Gilberto
Menezes Côrtes: Congresso decide - fica com o bem ou com o mal?
O caro
leitor ou leitora já deve ter lido aqui, algumas vezes, a comparação entre a
política e as nuvens. No momento, ambas estão carregadas e ameaçadas por ventos
sudoeste que podem virar vendavais. Mas, neste sábado, de expectativa para a
decisão da Taça Libertadores, houve uma trégua no céu da praia de Ipanema. Me
animei imaginando que o alívio nas nuvens rejuvenesceria a política, mas fui
surpreendido com um avião de propaganda fazendo anúncio de brilhantina
Glostora. Levei um susto. Não era do meu tempo (só ouvira falar de anúncios no
rádio). Minha infância era do Gumex.
Nasci
em 1950, quando o Brasil era um país rural e a expectativa de vida ao nascer
era de 48 anos. No ano passado, revelou o IBGE, a expectativa de vida aumentou
para 76,6 anos. Ou seja, os brasileiros que nascem hoje ganharam mais 28 anos
de expectativa de vida do que os que nasceram no mesmo ano que eu. É que a vida
urbana, apesar dos pesares, garante mais serviços públicos; combinados com o
avanço das vacinações, elevaram a expectativa e a qualidade de vida da maioria.
Em 1950, com mais de 65% da população vivendo no campo, de modo precário, sem
luz elétrica e sem avanço na vacinação, para cada mil nascimentos, o IBGE
informa que a taxa de mortalidade era de 136,2 por mil: 65,4 morriam entre um e
quatro anos e 192,7 por mil na infância. Em 2024 (depois da expectativa de vida
encolher na Covid-19 dos 74,8 anos de 2020 para 72,8 anos, em 2021, pela
própria mortalidade e pela falta de vacinas), a expectativa de vida ao nascer
subiu para 76,6 anos, e o risco de mortalidade infantil a 12,3 por mil; até
quatro anos, caiu a 2,2 por mil (na infância, sobe para 14,4 por mil, e um dos
riscos é a bala perdida).
Há um
efeito importante nesse aumento da longevidade, que veio acompanhado pela queda
da natalidade. O mercado de consumo mudou radicalmente, e as empresas
perceberam isso. As calçadas das grandes cidades exibem farmácias onde antes
havia agência bancárias. A vida no campo mudou radicalmente. Em 1950, o café
comandava a economia brasileira, sendo responsável pela geração de mais de 80%
das divisas. As “ruas” do café, em São Paulo e Paraná, com o rico solo, em
planalto, das terras roxas, eram cultivadas com milho, feijão e mandioca pelas
famílias de colonos europeus (italianos, espanhóis, portugueses, ucranianos,
alemães, holandeses, japoneses e lituanos) que vieram para o Brasil nos 100
anos anteriores, quando a Inglaterra impôs restrições ao uso da mão de obra
escrava.
Hoje, o
café, que reinou por dois séculos, depois de substituir o ciclo do açúcar,
mesmo com a disparada de preços no mundo e aqui em 2024, responde por menos de
5% da receita de exportação. O colonato baseado na lavoura de café e cultivo na
enxada acabou em 1995, quando uma forte geada dizimou as lavouras de café de SP
e Paraná. Os colonos foram inscritos pelos fazendeiros (de todo o Brasil, não
somente no PR e SP, no Funrural, e o déficit na Previdência Social não parou de
crescer; e o aumento da expectativa de vida pede sucessivas reformas, com o
aumento da idade mínima). Os paulistas optaram pela cana de açúcar e pela
laranja; os paranaenses, pelo plantio mecanizado da soja e do milho. A soja
assumiu a liderança na segunda metade dos anos 90, quando conquistou as terras
do cerrado do Planalto Central. Cenário vislumbrado por JK quando resolveu
mudar a capital para Brasília e conquistar o interior. E a carne bovina superou
as vendas de café neste milênio. A combinação da soja com o milho impactou o
preço das rações e diversificou a oferta dos alimentos aos brasileiros. Com
produção mais intensa, as carnes de frango e suínos chegaram a desbancar as
vendas de café.
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Um país em mutação
Como se
percebe, se a vida rural e a vida urbana mudaram, como mudam as nuvens, na
política, era de se esperar que houvesse uma modificação na representação
popular na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Os velhos barões do açúcar
do Nordeste (que resistem em Alagoas e Pernambuco) e de Campos dos Goytacazes
foram superados pelo maior poderio e produtividade da monocultura da cana
paulista. O café, que tinha sede em São Paulo, no tempo do “café com leite” do
começo da República Velha, mudou-se para o Sul de Minas e o Triângulo Mineiro
(o Espírito Santo abrigou o café robusta ou conilon). Uma nova representação
política surgiu no campo para defender os interesses dos fazendeiros que
devastam o cerrado com lavouras de soja, de milho e de algodão (em rodízio com
a soja), além das matas da Amazônia (Pará, Norte de Mato Grosso, Rondônia, Acre
e Maranhão). Nas cidades, a migração forçada do campo há 50 anos abriu espaço a
uma miríade de igrejas evangélicas e pentecostais que exploram a crendice
popular.
A
representação política, no entanto, em vez de evoluir como a expectativa de
vida dos brasileiros, regrediu. Por isso, como reflete a dupla que comanda o
Senado e a Câmara, vi de relance, assustado, na praia, o aviãozinho de
propaganda anunciando a brilhantina Glostora. O vaidoso deputado Hugo Motta
(Republicanos-PB) está sempre com os cabelos penteados com algum fixador mais
moderno. Mais natural, às vezes com a barba por fazer, o senador Davi
Alcolumbre (União-AP) aparece com os cabelos emplastrados por algo não
identificado. Num e noutro caso, não escondem o ranço do atraso que representam
no Poder Legislativo. Vejam o que fizeram esta semana.
O senador, contrariado por não ter o presidente Lula (do Poder Executivo)
negociado previamente com ele a indicação do substituto do ministro Luís
Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (Poder Judiciário), vaga que
precisa ter preenchimento aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do
Senado, e depois pelo plenário com um mínimo de 41 votos dos 81 senadores
(assim como membros dos tribunais superiores, diretores do Banco Central,
agências reguladoras e presidentes e diretores de estatais), tratou de
dinamitar o terreno para a aprovação do nome do advogado Geral da União, Jorge
Messias. Davi Alcolumbre defendia o senador e ex-presidente do Senado, Rodrigo
Pacheco (PSD-MG). Primeiro, encurtou o prazo de exame do nome, marcando a data
de 10 de dezembro para a votação em dois níveis (o presidente Lula está
tentando reabrir o diálogo, pedindo mais prazo, como Alcolumbre fez no governo
Bolsonaro na indicação de André Mendonça (em 2021). Mas Alcolumbre, que preside
o Congresso, reabriu a caixa de maldades do Poder Legislativo, tirando da
gaveta projetos anacrônicos defendidos pelas bancadas do atraso (conhecidas
como BBB – do Boi, da Bala e dos Bancos) e pôs em votação Projeto de Lei que
anulou os vetos do presidente Lula (em agosto) à Lei Geral do
Licenciamento Ambiental (Lei 15.190, de 2025), que permite que donos de
empreendimentos classificados como de médio risco façam uso da chamada Licença
Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), que garante a emissão imediata da
licença mediante a autodeclaração do empreendedor. Não esperou nem a poeira (ou
a fumaça) da COP30 abaixar em Belém para facilitar a agressão ao meio ambiente.
Mas também ameaçou as finanças públicas com as benesses para agentes de saúde,
que podem causar rombo de R$ 40 bilhões nos próximos dez anos.
Uma das
responsabilidades do Parlamento é zelar pelas finanças públicas. Foi para
evitar a tributação exorbitante do Rei que surgiram a Magna Carta e a Câmara
dos Lordes no século XIII, na Inglaterra. Nossa Câmara e nosso Senado, em vez
de se debruçarem no exame dos futuros riscos orçamentários (a longevidade dos
brasileiros traz desafios para mudar prioridades), fazem um campeonato para ver
quem aprova mais despesas ou benesses a descoberto. E quando o Ministério da
Fazenda enviou projetos e propostas para redefinir a carga tributária do país
(em complemento à Reforma Tributária que alivia e simplifica os impostos sobre
o consumo a partir de 2027), fez corpo mole para aprovar as compensações
tributárias para a isenção do IR de quem ganhe até R$ 5 mil em 2026, com o
pequeno aumento da carga para os que ganham acima de R$ 50 mil, aí incluindo
dividendos e juros sobre capital próprio de firmas individuais). Ao fazerem
corpo mole, protegem os ricos e sonegadores.
Vejam a
resistência à tributação das LCIs e LCAs. Os juros subiram uma enormidade nos
últimos dois anos, o que, além de aumentar o ganho real (descontada a inflação)
dos rentistas e do sistema financeiro, facilitou as emissões das LCIs e LCAs,
isentas de tributação. Parte da resistência vinha da bancada dos bancos, à
frente o Banco Master, enfim liquidado pelo Banco Central após agonia de dois
anos. Seu dono foi solto, afinal, e sábado estava com uma Bíblia na mão. Mas os
pecados dos prejuízos bilionários estão espalhados pelo Fundo Garantidor de
Crédito (que banca depósitos até R$ 250 mil) e por fundos de pensão de estados
e prefeituras (RJ, SP, AP, AM e Alagoas encabeçam a lista com suspeita de
corrupção). O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), chegou a apresentar
proposta para elevar a cobertura do FGC, bancado pelos grandes bancos (em cima
das tarifas e grandes lucros que obtêm nos juros dos empréstimos) para R$ 1
milhão. Virou alvo de chacota dos bancões como a “emenda Master”, e o projeto micou
no ano passado.
Mas o
que dizer do engavetado projeto dos “devedores contumazes”? O escândalo do
grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos), do advogado Ricardo Magro
(apontado como o mais gordo sonegador do país, com R$ 26 bilhões devidos aos
fiscos federal e de SP e RJ, pois vendia gasolina (misturada ou não) abaixo do
preço, e sonegava impostos (ICMS e federais) há décadas, revelou um esquema
poderoso. A origem de Ricardo Magro, advogado do ex-presidente da Câmara
Eduardo Cunha, um dos líderes do Centrão, não nega a interligação com a
blindagem da política a crimes. A finada emenda da “bandidagem”, que caiu no
Senado pela pressão da opinião pública que foi às ruas em setembro, está aí
para provar. Nela estava embutido o perdão a crimes políticos (incluindo o
ex-presidente Jair Bolsonaro, antes mesmo de o STF o julgar) e a futuros crimes
cometidos por políticos – de vereador a senador, e aos dos membros do
Executivo.
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O PL também foi atingido
Mas
vejam bem. Na volta do avião que vi na praia, o outro lado da faixa que exibia
“Glostora”, dava para se ler claramente a velha proposta de anistia do PL para
salvar Bolsonaro. Que não se engane, caro(a) leitor(a): o corte do Partido
Liberal à mesada de R$ 46 mil que dava a Bolsonaro, depois da execução de sua
prisão por 27 anos e três meses, foi exigência da Justiça, não decisão
unilateral do partido de Valdemar Costa Neto, que também tem de cancelar o
aluguel da mansão no Condomínio do Jardim Botânico (DF), porque as funções
legislativas do ex-presidente foram suspensas pela condenação transitada em
julgado. Na cadeia, Bolsonaro não precisa da mansão, e os dias da
ex-primeira-dama estão sendo contados.
Costa
Neto deve muitos favores a Jair Messias Bolsonaro. Sua candidatura pelo PL
encheu as burras do partido, que fez a maior bancada da Câmara em 2022. Mas o
partido, ao patrocinar uma ação contra o resultado em 2022, pondo em xeque a
lisura das urnas eletrônicas, chegou a ter R$ 22 milhões bloqueados pelo
Tribunal Superior Eleitoral por “litigância de má-fé”. Do mesmo modo que a
sigla inchou com a eleição em 2022, de puxadores de votos como Carla Zambelli
(946 mil votos) e Eduardo Bolsonaro (741 mil), que ajudaram a garantir mais
três vagas no rateio eleitoral, a cassação do mandato pode redistribuir os
votos para outras legendas. Zambelli está condenada e não tem saída, mas o PL
manobra a Mesa da Câmara para protelar uma decisão da Casa, que não só emagreceria
a bancada como poderia lhe cortar verbas do fundo partidário. Valdemar é
pragmático. Chegou a expulsar o deputado Antônio Carlos Rodrigues (PL-SP) da
legenda por posições contra o tarifaço, defendido pelo clã Bolsonaro. Mas
voltou atrás para não perder um soldado e verba. Por isso, pode-se imaginar a
batalha para defender os mandados do 03 e do ex-diretor geral da Abin, delegado
Alexandre Ramagem (PL-RJ), que fugiu para os Estados Unidos enquanto o STF
votava a sua condenação a 16 anos.
No
mais, “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”.
¨ Zanin autoriza julgar
ação que acusa deputados do PL de corrupção
O
ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberou nesta
quinta-feira (27) para julgamento a ação penal na qual a Procuradoria-Geral da
República (PGR) pede a condenação de dois deputados federais e um suplente do
PL pelos crimes de corrupção passiva e organização criminosa.
A
liberação foi comunicada ao ministro Flávio Dino, presidente da Primeira Turma
da Corte, colegiado que será responsável pelo julgamento. Caberá ao ministro
marcar a data do julgamento.
No
processo, os deputados federais Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil
(PL-MA) e o suplente Bosco Costa (PL-SE) são acusados de cobrar propina para a
liberação de emendas parlamentares.
De
acordo com a PGR, entre janeiro e agosto de 2020, os acusados solicitaram
vantagem indevida de R$ 1,6 milhão para liberação de R$ 6,6 milhões em emendas
para o município de São José de Ribamar (MA).
Outro
lado
Durante a tramitação do processo, Josimar Maranhãozinho declarou ao Supremo que
as acusações da PGR contra o parlamentar se "mostram frágeis e
desfundamentadas".
Os
advogados de Bosco Costa defenderam a rejeição da denúncia por falta de provas.
A defesa afirmou ao Supremo que a acusação está baseada em "diálogos de
terceiros e anotações manuscritas desconhecidas de Bosco".
A
defesa de Pastor Gil defendeu a ilegalidade das provas obtidas na investigação
por entender que o caso deveria ter iniciado no STF, e não na Justiça Federal
do Maranhão. Os advogados também acrescentaram que a denúncia é baseada em
"hipóteses e conjecturas".
¨ Banco Master: Daniel
Vorcaro, investigado por fraude, vai ao STF e pede que Nunes Marques seja o
relator do caso
O caso
que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, passou a tramitar
no Supremo Tribunal Federal. A reclamação apresentada pela defesa foi
distribuída ao ministro Dias Toffoli, apesar do pedido para que o processo
ficasse sob a relatoria de Nunes Marques, responsável por um inquérito citado
nos autos.
A
subida ao STF ocorre porque, durante as buscas da Operação Compliance Zero, a
Polícia Federal encontrou um documento mencionando um deputado federal. Como
parlamentares têm foro, os advogados recorreram ao Supremo alegando conexão
entre as investigações. A reclamação é o instrumento usado para pedir que
decisões da Corte sejam observadas por instâncias inferiores, argumento central
da petição. Mesmo assim, o sorteio indicou Toffoli como relator.
A
movimentação ocorreu nesta sexta-feira (28), mesmo dia em que a desembargadora
Solange Salgado, do TRF-1, revogou a prisão de Vorcaro e dos demais alvos da
operação. O banqueiro estava detido no CDP 2 de Guarulhos desde o início da
semana, após ser transferido da custódia da Polícia Federal.
Vorcaro
havia recorrido ao Superior Tribunal de Justiça para tentar sua soltura. No dia
17 de novembro, a PF havia prendido o empresário no Aeroporto Internacional de
São Paulo, alegando risco de fuga. Para os investigadores, ele pretendia viajar
para Malta depois de anunciar a venda do Master a um consórcio internacional. A
defesa, no entanto, sustenta que a viagem seria para Dubai e que o Banco
Central foi informado previamente.
O
empresário é investigado por suposta fraude de R$ 12 bilhões em operações
envolvendo carteiras de crédito repassadas ao Banco de Brasília. O BRB chegou a
anunciar a compra do Master em março, mas o negócio foi barrado pelo Banco
Central, que decretou a liquidação da instituição na semana anterior à prisão.
Fonte:
JB

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