quinta-feira, 28 de março de 2024

EUA mantêm estratégia de criar 'estalido político e social' para derrubar Maduro

A próxima eleição presidencial na Venezuela está marcada para 28 de julho, em momento de grande tensão entre o governo do presidente Nicolás Maduro, que busca a reeleição, e a oposição, com apoio dos Estados Unidos, que vem realizando atos no país a fim de tentar desestabilizar a política venezuelana.

Na última quarta-feira (20), alguns dos principais assessores de María Corina Machado, principal nome contrário ao atual presidente, foram detidos, acusados de planejar ações para forçar sua elegibilidade.

No mesmo dia, o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, apresentou um vídeo de uma confissão de um dos colaboradores dela, Emil Brandt Ulloa, no qual ele admite que seu partido, o Vente Venezuela, receberia financiamento do exterior.

Segundo Saab, o financiamento se daria através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), que repassaria "milhões de dólares" para ONGs venezuelanas.

O cientista político formado pela Universidade dos Andes Luis Javier Ruiz comenta à Sputnik Brasil que a interferência dos EUA na Venezuela traz impactos na estabilidade política e na vida cotidiana dos cidadãos venezuelanos.

Ele destaca que o interesse americano em derrubar o governo de Nicolás Maduro remonta a uma "herança histórica", uma vez que o governo venezuelano desafiou a influência estadunidense com a Revolução Bolivariana.

Segundo ele, a gestão de Maduro assume como uma herdeira política e ideológica da revolução, inaugurada pelo presidente Hugo Chávez, "que implicou uma mudança de paradigma na política interna e externa da Venezuela e saiu, é claro, do domínio dos EUA".

Para respaldar seus argumentos, Ruiz cita casos históricos, como as "tentativas de golpe de Estado" contra Chávez no início deste século.

"Em 2002, por exemplo, vimos como o presidente Hugo Chávez foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado. Posteriormente, compreendemos e sabemos, de fontes diretas dos EUA, que [os americanos] estavam por trás do golpe de Estado."

Em relação às ações atuais, Ruiz aponta o "financiamento de governos paralelos" e o "apoio à oposição venezuelana" como parte da estratégia de Washington.

"Por essa razão, diversos métodos de interferência política têm sido apresentados. Por exemplo, ao presidente Nicolás Maduro foi instalado, por dois anos, um governo paralelo, chamado de governo interino, que foi avalizado, promovido, incentivado e financiado pelos EUA."

·        Oposição na Venezuela

No início deste ano, o Tribunal Supremo de Justiça venezuelano confirmou que María Corina Machado estava inabilitada politicamente por 15 anos, de acordo com um processo iniciado em 2015, devido a irregularidades administrativas durante o período em que era deputada, entre 2011 e 2014.

Sua substituta, a filósofa Corina Yoris, não conseguiu completar o registro da candidatura na plataforma do órgão eleitoral venezuelano antes do prazo, que se encerrou na segunda-feira (25).

Para Ruiz, a confissão de Ulloa sobre o financiamento à oposição através da USAID evidencia a contínua interferência estadunidense na oposição venezuelana, feita por meio de outras figuras locais.

Segundo ele, "não é descabido" pensar que os EUA buscam provocar inseguranças na Venezuela, inclusive com apoio de outros governos.

"Os EUA continuam mantendo a estratégia de provocar um estalido político e social, e de que, pela via da força, o presidente Nicolás Maduro seja retirado do poder."

O pesquisador afirma que sanções unilaterais impactaram negativamente a economia venezuelana, aumentando os índices de desnutrição e insegurança alimentar. Além disso, contribuíram para o "êxodo de venezuelanos para outros países latino-americanos".

Ruiz adverte que a estratégia de "asfixia econômica" e "desestabilização política" dos EUA contra a Venezuela teve graves consequências para os venezuelanos, afetando sua qualidade de vida e gerando uma crise humanitária. Além disso, enfatiza a necessidade de respeitar a "soberania dos países" e buscar soluções diplomáticas para resolver os conflitos internacionais.

Outro candidato da oposição, Manuel Rosales, conseguiu se inscrever de última hora — contudo a chapa de Corina informou que não apoiará o governador do estado venezuelano de Zulia. Eles chegaram a se encontrar para discutir a possibilidade de Rosales substituir a candidata da Plataforma Unitária (aliança da oposição), mas não houve acordo.

·        Qual é a relação da Venezuela com os Estados Unidos?

O historiador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Roberto Santana Santos, pesquisador da globalização neoliberal, ressalta que os EUA têm histórico de interferência direta nos assuntos políticos da Venezuela, especialmente quando se trata de governos que desafiam seus interesses geopolíticos e econômicos.

Ele argumenta que essa interferência não é nova e remonta aos dias de Hugo Chávez, quando os EUA também buscaram derrubar seu governo. "Os EUA sempre trabalharam, desde a chegada de Hugo Chávez ao governo, em 1999, para derrubar Chávez, para assassinar Hugo Chávez, e agora [tentam fazer] o mesmo com Maduro."

Essa interferência não se limita apenas a tentativas políticas, mas se estende a esforços militares, como evidenciado pelo caso do ex-autoproclamado presidente Juan Guaidó.

Santos ressalta que a tentativa de Guaidó de estabelecer um "governo fantoche" foi respaldada pelos EUA e por outros aliados, levando quase à invasão militar da Venezuela em 2019.

"A invasão da Venezuela por mercenários, ou até mesmo por militares norte-americanos, é algo que o governo venezuelano e a sociedade venezuelana têm que levar em conta, porque isso já foi tentado em outras ocasiões."

Além disso, o pesquisador destaca que a interferência estadunidense mina qualquer possibilidade de estabilidade na Venezuela, tanto econômica quanto política.

Ele comenta que o bloqueio comercial e financeiro imposto pelos EUA tem prejudicado severamente a economia venezuelana.

"A situação econômica da Venezuela, que é ruim, é fruto de uma guerra econômica feita por um bloqueio comercial e financeiro dos EUA […]."

A recente tentativa de María Corina Machado de se candidatar, apesar de estar inelegível devido às questões jurídicas, é vista por Santos como parte de uma estratégia mais ampla dos EUA para desestabilizar a Venezuela e controlar seus recursos, especialmente o petróleo.

·        Por que os EUA adotaram sanções contra a Venezuela?

Santos argumenta que a interferência constante de Washington busca minar a legitimidade das eleições venezuelanas e, por extensão, justificar a proibição da compra de petróleo venezuelano nos mercados internacionais.

Além disso, o pesquisador aponta para a hipocrisia das chamadas "democracias ocidentais", que frequentemente contestam a legitimidade das eleições venezuelanas sem apresentar evidências de fraude.

Ele destaca que instituições como o Carter Center atestaram a segurança e transparência das eleições venezuelanas. E argumenta que a visão ocidental de democracia como sinônimo de liberalismo está equivocada e é prejudicial para a soberania da Venezuela.

Por fim, Santos expressa preocupação com o impacto da instabilidade econômica e política na vida dos venezuelanos e destaca a necessidade de uma abordagem regional mais coerente para promover a estabilidade na Venezuela — inclusive enfatizando o papel crucial que o Brasil e outros países vizinhos têm a desempenhar nesse processo.

Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil emitiu uma nota dizendo que acompanha o processo com "expectativa e preocupação".

·        Como funciona o sistema eleitoral da Venezuela?

O pleito presidencial venezuelano está marcado para 28 de julho, dentro do estipulado pelos Acordos de Barbados, e o atual mandato é de seis anos.

O Conselho Nacional Eleitoral venezuelano já formalizou o convite a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Comunidade do Caribe (Caricom), União Africana, União Europeia, especialistas da ONU, BRICS e Carter Center para observar as eleições de 2024 no país.

Além de Maduro e do governador de Zulia, Manuel Rosales, (que já perdeu para Chávez em 2006), há outros dez candidatos presidenciais — Luis Eduardo Martínez, Enrique Márquez, Benjamín Rausseo, Antonio Ecarri, Daniel Ceballos, Claudio Fermín, Javier Bertucci, Juan Carlos Alvarado, Luis Ratti e José Brito.

 

Ø  Brasil e Colômbia citam 'preocupação' com eleição na Venezuela; Caracas rebate: 'Intervencionistas'

 

Nesta terça-feira (26), os ministérios das Relações Exteriores brasileiro e colombiano expressaram preocupação sobre o processo eleitoral na Venezuela. Em resposta, Caracas disse que o comunicado "cinzento" do Itamaraty parece ter sido escrito "pelo Departamento de Estado dos EUA".

Em nota publicada no site do Itamaraty, a chancelaria brasileira disse que "esgotado o prazo de registro de candidaturas para as eleições presidenciais venezuelanas […], o governo brasileiro acompanha com expectativa e preocupação o desenrolar do processo eleitoral naquele país".

Segundo o ministro das Relações Exteriores brasileiro, a candidata da oposição indicada pela Plataforma Unitaria Democrática (PUD), "sobre a qual não pairavam decisões judiciais, foi impedida de se registrar, o que não é compatível com os acordos de Barbados".

"O Brasil está pronto para, em conjunto com outros membros da comunidade internacional, cooperar para que o pleito anunciado para 28 de julho constitua um passo firme para que a vida política se normalize e a democracia se fortaleça na Venezuela, país vizinho e amigo do Brasil. O Brasil reitera seu repúdio a quaisquer tipos de sanção que, além de ilegais, apenas contribuem para isolar a Venezuela e aumentar o sofrimento do seu povo", afirmou o Itamaraty.

O governo brasileiro participou ativamente das negociações em Barbados ocorridas no último 17 de outubro, quando Caracas firmou um tratado com o governo dos Estados Unidos em que se compromete a organizar um pleito presidencial competitivo e a permitir que ele seja monitorado por observadores internacionais.

Em troca, a Casa Branca aliviaria as sanções contra a indústria de petróleo do país sul-americano.

A Colômbia também expressou preocupação sobre o pleito em um comunicado publicado por sua chancelaria nesta terça-feira (26), afirmando que se preocupa com o registro de candidatura da oposição que pode "afetar a confiança de alguns setores da comunidade internacional na transparência e competitividade do processo eleitoral".

Caracas respondeu a Bogotá e Brasília, por meio de seu chanceler Yván Gil. Sobre o governo colombiano, a Venezuela diz que ele praticou "ingerência grosseira em assuntos que só dizem respeito aos venezuelanos".

"Movido pela necessidade de agradar aos desígnios do Departamento de Estado dos EUA, o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia dá um passo em falso e comete um ato de ingerência grosseira em assuntos que só dizem respeito aos venezuelanos", afirmou o chanceler Yván Gil.

Em seguida, repudiou o comunicado brasileiro, classificando-o como "cinzento e intervencionista redigido por funcionários da chancelaria brasileira, que parece ter sido ditado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos".

"O Ministério do Poder Popular para Relações Exteriores da República Bolivariana da Venezuela repudia o comunicado cinzento e intervencionista redigido por funcionários da chancelaria brasileira, que parece ter sido ditado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, no qual são emitidos comentários carregados de profundo desconhecimento e ignorância sobre a realidade política na Venezuela", afirmou o chanceler.

As eleições presidenciais estão programadas para 28 de julho de 2024, a fim de escolher um presidente para um mandato de seis anos, com início em 10 de janeiro de 2025.

 

Ø  Coalizão de oposição venezuelana consegue nomear candidato provisório em meio a tensões com EUA

 

A principal coalizão de oposição venezuelana, a Plataforma Unitaria Democrática (PUD), anunciou nesta terça-feira (26) a nomeação provisória de Edmundo González Urrutia como candidato às eleições presidenciais.

A medida foi tomada após o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) conceder prorrogação de duas horas devido às dificuldades enfrentadas pela oposição para ingressar no sistema de registro de requerentes.

"Decidimos registrar provisoriamente o presidente do diretor da Mesa Redonda da Unidade Democrática, Edmundo González Urrutia, para preservar o exercício dos direitos políticos que correspondem à nossa organização política até conseguirmos registrar a nossa candidatura unitária", afirmou a coalizão em comunicado nas redes sociais.

A próxima eleição presidencial na Venezuela está marcada para 28 de julho, em meio a uma grande tensão entre o governo do presidente Nicolás Maduro, que busca a reeleição, e a oposição, apoiada pelos EUA, que vem realizando ações no país, a fim de tentar desestabilizar a política venezuelana.

Recentemente, a oposição enfrentou desafios, como a detenção de alguns dos principais assessores de María Corina Machado, figura destacada contrária ao governo de Maduro.

Tais assessores foram acusados de planejar ações para forçar a elegibilidade de Machado. Além disso, o procurador-geral da Venezuela apresentou um vídeo de confissão de um dos colaboradores de Machado, revelando financiamento estrangeiro ao seu partido, o Vente Venezuela.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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