Como
a Família Scheffer construiu um império no agronegócio brasileiro
Em
2021, o empresário Elusmar Maggi Scheffer colocou o sobrenome da família nas
manchetes esportivas do país. Torcedor fanático do Internacional, ele não
hesitou em doar R$ 1 milhão ao clube. O dinheiro pagaria a multa que permitiria
ao jogador Rodinei (então emprestado pelo Flamengo) jogar contra o próprio
Flamengo em uma partida decisiva.
A
história virou meme nacional: Rodinei jogou, foi expulso, e o Inter perdeu o
jogo. Mas o episódio revelou ao grande público a ponta do iceberg de um poder
econômico quase inimaginável, onde R$ 1 milhão é um valor disponível para uma
paixão clubística.
Esse é
apenas um capítulo da trajetória da família Scheffer, um dos clãs mais
poderosos do campo brasileiro. E, como toda grande história de um império
bilionário, esta também é repleta de reviravoltas: brigas judiciais entre pai e
filho, acusações de ocultação de herança, multas milionárias por desmatamento e
até investigações sobre um aeroporto privado construído em área pública.
Mas
antes das manchetes, tudo começou de forma muito mais simples.
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As Raízes: 65 Hectares de Resiliência
Para
entender o tamanho dos Scheffer hoje, é preciso voltar à década de 1970, em São
Miguel do Iguaçu (PR). Vindos do Rio Grande do Sul, os Scheffer eram “colonos”,
pequenos agricultores que tocavam a vida em apenas 65 hectares.
O
espírito empreendedor já existia, mas o primeiro grande revés também: a
primeira indústria que montaram no Paraná foi completamente destruída por um
incêndio. O episódio não os quebrou; serviu para revelar a principal
característica da família: a resiliência.
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O Ponto de Virada: O Convite de André Maggi
O salto
quântico na história da família tem data e nome. Em 2 de junho de 1982, o
lendário agricultor André Maggi — tio dos irmãos Eraí, Elusmar, Fernando e
Elizeu Maggi Scheffer — fez um convite que mudaria o destino de todos.
Ele
chamou os sobrinhos a deixarem o Paraná e se mudarem para Rondonópolis (MT), a
nova e promissora fronteira agrícola do país. O objetivo inicial era modesto:
ajudar o tio a administrar uma fazenda arrendada de 2 mil hectares, cujo nome
se tornaria lendário: Bom Futuro.
Eles
mal sabiam que estavam dando o primeiro passo para construir não um, mas dois
dos maiores impérios do agronegócio mundial, que juntos colocariam a família na
lista de bilionários da Forbes em 2014, com uma fortuna estimada em US$ 4,9
bilhões.
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Um Clã, Dois Impérios
O que
começou unido na Fazenda Bom Futuro, logo se dividiu em duas estratégias de
negócio distintas, criando dois conglomerados paralelos, mas ambos sob o
controle da família.
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1. O Império da Escala: Grupo Bom Futuro Os irmãos Eraí, Elusmar e Fernando
Maggi Scheffer compraram a área do tio e fundaram oficialmente o Grupo Bom
Futuro. A estratégia era clara: escala.
O
crescimento foi meteórico. Eles adotaram massivamente o plantio direto,
tecnologia que revolucionou a agricultura no cerrado, e expandiram
agressivamente, comprando terras em Sapezal (MT). O poder do grupo se
consolidou com marcos de independência:
# 1999:
Construção do primeiro armazém de grãos, garantindo controle logístico e
financeiro.
# 2007:
Fundação da Bom Futuro Energia, diversificando para o setor energético.
# 2011:
Mudança da sede para Cuiabá, aproximando-se do centro político do estado.
Foi
nesse período que Eraí Maggi Scheffer ganhou o título de “Rei da Soja”. Na
safra 2009/10, ele plantou sozinho 223 mil hectares do grão, uma área
equivalente à metade de toda a produção de soja do estado de São Paulo na
época.
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O Bom Futuro em Números:
- Área
de Operação: + 615 mil hectares
-
Produção (Soja/Milho): 1,9 milhão de toneladas/ano
-
Produção (Algodão): 360 mil toneladas/ano
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Rebanho (Gado): 109 mil cabeças
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Colaboradores: 8 mil
-
Faturamento Anual: Estimado entre R$ 8 e R$ 10 bilhões
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2. O Império da Inovação: Grupo Scheffer
Enquanto
o Bom Futuro crescia horizontalmente, outro ramo da família apostava na
verticalização e na inovação. Em 1986, Elizeu Maggi Scheffer, irmão de Eraí e
Elusmar, fundou o Grupo Scheffer.
Começando
com “apenas” 400 hectares de soja, o foco de Elizeu nunca foi volume, mas sim
tecnologia, gestão e diversificação. A grande virada veio em 1996, quando o
grupo fez uma aposta de altíssimo risco: investir no algodão, uma cultura
complexa e, até então, pouco explorada no Mato Grosso.
O risco
compensou. A iniciativa ajudou a transformar Sapezal no maior polo de algodão
do Brasil. O Grupo Scheffer consolidou sua reputação como referência em
eficiência e sustentabilidade, sendo a primeira empresa do estado a emitir um
CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio). Em 2020, deu um passo além e
iniciou operações na Colômbia.
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O Grupo Scheffer em Números:
- Área
de Operação: + 230 mil hectares (MT, MA e Colômbia)
-
Produção (Grãos/Algodão): + 700 mil toneladas/ano
-
Colaboradores: 2,7 mil
-
Faturamento Anual: Superior a R$ 1,7 bilhão
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O Peso do Poder: Sombras e Sucessão
Como
todo império, o dos Scheffer também enfrenta suas sombras. O sucesso colossal
atraiu o escrutínio das autoridades. O Grupo Bom Futuro, de Eraí, já foi alvo
da Operação Rios Voadores do Ibama, por desmatamento ilegal. Além disso, há
investigações sobre a construção de um aeroporto em Rondonópolis, que estaria
localizado em área pública.
Mais
recentemente, a família consolidou sua influência no mercado corporativo com a
compra de 5% das ações da SLC Agrícola, uma das maiores empresas de grãos do
país, num movimento estratégico que os colocou como influenciadores de mercado.
Hoje,
os dois impérios buscam se posicionar na vanguarda da sustentabilidade, mas por
caminhos distintos. O Grupo Scheffer (de Elizeu) aposta na agricultura
regenerativa, que visa devolver a vida ao solo. O Grupo Bom Futuro (de Eraí)
defende a bandeira da produção com carbono neutro, buscando provar que escala e
responsabilidade ambiental podem andar juntas.
O
futuro, agora, está nas mãos da nova geração, que já assume o comando com
estilos diferentes:
# No
Grupo Scheffer, quem lidera é Guilherme Scheffer, economista e símbolo da
modernização da gestão, atuando de forma mais visível, sob os “holofotes”.
# No
Bom Futuro, o comando estratégico está com Cleverson Scheffer, descrito como
discreto e responsável por movimentos táticos, preferindo os “bastidores”.
De 65
hectares no Paraná a um domínio que se espalha por milhões de hectares pelo
mundo, a família Scheffer prova que o agronegócio moderno é feito de visão,
coragem e estratégia. Pode haver controvérsias, mas é impossível contar a
história da agricultura brasileira sem dedicar um capítulo inteiro a eles.
• Gigante do agro sofre golpe milionário e
funcionário e empresário são presos por desvio de R$ 15 milhões
O
agronegócio mato-grossense, frequentemente associado à alta tecnologia, grandes
operações logísticas e rígidos protocolos de governança, foi abalado nesta
semana por um dos maiores golpes internos já registrados no setor. Um
funcionário e um empresário foram presos suspeitos de arquitetar um esquema de
fraude que, segundo diferentes levantamentos policiais e jornalísticos, desviou
entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões do Grupo Bom Futuro, uma das maiores e mais
estruturadas empresas agrícolas do país.
O caso
envolve Welliton Gomes Dantas, funcionário com mais de dez anos de atuação no
grupo, e Vinícius de Moraes Sousa, empresário do setor de transportes. Ambos
tiveram as prisões convertidas para preventivas, após serem flagrados
manipulando sistemas internos e emitindo documentos falsos para justificar
pagamentos que nunca deveriam ter ocorrido.
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Como funcionava o esquema milionário que deu golpe na Bom Futuro
As
investigações apontam que o golpe ocorria por meio da simulação de fretes e
serviços de transporte de gado que jamais foram realizados. Para isso,
Vinícius, dono de uma transportadora, emitia CT-es (Conhecimento de Transporte
Eletrônico) fraudulentos, que eram aprovados internamente por Welliton,
responsável pela liberação de pagamentos no setor de transportes da Bom Futuro.
Os
documentos indicavam supostas viagens feitas por caminhões da transportadora.
Na prática, o serviço havia sido executado por veículos próprios do grupo — ou
sequer chegou a existir. No caso dos transportes internos dentro do estado, nem
mesmo havia exigência do CT-e, o que, segundo o depoimento, abriu brechas para
que o golpe começasse.
A
fraude teria se estendido por cerca de dois anos, período no qual os pagamentos
liberados somam milhões em prejuízos ao grupo.
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Investimentos com dinheiro do golpe
Durante
o depoimento, Welliton confessou ter utilizado os valores desviados para
comprar um apartamento na planta, um terreno em condomínio, dois carros de luxo
— um Creta e um Volvo —, além de aplicar mais de R$ 500 mil em ações. As compras chamaram atenção devido ao
descompasso com sua renda mensal, estimada em cerca de R$ 7 mil.
A
Polícia Civil apreendeu veículos, documentos e equipamentos eletrônicos usados
na operação do esquema.
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Arrependimento e desabafo: “Meu erro não é perdoável”
Em
depoimento, Welliton demonstrou arrependimento e fez declarações emocionadas
sobre sua trajetória na empresa — o primeiro emprego registrado de sua vida.
Ele afirmou saber da gravidade do que cometeu e disse que deve “cumprir sua
sentença”, destacando a mágoa que pode ter deixado em seus gestores, por quem
afirmou ter respeito e gratidão.
“Imagino
que o meu erro não é perdoável”, declarou e, ainda, acrescentou: “Agradeço pela
oportunidade que nunca mais terei”.
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A descoberta do rombo do golpe na Bom Futuro
O
esquema veio à tona após uma auditoria interna identificar inconsistências em
notas e pagamentos. O caso ganhou contornos mais graves quando Welliton foi
surpreendido tentando emitir uma nova nota de R$ 200 mil, que também seria
parcialmente desviada. A partir disso, a empresa acionou a Delegacia
Especializada de Estelionato, que iniciou a investigação e realizou as prisões.
A
própria Bom Futuro comunicou as irregularidades às autoridades e tem colaborado
integralmente com a investigação.
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Posição oficial da Bom Futuro
Em
nota, o Grupo Bom Futuro afirmou que atua com base em valores de integridade,
transparência e respeito, e que acompanha de perto o trabalho das autoridades.
Considerada uma potência do agronegócio brasileiro, a empresa conta com mais de
8 mil colaboradores, 35 unidades administrativas e operações que integram
agricultura, pecuária, energia renovável e logística.
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Justiça mantém prisões preventivas
Após
audiências de custódia, a Justiça converteu o flagrante em prisão preventiva
tanto para o funcionário quanto para o empresário. Os magistrados consideraram
a necessidade de garantir a continuidade das investigações, preservar
documentos e evitar interferências no processo.
Os dois
seguem presos enquanto a Polícia Civil aprofunda a apuração para determinar se
há outras pessoas envolvidas e para calcular com precisão o tamanho do rombo,
já que as apurações apontam para desvios entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões.
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Um alerta para o agro
O caso
do golpe na Bom Futuro expõe como fraudes internas podem ocorrer mesmo em
empresas altamente estruturadas, reforçando a importância de auditorias
frequentes, sistemas de rastreabilidade, checagens de pagamento e políticas
rígidas de compliance. Para um setor que movimenta bilhões e depende de
logística eficiente, o episódio serve como alerta e aprendizado para todo o
agronegócio.
Fonte:
Por Ana Gusmão, em Compre Rural

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