segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Uma crítica radical ao fundamento do capitalismo verde

3.500 metros acima do nível do mar, o vento corta as montanhas e as nuvens se dissipam sobre uma extensão aparentemente infinita. O tempo se adensa. As horas passam mais lentamente, o ar parece diferente, como se a própria vida tivesse um ritmo próprio. Nas salinas de Salinas Grandes, no norte da província de Jujuy, na Argentina, o vento gira sobre uma planície branca que parece se estender eternamente. Nessa paisagem suspensa, onde o silêncio é mais alto que qualquer motor, o presente se move ao ritmo da terra, e o silêncio, de repente, ganha profundidade: é o som de um território que resiste.

Flavia Lamas, presidente da Asamblea de la Cuenca de Salinas Grandes y Laguna de Guayatayoc [Assembleia da Bacia Lagoa de Salinas Grandes e Lagoa de Guayatayoc], vive ali. Desde 2009, juntamente com outras 38 comunidades de Kolla-Casabinda, elas enfrentam o avanço de empresas de mineração que buscam extrair lítio do salar, localizado no famoso e estratégico Triângulo do Lítio. Em um mundo que celebra a “transição verde” e os carros elétricos como solução para as mudanças climáticas, Flavia nos lembra que cada bateria tem um preço que não se mede em euros ou dólares: mede-se em água, em comunidade, em vida.

“Dizem que somos o triângulo do lítio e que é por isso que vamos ficar ricos. Mas sem água não há vida. Nós não comemos baterias”, conta-nos Flavia quando a entrevistamos no Santuário de 3 Pozos, na entrada de Salinas, onde, por uma pequena taxa (2 euros), oferecem um serviço de visita guiada que explica como funcionam as salinas e como as comunidades utilizam o sal.

Quando as primeiras plataformas de perfuração chegaram à região em 2009, as comunidades não sabiam o que era lítio. “Vimos o salar começar a afundar, água doce jorrando misturada com salmoura. Foi aí que percebemos que algo estava errado”, conta Flavia. Desde então, eles se organizaram. Na Argentina, felizmente, e como reação a tantas crises, as pessoas sabem como criar resistência. Foi assim que nasceu a Asamblea de la Cuenca de Salinas Grandes y Laguna de Guayatayoc, onde elaboraram seu próprio protocolo de consulta (Kachi Yupi ou “Pegadas de Sal”) e exigiram que qualquer projeto respeitasse seu direito de decidir sobre assuntos relativos aos seus territórios.

A luta não foi fácil. Em 2023, após a reforma constitucional promovida pelo governador de Jujuy, os direitos dos povos indígenas foram enfraquecidos. Os protestos foram reprimidos e muitas comunidades se dividiram. Algumas, pressionadas pela necessidade ou pela promessa de emprego, concordaram em dialogar com as mineradoras. Outras, como a de Flavia, resistiram.

“Dizem-nos que o progresso vem com caminhões e máquinas, mas o que trazem é desigualdade. Antes, ninguém tinha mais do que ninguém. Agora alguns compram carros, outros nada. E isso destrói a comunidade”, explica ela. Flavia fala de Susques, uma comunidade a cerca de 66 km de onde estamos, uma das primeiras cidades da região da Puna onde a extração de lítio se desenvolveu. Lá, conta Flavia, “já não há água potável durante o dia e os animais nascem deformados”. As comunidades de Susques disseram-lhes: “Vocês ainda têm tempo, nós já perdemos tudo”. Essa frase resume o futuro que temem em Salinas: um território exaurido, uma vida rodeada de pó e sede. Em Susques, a promessa de desenvolvimento transformou-se em dependência. A água que outrora jorrava das nascentes da terra chega agora em garrafas de plástico: a privatização, a propriedade privada e o individualismo são algumas das consequências que a mineração trouxe a Susques.

A história de Flavia revela algo mais profundo do que um conflito ambiental: é uma disputa ontológica, uma divergência de opiniões sobre o significado deste mundo e como viver (bem) nele. Para Flavia, trata-se de Buen Vivir [Bem Viver]. Quando perguntamos a ela, nos diz que não é uma teoria, nem apenas uma cosmologia a ser estudada, mas uma prática diária. “Não se trata de uma pessoa viver bem, mas de todos viverem bem. Se meu vizinho está sofrendo, eu não consigo ter paz”. A ligação de Flavia com o Salar de Uyuni também é íntima e espiritual. “Sinto uma conexão com o Salar… é uma conexão. Quando minha família está triste, ansiosa ou doente, a única coisa que fazemos é nos conectar com a natureza. E é assim que encontramos a paz que um médico não pode nos dar. O Salar de Uyuni faz parte da família, e é por isso que dizemos que tocá-lo é como tocar uma mãe”. As salinas estão ligadas hidrológica e ecologicamente a rios de montanha como o Río de los Patos e ao sistema endorreico que alimenta zonas húmidas, prados e aquíferos superficiais utilizados pelas comunidades Kolla-Casabinda (Bustos-Gallardo et al, 2021).

Em sua cosmovisão, o salar não é um recurso, é uma mãe; um ser que vive, respira e sofre. As palavras de Flavia aqui contém uma crítica radical ao cerne do capitalismo verde: a ideia de que a natureza pode ser separada da vida humana e reduzida a um insumo, um recurso, um objeto explorável. Essa noção moderna de que o nome é uma coisa e a natureza outra. Como se nós mesmos não fôssemos a natureza.

O projeto de “transição ecológica” do Norte Global é frequentemente apresentado como um caminho inevitável e benigno para a sustentabilidade. No entanto, o lítio que alimenta a eletromobilidade é extraído de territórios como este, onde a água é escassa e a democracia é frágil. Em nome da descarbonização, antigos padrões coloniais estão sendo revividos: o Norte planeja seu futuro “limpo” (medido em energia e consciência), enquanto o Sul, mais uma vez, oferece sua terra e seu corpo (as teorias feministas sul-americanas sobre corpo-território têm muito a nos oferecer, caso algum leitor esteja interessado em explorar esse tema mais a fundo).

Flavia sabe disso. É por isso que seu apelo não se dirige a Buenos Aires, muito menos às instituições locais em Jujuy. “Recorrer ao governo provincial é inútil. A ajuda tem que vir da Europa, onde as decisões sobre o lítio são tomadas. Lá existem organizações de direitos humanos que podem nos ouvir”. O apelo de Flavia rompe com o molde simplista de um “Sul” vitimizado e um “Norte” opressor. Ela não fala em nome de uma fronteira, mas a partir de uma perspectiva de interdependência multifacetada: ecológica, política, epistêmica, ontológica. Sua voz busca forjar alianças com aqueles na Europa que também questionam a ficção do progresso verde construído sobre a desigualdade.

Em nosso projeto acadêmico, denominamos esse fenômeno de “dependências interseccionais”: entendemos que a dependência não se distribui apenas entre países e geografias, mas também entre modos de vida, saberes e ontologias. Das montanhas andinas às instituições europeias, as mesmas hierarquias (entre natureza e sociedade, razão e espiritualidade, homem e mulher, centro e periferia, etc. – ver Grosfoguel (2012)) sustentam o modelo extrativista. Romper com elas implica imaginar não apenas transições energéticas, mas também ontológicas, nas quais diferentes formas de conhecer e existir possam coexistir em igualdade de condições. Ou, pelo menos, romper com o padrão em que uma alternativa (supostamente superior) (a corrente dominante imposta pelo Norte Global) diminui, interrompe, desloca e/ou elimina outras formas alternativas de compreender o mundo e, portanto, de se relacionar com a natureza (isto é, conosco mesmos).

A voz de Flavia percorre caminhos de sal e vento, mas aponta para o cerne do debate global sobre a transição ecológica. Ela nos lembra que não há justiça climática sem uma justiça mais profunda: a justiça ontológica. Que mudar as fontes de energia não basta se continuarmos pensando o mundo com a mesma lógica. Precisamos nos abrir para novas formas de pensar e compreender o mundo: só assim surgirão novas soluções. E a transição “verde”, disfarçada de solução para os nossos problemas, baseada no que conhecemos como “otimismo tecnológico” — uma fé cega na tecnologia como utopia que nos salvará de todos os nossos problemas — está, na verdade, eliminando uma das alternativas para encontrarmos respostas, ampliando nossas formas de ver, compreender e pensar o mundo. Não conseguiremos enfrentar a crise ecológica global recorrendo às mesmas lógicas de extração, separação e dominação que a geraram. Como escreveu Audre Lorde em 1979, “as ferramentas do opressor jamais desmontarão a casa do opressor”: não podemos resolver os problemas da nossa era com as mesmas ferramentas da nossa era, visto que foram justamente essas ferramentas que criaram os problemas em primeiro lugar. Portanto, é necessário desmascarar o lado oculto da tão desejada e supostamente inofensiva “transição verde”, porque, mais uma vez, ela desloca e elimina futuros possíveis, e não apenas futuros, mas também possíveis formas de compreender o presente. Precisamos mudar o conjunto de ferramentas, porque não basta simplesmente “consertar” nossa sociedade fragmentada e quebrada; precisamos repensá-la: a voz de Flavia Lamas é um convite para fazermos exatamente isso.

Não é fácil, lembra-nos Flavia. Na entrevista, ela relata como, das 33 comunidades que participaram da luta, várias começaram a se retirar. Nas palavras dela: “Há comunidades que disseram que não há mais nada a fazer porque tudo está contra nós”. E explica que, em alguns casos, não é a comunidade inteira, mas “um pequeno grupo de famílias que dá sua aprovação, mas isso basta… quando as opiniões se fragmentam na comunidade, ela perde a força e a mineração toma conta”.

A mineração penetra. O que exatamente penetra e por quê? Porque não só a transição verde do Norte se promove de forma muito eficaz, como também as estratégias corporativas das empresas de mineração. Suas sofisticadas táticas de marketing sabem como se infiltrar nas comunidades. Mesmo com conectividade e acesso à internet limitados — o 4G só está disponível em alguns trechos da rota — as comunidades também recebem (principalmente porque vivemos nesta era digital) as ideias de progresso, trabalho, mobilidade social e sucesso. Isso é compreensível: em territórios onde o Estado está ausente e onde, desde a colonização, as pessoas foram confinadas, excluídas e ignoradas (não nos esqueçamos de que até mesmo seus idiomas foram erradicados na homogeneização colonial do espanhol), a promessa da mineração surge como a única alternativa para ingressar no chamado sistema, onde o progresso, a mobilidade social e o sucesso vendidos nas telas poderiam finalmente florescer.

A mineração oferece mais do que apenas um salário; oferece símbolos. Um carro, uma casa de alvenaria, roupas novas, joias, um celular melhor. Objetos que, na lógica do capitalismo colonial, representam “ter chegado lá”. E em territórios empobrecidos por políticas nacionais historicamente extrativistas, esses símbolos podem ter mais peso do que o discurso ambiental. Fica claro, então, enquanto Flavia e eu refletimos, que nem todas as comunidades se opõem a ela, permanecendo fiéis ao que seus ancestrais lhes ensinaram e às mensagens que Tata Wayra (vento) e Tata Inti (sol) transmitem por meio de sons imperceptíveis aos ocidentais.

Essa mesma promessa feita pelas corporações desmantela as estruturas comunitárias. O documentário The Hidden Cost: The Other Side of the Green Transition [O Custo Oculto: O Outro Lado da Transição Verde], produzido por colegas do Observatorio de la Deuda Global [Observatório da Dívida Global], ilustra claramente o que Flavia resume em uma frase: “a comunidade se desfaz”. Práticas que não existiam antes emergem, e em particular, sob uma perspectiva de gênero, o alcoolismo e a prostituição. É por isso que as mulheres em seu documentário buscam destacar a crucial perspectiva de gênero na extração de lítio, porque ela acarreta mudanças profundas. Em relação ao primeiro problema, Flavia nos conta que as mulheres de Susques — que, como já mencionamos, sofrem as consequências da mineração presente há 10 anos — dizem que não é mais seguro sair à noite, pois há muitos homens bêbados e violentos circulando pelas ruas. Quanto ao segundo ponto, embora aponte para um debate muito mais amplo que não podemos abordar aqui, infelizmente força as mulheres a buscar outras formas de ganhar dinheiro e se sustentar financeiramente, atendendo a uma demanda que claramente deriva da mesma lógica extrativista e individualista que a mineração estabelece (e de forma irreversível). Esses fenômenos são efeitos sociais de uma lógica extrativista que cria desigualdade dentro da comunidade e altera seu panorama moral, relacional e emocional.

Da bacia, muitas vozes convergem em uma única afirmação, diz Flavia: “Não queremos ser uma zona de sacrifício”. A emergência climática não pode legitimar transições energéticas que aprofundam as desigualdades sociais, étnicas e ambientais; que desestruturam comunidades; que geram agitação e violência. A reivindicação é clara: escutar os territórios, defender a água, respeitar os direitos coletivos, deixá-los ser e decidir, reconhecer sua existência, seu modo de vida e pensamento e, acima de tudo, entender que com baterias de lítio pode haver carros e celulares, mas sem água não haverá ninguém para usá-los ou operá-los.

Flavia nos pede para espalhar sua mensagem. E aqui estamos nós, tentando amplificar sua voz em todos os espaços possíveis. Se você está se perguntando como pode ajudar, a primeira resposta de Flavia é simples e urgente: divulgue. Compartilhe. Mantenha a conversa viva. Siga-os no Instagram (@cuencadesalinasgrandes) e no site deles, porque cada compartilhamento abre uma janela de oportunidade. E porque compartilhar é um ato político.

No fim das contas, a questão não é quem ficará com o lítio, mas que tipo de mundo continuaremos alimentando quando acreditamos que somente a tecnologia nos salvará. A questão levantada por este artigo é incômoda, mas inevitável: de que adianta descarbonizar a Europa se os Andes, no Sul Global, se transformarem em desertos? De que adianta uma transição verde que exige o sacrifício de territórios inteiros em nome de um futuro que essas comunidades sequer poderão alcançar? Que tipo de justiça climática é essa que exige “zonas de sacrifício” (as mesmas do passado, é claro)?

Enquanto as potências do Norte falam sobre e celebram a “inovação verde”, em Salinas Grandes, as comunidades continuam defendendo algo mais fundamental e real do que um carro elétrico ou um terceiro celular daqui a dois anos: defender a água, defender a vida. Nas palavras de Flavia, palavras que a Europa precisa de ouvir: “Sem água não há vida. Nós não comemos pilhas”.Talvez essa seja a mensagem mais profunda que as Salinas Grandes nos transmitem: que a transição ecológica não será justa se for construída sobre terras ressequidas; que se a transição verde exigir territórios vazios, comunidades fragmentadas e salinas sem água, então não é nem transição nem verde, é simplesmente outra forma de extrativismo, desta vez em nome do clima; que não haverá um mundo possível se continuarmos silenciando vozes que poderiam nos ajudar a imaginar outros mundos; e que a Pachamama, quando fala em silêncio, está nos dizendo que ainda temos tempo.

 

Fonte: Por Marisol Manfredi e Jakob Nitschke  - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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