Luis Felipe Miguel: Dez milhões
Eu entrei no exército do Lula quando devia
ter menos de um milhão de pessoas por lá. Não fui dos últimos, mas não estive
entre primeiros, até porque não gosto nem um pouco de usar WhatsApp. Aqui em
casa, onde moramos três pessoas, fui o terceiro a entrar.
Mas logo fui vendo que se tornava uma
ferramenta importante de mobilização. Não economizo meus elogios ao deputado
André Janones, que está fazendo um trabalho extremamente competente e é o
grande responsável pelo fato de que hoje somos capazes de lutar de igual para
igual no ambiente digital. O que é muita coisa, porque este ambiente é todo
organizado de maneira a nos prejudicar.
Não estou falando apenas das manipulações, a
esta altura do campeonato já mais do que evidentes, da Meta, para beneficiar a
candidatura de Flávio Bolsonaro.
É que o ambiente de debate nas plataformas é
contrário a qualquer tipo de aprofundamento das questões, a qualquer tipo de
reflexão que exija maior atenção do público, a qualquer argumento que não possa
ser resumido em um meme, a tudo aquilo que luta contra o senso comum e mesmo
contra os preconceitos arraigados na sociedade.
Com isso, as plataformas servem muito mais
para reproduzir ideias já feitas e para fortalecer crenças já existentes do que
para transformar mentalidades, que é exatamente aquilo que a esquerda precisa
fazer.
A mobilização que André Janones propôs,
estilo “tropa” e voltada a triunfar sobre o algoritmo, mostrou-se eficaz e é
necessária. Não resolve, porém, o problema da educação política, que teremos
que enfrentar. Mas esse é tema para outra conversa.
Daí, André Janones começou a comandar missões
para aumentar o número de participantes do canal. Primeiro queria chegar a seis
milhões; como foi rápido aumentou para sete, vocês devem lembrar.
Eu me engajei nessa tarefa, embora soubesse
que seria algo inglório. Afinal, eu vivo numa bolha quase perfeita. Posso dizer
que não conheço nenhuma pessoa que não vote no Lula. Toda minha família vota no
Lula, meus amigos votam no Lula, meus alunos votam no Lula, meus colegas de
trabalho votam no Lula, meus vizinhos votam no Lula. Todos os porteiros do meu
prédio votam no Lula.
Embora o filhote de Satanás tenha ganhado no
Distrito Federal, o bairro em que moro, a Asa Norte, é tradicionalmente um
reduto de Lula. O presidente ganhou aqui em 2022 e ganhou de novo em 2026.
Ficou 10 pontos à frente no primeiro turno.
Mas fui para o zap convidar as pessoas. A
reação mais comum que obtive como resposta foi a indignação por eu ter
imaginado que aquela pessoa ainda não estava no canal do André Janones.
Chegamos aos 7 milhões e daí o nosso general fez o desafio dos 10 milhões.
Continuei convidando as pessoas. Em vão; acho que, se muito, conquistei um novo
seguidor, porque todo mundo com quem eu falava já estava lá.
E o que as pessoas diziam era: “Acho que
agora o André Janones deu uma piradinha”. A meta de 10 milhões parecia
inalcançável. Pois chegamos nela, umas horas antes do debate. No momento em que
escrevo, o “Exército do Lula” no WhatsApp está se aproximando dos 11 milhões de
membros.
Isso mostra que ainda há espaço para crescer,
mesmo quando parece que já esgotamos tudo. Isso mostra que ainda tem voto para
virar até amanhã. Que não podemos parar com o esforço de convencimento, com a
mobilização nas ruas e nas redes, até fechar a última urna.
Como todos nós sabemos, o que está em jogo é
muito grave.
E o debate? A primeira lição do debate é que
realmente não há como debater com alguém como o candidato miliciano. Não é só o
formato do debate, que é ruim. É que o Flávio Bolsonaro é péssimo. Ele fez o
que sempre faz: mentiu. A visão idealizada do debate como momento de confronto
de propostas se estilhaça quando bate no material de que é feito um candidato
como Flávio Bolsonaro. Aliás, a estratégia de sua campanha, do começo ao fim,
se resumiu em uma única palavra: “mentira”. No debate, não foi diferente.
Não vou dizer que Lula foi bem no debate,
porque estaria me iludindo. Lula estava menos afiado do que em outras ocasiões,
parecia cansado. Deixou passar várias oportunidades de encurralar Flávio
Bolsonaro. Ainda assim, foi nitidamente melhor do que o adversário. Foi minha
impressão assistindo, e é o que dizem os grupos focais com indecisos e também
todos os analistas que li.
Menos, claro, a análise da Brasil Paralelo.
Que está tão alinhada à estratégia de seu candidato que foi capaz de produzir
um arremedo de checagem de fatos concluindo que Lula mentiu e Flávio Bolsonaro…
Bom, nem eles são capazes de dizer que o Flávio não mentiu, mas dizem que o
Flávio mentiu menos que o Lula!
A Checagem ao Vivo comprova: vitória
acachapante de Flávio… no quesito “mentira”!
Lula teve, como todo mundo está comentando,
pontos altos no debate, que foram suficientes para definir a seu favor aquele
enfrentamento. Um deles foi quando citou o caso Ana Clara. Flávio Bolsonaro não
apenas mostrou completo desconhecimento do caso, trocando o nome da mãe pelo
nome da menina, como fez uma inacreditável defesa do assassino.
Não custa lembrar: não existe nenhuma dúvida
sobre a identidade do assassino de Ana Clara, Ele foi preso em flagrante. O
julgamento não é para determinar a autoria do crime, é apenas para verificar se
existe algum atenuante (o que é absolutamente improvável, é mesmo impensável,
mas, dentro de um regime de direito, ele deve ser devidamente julgado). Então,
naquele momento, a insensibilidade de Flávio Bolsonaro ficou evidente diante de
todos os espectadores.
O outro momento foi a resposta de Lula quando
foi chamado de “nove dedos”. Como escreveu o professor Felipe Demier, a
resposta de Lula ”foi épica. Um forte teor classista, na provocação e na
resposta. Ali ficou nítida a divisão de classe e de caráter. Não restou nada ao
Flávio Bolsonaro senão cinicamente se desculpar”.
Lula enfatizou a diferença de sua trajetória,
de trabalhador pobre, em relação à do miliciano, um playboy que ganhou um
emprego fantasma do papai. Marcou a diferença entre a vivência de um integrante
da classe trabalhadora e a das elites que dominam o nosso país.
Naquele momento, além de iluminar a
truculência do candidato miliciano, ele marcou uma linha divisória entre quem
está do lado e quem está contra a classe trabalhadora no Brasil.
Se houvesse lógica na escolha eleitoral,
estes dois momentos bastariam para definir o resultado de amanhã. Mas, se
houvesse lógica, uma criatura como Flávio Bolsonaro, desprovida de todas as
virtudes, vestida de todos os vícios, nem teria sido cogitada como candidato.
O resultado está em aberto. Depende de nosso
último esforço.
• Alienação
– perdas e danos. Por Fernando Nogueira da Costa
Foi fundamental para a vitória eleitoral de
Lula, em 2026, a queda da alienação por parte dos eleitores. Caso contrário,
com a perda eleitoral, o dano social seria imenso.
Quais são os danos particulares da alienação?
Ela pode produzir consequências individuais em diferentes dimensões.
Perda de autonomia – a pessoa passa a
experimentar suas atividades e decisões como subordinadas a forças externas.
Redução da capacidade de realização – o trabalho, a educação e outras
atividades deixam de ser oportunidades de desenvolvimento e tornam-se apenas
obrigações. Sentimento de impotência – o indivíduo passa a acreditar em suas
ações não possuírem consequências relevantes.
Enfraquecimento da identidade – a pessoa
encontra dificuldade para reconhecer seus próprios valores e objetivos nas
atividades que realiza. Dependência de autoridades – pode desenvolver relações
nas quais a avaliação crítica é substituída pela obediência.
Entretanto, é importante evitar uma conclusão
excessiva. Nem toda pessoa submetida a condições alienantes apresenta
sofrimento psicológico, e nem todo sofrimento psicológico resulta de alienação
social. O conceito é fundamentalmente filosófico e sociopolítico, não um
diagnóstico clínico.
Quanto aos danos sociais, quando a alienação
se generaliza, suas consequências podem alcançar as instituições democráticas.
Primeiro, há enfraquecimento da participação
política. Cidadãos ao considerarem impossível influenciar decisões públicas
podem afastar-se de partidos, associações, sindicatos e eleições. Nesse caso, a
alienação pode contribuir para o abstencionismo.
Mas os dois conceitos não são sinônimos: uma
pessoa pode deixar de votar por dificuldades materiais, e outra pode votar
regularmente sem exercer autonomia crítica.
Depois, há risco de concentração do poder.
Quando grande parte da população deixa de participar das decisões, aumenta a
influência relativa dos grupos mais organizados e dotados de recursos. A
participação formal permanece, mas a distribuição efetiva do poder torna-se
desigual.
Abre a vulnerabilidade à manipulação. A
dependência de fontes únicas de informação e de autoridades consideradas
incontestáveis pode facilitar a circulação de interpretações distorcidas.
Isso não significa todos os integrantes de
movimentos de massa serem alienados. A participação coletiva também pode
ampliar a consciência política e a capacidade de ação.
Outra possibilidade é a naturalização das
desigualdades. A alienação pode contribuir para relações sociais historicamente
construídas serem percebidas como inevitáveis. A desigualdade deixa de aparecer
como resultado de instituições e escolhas políticas e passa a ser interpretada
como consequência natural das diferenças individuais.
Enfim, pode haver reprodução de instituições
pouco responsivas. Quando os cidadãos deixam de fiscalizar e contestar
decisões, instituições podem adquirir maior autonomia em relação às
necessidades da sociedade.
Esse processo pode criar um círculo vicioso:
menor participação → menor
controle social → maior
distanciamento institucional → sentimento de impotência → menor participação. Essa formulação é uma aplicação contemporânea do
conceito.
O Dicionário de Política, organizado por
Norberto Bobbio e outros, não oferece um programa único de superação da a
alienação aplicável a todas as sociedades. Na reconstrução da tradição
marxista, associa a desalienação a transformações estruturais das relações de
produção. Entretanto, a ampliação do conceito para a administração, a cultura e
a política permite pensar em estratégias complementares.
A educação crítica propiciadora de autonomia
intelectual pode desenvolver a capacidade de distinguir fatos, interpretações,
opiniões e interesses. Isso inclui compreender como funcionam o Estado, a
economia, os meios de comunicação e as instituições. O objetivo não deve ser
substituir uma doutrinação por outra, mas ampliar a autonomia de julgamento.
É possível emergir uma participação
democrática efetiva. Conselhos de políticas públicas, associações comunitárias,
sindicatos, movimentos sociais e organizações civis podem permitir os cidadãos
participarem das decisões quando afetam suas vidas.
A participação precisa produzir efeitos
verificáveis. Caso contrário, corre o risco de transformar-se em ritual de
legitimação de decisões previamente tomadas.
Outro avanço seria a democratização das
relações de trabalho. A superação da alienação do trabalho exige ampliar a
capacidade dos trabalhadores de compreender e influenciar os processos
produtivos. Isso pode envolver negociação coletiva, participação na gestão,
cooperativas, qualificação profissional e maior transparência das decisões
empresariais.
É relevante a redução da dependência
econômica. Pessoas submetidas à insegurança permanente possuem menos recursos e
tempo para exercer autonomia. Políticas de emprego, proteção social, educação e
acesso a serviços públicos podem ampliar suas alternativas reais. A autonomia
política depende, em parte, de condições materiais de existência.
O pluralismo informacional é essencial. Uma
sociedade democrática precisa garantir diversidade de fontes de informação e
condições para o debate público.
Isso envolve transparência das plataformas
digitais, educação midiática e proteção da liberdade de expressão. A solução
não consiste em substituir o controle privado da informação por uma verdade
oficial imposta pelo Estado.
Por fim, cabe o controle democrático das
instituições. As organizações públicas e privadas devem prestar contas das
decisões que afetam a coletividade. Transparência, fiscalização,
responsabilização e possibilidade de contestação são instrumentos para reduzir
a distância entre instituições e cidadãos.
A aplicação ao Brasil permite estabelecer uma
distinção entre três fenômenos frequentemente confundidos.
A alienação pode favorecer o abstencionismo e
aumentar a vulnerabilidade à manipulação, mas não determina necessariamente
nenhum dos dois. Um trabalhador pode reconhecer criticamente suas condições de
exploração e, mesmo assim, abster-se de votar por considerar inadequadas as
alternativas eleitorais. Outro pode participar intensamente de campanhas
políticas, mas aceitar sem questionamento as orientações de uma liderança.
Por isso, participação não é automaticamente
autonomia, assim como abstenção não é automaticamente alienação. Essa distinção
é especialmente importante em sociedades polarizadas.
Classificar como alienado todo eleitor de um
adversário político é uma maneira de desqualificar sua capacidade de
julgamento, sem investigar suas experiências, seus interesses e suas razões.
Uma abordagem democrática precisa compreender como as preferências políticas
são formadas e quais condições permitem sua revisão crítica.
A principal contribuição do verbete de Cesare
Pianciola é mostrar a alienação constituir um fenômeno simultaneamente
subjetivo e objetivo. Não se trata apenas de pessoas desconhecerem a realidade
ou se deixarem enganar.
Trata-se também de relações sociais nas quais
os indivíduos participam de processos sem conseguirem controlar. A alienação
pode atingir uma pessoa, um grupo social ou uma sociedade inteira. Pode
envolver adesão voluntária, conformismo, dependência econômica ou coerção.
Seus danos não se limitam ao sofrimento
individual: podem comprometer a participação democrática, a capacidade de
organização coletiva e o controle social das instituições.
A superação exige duas transformações
complementares: (i) emancipação intelectual: desenvolver consciência crítica,
capacidade de julgamento e liberdade de pensamento; (ii) emancipação social:
modificar as condições econômicas, políticas e institucionais capazes de
restringirem a autonomia efetiva.
A primeira, isoladamente, pode produzir
indivíduos conscientes de sua impotência. A segunda, sem participação e
liberdade, pode substituir uma forma de dominação por outra.
Em síntese: alienação é participar de uma
realidade social sem conseguir reconhecer-se como sujeito capaz de influenciar
sua construção. Emancipação é recuperar, individual e coletivamente, a
capacidade de compreender, decidir e transformar as condições da própria
existência.
Essa interpretação permite aproximar a
tradição filosófica de Jean-Jacques Rousseau, Hegel e Karl Marx de uma
concepção contemporânea da democracia: não basta reconhecer formalmente o
cidadão como titular de direitos; é necessário criar condições para ele exercer
efetivamente sua autonomia.
Combater a alienação política, para enfrentar
as pautas-bombas do próximo Congresso Nacional, será fundamental.
Fonte: A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário