sábado, 22 de novembro de 2025

Caio Navarro de Toledo:  A mídia liberal diante da barbárie em Gaza

Diante do conflito Israel x Palestina, é uma realidade inequívoca que a grande mídia corporativa ocidental (agências de notícias, TV´s, Rádios, portais de notícias online etc.) se posiciona, sem hesitação, na defesa incondicional do Estado de Israel. De forma eloquente, a atual guerra contra Gaza se configura como um caso exemplar desse posicionamento.

As estarrecedoras imagens de mortes de civis (crianças, mulheres, jovens) e da destruição de hospitais, escolas, postos de assistência humanitária, abrigos de refugiados e outros espaços em Gaza têm sido interpretadas como “efeitos colaterais” da guerra justa perpetrada pelo Estado de Israel na região a fim de erradicar o “grupo terrorista” do Hamas.

Sob a perspectiva da quase totalidade dos noticiários da mídia ocidental, a intensa utilização do poderoso arsenal bélico das Forças Armadas de Israel – sob o eufemismo de Forças de Defesa de Israel (FDI) – está inteiramente justificada, pois estaria em jogo a sobrevivência do Estado e da sociedade democrática de Israel… As dantescas cenas de destruição humana e material podem ser lamentadas, mas os porta-vozes da grande mídia corporativa, além de não se solidarizem com o drama palestino, negam-se a pronunciar a palavra genocídio para identificar a natureza da ação das FDI em Gaza.

A grande mídia corporativa no Brasil – representada pela Rede Globo, GloboNews, CNN, TV´s (Bandeirantes, Record, SBT), os três maiores jornais impressos (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) – não deixa de se orientar pelo estilo de jornalismo adotado e imposto pelos grandes órgãos de comunicação do ocidente.

Reconheça-se que, entre os jornais da grande imprensa brasileira, a FSP, talvez, seja o único veículo que, regularmente, publica textos (artigos, ensaios e abaixo-assinados) de acadêmicos e militantes solidários ao povo palestino e críticos da barbárie em Gaza; no entanto, entidades e intelectuais sionistas, igualmente, têm espaço garantido no jornal a fim de que possam justificar as ações militares contra a população civil palestina e atacar o alegado “antissemitismo” dos críticos da política bélica de Israel.

Se, de um ponto de vista democrático e humanitário, o comportamento da FSP deve  ser ressaltado, é certo, contudo, que o jornal, por meio de seus editoriais, jamais admitiu que, em Gaza, o genocídio é uma política do Estado de Israel. Ou seja, o jornal liberal-democrático – embora admita e condene o “morticínio” (realidade inevitável em conflitos bélicos duradouros) – recusa-se, editorialmente, a empregar a noção de genocídio, tal como entidades de direitos humanos e instituições democráticas de todo o mundo têm reconhecido e denunciado. Entre elas, destacam-se a qualificada Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, a Comissão de Inquérito Internacional Independente da ONU, a Anistia Internacional, além de organizações de direitos humanos israelenses, como são a  B’Tselem e a Physicians for Human Rights-Israel (que, de forma digna e corajosa, falam em “nosso genocídio” em Gaza).

Neste sentido, reitere-se, a FSP, editorialmente, se comporta de forma idêntica ao Estadão, O Globo, Globo News, CNN-Brasil e demais órgãos da mídia liberal no país.

No caso específico da FSP, quais as razões e motivações que explicariam a negação do emprego da noção jurídica de genocídio em seus editoriais que clamam pela paz e fazem reparos críticos ao atual governo de Israel?

Certamente, a utilização da grave noção – que, de imediato, é associada ao Holocausto nazista – implicaria o veemente repúdio da Embaixada de Israel no Brasil e de influentes entidades (entre elas, Conib, FSB, StandWithUs Brasil) contra o jornal que busca manter um respeitoso e privilegiado relacionamento com as entidades e os intelectuais sionistas. No entanto, para os donos e editorialistas da FSP, mais relevantes e sensíveis seriam as reações de empresas (industriais, comerciais e financeiras) que poderiam cortar gastos publicitários e reduzir o apoio financeiro, regularmente, concedidos ao jornal.

Sobre a questão de represálias, cabe, de forma breve, lembrar que, em vários países ocidentais, todos e todas (entidades e indivíduos) – que identificam a ação do Estado de Israel em Gaza como uma prática de genocídio e manifestam solidariedade ao povo palestino – têm sido objeto de retaliações diversas: demissões de empresas e entidades públicas, da docência e da condição estudantil em universidades, além de projetos de pesquisa serem vetados, financiamentos suprimidos e processos judiciais abertos sob a alegação de antissemitismo etc. 

Nesta breve Nota sobre a cobertura facciosa e enviesada da mídia sobre a destruição de Gaza, destaco o caso exemplar de uma matéria publicada, dias atrás, pelo site, de orientação liberal-democrática, Poder360.

Por meio dessa matéria, o site, que abriga colunistas de comprovadas posições democráticas, parece regozijar-se ao informar, de forma sucinta, que “o porta-voz das FDI (Forças de Defesa de Israel), major Rafael Rozenszajn, 45 anos, visitou a sede do jornal digital Poder360, em Brasília, nesta 4ª feira (12.nov.2025). Estava acompanhado de Kathia Kozlowski, representante da Conib (Confederação Israelita do Brasil) em Brasília”. Fotos dos dois sorridentes sionistas ilustram a matéria.

Ao leitor, no entanto, nada é informado sobre o poderio militar das FDI, hoje posicionadas em 15º lugar no ranking das forças armadas de todo o mundo. Igualmente, nenhuma relevância é dada ao fato das FDI – apoiadas militar e financeiramente, de forma permanente e multibilionária, por todos os governos dos EUA – se destacarem pela sua sofisticada tecnologia de ponta, equipamentos altamente letais e sólido sistema de defesa.

Nenhum comentário da editoria do site, igualmente, é feito a fim de lembrar que as FDI têm um papel central e decisivo na destruição da infra-estrutura civil de Gaza e nas mortes, segundo fontes insuspeitas, de mais 67 mil palestinos, além de mais de 170 mil feridos e desaparecidos.

Por último, seria descabido julgar que caberia à Editoria do site informar seus leitores sobre o comportamento de soldados de Israel nas ações contra Gaza?  Além de vídeos na internet, que documentam as comemorações dos soldados após as chacinas realizadas (danças, cantos e falas festivas), igualmente, graves denúncias de violações dos direitos humanos e “crimes de guerra” têm sido feitas por agências da ONU, entidades de direitos humanos e, inclusive, por ex-soldados israelenses.

Reconheça-se que, em princípio, Poder360 não pode recusar as solicitações de visitas à sua sede. Provavelmente, o porta-voz das FDI – desempenhando as funções de relações públicas das forças armadas de Israel – esteja visitando outras redações jornais e de sites do país. No entanto, ao se regozijar com a presença do porta-voz das FDI e não se posicionar, editorialmente, sobre esta visita de elevado simbolismo, o jornal digital acaba revelando seu apoio ou conivência à ação do aparelho militar de Israel, responsável pela barbárie em Gaza.

Por meio da publicação desta matéria, Poder360 revela que os ideais de isenção, neutralidade e objetividade afirmados em sua proposta editorial, típica da mídia liberal, se desmancham no ar… Por meio desta publicação, Poder360 tomou partido ao lado de cúmplices e responsáveis pelo genocídio na Palestina.

Por último, a questão que se coloca ao conjunto da mídia liberal-democrática é a de saber se, diante de tragédias humanitárias semelhantes à de Gaza, é possível manter neutralidade e isenção sobre a realidade social conflitiva e contraditória. Ao deixar de questionar o regime colonial de Israel, o conjunto da mídia liberal-democrática, no Brasil e no mundo, na prática, torna-se cúmplice e aliado das potências que apoiam o genocídio e negam o direito à existência de um Estado Palestino livre e soberano.

¨      ONG acusa Israel de crimes de guerra por deslocamentos forçados na Cisjordânia

As expulsões realizadas por Israel no início de 2025, envolvendo dezenas de milhares de palestinos que viviam em três campos de refugiados na Cisjordânia ocupada, constituem crimes de guerra e contra a humanidade, afirmou nesta quinta-feira (20/11) a organização Human Rights Watch (HRW).

A ONG pediu à comunidade internacional que tome medidas urgentes para evitar novas “atrocidades”. Em um relatório intitulado “Todos os meus sonhos foram apagados”, a organização afirma que cerca de 32 mil moradores dos campos de Jenin, Tulkarem e Nour Shams foram deslocados à força pelo Exército israelense em janeiro e fevereiro, durante a operação “Muro de Ferro”.

Segundo o documento de 105 páginas, as pessoas não foram autorizadas a retornar e milhares de habitações foram destruídas por Tsahal, o Exército israelense. “Dez meses após o deslocamento, nenhuma das famílias conseguiu voltar para suas casas”, declarou à Reuters na quarta-feira (19/11) Milena Ansari, pesquisadora da organização.

O Exército israelense afirmou em um comunicado que foi necessário destruir infraestruturas civis para impedir que elas fossem usadas por combatentes. As Convenções de Genebra proíbem qualquer deslocamento de civis fora de territórios ocupados, exceto em caso de medidas temporárias por imperativos militares ou para garantir a segurança da população.

A HRW declarou que os representantes israelenses de alto escalão responsáveis por esses atos devem ser processados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

No relatório, a ONG descreve como soldados israelenses invadiram casas, as saquearam e deram ordens às famílias utilizando alto-falantes instalados em drones. O Exército israelense usou escavadeiras para demolir edifícios, segundo a ONG, citando moradores que foram obrigados a fugir.

Tsahal não ofereceu abrigo nem ajuda, deixando às famílias apenas a opção de buscar abrigo na casa de parentes ou buscar refúgio em mesquitas, escolas e associações de caridade, acrescenta o documento. Expulso do campo de refugiados de Jenin com sua família, Hicham Abou Tabeekh disse que não conseguiu levar nada quando foram retirados de casa.

“Nem comida, nem bebida, nem medicamentos. Estamos vivendo uma vida muito complicada”, declarou à Reuters na quarta-feira. A organização afirma ter entrevistado 31 palestinos deslocados dos três campos de refugiados na Cisjordânia ocupada e analisado imagens de satélite, ordens de demolição e vídeos autenticados.

A ONG contabilizou mais de 850 estruturas destruídas ou gravemente danificadas, enquanto a ONU registrou 1.460. Questionados pela ONG, autoridades israelenses responderam por escrito que a operação visava o que chamaram de “elementos terroristas”. Nenhum motivo foi dado para justificar as expulsões em massa ou a proibição de retorno.

Essas expulsões fazem parte dos crimes de apartheid e perseguição, segundo a HRW. Em um relatório publicado em setembro, uma comissão independente da ONU concluiu que Israel comete genocídio na Faixa de Gaza e os mais altos dirigentes israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, incitaram tais atos. Israel afirma agir em legítima defesa em Gaza e rejeitou as acusações.

<><> Detenções arbitrárias

Paralelamente ao cerco total imposto por Israel à Faixa de Gaza em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, o Exército israelense matou cerca de 1.000 palestinos na Cisjordânia ocupada, onde também demoliu casas e acelerou a instalação de colônias, declarou a HRW.

De acordo com o relatório da ONG, Tsahal recorreu com frequência a detenções arbitrárias e ignorou casos de violência de cometidos por colonos e de tortura de prisioneiros palestinos.

A maior parte da comunidade internacional considera as colônias israelenses ilegais segundo o direito internacional, o que Israel rejeita, descrevendo a Cisjordânia como território “disputado” e não “ocupado”.

A organização ainda pede aos governos que imponham sanções direcionadas contra autoridades e comandantes israelenses e suspendam a venda de armas a Israel e os benefícios comerciais concedidos ao país.

A ONG também solicita que sejam cumpridos os mandados de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI). O Tribunal emitiu mandados contra Benjamin Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos na Faixa de Gaza.

¨      ‘Resolução é positiva, mas insuficiente’, afirma Celso Amorim sobre decisão da ONU para Gaza

O diplomata e atual assessor especial da Presidência brasileira para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou que a proposta de Donald Trump para a Faixa de Gaza, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, é “insuficiente” para reconhecer o Estado palestino.

“Diversos Estados que votaram a favor da resolução não deixaram de apontar sua insuficiência quanto ao pronto e inequívoco reconhecimento do Estado palestino”, afirmou em declaração exclusiva a Opera Mundi.

Apesar da crítica, Amorim disse acreditar “que uma resolução que contribua para conter a matança deve ser considerada positiva”, ressaltando que a maioria dos países árabes e muçulmanos apoiaram a proposta do presidente dos Estados Unidos.

“Pessoalmente, acredito que uma resolução que contribua para conter a matança deve ser considerada positiva. De modo geral, países árabes e muçulmanos a apoiaram. Vale notar que diversos Estados que votaram a favor da resolução não deixaram de apontar sua insuficiência quanto ao pronto e inequívoco reconhecimento do Estado palestino”, disse.

Por outro lado, o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, afirmou que a aprovação levará “a uma grande operação de apagamento das provas do genocídio” cometido por Israel. À reportagem, ele denunciou o plano, que, segundo sua avaliação, será uma “reconstrução monopolizada”.

Com a criação de um “conselho de paz”, que terá amplos poderes de governança e um conselho com mandato até o final de 2027, Rabah disse que “seguramente haverá um processo de despalestinização de Gaza”. Para o presidente da Fepal, a aprovação reflete “um processo claro de descartar todas as resoluções da ONU, mas especialmente as diretamente relacionadas à Palestina”.

Segundo ele, a medida abre caminho para que convenções contra o colonialismo, apartheid e genocídio sejam “descartadas como aplicáveis” e previu que os próximos passos podem ser os EUA não reconhecendo a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional e suas decisões, impedindo o julgamento do governo de Israel por genocídio e a prisão do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e demais autoridades do país.

“Os EUA Impedirão a investigação do genocídio. A possível reconstrução de Gaza será para dar lucro aos EUA e seus parceiros, inclusive para o regime israelense. O genocídio dará lucro”, disse.

Rabah ainda criticou a falta de detalhamento e a exclusão de assuntos como o levante do bloqueio israelense no enclave palestinos, a retirada das tropas israelenses do plano proposto por Trump e aprovado pela ONU e a violência na Cisjordânia. Além disso, defendeu que o plano aprovado pelo Conselho de Segurança não traz estabilidade para a região. “Só haverá paz na Palestina desmantelando a origem do caos, o regime segregacionista israelense”.

<><> Autoridade Palestina mantém cooperação com Estado genocida

Já Soraya Misleh, jornalista e coordenadora da Frente Palestina, considerou ser “vergonhoso” que a proposta tenha sido aprovada. Também lembrou as diversas vezes que os EUA usaram seu poder de veto para impedir o cessar-fogo em Gaza em meio ao genocídio. Ela também criticou o apoio concedido pela Autoridade Nacional Palestina (AP) ao plano de Trump aprovado.

Em sua análise, a ONU validou uma “tutela internacional para Gaza, sob a chefia de Trump e, como tem sido ao longo da história, sem consultar os habitantes nativos”.

A coordenadora da Frente Palestina ainda lembrou que a decisão foi tomada “no mês em que se completam 78 anos do crime cometido em sessão especial da Assembleia Geral da ONU, no dia 29 de novembro de 1947, de recomendação de partilha da Palestina, também sem consulta aos habitantes nativos”.

Portanto, “esta aprovação explicita a cumplicidade da ONU com a contínua Nakba, catástrofe palestina que já dura mais de 77 anos. Em 1947 a ONU deu sinal verde para a limpeza étnica e genocídio do povo palestino e agora assistimos a uma reedição desse sinal verde em relação a Gaza, refletindo o racismo característico em relação ao povo palestino, que mais uma vez é alijado do seu destino”.

Por fim, exigiu a ampliação da mobilização e solidariedade internacional para que “o Estado racista e colonial de Israel” seja isolado internacionalmente.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Opera Mundi

 

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