terça-feira, 27 de outubro de 2026

Luis Felipe Miguel: Dez milhões

Eu entrei no exército do Lula quando devia ter menos de um milhão de pessoas por lá. Não fui dos últimos, mas não estive entre primeiros, até porque não gosto nem um pouco de usar WhatsApp. Aqui em casa, onde moramos três pessoas, fui o terceiro a entrar.

Mas logo fui vendo que se tornava uma ferramenta importante de mobilização. Não economizo meus elogios ao deputado André Janones, que está fazendo um trabalho extremamente competente e é o grande responsável pelo fato de que hoje somos capazes de lutar de igual para igual no ambiente digital. O que é muita coisa, porque este ambiente é todo organizado de maneira a nos prejudicar.

Não estou falando apenas das manipulações, a esta altura do campeonato já mais do que evidentes, da Meta, para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro.

É que o ambiente de debate nas plataformas é contrário a qualquer tipo de aprofundamento das questões, a qualquer tipo de reflexão que exija maior atenção do público, a qualquer argumento que não possa ser resumido em um meme, a tudo aquilo que luta contra o senso comum e mesmo contra os preconceitos arraigados na sociedade.

Com isso, as plataformas servem muito mais para reproduzir ideias já feitas e para fortalecer crenças já existentes do que para transformar mentalidades, que é exatamente aquilo que a esquerda precisa fazer.

A mobilização que André Janones propôs, estilo “tropa” e voltada a triunfar sobre o algoritmo, mostrou-se eficaz e é necessária. Não resolve, porém, o problema da educação política, que teremos que enfrentar. Mas esse é tema para outra conversa.

Daí, André Janones começou a comandar missões para aumentar o número de participantes do canal. Primeiro queria chegar a seis milhões; como foi rápido aumentou para sete, vocês devem lembrar.

Eu me engajei nessa tarefa, embora soubesse que seria algo inglório. Afinal, eu vivo numa bolha quase perfeita. Posso dizer que não conheço nenhuma pessoa que não vote no Lula. Toda minha família vota no Lula, meus amigos votam no Lula, meus alunos votam no Lula, meus colegas de trabalho votam no Lula, meus vizinhos votam no Lula. Todos os porteiros do meu prédio votam no Lula.

Embora o filhote de Satanás tenha ganhado no Distrito Federal, o bairro em que moro, a Asa Norte, é tradicionalmente um reduto de Lula. O presidente ganhou aqui em 2022 e ganhou de novo em 2026. Ficou 10 pontos à frente no primeiro turno.

Mas fui para o zap convidar as pessoas. A reação mais comum que obtive como resposta foi a indignação por eu ter imaginado que aquela pessoa ainda não estava no canal do André Janones. Chegamos aos 7 milhões e daí o nosso general fez o desafio dos 10 milhões. Continuei convidando as pessoas. Em vão; acho que, se muito, conquistei um novo seguidor, porque todo mundo com quem eu falava já estava lá.

E o que as pessoas diziam era: “Acho que agora o André Janones deu uma piradinha”. A meta de 10 milhões parecia inalcançável. Pois chegamos nela, umas horas antes do debate. No momento em que escrevo, o “Exército do Lula” no WhatsApp está se aproximando dos 11 milhões de membros.

Isso mostra que ainda há espaço para crescer, mesmo quando parece que já esgotamos tudo. Isso mostra que ainda tem voto para virar até amanhã. Que não podemos parar com o esforço de convencimento, com a mobilização nas ruas e nas redes, até fechar a última urna.

Como todos nós sabemos, o que está em jogo é muito grave.

E o debate? A primeira lição do debate é que realmente não há como debater com alguém como o candidato miliciano. Não é só o formato do debate, que é ruim. É que o Flávio Bolsonaro é péssimo. Ele fez o que sempre faz: mentiu. A visão idealizada do debate como momento de confronto de propostas se estilhaça quando bate no material de que é feito um candidato como Flávio Bolsonaro. Aliás, a estratégia de sua campanha, do começo ao fim, se resumiu em uma única palavra: “mentira”. No debate, não foi diferente.

Não vou dizer que Lula foi bem no debate, porque estaria me iludindo. Lula estava menos afiado do que em outras ocasiões, parecia cansado. Deixou passar várias oportunidades de encurralar Flávio Bolsonaro. Ainda assim, foi nitidamente melhor do que o adversário. Foi minha impressão assistindo, e é o que dizem os grupos focais com indecisos e também todos os analistas que li.

Menos, claro, a análise da Brasil Paralelo. Que está tão alinhada à estratégia de seu candidato que foi capaz de produzir um arremedo de checagem de fatos concluindo que Lula mentiu e Flávio Bolsonaro… Bom, nem eles são capazes de dizer que o Flávio não mentiu, mas dizem que o Flávio mentiu menos que o Lula!

A Checagem ao Vivo comprova: vitória acachapante de Flávio… no quesito “mentira”!

Lula teve, como todo mundo está comentando, pontos altos no debate, que foram suficientes para definir a seu favor aquele enfrentamento. Um deles foi quando citou o caso Ana Clara. Flávio Bolsonaro não apenas mostrou completo desconhecimento do caso, trocando o nome da mãe pelo nome da menina, como fez uma inacreditável defesa do assassino.

Não custa lembrar: não existe nenhuma dúvida sobre a identidade do assassino de Ana Clara, Ele foi preso em flagrante. O julgamento não é para determinar a autoria do crime, é apenas para verificar se existe algum atenuante (o que é absolutamente improvável, é mesmo impensável, mas, dentro de um regime de direito, ele deve ser devidamente julgado). Então, naquele momento, a insensibilidade de Flávio Bolsonaro ficou evidente diante de todos os espectadores.

O outro momento foi a resposta de Lula quando foi chamado de “nove dedos”. Como escreveu o professor Felipe Demier, a resposta de Lula ”foi épica. Um forte teor classista, na provocação e na resposta. Ali ficou nítida a divisão de classe e de caráter. Não restou nada ao Flávio Bolsonaro senão cinicamente se desculpar”.

Lula enfatizou a diferença de sua trajetória, de trabalhador pobre, em relação à do miliciano, um playboy que ganhou um emprego fantasma do papai. Marcou a diferença entre a vivência de um integrante da classe trabalhadora e a das elites que dominam o nosso país.

Naquele momento, além de iluminar a truculência do candidato miliciano, ele marcou uma linha divisória entre quem está do lado e quem está contra a classe trabalhadora no Brasil.

Se houvesse lógica na escolha eleitoral, estes dois momentos bastariam para definir o resultado de amanhã. Mas, se houvesse lógica, uma criatura como Flávio Bolsonaro, desprovida de todas as virtudes, vestida de todos os vícios, nem teria sido cogitada como candidato.

O resultado está em aberto. Depende de nosso último esforço.

•        Alienação – perdas e danos. Por Fernando Nogueira da Costa

Foi fundamental para a vitória eleitoral de Lula, em 2026, a queda da alienação por parte dos eleitores. Caso contrário, com a perda eleitoral, o dano social seria imenso.

Quais são os danos particulares da alienação? Ela pode produzir consequências individuais em diferentes dimensões.

Perda de autonomia – a pessoa passa a experimentar suas atividades e decisões como subordinadas a forças externas. Redução da capacidade de realização – o trabalho, a educação e outras atividades deixam de ser oportunidades de desenvolvimento e tornam-se apenas obrigações. Sentimento de impotência – o indivíduo passa a acreditar em suas ações não possuírem consequências relevantes.

Enfraquecimento da identidade – a pessoa encontra dificuldade para reconhecer seus próprios valores e objetivos nas atividades que realiza. Dependência de autoridades – pode desenvolver relações nas quais a avaliação crítica é substituída pela obediência.

Entretanto, é importante evitar uma conclusão excessiva. Nem toda pessoa submetida a condições alienantes apresenta sofrimento psicológico, e nem todo sofrimento psicológico resulta de alienação social. O conceito é fundamentalmente filosófico e sociopolítico, não um diagnóstico clínico.

Quanto aos danos sociais, quando a alienação se generaliza, suas consequências podem alcançar as instituições democráticas.

Primeiro, há enfraquecimento da participação política. Cidadãos ao considerarem impossível influenciar decisões públicas podem afastar-se de partidos, associações, sindicatos e eleições. Nesse caso, a alienação pode contribuir para o abstencionismo.

Mas os dois conceitos não são sinônimos: uma pessoa pode deixar de votar por dificuldades materiais, e outra pode votar regularmente sem exercer autonomia crítica.

Depois, há risco de concentração do poder. Quando grande parte da população deixa de participar das decisões, aumenta a influência relativa dos grupos mais organizados e dotados de recursos. A participação formal permanece, mas a distribuição efetiva do poder torna-se desigual.

Abre a vulnerabilidade à manipulação. A dependência de fontes únicas de informação e de autoridades consideradas incontestáveis pode facilitar a circulação de interpretações distorcidas.

Isso não significa todos os integrantes de movimentos de massa serem alienados. A participação coletiva também pode ampliar a consciência política e a capacidade de ação.

Outra possibilidade é a naturalização das desigualdades. A alienação pode contribuir para relações sociais historicamente construídas serem percebidas como inevitáveis. A desigualdade deixa de aparecer como resultado de instituições e escolhas políticas e passa a ser interpretada como consequência natural das diferenças individuais.

Enfim, pode haver reprodução de instituições pouco responsivas. Quando os cidadãos deixam de fiscalizar e contestar decisões, instituições podem adquirir maior autonomia em relação às necessidades da sociedade.

Esse processo pode criar um círculo vicioso: menor participação → menor controle social → maior distanciamento institucional → sentimento de impotência → menor participação. Essa formulação é uma aplicação contemporânea do conceito.

O Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio e outros, não oferece um programa único de superação da a alienação aplicável a todas as sociedades. Na reconstrução da tradição marxista, associa a desalienação a transformações estruturais das relações de produção. Entretanto, a ampliação do conceito para a administração, a cultura e a política permite pensar em estratégias complementares.

A educação crítica propiciadora de autonomia intelectual pode desenvolver a capacidade de distinguir fatos, interpretações, opiniões e interesses. Isso inclui compreender como funcionam o Estado, a economia, os meios de comunicação e as instituições. O objetivo não deve ser substituir uma doutrinação por outra, mas ampliar a autonomia de julgamento.

É possível emergir uma participação democrática efetiva. Conselhos de políticas públicas, associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais e organizações civis podem permitir os cidadãos participarem das decisões quando afetam suas vidas.

A participação precisa produzir efeitos verificáveis. Caso contrário, corre o risco de transformar-se em ritual de legitimação de decisões previamente tomadas.

Outro avanço seria a democratização das relações de trabalho. A superação da alienação do trabalho exige ampliar a capacidade dos trabalhadores de compreender e influenciar os processos produtivos. Isso pode envolver negociação coletiva, participação na gestão, cooperativas, qualificação profissional e maior transparência das decisões empresariais.

É relevante a redução da dependência econômica. Pessoas submetidas à insegurança permanente possuem menos recursos e tempo para exercer autonomia. Políticas de emprego, proteção social, educação e acesso a serviços públicos podem ampliar suas alternativas reais. A autonomia política depende, em parte, de condições materiais de existência.

O pluralismo informacional é essencial. Uma sociedade democrática precisa garantir diversidade de fontes de informação e condições para o debate público.

Isso envolve transparência das plataformas digitais, educação midiática e proteção da liberdade de expressão. A solução não consiste em substituir o controle privado da informação por uma verdade oficial imposta pelo Estado.

Por fim, cabe o controle democrático das instituições. As organizações públicas e privadas devem prestar contas das decisões que afetam a coletividade. Transparência, fiscalização, responsabilização e possibilidade de contestação são instrumentos para reduzir a distância entre instituições e cidadãos.

A aplicação ao Brasil permite estabelecer uma distinção entre três fenômenos frequentemente confundidos.

A alienação pode favorecer o abstencionismo e aumentar a vulnerabilidade à manipulação, mas não determina necessariamente nenhum dos dois. Um trabalhador pode reconhecer criticamente suas condições de exploração e, mesmo assim, abster-se de votar por considerar inadequadas as alternativas eleitorais. Outro pode participar intensamente de campanhas políticas, mas aceitar sem questionamento as orientações de uma liderança.

Por isso, participação não é automaticamente autonomia, assim como abstenção não é automaticamente alienação. Essa distinção é especialmente importante em sociedades polarizadas.

Classificar como alienado todo eleitor de um adversário político é uma maneira de desqualificar sua capacidade de julgamento, sem investigar suas experiências, seus interesses e suas razões. Uma abordagem democrática precisa compreender como as preferências políticas são formadas e quais condições permitem sua revisão crítica.

A principal contribuição do verbete de Cesare Pianciola é mostrar a alienação constituir um fenômeno simultaneamente subjetivo e objetivo. Não se trata apenas de pessoas desconhecerem a realidade ou se deixarem enganar.

Trata-se também de relações sociais nas quais os indivíduos participam de processos sem conseguirem controlar. A alienação pode atingir uma pessoa, um grupo social ou uma sociedade inteira. Pode envolver adesão voluntária, conformismo, dependência econômica ou coerção.

Seus danos não se limitam ao sofrimento individual: podem comprometer a participação democrática, a capacidade de organização coletiva e o controle social das instituições.

A superação exige duas transformações complementares: (i) emancipação intelectual: desenvolver consciência crítica, capacidade de julgamento e liberdade de pensamento; (ii) emancipação social: modificar as condições econômicas, políticas e institucionais capazes de restringirem a autonomia efetiva.

A primeira, isoladamente, pode produzir indivíduos conscientes de sua impotência. A segunda, sem participação e liberdade, pode substituir uma forma de dominação por outra.

Em síntese: alienação é participar de uma realidade social sem conseguir reconhecer-se como sujeito capaz de influenciar sua construção. Emancipação é recuperar, individual e coletivamente, a capacidade de compreender, decidir e transformar as condições da própria existência.

Essa interpretação permite aproximar a tradição filosófica de Jean-Jacques Rousseau, Hegel e Karl Marx de uma concepção contemporânea da democracia: não basta reconhecer formalmente o cidadão como titular de direitos; é necessário criar condições para ele exercer efetivamente sua autonomia.

Combater a alienação política, para enfrentar as pautas-bombas do próximo Congresso Nacional, será fundamental.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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