segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Florestan Fernandes Jr: O acerto de contas que a República devia à história

Confesso que como muitos brasileiros, comemorei a prisão dos condenados do núcleo 1 da trama golpista. Para quem viveu a ditadura militar, esse momento representa, de certa maneira, um acerto de contas com a História da República. Afinal, pela primeira vez oficiais de alta patente foram condenados e presos pelo crime de alta traição ao país.

Todos os militares detidos nesta terça-feira (25/11) pertencem a uma corrente majoritária das Forças Armadas, que nega a existência da ditadura no Brasil. Ideologicamente ligados à extrema direita, defendem modelos autocráticos de Estado. Augusto Heleno, por exemplo, foi Chefe de Gabinete e assessor direto do então ministro do Exército, General Sylvio Frota, um dos líderes da linha-dura do regime, grupo responsável por perseguições, torturas e assassinatos de opositores. Entre as vítimas, estavam o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho.

Em março de 1977, Frota tentou, sem sucesso, derrubar o general presidente Ernesto Geisel, num episódio que quase mergulhou o país em um estado de horror absoluto.

Décadas depois, no primeiro turno da eleição de 2018, Eduardo Bolsonaro afirmou que para fechar o STF bastaria “um soldado e um cabo”. No 8 de janeiro de 2023, mobilizaram muito mais do que isso e fracassaram.

A resposta a Eduardo Bolsonaro veio no rigor da lei. Diferentemente de 1964, hoje basta a ação do Poder Judiciário e de uma Polícia Federal autônoma, que cumprem as determinações constitucionais com firmeza e responsabilidade.

Apesar do avanço da extrema direita, que elegeu governadores e construiu uma bancada expressiva no Congresso Nacional, a democracia se impôs. Nenhum dos condenados pode questionar o devido processo legal, pois todos os direitos foram assegurados e as defesas atuaram plenamente.

Resta agora que a Justiça avance sobre os foragidos e investigue com a mesma firmeza os articuladores civis do golpe

Para seguirmos adiante, é necessário repatriar os deputados que fugiram da Justiça, Alexandre Ramagem e Carla Zambelli, e dos traidores da Nação, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, que, como bem definiu o Ministro Alexandre de Moraes, agem de “maneira covarde e traiçoeira”, com “patente finalidade de obstrução à Justiça”. Ambos causam prejuízos incalculáveis ao país ao articular, junto ao governo dos EUA, taxações sobre produtos brasileiros e sanções, via Lei Magnitsky, contra autoridades do governo e do STF.

A história finalmente começa a cobrar sua fatura. Não é vingança, é o restabelecimento da verdade, da ordem constitucional e da dignidade republicana. Que este momento sirva como marco para encerrar de vez o ciclo de tutelas militares, rupturas e ameaças. A democracia brasileira, tantas vezes ferida, mostra mais uma vez que é capaz de se levantar.

•        Emir Sader: Bolsonaro não caiu do céu

A moda agora é ripar o Bolsonaro, ainda mais depois do espetáculo grotesco da tornozeleira. Mas é preciso lembrar que ele não caiu do céu, não foi imposto de cima para baixo.

Quantos que agora atacam e até ridicularizam o Bolsonaro não votaram nele? Quantos não preferiram ele ao Haddad? Serão os mesmos que eram lavajatistas ferrenhos e hoje fingem que não têm, nem tiveram nada a ver com a Lava Jato, como se nunca tivessem idolatrado o Sergio Moro e participado da criminalização do PT e do Lula como supostos envolvidos em corrupção e sido coniventes com o impeachment da Dilma e com a prisão do Lula!

Agora todo mundo é anti-Bolsonaro, sem prestar contas das posições que tiveram em um passado não muito longínquo. Nem sequer esboçam alguma autocrítica. Parece natural que todo mundo seja antibolsonarista.

Mas quem votou por ele contra o Haddad, com o Lula preso e a Dilma impichada? Ninguém? Onde estão? Se tornaram jornalistas antibolsonaristas? Frenéticos?

Nada como o tempo para passar. Nada como a impunidade para fazer com que as coisas passem.

Foi um tempo miserável na história do Brasil. Foi preciso que o Judiciário – esse mesmo Judiciário que depois disse que o Lula e a Dilma são inocentes – se tornasse instrumento do lawfare, da judicialização da política, para que o Bolsonaro, o pior dos brasileiros, se tornasse presidente do Brasil, e o Lula, o melhor dos brasileiros, estivesse preso.

Esse mesmo Judiciário, hoje felizmente defensor da democracia, fez autocrítica do impeachment da Dilma e da prisão do Lula? Como devolverão ao povo e à democracia brasileira os males que causaram? Os mortos desnecessariamente pela pandemia? - Aliás, aquele monstro do então ministro contra vacina da Saúde é, impunemente, deputado federal!

O passado não volta, mas a impunidade permite que os riscos à democracia sobrevivam. Muita gente se recolheu à vida privada, como se a democracia e o futuro estivessem garantidos. Como podem dormir tranquilamente com suas consciências?

Bolsonaro não caiu do céu. Ele foi o instrumento da direita, tanto de políticos como da mídia, para evitar o “mal maior” do PT, do Lula, da esquerda, do MST, do SUS!

Enquanto lhes foi útil, conviveram alegremente com o monstro. Com Lula preso! Quantos foram conosco a Curitiba dizer, todo dia: “Bom dia, presidente Lula!”, “Boa noite, presidente Lula!”? Quantos se sentiram aliviados do medo do PT, do Lula?

Hoje todos desfrutam da democracia, que foi conquistada por tantos, antes de tudo pela dignidade do Lula na prisão. Sem querer recordar do tempo em que preferiam o Bolsonaro ao Lula! Em que preferiam limitar a democracia, esquecer que vínhamos de 21 anos da ditadura e da tortura, que o Bolsonaro segue adorando! Que, ao conciliar com Bolsonaro, estavam conciliando com o maior torturador da história brasileira, ídolo e herói desse outro monstro, que votou pelo impeachment da Dilma com a mais vergonhosa apologia da ditadura e da tortura, e que deveria ter sido cassado naquele momento. É nisso que dá a impunidade.

Quem votou no Bolsonaro contra o Haddad, com o Lula preso, que tenha a dignidade de levantar a mão. Nem que seja para dizer que não o fariam mais!

•        Pós-Bolsonaro: quais os rumos da direita? Por Glauco Faria

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro (PL) no final de semana deixou o horizonte do campo da direita/extrema direita ainda mais nebuloso. Se o ex-presidente já vinha perdendo centralidade no debate público, com o esfriamento da pauta da anistia no Legislativo, agora uma eventual união a seu nome ou contar com seu apoio pode ser uma vinculação tóxica que impediria uma vitória de um aliado em um eventual segundo turno das eleições presidenciais, prejudicando também candidatos em disputas acirradas a governo do estado e mesmo ao Senado.

Os governadores que pleiteiam um lugar na corrida pelo Planalto, Ratinho Jr. (PR), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO) e Tarcísio de Freitas (SP) publicaram, em suas redes sociais, mensagens de solidariedade a Bolsonaro na manhã do sábado (22), depois de anunciada a sua prisão. Contudo, após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter levantado o sigilo de um vídeo no qual aparece a tornozeleira danificada, com a voz do ex-presidente admitindo ter usado um ferro de solda para violar o aparelho, nenhum deles postou qualquer mensagem sobre o assunto até o início da tarde desta segunda-feira (24).

Com bom trânsito na mídia tradicional, Tarcísio fez uso dela para que fosse divulgada uma versão de um suposto esforço seu junto a interlocutores no STF para que a preventiva fosse transformada novamente em domiciliar. Trata-se da reiterada tentativa do governador paulista de manter a imagem de moderação a possíveis eleitores menos radicais, ao mesmo tempo em que corteja o bolsonarismo em sua versão mais obtusa, uma massa essencial para alavancar sua candidatura presidencial. Contudo, após seus ataques a Moraes em um não muito distante 7 de setembro, é pouco crível que qualquer tentativa sua em relação à Corte lograsse êxito.

Embora alguns acreditem que o nome de Tarcísio ganhe força com a prisão do ex-mandatário, já que a convocação de uma “vigília” por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos fatores mencionados na decretação da prisão preventiva como uma de suas justificativas, prejudicaria as pretensões presidenciais do parlamentar, o fato é que o lançamento de um possível candidato à presidência com o sobrenome da família praticamente inviabilizaria o pleito do governador paulista. Ele mesmo já reiterou que não concorreria sem o aval de seu ex-chefe, que o lançou à política. A pecha de “traidor” é mortal para carreiras políticas e o exemplo de figuras egressas do movimento bolsonarista mostra o destino pouco glorioso de alguns “arrependidos”.

Na sexta-feira (21), às vésperas da prisão do pai, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) voltou a colocar o governador de São Paulo sob uma espécie de tutela do ex-presidente, em entrevista concedida ao site Jota. “Tem muita gente que não é de São Paulo e não conhece o Tarcísio. Ele tem seus méritos e tem seus defeitos. Mas eu acho que não seria natural a candidatura dele, porque ele é uma pessoa muito forte em São Paulo e tem uma reeleição para governador garantida”, disse o parlamentar. “Ele não tem essa ânsia de se tornar presidente. Mas Tarcísio depende do apoio de Jair Bolsonaro, porque ainda não se fez uma liderança nacional.”

Preso e desmoralizado pela tentativa grotesca de danificar a tornozeleira, Bolsonaro estaria obrigado a lançar alguém da sua família para preservar o seu capital político que míngua cada vez mais, vide a presença de apoiadores nas manifestações do segmento. Neste cenário, é provável que Tarcísio não concorra, mas a arena se abre para os outros postulantes da direita que já não contavam com o aval do ex-presidente.

<><> “Prévias” da direita

Assim, com o lançamento de um Bolsonaro para a disputa do Planalto, o cenário poderia ter três ou quatro candidatos deste campo com algum grau de competitividade. É nisso que acredita, por exemplo, o cientista político Antonio Lavareda, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Nas eleições do país andino, foram quatro candidaturas gravitando entre a direita e a extrema direita, com José Antonio Kast indo para o segundo turno e se tornando o favorito para derrotar a primeira colocada, a comunista Jeannette Jara, por agregar a maioria dos votos contrários ao governo de Gabriel Boric e à esquerda em geral.

Mas se no Chile o atual governo tem baixa popularidade, prejudicando sua presidenciável, no Brasil é o bolsonarismo que carrega a maior rejeição. Em pesquisa divulgada em 18 de setembro, a Quaest mostrava que o nome do ex-presidente era rejeitado por 64% dos entrevistados, o que traz uma outra realidade dura para os postulantes da direita: qualquer relação com o ex-presidente teria o poder de macular candidaturas para quase dois terços do eleitorado. O percentual, inclusive, pode ser ainda pior com a repercussão do constrangedor episódio da tornozeleira.

“A direita já se organizou para uma disputa sem aval de Bolsonaro”, pontua ao Valor o diretor da Quaest, Felipe Nunes. “Um embate do bolsonarismo com terceiras vias frágeis tende a repetir a polarização de 2022, mas aí abrindo espaço para uma vitória de Lula no primeiro turno, em função da alta rejeição”, avalia.

<><> Mudança de estratégia

Diante da prisão do ex-presidente, sua base na política institucional também pode mudar sua estratégia. No Parlamento, o vice-presidente da Câmara, deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), disse que a confirmação da preventiva pela Primeira Turma do STF terá impacto no andamento dos trabalhos do Legislativo, mas não disse qual. Além de uma eventual retomada da pressão para desengavetar o projeto de lei da anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, que teria possibilidade de se estender a Bolsonaro, provavelmente a base parlamentar extremista ainda não sabe o que fazer.

Ao que parece, pelo menos já sabe o que não fazer. O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) publicou um vídeo em suas redes sociais no sábado convocando caminhoneiros, motoboys e representantes do agronegócio para irem às ruas protestar contra a prisão. Contudo, segundo matéria do Uol, foi orientado a apagar para não ter problemas judiciais.

A mesma reportagem aponta que uma eventual obstrução na Câmara dos Deputados é considerada inútil por deputados do PL, já que não haveria número suficiente para brecar os trabalhos na Casa. E voltar à tática de ocupação das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado também seria uma hipótese descartada, pois a perspectiva de punição, em especial por parte do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), seria alta, ainda mais levando-se em conta que sua imagem saiu arranhada do episódio anterior.

Além de evitar um enfrentamento com o Poder Judiciário, os parlamentares estão obviamente de olho nas eleições de 2026. Não querem correr o risco de ter suas candidaturas inviabilizadas judicialmente ou afastar possíveis eleitores de centro ou de uma direita menos extremista, um interesse especial principalmente daqueles que pretendem concorrer a governos de estado ou ao Senado, conforme o contexto.

“Se a prisão de Bolsonaro levar a uma radicalização ainda maior das posições do bolsonarismo, sobretudo no que diz respeito à democracia, o movimento se tornará insustentável para setores da direita que pretendem se manter no jogo político-eleitoral. Uma ‘martirização’ de Bolsonaro, sem radicalização, pode ser o caminho para manter a direita unida diante das eleições do próximo ano”, analisa o cientista político Guilherme Casarões, um dos coordenadores do Observatório da Extrema Direita, em entrevista ao jornal O Globo.

Ainda sem rumo, a perspectiva para a direita nas eleições presidenciais é de um cenário fragmentado, onde a divisão não vai se dar apenas no número de candidatos, mas também na postura que cada um terá em relação a Jair Bolsonaro. A conta de ter o nome associado ao do ex-presidente vem ficando cada vez mais alta e desvantajosa e a tentativa de salvar a imagem do ex-presidente para sua base, por meio do processo de “martirização”, já está em curso. O engajamento nesta “causa” deve ser determinante para a pretensão dos atores políticos em 2026.

A esquerda tem possibilidade de avançar nesse cenário, aproveitando a fragilidade da direita e sua desmobilização, com o governo tendo a oportunidade de pautar debates importantes do ponto de vista político como o fim da jornada 6×1 e mesmo a tarifa zero, inserida em um panorama mais amplo da necessidade de melhora do transporte público no Brasil. Embora o momento atual aponte inclusive para a chance de uma eleição liquidada no primeiro turno, a distância das eleições não permite ao campo progressista “jogar parado”. Mobilizar é preciso.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

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