Por
que alguns animais conseguem ingerir veneno e enganar a morte
As dez
cobras enfrentavam uma situação difícil.
Recolhidas
na Amazônia colombiana, as jabutiboias (Erythrolamprus reginae) permaneceram em
cativeiro sem comida por vários dias, até ganharem de presente uma presa nada
apetitosa: sapos-flecha (Ameerega trivittata).
A pele
dessa espécie de sapo contém toxinas mortais, como histrionicotoxinas,
pumiliotoxinas e decaidroquinolinas, que interferem nas proteínas celulares
essenciais.
Seis
das jabutiboias preferiram passar fome. As outras quatro deslizaram
intrepidamente para caçar.
Mas,
antes de engolir a refeição, elas arrastaram os sapos no chão, como fazem
algumas aves para retirar as toxinas das suas presas, segundo a bióloga Valeria
Ramírez Castañeda, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados
Unidos, que conduziu o experimento com seus colegas.
Três
das quatro cobras sobreviveram à refeição, o que indica que seus corpos
conseguiram lidar com as toxinas remanescentes.
Os
seres vivos produzem moléculas mortais destinadas a matar seus inimigos há
centenas de milhões de anos.
Primeiro,
vieram os micróbios, que usavam substâncias para eliminar concorrentes ou
atacar células hospedeiras sendo invadidas. Depois, os animais, para matar
presas ou afastar predadores, e as plantas, para se defender dos herbívoros.
Em
resposta, muitos animais evoluíram criando formas de sobreviver a essas
toxinas. Às vezes, eles chegam a armazená-las para usar contra seus próprios
oponentes.
Os
cientistas estão começando a descobrir essas criativas defesas antitoxinas.
Eles esperam identificar melhores tratamentos para o envenenamento das pessoas.
Basicamente,
eles estão aprendendo sobre uma força que vem ajudando silenciosamente a
modelar as comunidades biológicas, segundo a bióloga evolutiva Rebecca Tarvin,
também da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ela ajudou a supervisionar o
experimento com as cobras e descreveu essas estratégias na edição de 2023 da
Revista Anual de Ecologia, Evolução e Sistemática (em inglês).
“Apenas
alguns miligramas de um único composto e aquilo pode mudar todas as interações
em um ecossistema”, afirma Tarvin.
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Guerra biológica
As
espécies se tornam tóxicas em uma série de formas. Algumas delas produzem as
próprias toxinas.
Os
sapos da família Bufonidae, por exemplo, produzem moléculas chamadas
glicosídeos cardíacos. Eles impedem uma proteína denominada bomba de sódio e
potássio de desviar os íons para dentro e para fora das células.
Este
desvio é fundamental para manter o volume celular, contrair os músculos e
transmitir impulsos nervosos.
Outros
animais abrigam bactérias produtoras de toxinas nos seus corpos. É o caso do
baiacu; sua carne contém tetrodotoxina e seu consumo pode ser fatal.
E
muitos outros conseguem suas toxinas na alimentação. Exemplos são os sapos
venenosos, que devoram ácaros e insetos que contêm toxinas. Estes sapos incluem
a espécie que foi oferecida como alimento para as jabutiboias.
À
medida que muitos animais evoluíam para se tornarem tóxicos, eles também
reprogramavam seus corpos para evitar que se envenenassem a si próprios. E o
mesmo aconteceu com as criaturas que eles comem, ou com as que se alimentam
deles.
A mais
estudada dessas adaptações envolve alterações das proteínas normalmente
desativadas pelas toxinas, que passam a ser resistentes.
Insetos
que crescem e se alimentam de asclépias, por exemplo, que são plantas ricas em
glicosídeos, possuem bombas de sódio e potássio evoluídas, às quais o
glicosídeo não consegue se ligar.
Mas
alterar uma molécula vital pode criar complicações para uma criatura, segundo a
bióloga molecular Susanne Dobler, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha.
Nos
seus estudos com o percevejo Oncopeltus fasciatus, que se alimenta de sementes
de asclépias, ela descobriu que, quanto mais resistente a glicosídeos a bomba
se torna, menos eficiente ela fica.
Este é
um problema nas células nervosas, onde a bomba é especialmente importante. Mas
o inseto parece ter evoluído de forma de solucionar esta questão.
Em um
estudo de 2023, Dobler e seus colegas estudaram a resistência a toxinas em três
versões da bomba produzidas pela criatura. Eles descobriram que a mais
funcional, no cérebro, também é a mais sensível à toxina.
O
percevejo deve ter evoluído outras formas de proteger o cérebro contra os
glicosídeos, segundo Dobler.
A
bióloga suspeita que proteínas chamadas transportadores ABCB estejam
envolvidas. Elas ficam nas membranas celulares e desviam resíduos e outros
produtos indesejados para fora das células.
Ela
descobriu que certas mariposas-esfinge usam proteínas transportadoras ABCB
situadas em torno dos seus tecidos nervosos para eliminar glicosídeos cardíacos
das células. E talvez o Oncopeltus fasciatus faça algo parecido.
Dobler
também está testando a hipótese de que muitos insetos possuem transportadores
ABCB nas suas membranas intestinais, que impedem as substâncias tóxicas de
entrar no corpo.
Isso
poderia explicar por que o besouro-pimenta, que se alimenta de lírios-do-vale
ricos em glicosídeos, parece não se abalar com as toxinas e simplesmente as
excreta. E as fezes resultantes ainda repelem formigas predadoras, segundo
relatou Susanne Dobler em 2023.
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‘Esponjas de toxinas’
Para as
jabutiboias, o fígado parece ser fundamental. Nos experimentos com cultivos
celulares, a equipe de Rebecca Tarvin descobriu evidências de que algo no
extrato de fígado da cobra protege o animal contra as toxinas dos sapos-flecha.
A
hipótese formulada pela equipe é que as cobras possuem enzimas que transformam
as substâncias mortais em formas atóxicas, mais ou menos como o corpo humano
faz com o álcool e a nicotina.
O
fígado da cobra também pode conter proteínas que se ligam às toxinas e as
impedem de se unir aos seus alvos, absorvendo-as como se fossem esponjas.
Os
cientistas descobriram essas proteínas “esponjas de toxinas” no sangue de
certos sapos venenosos. Elas permitem que os animais resistam às toxinas
mortais saxitoxina e alcaloides da sua alimentação.
O
esquilo-terrestre-da-califórnia parece empregar um truque parecido para se
defender do veneno da cascavel, um coquetel de dezenas de toxinas que destroem
as paredes dos vasos sanguíneos, evitam a coagulação do sangue e muito mais.
O
sangue desta espécie de esquilo contém proteínas que bloqueiam algumas dessas
toxinas, como as utilizadas pelas próprias cascavéis para sua proteção, caso o
veneno escape das suas glândulas venenosas especializadas.
A
composição do veneno é diferente entre as várias populações de cobras e o
biólogo evolutivo Matthew Holding, da Universidade de Michigan, nos Estados
Unidos, tem evidências de que a mistura antiveneno do
esquilo-terrestre-da-califórnia é adaptada de acordo com as cobras da região.
Essas
defesas não são infalíveis. As cascavéis evoluem constantemente para produzir
novos venenos e superar as adaptações dos esquilos, segundo Holding, e mesmo a
cascavel irá morrer se for injetada com quantidade suficiente do seu próprio
veneno.
É por
isso que os animais, mesmo os resistentes, tentam evitar as toxinas como
primeira medida defensiva. Daí vem o costume das cobras terrestres de arrastar
a presa e a prática de algumas tartarugas de consumir apenas a pele da barriga
e as vísceras de salamandras tóxicas, não a sua pele traseira mortal.
Mesmo
os insetos que são resistentes a glicosídeos cardíacos, como as larvas da
borboleta-monarca, cortam as veias da asclépia para permitir a saída do fluido
tóxico, antes de adentrar na planta.
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Cooptando toxinas
Muitos
animais também encontram formas de armazenar com segurança as substâncias
tóxicas que consomem e utilizá-las com seus próprios objetivos.
O
besouro-metálico, por exemplo, ingere glicosídeos cardíacos das plantas
hospedeiras e, provavelmente por transportadores ABCB, os lança sobre as costas
para autodefesa.
“Quando
você faz algo para perturbar esses besouros, pode ver pequenas gotículas
aparecerem sobre o seu élitro, a superfície dorsal dos insetos”, explica
Dobler.
Com
este tipo de cooptação de venenos, alguns insetos ficam dependentes das suas
plantas hospedeiras para sobreviver.
A
relação entre a borboleta-monarca e a asclépia é um exemplo típico dessa
dependência e do longo alcance que essas conexões interligadas podem atingir.
Em um
estudo de 2021, o biólogo evolutivo e geneticista Noah Whiteman, da
Universidade da Califórnia em Berkeley, e um de seus colegas identificaram
quatro animais que evoluíram para tolerar glicosídeos cardíacos, o que permitiu
a eles se alimentar da borboleta-monarca.
Um
deles é o bicudo-de-cabeça-preta, um pássaro que se banqueteia com as monarcas
nas florestas de pinheiros no alto das montanhas do México, quando as
borboletas voam para o sul no inverno.
Whiteman
nos recomenda pensar nesta ideia: uma toxina que foi produzida por uma planta
de asclépia em uma pradaria de Ontário, no Canadá, ajudou a formar a biologia
de uma ave que, agora, pode jantar com segurança em uma floresta localizada a
quilômetros de distância.
“É
simplesmente incrível a jornada dessa pequena molécula e a influência que ela
teve na evolução”, exclama ele.
Fonte:
Por Katarina Zimmer, na Revista Knowable/BBC Future

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