terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Heba Ayyad: Cisjordânia - entre a anexação, o deslocamento forçado e a ilusão de um Estado independente

A amarga verdade que devemos encarar com coragem, clareza e franqueza é esta: a Cisjordânia está sendo perdida. A região vem sendo anexada metro a metro, centímetro a centímetro. A Cisjordânia foi completamente transformada. Já não há espaço para os palestinos, exceto dentro de suas grandes ou pequenas prisões. Vilarejos se tornaram cárceres. Cidades estão isoladas umas das outras por postos de controle marcados pela humilhação, opressão e assassinato. A limpeza étnica continua. A guerra de extermínio e deslocamento persiste tanto em Gaza quanto na Cisjordânia.

O povo da Cisjordânia perdeu a esperança em uma solução justa. Depois de Gaza e da conspiração global corporificada na Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU — que legitima a ocupação e a colonização permanentes, a separação de Gaza e da Cisjordânia, a criminalização da resistência e o desmantelamento de todas as suas capacidades — e após o fracasso da entidade sionista em alcançar esses objetivos ao longo de dois anos de guerra de extermínio, os Estados Unidos os concretizaram por meio da resolução mencionada, com aprovação internacional, árabe e palestina. “Esta calamidade é indescritível; nem Karbala nem Najaf testemunharam tamanha tragédia.”

A Autoridade Palestina está à beira do colapso sob uma dupla pressão: o peso da ocupação israelense e o distanciamento da própria Autoridade em relação às preocupações e ao sofrimento do povo, diante dos ataques de colonos, das incursões, dos assassinatos diários e das prisões.

A brutalidade dos assentamentos e a violência perpetrada pelos colonos atingiram um nível indescritível e insuportável. As pessoas sentem-se abandonadas e entregues à própria sorte, sem qualquer proteção. Cada aldeia luta para se defender dos ataques noturnos e implacáveis de grupos criminosos de colonos, que vandalizam terras, árvores e animais, além de realizarem agressões físicas diárias que frequentemente culminam em assassinatos, como ocorreu recentemente em Deir Jarir, al-Judeira, Burin, Tubas, Sinjil, al-Mughayyir, Masafer Yatta, Silwad, Jenin e muitos outros lugares. A expansão dos assentamentos tornou-se desenfreada, fragmentando a Cisjordânia em enclaves isolados, onde atores locais, grupos armados e ONGs tentam preencher o vácuo deixado pelo colapso das instituições. A sociedade civil está se deteriorando, e as alternativas políticas estão sendo suprimidas. Isso alimenta o desespero e incentiva a emigração.

As autoridades israelenses distribuíram mais de 120.000 armas e 157.000 licenças de porte para colonos na Cisjordânia, flexibilizaram as restrições à posse de armamento e estabeleceram 527 novas milícias de colonos. Itamar Ben-Gvir as chama metaforicamente de “forças de segurança”. Embora o objetivo declarado dessas medidas seja a proteção, seu efeito imediato foi permitir que os colonos desencadeassem níveis ainda maiores de violência.

Os moradores palestinos foram isolados de suas terras, pois postos avançados de assentamentos foram instalados ao redor de cada aldeia, formando um arco. Um posto avançado pode consistir em um barraco de lata ou uma tenda habitada por uma pessoa ou uma família, acompanhada de um burro ou cavalo, um cachorro e um rifle. Qualquer pessoa que se aproxime dessas estruturas corre o risco de ser baleada imediatamente, como ocorreu recentemente em Al-Mazra'a Al-Sharqiya. Esses postos avançados se espalham ao redor das aldeias, separando o agricultor de sua terra. Não há mais cultivo de trigo, cevada, lentilha, milho, gergelim, vegetais ou leguminosas — culturas com as quais crescemos. Se um agricultor é desalojado de suas terras e perde seu sustento, o que ele deve fazer? Pode tentar procurar trabalho com a ocupação, o que se tornou praticamente impossível após a guerra de extermínio, ou pode emigrar, ou ainda sobreviver sob humilhação, dependente da caridade alheia.

Uma das professoras relatou, em uma entrevista de rádio, que recebe metade do salário há três anos. Em contrapartida, a escola funciona apenas três dias por semana. Como uma professora consegue sobreviver com metade do salário? Como sustentar uma família, pagar aluguel — quando há — e arcar com as contas de água, luz, telefone e despesas dos filhos? E como as futuras gerações aprenderão com aulas em meio período, professores reduzidos e um currículo distorcido?

A prática mais recente da ocupação é a recusa em emitir documentos de registro de terras na Área C, considerada semi-anexada. Isso significa que, se você possui um terreno fora da Área B ou fora da bacia hidrográfica da aldeia, não pode obter a escritura. Essa é uma prática recente. O papel da Autoridade Palestina limita-se a transmitir a mensagem — funcionando como um canal pelo qual as ordens da ocupação são repassadas. 

As incursões noturnas às casas, realizadas pelo exército e pelas forças de segurança, assim como as prisões, são implacáveis. Eles arrombam as fechaduras, e vários soldados invadem as residências, humilhando qualquer pessoa que encontrem com espancamentos, insultos e destruição de móveis, além de roubarem todo o dinheiro ou joias das mulheres sempre que conseguem. Um morador me contou que um dos soldados encontrou apenas uma nota de 20 shekels e a colocou no bolso.

Os assassinatos, as incursões, as demolições de casas, a violência dos colonos, os postos de controle humilhantes e os portões de fechamento que se espalharam pelas aldeias, vilas e cidades da Cisjordânia estão causando deslocamentos. O ataque e a destruição dos acampamentos no norte, em janeiro e fevereiro, resultaram no deslocamento de mais de 42.000 pessoas. As casas nesses acampamentos foram posteriormente demolidas. De acordo com o recente relatório de 105 páginas da Human Rights Watch, “Meus Sonhos Foram Apagados”, sobre a limpeza étnica na Cisjordânia: “A Operação Muralha de Ferro, uma operação militar israelense que incluiu os campos de refugiados de Jenin, Tulkarm e Nur Shams, começou em 21 de janeiro de 2025, dias após a declaração de um cessar-fogo temporário em Gaza. As forças israelenses emitiram ordens repentinas para que os civis deixassem suas casas, inclusive por meio de alto-falantes instalados em drones.”

Testemunhas oculares relataram que soldados se deslocaram sistematicamente pelos campos, invadindo casas, saqueando propriedades, interrogando moradores e, por fim, forçando todas as famílias a sair. Desde essas incursões, as autoridades israelenses negam aos moradores o direito de retornar aos campos, mesmo quando não há operações militares ativas nas proximidades. Soldados da ocupação atiraram em habitantes que tentaram chegar às suas casas, e o exército arrasou, demoliu e limpou áreas dentro dos campos, aparentemente para criar rotas de acesso mais amplas, enquanto simultaneamente selava todas as entradas. O número de casas demolidas ultrapassou 1.300. A realidade é que todos os palestinos são considerados procurados pelas autoridades de ocupação, e o deslocamento é iminente. 

Estamos diante de uma grave catástrofe. Ou o povo palestino, em todos os lugares, se levanta para proteger sua existência, sua terra, sua história e seu futuro, ou a causa mais justa da história moderna será perdida com assinatura árabe, assim como ocorreu na Nakba de 1948.

<><> Gaza após a resolução do Conselho de Segurança: tutela, ocupação, deslocamentos e separações

A história registrará que a Resolução 2803, adotada na noite da última segunda-feira, ao endossar o plano de paz de Trump para Gaza, constitui uma das decisões mais perigosas, complexas e insidiosas já aprovadas pelo Conselho de Segurança. Ela lembra apenas da Resolução 687 (1991), adotada após a libertação do Kuwait, que impôs sanções ao Iraque, incluindo o desarmamento de armas de destruição em massa que nunca existiram. À época, foi apelidada de “a mãe de todas as resoluções”.

Em minha leitura da Resolução 2803, quero enfatizar a importância das necessidades imediatas de Gaza — particularmente um cessar-fogo, a entrega substancial de ajuda humanitária e a abertura de todas as passagens. No entanto, Israel não tem cumprido nenhum desses três aspectos desde o início do suposto cessar-fogo, em 10 de outubro. Os assassinatos não cessaram, a ajuda não atingiu o nível necessário e nem todas as passagens foram abertas. Não passa um dia sem ataques armados, destruição de edifícios e violência contra moradores de Gaza de todas as idades e origens.

Ainda assim, o mundo virou as costas para Gaza, presumindo que a guerra terminou, que os assassinatos cessaram, que a vida normal foi retomada e que as filas de famintos desapareceram. Tudo isso é mentira, mas o mundo hipócrita tenta aliviar a própria consciência — cúmplice desta guerra de extermínio — convencendo-se de que Gaza encontra-se em fase de recuperação. Contudo, a verdade, como descreveu o UNICEF, aparece nas palavras de seu porta-voz, Ricardo Pérez, ao comentar a resolução do Conselho de Segurança: “Precisamos ver mais corredores humanitários abertos. Precisamos ver maiores quantidades de ajuda chegando, mais caminhões, mais corredores e mais acesso”.

A resolução deve ser lida em detalhes, especialmente o ponto sete. Trata os palestinos como menores incapazes de autogoverno. A Autoridade Palestina não tem qualquer papel até que seja “reformada” e “reabilitada”, e a polícia palestina só poderá atuar auxiliando a força internacional depois que seus membros forem treinados e sua lealdade, verificada. Não sabemos quando a Autoridade será reformada, nem quando a polícia concluirá seu treinamento.

A resolução estabelece um conselho de tutela — falsamente denominado “conselho de paz” — sob cuja autoridade um governo de transição deve operar para implementar o plano de Trump e sob cuja autoridade atuarão as forças de estabilização responsáveis pela segurança. Esse conselho teria personalidade jurídica protegida pelo direito internacional, o que significa que ninguém poderia interferir em seu trabalho ou responsabilizá-lo caso cometesse crimes.

Como afirmou o embaixador russo, Vasily Nebenzya, no Conselho de Segurança: “A resolução permite que o Conselho de Paz e a força internacional de estabilização atuem com total independência, sem levar em consideração a posição ou a opinião da Autoridade Palestina, o que poderia consolidar a separação da Faixa de Gaza da Cisjordânia. 

Alcançar os objetivos que Israel não conseguiu atingir: as forças de segurança, operando em cooperação com o Egito e Israel, são responsáveis por desmantelar todas as redes de resistência, desarmá-las e destruir sua infraestrutura. É isso que a resolução estipula, para que ninguém duvide de sua seriedade: “A força internacional trabalhará com Israel e o Egito… juntamente com a polícia palestina, cujos membros já foram treinados e selecionados, para ajudar a garantir a segurança das áreas fronteiriças; e para estabilizar o ambiente de segurança em Gaza, garantindo a desmilitarização da Faixa de Gaza, incluindo a destruição e a prevenção da reconstrução de infraestrutura militar, terrorista e ofensiva na Faixa, bem como a remoção permanente de armas de serviço por grupos armados não estatais.”

Este é o verdadeiro objetivo: alcançar, por meios indiretos, aquilo que Israel não conseguiu atingir por meio da guerra, após dois anos de campanha de aniquilação. A resolução busca a derrota da resistência, seu desarmamento, a destruição de sua infraestrutura e o controle das fronteiras — tudo implementado por uma força internacional estabelecida por Israel em cooperação com os Estados Unidos.

E quanto à retirada israelense da Faixa? A resolução afirma que a retirada das Forças de Defesa de Israel (IDF) de Gaza só ocorrerá com base em critérios, parâmetros e prazos específicos, vinculados ao desarmamento, e acordados entre as IDF, a força internacional, os garantes e os Estados Unidos. Isso implica a manutenção de um cordão de segurança que permanecerá ativo até que Gaza esteja completamente livre de qualquer risco de ressurgimento de ameaças consideradas “terroristas”.

Mas quem determina se Gaza está “segura o suficiente” para a retirada das IDF, senão o próprio Israel? Mesmo que se retire, manterá um cordão de segurança. Em outras palavras, uma retirada completa de Gaza é um sonho distante: não depende de um cronograma ou de critérios objetivos, mas de uma avaliação estadunidense-israelense sobre o desaparecimento total de qualquer manifestação de ameaça à segurança — uma avaliação que jamais se concretizará.

Para Israel, o nascimento de uma criança é uma ameaça à segurança; o hasteamento da bandeira palestina é uma ameaça à segurança; o hino nacional é uma ameaça à segurança. Trata-se, portanto, de um acordo permanente que visa impedir que a Faixa de Gaza recupere qualquer capacidade de resistência à ocupação em curso, ao deslocamento forçado, à perseguição de combatentes e à reconstrução de suas estruturas — tudo sob o pretexto de que “a segurança ainda não foi alcançada” ou de que “o desmantelamento das redes de resistência permanece incompleto”.

Gaza está agora entrando em uma fase de tutela colonial; trata-se de uma nova Declaração Balfour, desta vez sob a forma de uma Declaração Balfour norte-americana, legitimada por selos internacionais, árabes e islâmicos.

<><> O Conselho de Segurança abdica de seu papel

Um dos aspectos mais peculiares desta resolução é que ela pode ser a primeira na qual o próprio Conselho de Segurança renuncia à sua autoridade em favor de uma entidade estrangeira. As Nações Unidas não têm qualquer papel na formação da força de estabilização em Gaza, nenhum papel no monitoramento do cessar-fogo e nenhum papel na reconstrução. Até mesmo seu papel humanitário foi minimizado, transformando-se em apenas mais uma organização entre muitas outras colocadas em pé de igualdade — como a Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho e diversas organizações parceiras.

Mas quem são essas organizações parceiras? Isso não abre caminho para a infiltração de entidades duvidosas, como a chamada “Fundação Humanitária de Gaza”, criada pelos Estados Unidos como uma armadilha para matar civis? E quem decide quais organizações parceiras serão aceitas ou rejeitadas?

Compreendo as posições de alguns países árabes e islâmicos que normalizaram relações com Israel, ou estão a caminho da normalização, e que por isso oferecem apoio incondicional ao plano de Trump. Mas como posso compreender a posição da Argélia, que votou a favor da resolução mesmo sabendo que ela está muito aquém dos direitos nacionais mínimos dos palestinos?

Ela estipulava o estabelecimento de um Estado palestino contíguo e independente?

Mencionava a suspensão da atividade de assentamentos e da violência dos colonos?

Concedia algum papel aos representantes legítimos do povo palestino e aos seus honrados líderes, comprometidos com o projeto nacional palestino?

Afirmava a unidade entre Gaza e Cisjordânia?

É verdade que o embaixador argelino reiterou falar em nome do Grupo Árabe e que alguns de seus membros participaram das reuniões em Sharm El-Sheikh, agarrando-se à popularidade de Trump para evitar constrangimentos perante seus próprios povos. Mas o embaixador estava obrigado a tecer elogios a Trump — o mesmo Trump que discursou no Knesset vangloriando-se das quantidades de armas fornecidas a Israel, armas com as quais Israel travou sua guerra de aniquilação?

Isso implica reconhecer que, sem o apoio estadunidense em forma de armamento, financiamento e poder de veto, Israel não teria conseguido prolongar a guerra por dois anos inteiros.

Por fim, essa decisão aliviou a pressão internacional sobre Israel e fez com que a grande maioria dos ativistas de solidariedade retornasse para casa. Ninguém parece lembrar do Tribunal Penal Internacional, do Tribunal Internacional de Justiça ou dos crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos na Faixa de Gaza. Israel começou a romper seu isolamento, por um lado, enquanto, por outro, expande sua agressão contra o Líbano e a Síria — e em breve retomará sua guerra contra o Irã.

Quanto ao que acontece na Cisjordânia e à liberação de colonos, a situação tende apenas a piorar agora que o exército, as forças de segurança e a classe política estão livres para consolidar a anexação do que resta da Cisjordânia. E a referência da decisão ao plano de paz de Trump de 2020 — o que foi chamado de “Acordo do Século” — teria sido mera coincidência?

Não depositamos nossas esperanças em países árabes, islâmicos ou europeus. Já os conhecemos a todos e chegamos à convicção de que o povo palestino é o único capaz de proteger sua existência, seus direitos e seu projeto nacional na Palestina.

 

Fonte: Brasil 247

 

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