Olivia
da Rocha Robba: O impasse em que todos perdemos
Existe
um episódio de nossa história recente que me causa um grande incômodo. Agora,
com a discussão um pouco mais apagada nos veículos de comunicação e distante da
intensidade que marcou seus primeiros momentos, tive a oportunidade de parar e
refletir sobre o que aconteceu sem a pressão de ter uma opinião sobre quem está
certo ou errado nessa história. Afinal, há situações para as quais não existem
respostas fáceis, assim como não deveria haver espaço para vereditos
antecipados. E, neste caso, há algo que não podemos perder de vista: até o
momento, não foi dado um veredito.
Essa
constatação aparentemente simples é fundamental. Ela nos obriga a conviver com
a dúvida, com a incompletude das informações e com a impossibilidade de
transformar suspeitas, versões e acusações em certezas definitivas. Em uma
sociedade cada vez mais acostumada à ferocidade das redes sociais e à
necessidade de tomar partido quase instantaneamente, admitir que ainda não
sabemos tudo ou mesmo que talvez nunca saibamos exatamente o que realmente
aconteceu, pode ser uma das atitudes mais difíceis e, ao mesmo tempo, uma das
mais necessárias.
Foi
justamente o tempo, ou melhor, a passagem dele e o relativo silêncio que se
seguiu à explosão inicial do caso, que me permitiram olhar para essa história
de outra maneira. Não mais a partir da pergunta imediata sobre quem deve ser
defendido ou condenado, mas de uma questão que me parece muito mais incômoda: o
que esse episódio revela sobre nós, sobre nossas convicções e sobre a maneira
como lidamos com questões como poder, raça, gênero e justiça?
Diante
das acusações envolvendo o jurista Silvio Almeida e dos desdobramentos que
alcançaram a ministra Anielle Franco, não pretendo produzir aqui um julgamento
paralelo, tampouco antecipar uma conclusão, que cabe somente às instâncias
responsáveis pela apuração dos fatos. O que me interessa é justamente
permanecer nesse espaço desconfortável entre a acusação e o veredito, onde a
certeza ainda não existe, mas os efeitos de um julgamento público já podem ser
sentidos.
E
talvez esteja aí o maior paradoxo desse episódio: embora o veredito ainda não
tenha sido dado, muitas sentenças já foram proferidas. Nas redes sociais, nos
círculos políticos, no ambiente acadêmico e na opinião pública, posições foram
tomadas, reputações foram atingidas e pessoas foram rapidamente transformadas
em símbolos de disputas muito maiores do que suas próprias trajetórias.
Estamos
diante de um embate particularmente doloroso porque envolve duas figuras
públicas de enorme relevância, ambas com trajetórias marcadas pela luta
antirracista, pelo combate às desigualdades e pela defesa dos direitos humanos.
Por isso mesmo, o episódio mobiliza traumas e contradições profundamente
enraizados em nossa formação social.
De um
lado, não podemos ignorar que acusações de violência sexual foram
historicamente instrumentalizadas para desumanizar homens negros, destruir
reputações e legitimar diferentes formas de violência, inclusive os
linchamentos. A história brasileira e a experiência da população negra
demonstram que a acusação, quando atravessada pelo racismo, é capaz de se
tornar instrumento de exclusão, de violência e de morte. Em sua versão
contemporânea, esse mecanismo encontra nas redes sociais um ambiente propício
para a condenação e o linchamento moral em questão de horas.
De
outro lado, descredibilizar sistematicamente a palavra das mulheres e silenciar
denúncias de abuso constitui uma violência igualmente estrutural. Foram
necessárias décadas de mobilização e de luta para que mulheres pudessem romper
o silêncio, denunciar situações de violência e reivindicar que suas
experiências fossem levadas a sério.
E o que
torna esse debate tão difícil é justamente o atravessamento entre essas duas
formas de opressão: ambas são historicamente reais, ambas produziram sofrimento
e nenhuma delas pode ser descredibilizada em nome da outra.
É nesse
ponto que qualquer tentativa de simplificação se torna perigosa. Não podemos
combater o racismo reproduzindo mecanismos que silenciem mulheres. Tampouco
podemos combater a violência de gênero aceitando que uma acusação seja
convertida automaticamente em uma sentença. Uma injustiça não pode ser
corrigida por outra.
A
velocidade com que as acusações ganharam espaço no debate público e que foram
absorvidas pelas redes sociais e pelos meios de comunicação produziram
consequências concretas. A saída do Ministério dos Direitos Humanos interrompeu
abruptamente a trajetória institucional do então ministro e o afastou do centro
do debate público enquanto os fatos ainda estavam sendo apurados.
No
campo intelectual e acadêmico, o impacto também alcançou a sua produção, a sua
circulação profissional e os seus espaços de atuação. A controvérsia passou a
se projetar, inclusive, sobre a recepção de conceitos e de obras associados ao
seu nome, revelando como, nos dias de hoje, a reputação de um intelectual pode
rapidamente contaminar a circulação de suas ideias.
Uma
sociedade que confunde autor e obra, ou que transforma a eventual conduta de um
indivíduo em prova contra todo o campo intelectual ao qual ele pertence, corre
o risco de abandonar a própria capacidade de separar crítica, responsabilidade
individual e produção de conhecimento. Ideias não deveriam ser consideradas
verdadeiras ou falsas em razão da reputação moral de quem as formulou. De igual
forma, ninguém deveria ser considerado moralmente irrepreensível porque
produziu uma obra relevante ou porque defende causas justas.
Se, ao
final das investigações, as denúncias forem confirmadas, o impacto será
devastador no plano ético e humano. A comprovação dos fatos revelaria uma
contradição profunda entre a formulação teórica de um dos intelectuais negros
de maior projeção no país, construída em torno da crítica às assimetrias
sociais, ao racismo e às relações de poder, e uma eventual conduta incompatível
com esses princípios.
Seria
também um lembrete incômodo de que conhecimento, erudição e reconhecimento
público não conferem imunidade moral a ninguém. Um intelectual pode compreender
profundamente os mecanismos de opressão e, ainda assim, reproduzi-los em sua
própria vida. Afinal, a consciência teórica não garante, por si só, a coerência
prática. Somos atravessados por contradições e nenhuma projeção pública nos
torna imunes a elas. A coerência é um horizonte a ser buscado, e não uma
condição permanente da existência humana.
Além
disso, um desfecho dessa natureza poderia alimentar o cinismo daqueles que
historicamente procuram utilizar as contradições de algumas lideranças para
deslegitimar lutas coletivas por igualdade racial e direitos humanos. Seria um
erro, porém, permitir que a eventual exposição pública de um indivíduo fosse
convertida na queda de suas causas. O combate ao racismo não depende da
perfeição moral de qualquer um de seus intelectuais, assim como a defesa dos
direitos humanos não pode estar condicionada à biografia irrepreensível de seus
representantes.
Porém,
o outro desfecho possível também seria igualmente desastroso. Se as acusações
não forem comprovadas e ficar demonstrado que houve utilização indevida de
mecanismos políticos, midiáticos ou institucionais para destruir uma reputação,
o dano ultrapassará a pessoa diretamente envolvida. Atingirá a própria
credibilidade das políticas de enfrentamento à violência de gênero.
O risco
de transformar canais de denúncia em instrumentos de disputa política pode
produzir um efeito perverso: fazer com que mulheres que efetivamente sofreram
violência hesitem em denunciar por medo de não serem acreditadas ou de terem
suas experiências associadas a disputas de outra natureza. Nesse cenário,
conquistas históricas construídas ao longo de gerações também poderiam ser
atingidas.
É por
isso que o acolhimento de quem denuncia e o respeito igualmente rigoroso à
presunção de inocência não deveriam ser considerados princípios antagônicos.
Porque não são! Uma sociedade democrática precisa ser capaz de sustentar ambos
ao mesmo tempo.
O
problema é que hoje em dia, a dinâmica da opinião pública parece cada vez menos
preparada para conviver com a incerteza. Entre a denúncia e a sentença, abre-se
um espaço que as redes sociais ocupam com grande velocidade. Nesse intervalo, a
complexidade dos fatos é substituída pela urgência do julgamento, pelo
cancelamento ou, no extremo oposto, pela blindagem daqueles com quem nos
identificamos.
Talvez
esteja aí a dimensão mais dolorosa desse episódio. Somos frequentemente
convidados a escolher um lado antes mesmo de conhecermos todos os fatos. A
identificação racial, de gênero, política ou ideológica passa a funcionar como
critério de credibilidade, quando deveria ser justamente o contrário: nossos
princípios deveriam ser capazes de sobreviver mesmo quando as pessoas que os
representam nos decepcionam.
O
verdadeiro desafio, portanto, talvez não seja decidir imediatamente em quem
acreditar, mas preservar princípios que sejam maiores do que as pessoas
envolvidas. Acolher uma denúncia não significa abandonar a presunção de
inocência. Defender o devido processo legal não significa desacreditar quem fez
a denúncia. Questionar uma acusação não significa automaticamente proteger o
acusado. E reconhecer a gravidade de uma eventual violência não exige
transformar uma pessoa na personificação do mal.
Precisamos
ser capazes de admitir que as pessoas são complexas e podem ocupar posições
contraditórias. Um homem negro pode ser vítima de estruturas racistas e,
simultaneamente, abusar de seu poder sobre outras pessoas. Uma mulher pode ser
vítima de uma estrutura de desigualdade de gênero, ainda que ocupe uma posição
institucional de poder. Reconhecer essas possibilidades não diminui nenhuma das
lutas e torna nossa compreensão das relações de poder mais sofisticada e menos
dependente de identidades fixas.
O que
já se perdeu, contudo, dificilmente será recuperado na íntegra. Reputações
foram atingidas, relações foram rompidas, a confiança de parte da sociedade foi
abalada e duas agendas fundamentais, o combate ao racismo e o enfrentamento à
violência de gênero foram arrastadas para uma disputa que pode terminar
fortalecendo justamente aqueles que sempre desejaram vê-las desacreditadas.
A
verdade jurídica, quando vier, será necessária. Mas talvez chegue tarde demais
para reparar todas as consequências produzidas pelo julgamento antecipado da
opinião pública. Porque o tribunal das redes sociais não funciona como os
institucionais, não exige provas, não precisa ouvir todas as partes envolvidas,
não precisa aguardar contraditório e, sobretudo, não costuma voltar atrás com a
mesma velocidade com que condena. A justiça pode estabelecer responsabilidades,
mas não consegue desfazer integralmente os efeitos sociais de tudo aquilo que
aconteceu durante o caminho.
O que
permanece, portanto, é a sensação de um impasse em que todos perdemos. Se houve
violência, perdemos pela violência. Se houve instrumentalização da denúncia,
perdemos pela destruição da confiança. E, se não formos capazes de distinguir
investigação de condenação, perderemos também a capacidade de construir uma
esfera pública em que justiça, igualdade e dignidade possam coexistir.
É nesse
ponto que todos podemos perder. Não porque a verdade deixe de importar, mas
justamente porque ela importa demais para ser substituída por um julgamento
apressado.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário