terça-feira, 27 de outubro de 2026

Olivia da Rocha Robba: O impasse em que todos perdemos

Existe um episódio de nossa história recente que me causa um grande incômodo. Agora, com a discussão um pouco mais apagada nos veículos de comunicação e distante da intensidade que marcou seus primeiros momentos, tive a oportunidade de parar e refletir sobre o que aconteceu sem a pressão de ter uma opinião sobre quem está certo ou errado nessa história. Afinal, há situações para as quais não existem respostas fáceis, assim como não deveria haver espaço para vereditos antecipados. E, neste caso, há algo que não podemos perder de vista: até o momento, não foi dado um veredito.

Essa constatação aparentemente simples é fundamental. Ela nos obriga a conviver com a dúvida, com a incompletude das informações e com a impossibilidade de transformar suspeitas, versões e acusações em certezas definitivas. Em uma sociedade cada vez mais acostumada à ferocidade das redes sociais e à necessidade de tomar partido quase instantaneamente, admitir que ainda não sabemos tudo ou mesmo que talvez nunca saibamos exatamente o que realmente aconteceu, pode ser uma das atitudes mais difíceis e, ao mesmo tempo, uma das mais necessárias.

Foi justamente o tempo, ou melhor, a passagem dele e o relativo silêncio que se seguiu à explosão inicial do caso, que me permitiram olhar para essa história de outra maneira. Não mais a partir da pergunta imediata sobre quem deve ser defendido ou condenado, mas de uma questão que me parece muito mais incômoda: o que esse episódio revela sobre nós, sobre nossas convicções e sobre a maneira como lidamos com questões como poder, raça, gênero e justiça?

Diante das acusações envolvendo o jurista Silvio Almeida e dos desdobramentos que alcançaram a ministra Anielle Franco, não pretendo produzir aqui um julgamento paralelo, tampouco antecipar uma conclusão, que cabe somente às instâncias responsáveis pela apuração dos fatos. O que me interessa é justamente permanecer nesse espaço desconfortável entre a acusação e o veredito, onde a certeza ainda não existe, mas os efeitos de um julgamento público já podem ser sentidos.

E talvez esteja aí o maior paradoxo desse episódio: embora o veredito ainda não tenha sido dado, muitas sentenças já foram proferidas. Nas redes sociais, nos círculos políticos, no ambiente acadêmico e na opinião pública, posições foram tomadas, reputações foram atingidas e pessoas foram rapidamente transformadas em símbolos de disputas muito maiores do que suas próprias trajetórias.

Estamos diante de um embate particularmente doloroso porque envolve duas figuras públicas de enorme relevância, ambas com trajetórias marcadas pela luta antirracista, pelo combate às desigualdades e pela defesa dos direitos humanos. Por isso mesmo, o episódio mobiliza traumas e contradições profundamente enraizados em nossa formação social.

De um lado, não podemos ignorar que acusações de violência sexual foram historicamente instrumentalizadas para desumanizar homens negros, destruir reputações e legitimar diferentes formas de violência, inclusive os linchamentos. A história brasileira e a experiência da população negra demonstram que a acusação, quando atravessada pelo racismo, é capaz de se tornar instrumento de exclusão, de violência e de morte. Em sua versão contemporânea, esse mecanismo encontra nas redes sociais um ambiente propício para a condenação e o linchamento moral em questão de horas.

De outro lado, descredibilizar sistematicamente a palavra das mulheres e silenciar denúncias de abuso constitui uma violência igualmente estrutural. Foram necessárias décadas de mobilização e de luta para que mulheres pudessem romper o silêncio, denunciar situações de violência e reivindicar que suas experiências fossem levadas a sério.

E o que torna esse debate tão difícil é justamente o atravessamento entre essas duas formas de opressão: ambas são historicamente reais, ambas produziram sofrimento e nenhuma delas pode ser descredibilizada em nome da outra.

É nesse ponto que qualquer tentativa de simplificação se torna perigosa. Não podemos combater o racismo reproduzindo mecanismos que silenciem mulheres. Tampouco podemos combater a violência de gênero aceitando que uma acusação seja convertida automaticamente em uma sentença. Uma injustiça não pode ser corrigida por outra.

A velocidade com que as acusações ganharam espaço no debate público e que foram absorvidas pelas redes sociais e pelos meios de comunicação produziram consequências concretas. A saída do Ministério dos Direitos Humanos interrompeu abruptamente a trajetória institucional do então ministro e o afastou do centro do debate público enquanto os fatos ainda estavam sendo apurados.

No campo intelectual e acadêmico, o impacto também alcançou a sua produção, a sua circulação profissional e os seus espaços de atuação. A controvérsia passou a se projetar, inclusive, sobre a recepção de conceitos e de obras associados ao seu nome, revelando como, nos dias de hoje, a reputação de um intelectual pode rapidamente contaminar a circulação de suas ideias.

Uma sociedade que confunde autor e obra, ou que transforma a eventual conduta de um indivíduo em prova contra todo o campo intelectual ao qual ele pertence, corre o risco de abandonar a própria capacidade de separar crítica, responsabilidade individual e produção de conhecimento. Ideias não deveriam ser consideradas verdadeiras ou falsas em razão da reputação moral de quem as formulou. De igual forma, ninguém deveria ser considerado moralmente irrepreensível porque produziu uma obra relevante ou porque defende causas justas.

Se, ao final das investigações, as denúncias forem confirmadas, o impacto será devastador no plano ético e humano. A comprovação dos fatos revelaria uma contradição profunda entre a formulação teórica de um dos intelectuais negros de maior projeção no país, construída em torno da crítica às assimetrias sociais, ao racismo e às relações de poder, e uma eventual conduta incompatível com esses princípios.

Seria também um lembrete incômodo de que conhecimento, erudição e reconhecimento público não conferem imunidade moral a ninguém. Um intelectual pode compreender profundamente os mecanismos de opressão e, ainda assim, reproduzi-los em sua própria vida. Afinal, a consciência teórica não garante, por si só, a coerência prática. Somos atravessados por contradições e nenhuma projeção pública nos torna imunes a elas. A coerência é um horizonte a ser buscado, e não uma condição permanente da existência humana.

Além disso, um desfecho dessa natureza poderia alimentar o cinismo daqueles que historicamente procuram utilizar as contradições de algumas lideranças para deslegitimar lutas coletivas por igualdade racial e direitos humanos. Seria um erro, porém, permitir que a eventual exposição pública de um indivíduo fosse convertida na queda de suas causas. O combate ao racismo não depende da perfeição moral de qualquer um de seus intelectuais, assim como a defesa dos direitos humanos não pode estar condicionada à biografia irrepreensível de seus representantes.

Porém, o outro desfecho possível também seria igualmente desastroso. Se as acusações não forem comprovadas e ficar demonstrado que houve utilização indevida de mecanismos políticos, midiáticos ou institucionais para destruir uma reputação, o dano ultrapassará a pessoa diretamente envolvida. Atingirá a própria credibilidade das políticas de enfrentamento à violência de gênero.

O risco de transformar canais de denúncia em instrumentos de disputa política pode produzir um efeito perverso: fazer com que mulheres que efetivamente sofreram violência hesitem em denunciar por medo de não serem acreditadas ou de terem suas experiências associadas a disputas de outra natureza. Nesse cenário, conquistas históricas construídas ao longo de gerações também poderiam ser atingidas.

É por isso que o acolhimento de quem denuncia e o respeito igualmente rigoroso à presunção de inocência não deveriam ser considerados princípios antagônicos. Porque não são! Uma sociedade democrática precisa ser capaz de sustentar ambos ao mesmo tempo.

O problema é que hoje em dia, a dinâmica da opinião pública parece cada vez menos preparada para conviver com a incerteza. Entre a denúncia e a sentença, abre-se um espaço que as redes sociais ocupam com grande velocidade. Nesse intervalo, a complexidade dos fatos é substituída pela urgência do julgamento, pelo cancelamento ou, no extremo oposto, pela blindagem daqueles com quem nos identificamos.

Talvez esteja aí a dimensão mais dolorosa desse episódio. Somos frequentemente convidados a escolher um lado antes mesmo de conhecermos todos os fatos. A identificação racial, de gênero, política ou ideológica passa a funcionar como critério de credibilidade, quando deveria ser justamente o contrário: nossos princípios deveriam ser capazes de sobreviver mesmo quando as pessoas que os representam nos decepcionam.

O verdadeiro desafio, portanto, talvez não seja decidir imediatamente em quem acreditar, mas preservar princípios que sejam maiores do que as pessoas envolvidas. Acolher uma denúncia não significa abandonar a presunção de inocência. Defender o devido processo legal não significa desacreditar quem fez a denúncia. Questionar uma acusação não significa automaticamente proteger o acusado. E reconhecer a gravidade de uma eventual violência não exige transformar uma pessoa na personificação do mal.

Precisamos ser capazes de admitir que as pessoas são complexas e podem ocupar posições contraditórias. Um homem negro pode ser vítima de estruturas racistas e, simultaneamente, abusar de seu poder sobre outras pessoas. Uma mulher pode ser vítima de uma estrutura de desigualdade de gênero, ainda que ocupe uma posição institucional de poder. Reconhecer essas possibilidades não diminui nenhuma das lutas e torna nossa compreensão das relações de poder mais sofisticada e menos dependente de identidades fixas.

O que já se perdeu, contudo, dificilmente será recuperado na íntegra. Reputações foram atingidas, relações foram rompidas, a confiança de parte da sociedade foi abalada e duas agendas fundamentais, o combate ao racismo e o enfrentamento à violência de gênero foram arrastadas para uma disputa que pode terminar fortalecendo justamente aqueles que sempre desejaram vê-las desacreditadas.

A verdade jurídica, quando vier, será necessária. Mas talvez chegue tarde demais para reparar todas as consequências produzidas pelo julgamento antecipado da opinião pública. Porque o tribunal das redes sociais não funciona como os institucionais, não exige provas, não precisa ouvir todas as partes envolvidas, não precisa aguardar contraditório e, sobretudo, não costuma voltar atrás com a mesma velocidade com que condena. A justiça pode estabelecer responsabilidades, mas não consegue desfazer integralmente os efeitos sociais de tudo aquilo que aconteceu durante o caminho.

O que permanece, portanto, é a sensação de um impasse em que todos perdemos. Se houve violência, perdemos pela violência. Se houve instrumentalização da denúncia, perdemos pela destruição da confiança. E, se não formos capazes de distinguir investigação de condenação, perderemos também a capacidade de construir uma esfera pública em que justiça, igualdade e dignidade possam coexistir.

É nesse ponto que todos podemos perder. Não porque a verdade deixe de importar, mas justamente porque ela importa demais para ser substituída por um julgamento apressado.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

 

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