terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Doença hepática gordurosa é um risco a mais para mulheres na menopausa

A transição para a menopausa, marcada pela queda nos níveis hormonais, principalmente de estrogênio e progesterona, tem sido apontada como um fator de risco para a doença hepática gordurosa em mulheres acima de 50 anos.

Atualmente chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) a condição tem se tornado uma das principais causas de transplante de fígado entre mulheres na pós-menopausa.

“Embora envelhecer naturalmente envolva mudanças no metabolismo, como maior acúmulo de gordura abdominal, menor gasto calórico e redução da atividade física, a depleção de estrogênio, uma das características da menopausa, pode ter papel ainda mais relevante na saúde do fígado”, explica a endocrinologista Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).

Pesquisas vêm reforçando a ligação entre menopausa e maior vulnerabilidade hepática. Uma revisão e meta-análise apontou que mulheres na menopausa têm risco cerca de 2,4 vezes maior de desenvolver a doença hepática gordurosa, mesmo quando não apresentam obesidade.

Outro estudo observou que mulheres submetidas à remoção dos ovários, condição que induz menopausa precoce, tiveram maior incidência da doença, sugerindo que o estrogênio desempenha um papel protetor fundamental com efeito anti-inflamatório e imunorregulador, ajudando a proteger o fígado contra o acúmulo de gordura e lesões.

Com a queda desse hormônio, o órgão pode ficar mais suscetível a inflamações e cicatrizes, mesmo em mulheres com peso normal e sem síndrome metabólica.

“Apesar de ser mais comum em mulheres com sobrepeso e obesidade, mesmo as mulheres com peso normal também têm um risco aumentado de desenvolver a doença hepática gordurosa, não alcoólica, só pela menopausa. E esse risco é da ordem de 2 a 12 vezes meia maior quando entra uma menopausa em relação à pré-menopausa, o que também confirma a importância do estrogênio para evitar o aumento de gordura no fígado e a tendência de que isso aconteça quando a mulher pede o estrogênio”, acrescenta o ginecologista Igor Padovesi, especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e membro da International Menopause Society (IMS).

<><> Como tratar ou mesmo prevenir esse problema?

Esse cenário tem levado pesquisadores a estudar se a terapia hormonal da menopausa, já utilizada para aliviar sintomas como ondas de calor, alterações de humor e distúrbios do sono, poderia também beneficiar a saúde do fígado.

“Pesquisas iniciais indicam que formulações transdérmicas, como adesivos ou géis, podem ter efeito protetor, enquanto pílulas orais à base de estrogênio são metabolizadas no fígado e podem sobrecarregar o órgão”, diz Padovesi.

Existem fatores de risco para a doença como sobrepeso e obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, tabagismo, sedentarismo, ou histórico familiar de cirrose, de doenças do fígado, com consumo significativo de álcool. “Para essas mulheres seria recomendado os exames como ultrassom de abdômen e dosagem das enzimas do fígado, que são as chamadas aminotransferases, que é a ILT e a ST”, acrescenta Padovesi.

Para os especialistas ouvidos pela CNN, a prevenção é essencial, principalmente para mulheres que estão próximas ou já entraram na menopausa.

Para isso é importante que as mulheres adotem uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, proteínas magras e gorduras boas, manter uma rotina de exercícios, reduzir o consumo de álcool, evitar cigarro e ultraprocessados, além de monitorar exames laboratoriais, como enzimas hepáticas, colesterol e glicemia.

“A maioria das mulheres vai viver um terço da vida na pós-menopausa. Cuidar da saúde do fígado faz parte do envelhecimento saudável”, conclui Deborah.

•        Entenda como menopausa pode aliviar crises de enxaqueca em algumas mulheres

Quem convive com crises de enxaqueca — caracterizada por dor de cabeça intensa, tontura, sensibilidade a luz e cheiros, vômitos e irritabilidade — sabe o quanto elas podem comprometer a vida social, familiar e profissional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a condição como a segunda mais incapacitante do mundo, atrás apenas da dor nas costas.

As mulheres são mais atingidas, principalmente por influência hormonal. “Estima-se que a doença afete um terço dos homens para dois terços das mulheres”, destaca o neurologista especializado em cefaleia Tiago de Paula, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). “Apesar de ser uma enfermidade genética, hormônios como o estrogênio influenciam na sensibilidade e na prevalência dos sintomas.” Por isso, é comum a crença de que crises diminuam com a chegada da menopausa — período em que os níveis dos hormônios femininos caem de forma acentuada.

De fato, para cerca de dois terços das mulheres, essa fase pode representar uma redução significativa na frequência e na intensidade dos episódios. No entanto, o alívio não é regra. “Na transição para a menopausa é muito frequente que as mulheres sofram mais com a doença devido à flutuação hormonal típica dessa fase. Com o passar do tempo, essas substâncias se estabilizam em níveis mais baixos por um tempo e as crises tendem a melhorar”, explica a ginecologista Helena Hachul, professora da disciplina de Saúde da Mulher da Faculdade de Medicina do Einstein Hospital Israelita.

Mesmo assim, é essencial que as mulheres que sofrem com essa condição não parem de tratá-la. “A enxaqueca é uma enfermidade complexa que pode persistir na forma de tontura, distúrbios do sono, dores musculares, alterações de humor e até ondas de calor com origem neurológica, fatores que não devem ser ignorados”, alerta Tiago de Paula.

Daí a importância de procurar ajuda em todas as fases da vida, evitando que o quadro fique crônico. “É importante analisarmos o contexto da menopausa: se a mulher parou de menstruar de uma vez ou passou por uma transição com muita flutuação hormonal, por exemplo. O médico também vai avaliar os sintomas, se há uma mudança no padrão das crises, quanto tempo elas duram, se é uma dor pulsátil, entre outros fatores. Tudo isso ajuda a direcionar e indicar o melhor tratamento”, diz a ginecologista do Einstein.

Nessas consultas, os médicos também identificam fatores que podem estar agravando o quadro, como o consumo excessivo de medicamentos para cefaleia. Muitas vezes, esses remédios não resolvem o problema e ainda podem causar efeito rebote, intensificando o incômodo.

Essa avaliação individualizada também pode evitar que a situação piore. “Um ponto crucial é a terapia de reposição hormonal: muitas mulheres na menopausa são orientadas a repor estrogênio para alívio dos sintomas hormonais, mas, em pacientes com enxaqueca com aura, essa reposição pode representar risco aumentado de eventos cardiovasculares e acidentes vasculares cerebrais”, alerta o neurologista.

Manter hábitos saudáveis — como hidratação adequada, sono de qualidade, alimentação equilibrada e prática regular de atividades físicas — é fundamental para reduzir o risco de crises. “Também é importante evitar fatores como estresse e o consumo de bebidas alcoólicas nessa fase da vida”, orienta Hachul.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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