Do
'risco-Flávio' à campanha de mobilização: 4 trunfos usados por Lula para virar
o jogo no 2º turno
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou um feito inédito no Brasil
ao vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste domingo (25/10): além de
conquistar o quarto mandato, ele foi o
primeiro presidente a virar o placar entre o primeiro e o segundo turno.
O
presidente-eleito conquistou 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra
48,21% do senador pelo PL do Rio.
Lula
havia ficado em segundo lugar no primeiro turno por uma diferença de 1,8%, ou
2,2 milhões de votos.
A
vitória histórica de Lula, segundo analistas, foi resultado de uma combinação
de quatro fatores:
- Queda da
abstenção
- Reorganização da
campanha online
- Mobilização de
eleitores nas ruas
- Erros
estratégicos da candidatura de Flávio
Confira,
a seguir, como e porque cada um destes pontos impulsionou Lula rumo à vitória.
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Queda histórica na abstenção
O
cientista político Rodrigo Mahlmeister, pesquisador na Duke University, nos
Estados Unidos, chama atenção para a redução da abstenção: o índice caiu de
21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, uma redução de 1,86 ponto
percentual.
O
movimento superou o observado em 2022, quando a taxa recuou cerca de 0,4 ponto
entre as duas etapas da eleição presidencial.
Bahia,
Pernambuco e São Paulo foram os Estados em que o comparecimento nas urnas mais
cresceu. Na Bahia, a redução da abstenção foi de 3,26%.
Já os
Estados que tiveram o movimento contrário, com aumento de abstenção, foram
Amapá, Roraima e Acre.
O
pesquisador afirma que a dimensão da mobilização surpreendeu até mesmo quem já
considerava possível uma redução nos índices de abstenção — e a convocação de
idosos ajudou.
"Muitas
pessoas com mais de 70 anos não votaram porque a lei não exige que votem",
disse Lula na avenida Paulista, em 11 de outubro. "Temos que conversar com
as pessoas que têm entre 60 e 70 anos e acham que não precisam votar. Ter 60 ou
70 anos não transforma a pessoa em inútil. Se a pessoa não quer votar por ela,
tem que ir pelo filho, neto, bisneto e pela pátria para cuidar."
Mahlmeister
diz que "no final das contas, a campanha do Lula foi muito bem-sucedida em
uma aposta que era incerta. O PT realmente insistiu nessa campanha de
mobilização, especialmente dos mais velhos, mobilizando gente que não votava há
muito tempo".
Para
ele, a capacidade de reduzir a abstenção foi um fator que as pesquisas de
intenção de voto não conseguiram captar.
Segundo
ele, mesmo os institutos que fazem ajustes para estimar quem efetivamente
compareceria às urnas não consideraram que a queda pudesse ser tão expressiva.
Para a
cientista política Denilde Holzhacker, professora da ESPM, a diminuição da
abstenção também refletiu a percepção, entre eleitores dos dois campos
políticos, de que a eleição era decisiva.
"Quando
a eleição está muito acirrada e o eleitor percebe que a participação vai ser
importante, ela tende a gerar mais engajamento", afirma.
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Reorganização da campanha online
Após a
derrota no primeiro turno para Flávio Bolsonaro, a campanha do PT adotou uma
estratégia mais intensa de mobilização digital e uma comunicação mais
diretamente ligada às preocupações cotidianas dos eleitores.
Lula
deixou a formalidade de lado e passou a fazer "selfies" em vídeo,
falando diretamente para a câmera e para seus eleitores.
No que
tange ao discurso, a campanha deixou de priorizar a defesa dos feitos do
governo Lula, segundo Holzhacker, e passou a enfatizar eventuais riscos que uma
vitória de Flávio poderia representar para direitos e políticas sociais.
"A
comunicação foi muito mais efetiva nesse segundo turno", diz a professora.
Em
paralelo, a participação intensa do deputado André Janones (Rede-MG) e seu
"Exército do Lula" no WhatsApp teria "educado" a militância
petista sobre ativismo digital.
As
"missões" de Janones para disseminar o conteúdo de campanha também
foram grandes trunfos do petista.
"Foi
um mérito do candidato: reconhecer que tinha uma fragilidade e mudar
completamente o estilo. E Janones conseguir fazer algo impensável para a
esquerda, que é dominar as redes sociais", afirma.
Para
Holzhacker, o grupo conseguiu explorar mecanismos de engajamento digital que a
esquerda historicamente tinha dificuldade de ocupar.
"O
grupo tinha um modelo de ordens e missões que criou uma lógica que é muito
comum em 'gameficações'. Ou seja, cada etapa tem algo que precisa que ser
superado. Isso engaja principalmente os jovens", diz a professora.
Ao
combinar a defesa do legado de Lula com a tentativa de desconstruir a
candidatura adversária, a campanha teria se energizado e foi capaz de mobilizar
eleitores para além da base tradicional do PT.
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Da internet às ruas
A
estratégia petista, no entanto, não se limitou à viralização de conteúdos nas
redes sociais.
O
diferencial, na avaliação de Holzhacker, foi conectar essas atividades do grupo
do WhatsApp com as ruas.
"Eram
missões que tinham impacto no cotidiano e no presencial, então conectou a
lógica das redes com grandes mobilizações", afirma.
O
resultado foi a explosão de atos e protestos coordenados em diferentes partes
do país, gerando fotos e vídeos de multidões expressando apoio a Lula.
"Uma
grande questão que sempre existe sobre a mobilização digital é se ela fica
restrita ao âmbito digital", diz. "Ele conseguiu transportar do
digital para o presencial."
A
avaliação ajuda a explicar por que a campanha não se resumiu à disputa por
visibilidade nas plataformas. O desafio era converter o engajamento em
participação política concreta, seja pela mobilização de apoiadores, seja pelo
convencimento de eleitores ainda indecisos.
A
socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também afirma que a virada de Lula não se
limitou à atuação das redes.
"Foi
combinação de redes e ruas", afirma. "O mundo físico permitiu uma
mobilização capaz de reduzir a abstenção e reduzir os indecisos. Ou seja,
aqueles que estavam comprometidos com a vitória do presidente Lula se
movimentaram para levar pessoas e convencer pessoas."
"Eu
acho que é esse esforço coletivo que foi um aprendizado e que vai ser útil para
um governo que vai ter muitas batalhas pela frente, que permitiu não só a
redução da abstenção, como a conversão de muitos indecisos."
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Medo do bolsonarismo e o 'risco-Flávio'
O
receio de um novo governo associado ao bolsonarismo também foi um dos elementos
centrais explorados pela campanha do petista, segundo Denilde Holzhacker. A
campanha procurou vincular a candidatura de Flávio à possibilidade de mudanças
em políticas sociais e de perda de direitos.
Para a
professora, esse discurso ganhou força ao ser associado a exemplos
internacionais, especialmente ao governo de Javier Milei, na Argentina.
A
comparação permitiu à campanha questionar se o alinhamento com a direita
internacional e com os Estados Unidos produziria melhorias concretas nas
condições de vida.
Holzhacker
afirma que a candidatura de Lula explorou a ideia de que as promessas feitas
por governos de direita na região nem sempre se traduziram em crescimento
econômico ou melhora das condições sociais.
"Eu
acho que o grande ponto foi o medo do bolsonarismo, da volta do bolsonarismo no
Brasil", afirma.
Mahlmeister
nota que, embora as pesquisas não tivessem acertado o resultado final da
eleição, essa tendência foi expressa nos levantamentos.
A cinco
dias da eleição, uma pesquisa da Quaest mostrava que 44% dos eleitores tinham
medo da volta da família Bolsonaro ao poder com uma eventual vitória de Flávio
Bolsonaro, enquanto 42% temiam a reeleição do presidente Lula.
Na
véspera da eleição, o instituto também trazia um dado que exemplifica essa
tendência: o senador tinha rejeição de 49%, e Lula, de 47%.
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Erros estratégicos de Flávio
Denilde
Holzhacker faz uma ressalva: a vitória de Lula também teria se beneficiado de
erros cometidos pelo adversário.
Para a
professora da ESPM, um dos principais erros da campanha de Flávio foi a
confiança exacerbada, que teria levado o candidato a subestimar a capacidade de
reação de Lula.
"O
primeiro erro foi sair do primeiro turno com a sensação de que já tinha levado
o resultado, de que já iria ganhar", afirma.
A
professora aponta ainda dificuldades para explicar as propostas econômicas e
seus possíveis efeitos sobre os benefícios sociais e os direitos dos eleitores.
A discussão sobre o "tesouraço" (cortes em gastos do governo),
aposentadorias e programas sociais abriu espaço para que a campanha petista
questionasse as consequências de um eventual governo de Flávio.
Ao
precisar voltar repetidamente ao tema para assegurar que benefícios seriam
mantidos, Flávio teria alimentado a desconfiança de parte do eleitorado.
"A
cada vez que ele tinha que dizer que não, que ia manter, acho que aprofundava a
desconfiança", diz Holzhacker.
Ela
também cita o primeiro debate do segundo turno como um momento negativo para o
candidato do PL. Na avaliação da professora, a postura de Flávio e a estratégia
adotada no confronto tornaram mais visíveis pontos que a campanha de Lula
passou a explorar.
Outro
problema teria sido a dificuldade de manter o ritmo de mobilização. Enquanto
Lula intensificou sua campanha, Holzhacker avalia que o adversário não
conseguiu sustentar o mesmo nível de engajamento em diferentes cidades e
Estados.
Fonte:
BBC News Brasil

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