terça-feira, 27 de outubro de 2026


 

Oliveiros Marques: O discurso dos derrotados

A genética não falha. O que está no corpo desde a concepção ali permanece e é transmitido às gerações seguintes. É o caso do DNA golpista da família Bolsonaro, que se espraia do clã para todo o movimento bolsonarista. Renovam-se os atores, mas mantém-se o velho cacoete: desprezar as regras do jogo e distorcer a verdade para fabricar versões próprias, repassadas tanto aos espertalhões quanto aos que, de boa-fé, ainda os seguem. E não são poucos, como demonstram os resultados das urnas.

Ao declarar que não aceita o resultado, o candidato Flávio Bolsonaro agarrou-se a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que, ironicamente, atendia também a um pedido de sua própria campanha: a prorrogação do horário de votação. A medida garantiu o direito de votar a uma parcela ínfima do eleitorado, que lhe tivera sido usurpado por empresários e administradores municipais que lhe negaram a oferta legal de transporte coletivo. Ao contestá-la, Flávio nada mais faz do que repetir o pai, o hoje presidiário Jair Bolsonaro: semear confusão para lançar uma nuvem sobre a própria incapacidade e sobre o sonoro “não” que recebeu do povo brasileiro. Ou, quem sabe, para estender uma neblina sobre algum aeródromo de onde possa taxiar rumo aos Estados Unidos, em fuga de uma prisão que pode estar se aproximando, dado o seu possível envolvimento com os escândalos do INSS e do Banco Master.

O roteiro é conhecido. Em 2022, o pai também se recusou a reconhecer a derrota com clareza, alimentou acampamentos diante dos quartéis e deixou a dúvida fermentar até explodir no 8 de janeiro. O desfecho também é conhecido: condenação, cela e um movimento órfão de seu líder. Quem aposta na mesma receita não pode alegar surpresa ao colher o mesmo resultado.

A postura do ainda senador – em breve um desempregado, que talvez busque um cargo fantasma no gabinete de Nikolas Ferreira, além de mais uma vez atentar contra a democracia – é de uma imbecilidade atroz. E, sob a ótica do próprio bolsonarismo, um erro estratégico: perde a chance de se firmar como liderança da oposição no país. Preferiu a molecagem golpista e abre espaço para quem ficou de lado na fotografia do anúncio chororô: Tarcísio de Freitas, que assiste a tudo com a paciência de quem sabe que 2030 está logo ali.

Na imagem, o destaque ficou com dois nomes que serão a Carla Zambelli e o Roberto Jefferson da vez: Pablo Marçal e Nikolas Ferreira. O primeiro, pelas orientações que conduziram à desastrada participação de Flávio no debate da Band; o segundo, pelo vídeo infeliz, preconceituoso e imbecil sobre o Nordeste – região que costuma dar sua resposta nas urnas.

As consequências do discurso de ontem à noite poderão ser medidas nos próximos dias. Tudo depende do candidato derrotado permanecer em solo brasileiro ou buscar a companhia do irmão nos Estados Unidos, para usufruir um pouco dos fundos do irmãozão – o outro. A democracia brasileira já mostrou que sabe resistir; resta saber quantas vezes mais terá de provar isso à mesma família.

•        Cúpula do PL resiste à tentativa de Flávio Bolsonaro de anular eleição

A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de anular a eleição presidencial enfrenta resistência dentro do próprio partido. Integrantes da cúpula da legenda são contrários à contestação do resultado e avaliam que a vantagem de 4,4 milhões de votos obtida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) torna inviável qualquer possibilidade de reversão da derrota do candidato bolsonarista.

Segundo informações do jornalista Valdo Cruz, do G1, divulgadas nesta segunda-feira (26), embora haja divergências internas sobre a iniciativa, dificilmente algum dirigente do PL se manifestará publicamente contra a posição anunciada por Flávio na noite de domingo (25), após a confirmação da reeleição de Lula.

A avaliação dessas lideranças é que nem mesmo uma eventual reabertura de seções eleitorais seria capaz de modificar o resultado da disputa presidencial. Nos estados em que Flávio Bolsonaro solicitou a prorrogação do horário de votação, a abstenção foi baixa, o que enfraquece o argumento de que problemas registrados durante o pleito teriam comprometido o resultado.

Além da resistência interna, o PL deve ficar isolado politicamente na tentativa de questionar a eleição. Lideranças de outros partidos, incluindo siglas do Centrão, já reconheceram a vitória do presidente Lula.

No PP, partido presidido pelo senador Ciro Nogueira, o senador eleito Arthur Lira (AL) parabenizou o petista pela reeleição. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, também cumprimentou Lula pelo resultado.

<><> Abstenção menor no segundo turno enfraquece contestação

Outro elemento considerado pelas lideranças partidárias é a redução da abstenção no segundo turno em comparação com o primeiro. O comparecimento dos eleitores aumentou na votação decisiva, apesar dos problemas registrados em diferentes regiões do país.

Esse comportamento do eleitorado contraria a argumentação utilizada por Flávio Bolsonaro para justificar sua recusa em reconhecer a derrota e defender a anulação da eleição.

A diferença de 4,4 milhões de votos entre Lula e Flávio também é apontada como um obstáculo decisivo à contestação. Segundo a avaliação relatada pelo g1, a quantidade de eleitores que eventualmente poderia ter sido afetada pelos problemas na votação não seria suficiente para alterar o resultado final.

<><> Decisão de Zanin gera controvérsia até no governo Lula

A iniciativa de Flávio Bolsonaro está relacionada à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prorrogação do horário de votação por duas horas no domingo.

O candidato derrotado acusa Zanin de ter adotado a medida para favorecer Lula, argumentando que o magistrado foi advogado do presidente antes de ser indicado ao STF.

Entretanto, o próprio PL também apresentou dois pedidos para ampliar o horário de votação em duas horas. Nas localidades contempladas pelas solicitações do partido, a abstenção também foi menor.

A decisão de Zanin provocou questionamentos inclusive entre integrantes do governo Lula. Conforme a reportagem, assessores presidenciais consideram que o ministro deveria ter evitado a medida, mesmo diante da existência de argumentos técnicos que poderiam justificá-la.

A preocupação desses auxiliares é que a antiga relação profissional entre Zanin e Lula seja explorada pelos bolsonaristas para questionar o resultado eleitoral.

•        Por um novo Movimento de 11 de Novembro. Por Wilton Gomes

Na democracia brasileira recente, a apuração deixou de ser ponto final e virou reticências. Perder a eleição já não encerra a disputa: inaugura outra, o chamado “terceiro turno”, travado quando as urnas já se calaram. A não aceitação da derrota nacional virou método.

O roteiro se repete, a cada vez com mais ênfase. Em 2014, o candidato derrotado nas eleições presidenciais reconheceu o resultado, mas seu partido pediu ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria das urnas, que nada encontrou. Em 2018, o próprio vencedor, Jair Bolsonaro, afirmou, sem provas, que só não venceu no primeiro turno por causa de fraude nas urnas. Em 2022, a dúvida virou recusa: o derrotado nunca reconheceu expressamente a vitória do adversário.

Não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Mas aqui ele ganhou contornos próprios: a contestação já não espera o resultado. É gestada antes do voto e aguarda, paciente, apenas o pre pretext.

E a recusa de 2022 custou caro ao país. Ao silêncio do candidato derrotado somou-se o pedido de seu partido ao Tribunal Superior Eleitoral para invalidar os votos de parte das urnas. O pedido foi rejeitado, e o partido, multado por litigância de má-fé.

Aquele silêncio, porém, falou alto. Alimentou bloqueios de rodovias, acampamentos diante de quartéis e, em 8 de janeiro de 2023, a invasão das sedes dos Três Poderes, com vidraças estilhaçadas e obras de arte feridas. Vieram depois a inelegibilidade decretada pelo TSE e, em 2025, a condenação pelo STF por tentativa de golpe de Estado.

A lição de 2022 ficou gravada nos cacos da Praça dos Três Poderes: a contestação sem prova não é exercício de direito. É o primeiro ato de uma ruptura.

Se a derrota já não era aceita em 2022, a de 2026 tinha tudo para ser ainda mais amarga. Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula. No segundo, viu a vantagem escorrer entre os dedos: Lula fez 51,77%, contra 48,23%, uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos.

A apuração teve a dramaturgia das grandes viradas. Às 19h46, Flávio passou à frente; às 20h26, Lula retomou a liderança, e dela não saiu mais. Quarenta minutos separaram a euforia do desalento.

O desfecho era previsível. Por volta das 22h40, Flávio declarou ser “impossível reconhecer o resultado” e anunciou que pedirá ao TSE a anulação da eleição. O pretexto escolhido, desta vez, foi a decisão do ministro Cristiano Zanin que prorrogou a votação.

A decisão, proferida na Reclamação nº 101.673, estendeu até as 19h o recebimento de votos em todas as seções do país. A Reclamação apontava o descumprimento da ADPF 1.013, precedente do STF sobre a oferta de transporte público no dia da eleição.

O fato era grave e comprovado. Em Salvador, o Procon encontrou 370 (trezentos e setenta) ônibus parados nas garagens: cada um deles, uma fila de votos à espera de condução. Em São Paulo, a ordem para operar com 100% da frota chegou às empresas com menos de 12 horas de antecedência.

A cronologia mostra que não houve um pedido isolado. Antes das 16h, a coligação de Lula pediu ao TSE a prorrogação em Zonas Eleitorais da Bahia e em outros cinco estados, por falta de ônibus. Às 16h20, o presidente do TSE deu 30 minutos para que as prefeituras se explicassem. Às 16h32, a Reclamação chegou ao STF, com pedido de prorrogação nacional.

Às 16h40, foi a vez da campanha de Flávio, que pediu ao TSE a prorrogação em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, por causa de chuvas e alagamentos. Por volta das 17h, o ministro Zanin prorrogou a votação até as 19h em todo o país. Às 18h44, o TSE orientou que as seções abertas seguissem até as 19h e que as urnas já encerradas não fossem reabertas.

O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, acatou a ordem e determinou aos Tribunais Regionais Eleitorais que as seções ainda abertas funcionassem até as 19h.

Em nosso sentir, o pedido de anulação do candidato derrotado não tem qualquer plausibilidade jurídica. A decisão do ministro Zanin foi acertada na forma, no momento e no conteúdo.

Na forma, a Reclamação é o instrumento constitucional para garantir a autoridade das decisões do STF (art. 102, I, “l”, da Constituição). Se municípios descumpriam o precedente da ADPF 1.013, era ao Supremo que cabia restabelecê-lo. A execução ficou com o TSE, como deve ser.

No momento, a Reclamação chegou às 16h32, e a decisão veio por volta das 17h. O ministro decidiu no primeiro instante em que o caso chegou a ele, com as urnas ainda abertas. Decidir depois seria inútil; decidir antes, impossível.

No conteúdo, as duas coligações pediram prorrogação: a de Lula alegou falta de ônibus; a de Flávio, chuvas e alagamentos. Cada uma escolheu os estados que lhe interessavam. Atender aos pedidos estado por estado criaria uma colcha de retalhos, com horários diferentes conforme a conveniência de cada campanha. A prorrogação nacional e uniforme foi a solução mais isonômica: a mesma régua para todos os eleitores, sem escolher região nem candidato.

A aplicação também foi igual para todos. Por impossibilidade técnica, as urnas já encerradas não foram reabertas em nenhum estado, fosse ele favorável a um ou a outro candidato.

Por fim, falta ao pedido o essencial: o prejuízo. A diferença de cerca de 4,4 milhões de votos não pode ser atribuída à prorrogação, até porque muitas seções eleitorais já estavam fechadas quando a ordem judicial chegou. Sem prejuízo demonstrado, aplica-se o princípio pas de nullité sans grief (“não há nulidade sem prejuízo”), acolhido no art. 219 do Código Eleitoral, e o pedido de nulidade do escrutínio perde qualquer sentido.

A história brasileira já conheceu esse enredo. Em 1955, Juscelino Kubitschek venceu a eleição sem maioria absoluta, exigência que a Constituição não fazia. A UDN e Carlos Lacerda passaram a pregar que ele não podia tomar posse. Em 11 de novembro, o general Henrique Lott agiu para garantir a posse dos eleitos. O episódio entrou para a história como Movimento de 11 de Novembro, ou contragolpe preventivo. JK e Jango assumiram em 31 de janeiro de 1956, como as urnas tinham decidido.

Naquela ocasião, foram precisos tanques nas ruas e tiros de canhão contra um cruzador para que a vontade das urnas prevalecesse. Em 2026, torcemos para que a defesa das urnas seja realizada pelas próprias instituições, com as armas da Constituição, e não com as dos quartéis. É ela que impede que a recusa da derrota se transforme em outro 8 de janeiro ou abra caminho para uma intervenção militar ou externa. Na democracia, a última palavra é do eleitor. Ao derrotado, resta a grandeza de reconhecê-la.

•        “O ‘exército de Lula’ não pode baixar a guarda”. Por Florestan Fernandes Jr

Essa foi, sem dúvida, a vitória mais emocionante da esquerda brasileira desde a primeira eleição de Lula à Presidência, em 2002. O sabor da conquista foi ainda maior diante das ameaças concretas à preservação da nossa democracia.

E quis o destino que os jovens estudantes assumissem o protagonismo da campanha de 2026. Eles chegam à cena política para dar continuidade aos compromissos históricos de seus avós na defesa de um país mais justo, igualitário e democrático.

Vencemos uma batalha importante, mas a guerra ainda não terminou. E é por isso que a chegada desses jovens é importantíssima, que acontece num momento decisivo: eles podem ajudar a renovar as ideias, revitalizar as bandeiras de luta e recuperar os vínculos com as origens de uma esquerda que, ao longo dos últimos anos, vinha se distanciando de parte de suas bases históricas.

A esquerda brasileira enfrenta um desafio decisivo: renovar seus quadros, recuperar suas raízes populares e devolver força às bandeiras que marcaram sua história. O protagonismo dos jovens nessa campanha aponta um caminho para essa transformação, com o PT no centro de uma renovação que já não pode ser adiada. Mais do que uma mudança de nomes, trata-se de recuperar a capacidade de mobilizar, dialogar com a sociedade e oferecer perspectivas de futuro. Esse movimento pode ultrapassar as fronteiras brasileiras e inspirar jovens do outro lado do Atlântico, num momento em que a democracia está sob pressão em diversas partes do mundo.

O Brasil também tem uma experiência concreta a compartilhar. A reação institucional à tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e a responsabilização dos envolvidos mostraram que a democracia não pode ser tratada como uma conquista irreversível. Agora, a vitória eleitoral de 2026 reforça a importância da mobilização popular diante do avanço da extrema direita e das ameaças representadas por Donald Trump e seus aliados na América Latina e na Europa. A lição é clara: não basta denunciar o autoritarismo; é preciso organizar a resistência democrática, renovar a política e construir alternativas capazes de mobilizar as novas gerações.

Com o avanço da extrema direita no Congresso, Lula terá enormes dificuldades pela frente. As próximas batalhas serão duras e decisivas para o futuro do país e da nossa democracia.

Por isso, a militância não pode voltar para casa nem baixar a guarda depois da vitória. O “exército de Lula” precisa continuar unido, mobilizado e nas ruas, nas redes e nos locais de trabalho, defendendo as conquistas, cobrando compromissos e enfrentando cada tentativa de sabotar o governo. Não podemos permitir que a energia da campanha se dissipe nem que nossos adversários recuperem o terreno perdido.

A vitória nas urnas foi uma conquista extraordinária, mas não encerra a luta. É agora que a militância precisa mostrar sua força! Precisamos transformar a mobilização eleitoral em organização permanente, ampliar o diálogo com a sociedade e pressionar o Congresso para que os interesses da maioria prevaleçam. A democracia não se defende apenas no dia da eleição: defende-se todos os dias.

A tropa precisa permanecer unida, alerta e em movimento. A luta continua, e ninguém pode ficar pelo caminho.

 

Fonte: Brasil 247

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