sábado, 22 de novembro de 2025

Como a Família Scheffer construiu um império no agronegócio brasileiro

Em 2021, o empresário Elusmar Maggi Scheffer colocou o sobrenome da família nas manchetes esportivas do país. Torcedor fanático do Internacional, ele não hesitou em doar R$ 1 milhão ao clube. O dinheiro pagaria a multa que permitiria ao jogador Rodinei (então emprestado pelo Flamengo) jogar contra o próprio Flamengo em uma partida decisiva.

A história virou meme nacional: Rodinei jogou, foi expulso, e o Inter perdeu o jogo. Mas o episódio revelou ao grande público a ponta do iceberg de um poder econômico quase inimaginável, onde R$ 1 milhão é um valor disponível para uma paixão clubística.

Esse é apenas um capítulo da trajetória da família Scheffer, um dos clãs mais poderosos do campo brasileiro. E, como toda grande história de um império bilionário, esta também é repleta de reviravoltas: brigas judiciais entre pai e filho, acusações de ocultação de herança, multas milionárias por desmatamento e até investigações sobre um aeroporto privado construído em área pública.

Mas antes das manchetes, tudo começou de forma muito mais simples.

<><> As Raízes: 65 Hectares de Resiliência

Para entender o tamanho dos Scheffer hoje, é preciso voltar à década de 1970, em São Miguel do Iguaçu (PR). Vindos do Rio Grande do Sul, os Scheffer eram “colonos”, pequenos agricultores que tocavam a vida em apenas 65 hectares.

O espírito empreendedor já existia, mas o primeiro grande revés também: a primeira indústria que montaram no Paraná foi completamente destruída por um incêndio. O episódio não os quebrou; serviu para revelar a principal característica da família: a resiliência.

<><> O Ponto de Virada: O Convite de André Maggi

O salto quântico na história da família tem data e nome. Em 2 de junho de 1982, o lendário agricultor André Maggi — tio dos irmãos Eraí, Elusmar, Fernando e Elizeu Maggi Scheffer — fez um convite que mudaria o destino de todos.

Ele chamou os sobrinhos a deixarem o Paraná e se mudarem para Rondonópolis (MT), a nova e promissora fronteira agrícola do país. O objetivo inicial era modesto: ajudar o tio a administrar uma fazenda arrendada de 2 mil hectares, cujo nome se tornaria lendário: Bom Futuro.

Eles mal sabiam que estavam dando o primeiro passo para construir não um, mas dois dos maiores impérios do agronegócio mundial, que juntos colocariam a família na lista de bilionários da Forbes em 2014, com uma fortuna estimada em US$ 4,9 bilhões.

<><> Um Clã, Dois Impérios

O que começou unido na Fazenda Bom Futuro, logo se dividiu em duas estratégias de negócio distintas, criando dois conglomerados paralelos, mas ambos sob o controle da família.

>>> 1. O Império da Escala: Grupo Bom Futuro Os irmãos Eraí, Elusmar e Fernando Maggi Scheffer compraram a área do tio e fundaram oficialmente o Grupo Bom Futuro. A estratégia era clara: escala.

O crescimento foi meteórico. Eles adotaram massivamente o plantio direto, tecnologia que revolucionou a agricultura no cerrado, e expandiram agressivamente, comprando terras em Sapezal (MT). O poder do grupo se consolidou com marcos de independência:

# 1999: Construção do primeiro armazém de grãos, garantindo controle logístico e financeiro.

# 2007: Fundação da Bom Futuro Energia, diversificando para o setor energético.

# 2011: Mudança da sede para Cuiabá, aproximando-se do centro político do estado.

Foi nesse período que Eraí Maggi Scheffer ganhou o título de “Rei da Soja”. Na safra 2009/10, ele plantou sozinho 223 mil hectares do grão, uma área equivalente à metade de toda a produção de soja do estado de São Paulo na época.

<><> O Bom Futuro em Números:

- Área de Operação: + 615 mil hectares

- Produção (Soja/Milho): 1,9 milhão de toneladas/ano

- Produção (Algodão): 360 mil toneladas/ano

- Rebanho (Gado): 109 mil cabeças

- Colaboradores: 8 mil

- Faturamento Anual: Estimado entre R$ 8 e R$ 10 bilhões

>>>> 2. O Império da Inovação: Grupo Scheffer

Enquanto o Bom Futuro crescia horizontalmente, outro ramo da família apostava na verticalização e na inovação. Em 1986, Elizeu Maggi Scheffer, irmão de Eraí e Elusmar, fundou o Grupo Scheffer.

Começando com “apenas” 400 hectares de soja, o foco de Elizeu nunca foi volume, mas sim tecnologia, gestão e diversificação. A grande virada veio em 1996, quando o grupo fez uma aposta de altíssimo risco: investir no algodão, uma cultura complexa e, até então, pouco explorada no Mato Grosso.

O risco compensou. A iniciativa ajudou a transformar Sapezal no maior polo de algodão do Brasil. O Grupo Scheffer consolidou sua reputação como referência em eficiência e sustentabilidade, sendo a primeira empresa do estado a emitir um CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio). Em 2020, deu um passo além e iniciou operações na Colômbia.

<><> O Grupo Scheffer em Números:

- Área de Operação: + 230 mil hectares (MT, MA e Colômbia)

- Produção (Grãos/Algodão): + 700 mil toneladas/ano

- Colaboradores: 2,7 mil

- Faturamento Anual: Superior a R$ 1,7 bilhão

<><> O Peso do Poder: Sombras e Sucessão

Como todo império, o dos Scheffer também enfrenta suas sombras. O sucesso colossal atraiu o escrutínio das autoridades. O Grupo Bom Futuro, de Eraí, já foi alvo da Operação Rios Voadores do Ibama, por desmatamento ilegal. Além disso, há investigações sobre a construção de um aeroporto em Rondonópolis, que estaria localizado em área pública.

Mais recentemente, a família consolidou sua influência no mercado corporativo com a compra de 5% das ações da SLC Agrícola, uma das maiores empresas de grãos do país, num movimento estratégico que os colocou como influenciadores de mercado.

Hoje, os dois impérios buscam se posicionar na vanguarda da sustentabilidade, mas por caminhos distintos. O Grupo Scheffer (de Elizeu) aposta na agricultura regenerativa, que visa devolver a vida ao solo. O Grupo Bom Futuro (de Eraí) defende a bandeira da produção com carbono neutro, buscando provar que escala e responsabilidade ambiental podem andar juntas.

O futuro, agora, está nas mãos da nova geração, que já assume o comando com estilos diferentes:

# No Grupo Scheffer, quem lidera é Guilherme Scheffer, economista e símbolo da modernização da gestão, atuando de forma mais visível, sob os “holofotes”.

# No Bom Futuro, o comando estratégico está com Cleverson Scheffer, descrito como discreto e responsável por movimentos táticos, preferindo os “bastidores”.

De 65 hectares no Paraná a um domínio que se espalha por milhões de hectares pelo mundo, a família Scheffer prova que o agronegócio moderno é feito de visão, coragem e estratégia. Pode haver controvérsias, mas é impossível contar a história da agricultura brasileira sem dedicar um capítulo inteiro a eles.

•        Gigante do agro sofre golpe milionário e funcionário e empresário são presos por desvio de R$ 15 milhões

O agronegócio mato-grossense, frequentemente associado à alta tecnologia, grandes operações logísticas e rígidos protocolos de governança, foi abalado nesta semana por um dos maiores golpes internos já registrados no setor. Um funcionário e um empresário foram presos suspeitos de arquitetar um esquema de fraude que, segundo diferentes levantamentos policiais e jornalísticos, desviou entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões do Grupo Bom Futuro, uma das maiores e mais estruturadas empresas agrícolas do país.

O caso envolve Welliton Gomes Dantas, funcionário com mais de dez anos de atuação no grupo, e Vinícius de Moraes Sousa, empresário do setor de transportes. Ambos tiveram as prisões convertidas para preventivas, após serem flagrados manipulando sistemas internos e emitindo documentos falsos para justificar pagamentos que nunca deveriam ter ocorrido.

<><> Como funcionava o esquema milionário que deu golpe na Bom Futuro

As investigações apontam que o golpe ocorria por meio da simulação de fretes e serviços de transporte de gado que jamais foram realizados. Para isso, Vinícius, dono de uma transportadora, emitia CT-es (Conhecimento de Transporte Eletrônico) fraudulentos, que eram aprovados internamente por Welliton, responsável pela liberação de pagamentos no setor de transportes da Bom Futuro.

Os documentos indicavam supostas viagens feitas por caminhões da transportadora. Na prática, o serviço havia sido executado por veículos próprios do grupo — ou sequer chegou a existir. No caso dos transportes internos dentro do estado, nem mesmo havia exigência do CT-e, o que, segundo o depoimento, abriu brechas para que o golpe começasse.

A fraude teria se estendido por cerca de dois anos, período no qual os pagamentos liberados somam milhões em prejuízos ao grupo.

<><> Investimentos com dinheiro do golpe

Durante o depoimento, Welliton confessou ter utilizado os valores desviados para comprar um apartamento na planta, um terreno em condomínio, dois carros de luxo — um Creta e um Volvo —, além de aplicar mais de R$ 500 mil em ações.  As compras chamaram atenção devido ao descompasso com sua renda mensal, estimada em cerca de R$ 7 mil.

A Polícia Civil apreendeu veículos, documentos e equipamentos eletrônicos usados na operação do esquema.

<><> Arrependimento e desabafo: “Meu erro não é perdoável”

Em depoimento, Welliton demonstrou arrependimento e fez declarações emocionadas sobre sua trajetória na empresa — o primeiro emprego registrado de sua vida. Ele afirmou saber da gravidade do que cometeu e disse que deve “cumprir sua sentença”, destacando a mágoa que pode ter deixado em seus gestores, por quem afirmou ter respeito e gratidão.

“Imagino que o meu erro não é perdoável”, declarou e, ainda, acrescentou: “Agradeço pela oportunidade que nunca mais terei”.

<><> A descoberta do rombo do golpe na Bom Futuro

O esquema veio à tona após uma auditoria interna identificar inconsistências em notas e pagamentos. O caso ganhou contornos mais graves quando Welliton foi surpreendido tentando emitir uma nova nota de R$ 200 mil, que também seria parcialmente desviada. A partir disso, a empresa acionou a Delegacia Especializada de Estelionato, que iniciou a investigação e realizou as prisões.

A própria Bom Futuro comunicou as irregularidades às autoridades e tem colaborado integralmente com a investigação.

<><> Posição oficial da Bom Futuro

Em nota, o Grupo Bom Futuro afirmou que atua com base em valores de integridade, transparência e respeito, e que acompanha de perto o trabalho das autoridades. Considerada uma potência do agronegócio brasileiro, a empresa conta com mais de 8 mil colaboradores, 35 unidades administrativas e operações que integram agricultura, pecuária, energia renovável e logística.

<><> Justiça mantém prisões preventivas

Após audiências de custódia, a Justiça converteu o flagrante em prisão preventiva tanto para o funcionário quanto para o empresário. Os magistrados consideraram a necessidade de garantir a continuidade das investigações, preservar documentos e evitar interferências no processo.

Os dois seguem presos enquanto a Polícia Civil aprofunda a apuração para determinar se há outras pessoas envolvidas e para calcular com precisão o tamanho do rombo, já que as apurações apontam para desvios entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões.

<><> Um alerta para o agro

O caso do golpe na Bom Futuro expõe como fraudes internas podem ocorrer mesmo em empresas altamente estruturadas, reforçando a importância de auditorias frequentes, sistemas de rastreabilidade, checagens de pagamento e políticas rígidas de compliance. Para um setor que movimenta bilhões e depende de logística eficiente, o episódio serve como alerta e aprendizado para todo o agronegócio.

 

Fonte: Por Ana Gusmão, em Compre Rural

 

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