 84% nos primeiros cinco minutos, possivelmente de pessoas
que já estavam na fila. Após as 19h, foram apenas 11 votos em todo o Brasil.
Lula venceu por uma diferença de mais de 4,3 milhões de votos.
Antes
das eleições, analistas já ventilavam que o senador poderia não reconhecer uma
eventual vitória de Lula e questionar a integridade das eleições, uma pauta do
bolsonarismo já ensaiada em
2022.
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Anulação inviável no Judiciário
Segundo
especialistas, aprovar uma ação anulatória do segundo turno exigiria que o
próprio STF considerasse nula a decisão de Zanin ou, então, a rotulasse como
abuso de poder. A Corte tem competência para julgar atos dos seus ministros.
"Num
cenário político-institucional, não vejo espaço pra isso", afirma
Elival da Silva Ramos, professor de Direito Constitucional na Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Outros
argumentam que uma anulação não teria fundamentação ou ainda que a margem de vitória de
Lula não deixa dúvida quanto ao resultado da eleição, mesmo com a
prorrogação parcial das seções eleitorais..
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Guerra de cassações
No pano
de fundo, a corrida eleitoral deste ano já vinha sendo marcada pela
judicialização recorde. As campanhas apostaram, inclusive, no ajuizamento em
série, uma contra outra, das chamadas Ações de Investigação Judicial
Eleitoral (Aije), que podem tornar um candidato inelegível por oito anos e
cassar o seu mandato.
Um
levantamento de O Globo mostrou que havia 15 Aijes na véspera do segundo
turno (oito de Flávio contra Lula, sete de Lula contra Flávio). Mais dez vieram
de outros deputados ou partidos, segundo o jornal, mirando um dos dois
candidatos.
Para
que uma Aije seja julgada procedente, é preciso que fique comprovada
desigualdade na disputa entre
os candidatos. É o caso quando ocorre, por exemplo, abuso do poder
econômico ou de autoridade e o uso indevido dos meios de comunicação social
durante a campanha eleitoral.
De um
lado, Lula acionou a Justiça Eleitoral, por exemplo, citando o possível
beneficiamento de Flávio pelas plataformas digitais da Meta e suspeitas de
financiamento ilícito de campanha com recursos do filme Dark
Horse.
Flávio,
de outro lado, usou o mesmo recurso para acusar a campanha de Lula de usar a
estrutura da máquina pública para benefício político-eleitoral, cometer
irregularidades com a criação do chamado "Exército do Lula" no WhatsApp e outros.
Também
o Novo protocolou uma ação do tipo contra Lula, afirmando ter identificado 35
"medidas eleitoreiras" editadas neste ano que incorreriam em gastos
fora das regras fiscais. Entre elas, estão o reajuste do Bolsa Família,
a ampliação dos subsídios aos combustíveis e a extinção da "taxa das
blusinhas".
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Disputa ultrapassa ano eleitoral
A
análise destas ações pelo plenário pode demorar, sobretudo se forem necessárias
provas técnicas ou oitivas de testemunhas. Cabem ainda recursos, e os casos
podem eventualmente chegar ao STF.
Na
prática, as Aijes têm o poder de manter vivas as batalhas judiciais do
período de campanha para além do ano eleitoral.
"Vamos ter um conjunto de fatores que, sem dúvida, continuarão no
questionamento do resultado das eleições", afirma Flávio Bernardes,
professor de Direito Constitucional da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG).
Depois
da diplomação dos candidatos — mas não mais do que 15 dias após o ato solene —,
a alternativa jurídica é a Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (Aime). Ela
pode ter os mesmos efeitos caso se comprove que um candidato tenha alcançado um
mandato por meio de abuso de poder econômico, corrupção ou fraude.
"Nesse
tipo de ação, reúnem-se todos os fatos discutidos individualmente nas Aijes
para dimensionar a gravidade dos atos", acrescenta Bernardes.
Foi ao
julgar uma Aije movida pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) que, em 2023,
o TSE declarou Jair
Bolsonaro inelegível. O objeto de denúncia foi uma reunião — em
julho de 2022, a três meses das eleições — do então presidente com
embaixadores, no Palácio da Alvorada, para questionar o sistema de voto
eletrônico brasileiro.
Neste
ano, foi a vez de Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro, se tornar
inelegível por oito anos após condenação pelo TSE por abuso de poder político e
econômico. Ele renunciou na véspera do julgamento, evitando assim uma cassação.
'Líder
de oposição' e passaporte apreendido
Ainda
no vídeo divulgado nesta segunda-feira, Flávio se coloca como o líder da
oposição, embora ainda não tenha reconhecido o resultado das urnas.
"A
tendência é a economia ruir, a inflação explodir, e o resto de liberdade de
expressão que ainda nos resta ser encerrado nas redes sociais. Para resistir ao
caos, eu vou organizar a oposição", afirmou ele.
O
senador também afirmou que foi abordado pela Polícia Federal na manhã desta
segunda, quando saía de casa para visitar o pai, preso em regime domiciliar.
Segundo
Flávio, a PF o intimou a entregar os passaportes e o proibiu de deixar o país.
A
intimação foi uma decisão do ministro Alexandre de Moraes de domingo, que deu
um prazo de 24 horas para que Flávio entregasse o passaporte.
Flávio
é investigado em dois inquéritos no STF. Um deles apura lavagem de dinheiro por
meio de plataformas de apostas e envolve também o advogado Willer Tomaz, que
está em Miami.
Procurada
pela BBC News Brasil sobre o caso Willer Tomaz, a defesa de Flávio não
respondeu. Em nota enviada ao Estado de S. Paulo, o senador negou estar sendo
investigado no STF.
"Os
autos que chegaram à Corte sequer foram convertidos em inquérito, não houve
manifestação da Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a
respeito. Noticiar como 'novo inquérito' o que não passa de um expediente
recém-autuado, pendente de análise, distorce a realidade e induz o leitor a
erro", disse.
Por
meio de nota à BBC News Brasil, o escritório de Willer Tomaz criticou o
vazamento de informações sigilosas a poucos dias da eleição e disse que
"todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas
em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda".
"Não
há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto,
integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas",
reforçou.
"O
senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer
empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade entre famílias, e
amizade não é crime", disse ainda.
Outro
inquérito apura o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória
de Jair. Conversas vazadas do celular de Daniel Vorcaro, preso desde março,
mostraram que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro para financiar o longa.
Os R$
134 milhões pedidos pelo senador eram quase o dobro do orçamento total do filme
— R$ 75 milhões —, segundo a produtora Go UP Entertainment.
Os
investigadores suspeitam que o dinheiro tenha servido para bancar o deputado
cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Sobre o
caso Dark Horse e o dinheiro pedido a Daniel Vorcaro, Flávio nega
qualquer ilegalidade.
Em
entrevista na semana passada, Eduardo defendeu que, em caso de derrota nas
urnas, Flávio deveria deixar o país.
Mas no
vídeo desta segunda, Flávio afirma que nunca disse que deixaria o país.
"Eu nunca pensei em sair do país", disse.
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Partidos aliados de Flávio reconhecem a vitória de Lula
Dirigentes
e lideranças de partidos que apoiaram Flávio
Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições reconheceram a vitória
do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) no pleito deste domingo (25/10).
Ainda
na noite de domingo, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, foi
às redes sociais se pronunciar pelo reconhecimento da vitória do petista.
"O novo mandato traz a responsabilidade de governar para todos os
brasileiros, inclusive os que votaram em Flávio Bolsonaro, com respeito às
diferenças e diálogo com o Congresso Nacional. É o que esperamos em favor do
Brasil", escreveu ele no X.
Na
mesma linha, o ex-governador de Goiás Ronaldo
Caiado (PSD), que concorreu à Presidência no primeiro turno e apoiou
Flávio no segundo, disse aceitar o resultado das urnas.
"Uma
renovação. Era esse o ponto que todos nós lutamos favoravelmente a ele. Era
buscar essa virada de página. Acreditamos nessa ideia. Mas nós, como democratas
que somos, nos curvamos à decisão da maioria e à decisão da apuração. Essa
sempre foi a nossa característica", disse, segundo o UOL, em entrevista
coletiva em Goiânia ainda no domingo.
Após o
resultado ter sido anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e
reconhecido pelo presidente da Corte, ministro Kasiso Nunes Marques, Flávio
chamou a imprensa para dizer que não reconhecia a derrota e pediria anulação da
eleição.
"É
impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas
aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico e vamos pedir a anulação dessas
eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo
mais uma vez pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal", disse
Flávio, que perdeu por cerca de 4,4 milhões de votos para Lula.
A
declaração de Flávio faz menção à prorrogação por duas horas do horário de
votação, determinada pelo ministro do STF, Cristiano Zanin, em resposta a um
pedido feito pelo PT sob a alegação de que diversas cidades do Brasil haviam
deixado de oferecer transporte coletivo gratuito para os eleitores.
No
entanto, sua própria coligação pediu ao TSE que o horário da votação fosse
prorrogado em alguns estados devido às fortes chuvas que caíram em algumas
cidades e que teriam prejudicado a chegada de eleitores às seções de votação.
"Causou
estranheza o próprio PL ter solicitado a prorrogação da votação, ainda que em
locais específicos. Além disso, o total de votos registrados após as 17 horas
em todo o País foi insignificante diante da diferença entre os
candidatos", disse o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (MDB) ao
Estado de São Paulo.
"Se
havia alguma dúvida quanto a essa prorrogação, o mais coerente seria tê-la
questionado antes da apuração dos votos, e não somente após a confirmação do
resultado", afirmou o vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio,
até o momento, não se pronunciou.
Assim
como Ramuth, o perfil oficial do seu partido, o MDB, reconheceu a vitória de
Lula em uma postagem no X. "É um momento em que a vontade popular se fez
soberana. Desejamos que ele tenha serenidade para governar o país em favor de
todos, sem exceção", dizia a publicação de domingo à noite.
Já
nesta segunda-feira pela manhã, o União Brasil publicou uma nota assinada pelo
dirigente nacional Antonio Rueda afirmando que "a soberania popular se
manifestou de forma livre nas urnas".
"Essa
é a base da democracia brasileira e o compromisso do nosso partido. Encerrado o
processo eleitoral, é hora de unir o país em torno de uma agenda comum."
Na
mesma direção foi o PSD, de Gilberto Kassab, que assinou uma nota reafirmando
seu compromisso "com nossa democracia".
"Tenho
certeza que nossos parlamentares e governadores eleitos seguirão defendendo os
bons projetos e manterão a relação republicana com o Governo Federal, em defesa
do objetivo comum a todos nós, que é o desenvolvimento do Brasil e o bem-estar
da nossa população", dizia a nota.
Aécio
Neves, presidente nacional do PSDB, assinou uma nota afirmando que os
brasileiros escolheram democraticamente o próximo representante do país. O
partido se manteve neutro no segundo turno.
"Esperamos
que seu governo saiba buscar a união dos brasileiros, respeitando as diferenças
que fazem parte da vida democrática, e avance na solução dos problemas que
afetam a vida dos brasileiros", dizia uma publicação do perfil da sigla no
X.
Renan
Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo Missão no
primeiro turno, fez um vídeo em suas redes sociais no qual atribuía a derrota
de Flávio ao que chamou de "arrogância" do bolsonarismo.
"Uma
vitória que não foi construída em cima de um governo bom. O governo Lula foi um
governo fraco. Uma vitória que foi construída em cima da arrogância da família
Bolsonaro e dos membros daquilo que a gente chama de bolsonarismo", disse.
Sergio
Moro (PL), eleito governador do Paraná, disse que o resultado de domingo
"não foi o esperado" pela oposição e que "há questionamentos da
oposição que precisam ser esclarecidos".
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Augusto Cury não se manifesta
O
ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que também disputou o
primeiro turno, questionou o resultado.
"O
Lula aplicou um golpe à la Venezuela. A mesma coisa que o seu companheiro
ditador fez lá prorrogando o prazo da eleição (...) Essa foi a eleição mais
alarmista e mentirosa que eu já vi no Brasil. Lamento muito, a vida do
brasileiro vai continuar estagnada", disse em um vídeo publicado nas redes
sociais.
O
escritor Augusto Cury (Avante), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno,
e manifestou apoio a Flávio no segundo, ainda não se manifestou.
Fonte:
DW Brasil/BBC News Brasil

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