quarta-feira, 27 de março de 2024

Moisés Mendes: Bandidos que se transformam em autoridades para matar e roubar

Os brasileiros merecem os presentes que o sistema de Justiça vem oferecendo ao país às vésperas de mais um 31 de março. O resgate da democracia passa também pelo fortalecimento da autoestima.

E o próximo presente, depois da prisão dos mandantes da morte de Marielle, poderia ser o pacote completo dos mandantes que mandavam nos mandantes presos.

Precisamos chegar aos mandantes dos mandantes e suas motivações. Que o sistema de Justiça ofereça aos brasileiros, mas agora sem tanta demora, os nomes dos que levaram os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa ao planejamento da morte de Marielle.

É o que os clássicos da literatura, os antigos livros policiais de bolso e até as séries da Netflix e as novelas da Globo ensinam. Um mandante que manda executar tem atrás dele um mandante ou vários outros mandantes mais poderosos e encobertos.

As estruturas que conseguiram manter segredos em torno do assassinato da vereadora até agora são mais do que parte de uma facção criminosa. São parte das estruturas políticas que os sustentam.

Marcelo Freixo sabe disso, como sabem todos os que conhecem o funcionamento das milícias e similares. Não existe crime organizado no Rio sem suporte de estruturas políticas e institucionais poderosas.

O Rio é a escola onde funcionam essas organizações, com interesses específicos em várias áreas, mas sempre sob sustentação da política e de seus tentáculos no Estado, desde a polícia até o Judiciário e o governo.

A espera pela identificação dos mandantes que mandavam nos mandantes presos pode reproduzir e prolongar a angústia que persistiu até aqui, seis anos depois do crime. Mas agora o Brasil vai querer saber.

Pelas conexões que começam a ser expostas, poderemos ter, daqui a pouco, mais um desmaio de fascista, desta vez talvez até de um general. Para que também nessa área dos desmaiadores exista alguma hierarquia. Chega de coronéis desmaiando.

O caso Marielle amplifica o sentimento de que o Brasil é uma fábrica de bandidos que se transformam em delegados, promotores, procuradores, militares, juízes de baixas e altas cortes, deputados, senadores e até presidente da República.

 

Ø  Rivaldo planejava assassinato de Marielle há mais de um ano quando foi indicado por militares

 

Nomeado pelos generais Braga Netto e Richard Nunes para ser chefe da polícia civil no estado ainda em 2018, Rivaldo Barbosa, já tinha plano para executar Marielle Franco.

Segundo o relatório da Polícia Federal (PF) o crime já era idealizado desde setembro do ano anterior e só não havia ocorrido antes por exigência do próprio Rivaldo que determinou que o crime só poderia ser cometido dentro de circunstâncias específicas. Uma delas é a de que o crime não poderia ocorrer caso a vereadora estivesse saindo da Câmara da cidade.

Para fundamentar a alegação a PF anexou ao relatório um depoimento do assassino confesso, Ronnie Lessa, executor do crime e que tinha contato com Rivaldo.

Lessa chegou a revelar que Rivaldo cogitou cancelar a operação diante da impossibilidade de execução da operação sob seus termos dando a entender que diversas tentativas foram abortadas por este motivo.

Quando Rivaldo ascende ao comando da Polícia Civil no estado, já teriam passados mais de 7 meses de tentativas e operações voltadas para o assassinato de Marielle Franco. Além disso, a nomeação de Rivaldo pelos militares contrariou orientações da inteligência da própria polícia civil e também recomendações de procuradores do estado, que eram contra a indicação por conta do histórico problemático do policial com o jogo do bicho no Rio de Janeiro.

Porém, a própria investigação da PF também revelou que um ano antes do crime, o Escritório do Crime havia infiltrado Laerte Silva de Lima nas fileiras do PSOL, partido de Marielle, ou seja. Quando Rivaldo chegou ao topo da PC-RJ, já atuava na orquestração do crime há um ano.

¨      Pivô do crime, delegado é acusado de instruir sobre melhor local para assassinato de Marielle

Segundo informações da delação premiada de Ronnie Lessa, incluída no relatório da Polícia Federal (PF), o delegado Rivaldo Barbosa teria orientado os assassinos de Marielle Franco para evitar que o crime ocorresse na saída da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Isso, segundo Lessa, visava manter as investigações sob a alçada da polícia local e não atrair a atenção da PF.

A delação aponta que Rivaldo Barbosa, que ocupava cargos importantes na Divisão de Homicídios e depois se tornou chefe da Polícia Civil, teria informado aos assassinos que realizar o crime na saída da Câmara dos Vereadores seria mais facilmente caracterizado como um “crime político” e, consequentemente, a investigação seria transferida imediatamente para a PF.

De acordo com Lessa, Edmilson da Silva Oliveira, conhecido como “Macalé” e suposto contratante dos assassinos de Marielle, afirmou que Rivaldo era “um deles”. Essas revelações sugerem uma estreita ligação entre o delegado e os executores do crime.

O relatório da PF ainda destaca que a garantia de impunidade em torno do assassinato de Marielle seria apenas uma das muitas transações ilícitas realizadas pela Divisão de Homicídios na época.

Há alegações de que as delegacias do Rio recebiam pagamentos mensais de propina pelas milícias, sendo que a Divisão de Homicídios teria recebido entre R$ 60 mil e R$ 80 mil por mês. “Isso quando não auferia uma remessa adicional em razão dos crimes que deixavam provas/rastros”, afirma o relatório da PF.

Rivaldo chefiou a polícia civil do RJ por indicação do ex-ministro Braga Neto, que foi candidato a vice de Bolsonaro em 2022.

 

Ø  Braga Netto reconhece ter promovido Rivaldo Barbosa, mas nega sua indicação

 

A defesa de Walter Braga Netto, ex-candidato à vice na chapa de Jair Bolsonaro na eleição de 2022, disse que em 2018 ele endossou a promoção de Rivaldo Barbosa a chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro por meras “razões administrativas”.

Barbosa é suspeito, segundo a Polícia Federal (PF), de ter planejado o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Na ocasião, Braga Netto liderava a intervenção federal na segurança pública do Rio.

“Durante o período da intervenção federal na área da segurança pública no estado do Rio de Janeiro, em 2018, a Polícia Civil era diretamente subordinada à Secretaria de Segurança Pública”, afirmam os advogados de Braga Netto em comunicado.

“A seleção e indicação para nomeações eram feitas, exclusivamente, pelo então Secretário de Segurança Pública, assim como ocorria nas outras secretarias subordinadas ao Gabinete de Intervenção Federal, como a Defesa Civil e Penitenciária”, diz outra parte do comunicado.

O secretário era o general Richard Nunes, indicado por Braga Netto. A nota é assinada pelos advogados Marcus Vinicius de Camargo Figueiredo e Luís Henrique César Prata.

“Por questões burocráticas, o ato administrativo era assinado pelo Interventor Federal que era, efetivamente, o governador na área da segurança pública no RJ”, diz outro trecho.

Braga Netto foi nomeado como interventor na segurança do RJ pelo então presidente Michel Temer (MDB). Depois, ocupou os cargos de ministro da Defesa e da Casa Civil do governo Bolsonaro, e concorreu a vice na chapa derrotada do ex-presidente à reeleição, em 2022.

No relatório final sobre o caso Marielle, a PF aponta que Richard Nunes “apoiou” a nomeação de Rivaldo, apesar de ter recebido recomendações contrárias.

“Por sua vez, Braga Netto nomeou o General Richard Nunes como Secretário de Estado de Segurança Pública, tendo ele nomeado o Delegado Rivaldo Barbosa como seu Chefe de Polícia.

Nesta altura, já estavam na iminência de eclodir as suspeitas retratadas nos PICs acima mencionados, o que ensejou, inclusive, a contraindicação de Rivaldo pela Subsecretaria de Inteligência, conforme reconhecido pelo General em sede de depoimento”, diz o relatório da PF. “Entretanto, o General apoiou a nomeação de Rivaldo à revelia do que havia sido recomendado.”

Por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), foi deflagrada na manhã deste domingo a Operação Murder Inc. para prender de forma preventiva, além de Rivaldo Barbosa, o deputado federal Chiquinho Brazão (União-RJ) e seu irmão Domingos, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).

Os três são suspeitos de serem os mandantes do crime. Também foram expedidos 12 mandados de busca e apreensão no Rio.

A prisão dos suspeitos ocorreu após o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, anunciar a homologação da delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa, apontado como o responsável por executar os assassinatos, em março de 2018.

O caso foi federalizado e passou a ser de responsabilidade do STF após Lessa citar o deputado Chiquinho Brazão, que tem foro privilegiado. A relatoria na Corte ficou o ministro Alexandre de Moraes.

Lewandowski e o diretor-geral da PF, Andrei Passos, disseram neste domingo, em entrevista coletiva, que as investigações mostram como motivação básica para o assassinato de Marielle o fato de ela se opor ao grupo dos mandantes do crime, que queria regularizar terras para fins comerciais.

A vereadora defendia o uso dessas propriedades para a construção de moradias populares.

“Envolve, sim, a questão ligada à milícia, à disputa de territórios, de regularização de empreendimentos, loteamentos”, disse Passos.

“Se a pauta imobiliária não era central para o mandato da vereadora, era uma pauta que ela tinha, como investimento em moradias sociais, que iam em confronto com o que o grupo mandante defendia.”

¨      Chefe de gabinete de Braga Netto já conhecia Rivaldo Barbosa

Conforme revelado pela coluna, quem levou o nome de Rivaldo Barbosa, arquiteto da morte de Marielle Franco, para o gabinete de intervenção federal no Rio de Janeiro comandado pelo general Braga Netto foi o Comando Militar do Leste (CML) que na ocasião também era comandado pelo próprio general.

Em depoimento, o general Richard Nunes já havia dito à investigadores que conhecerá Rivaldo durante os trabalhos da Força de Pacificação na comunidade da Maré.

Porém, outro ponto que liga o Braga Neto ao alvo de prisão preventiva na operação de hoje é o general Mauro Sinott que foi chefe de gabinete de Braga Netto no CML e na intervenção. Sinott atuou com Rivaldo Barbosa na ocupação militar complexo da Maré.

Sinott era comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada de Santa Maria, Rio Grande Sul quando em 30 de maio de 2014, assumiu o posto de número dois no comando da força de pacificação na comunidade. O general também esteve na ocupação da comunidade da Rocinha, onde Rivaldo também esteve presente. Meses mais tarde também participou da polêmica missão brasileira no Haiti.

Em 2015 Sinott foi comandante da Brigada de Operações Especiais, em Goiânia (GO). Onde foi encarregado de planejar e desenvolver as operações de contra terror para os Jogos Olímpicos do Rio.

Vale ressaltar que, embora não existam evidências que desabonem a passagem de Sinottt pela brigada, as forças especiais do exército brasileiro, desde 8 de janeiro de 2023 são alvo de desconfiança por conta das inúmeras evidências de que diversos de seus membros atuaram ou se disponibilizaram para as conspirações golpistas de 2022 que visavam suas as eleições daquele ano.

 

Fonte: DCM/O Cafezinho

 

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