Trabalho:
Os nomes (e rumos) que ainda não temos
A
fotografia que abre este artigo foi tirada quando dum jantar na Casa Branca,
onde foram convidados todos – ou quase todos – os CEOs das Big Techs
estadounidenses. Representa, de forma inequívoca, o que estamos a vivenciar há
mais ou menos duas décadas. Os poderes político, econômico, financeiro e
informativo estão cada vez mais interligados, de uma forma sem precedentes na
longa história do capitalismo.
Aqueles
homens são dos mais poderosos do mundo. As riquezas que detêm superam os PIBs
conjuntos de várias nações do espaço chamado de tricontinental. E não param de
crescer, pelo contrário. Da mesma maneira, não pára de crescer a influência que
eles exercem, direta ou indiretamente, sobre os governos e as populações de uma
ampla parte do mundo.
Os
instrumentos materiais e imateriais que detêm atuam no interior da vida de uma
parte muito ampla da população mundial. A interligação que aqueles poderes
produzem vigia cada aspecto que compõe as nossas vidas – desde as
microrrelações quotidianas entre indivíduos, até as que se dão entre as
múltiplas componentes de cada um de nós, inclusive os sonhos.
Não é
novidade, obviamente. Existe uma literatura amplissima sobre o novo rumo do
capitalismo na era digital. Uma era que – como sugerem alguns estudiosos – já
vai para além do que, há pelo menos quatro décadas, designa-se por
neoliberalismo.
Como
isso tudo se tornou possível – e como se chegou ao que assume os traços de uma
mutação antropológica, que diz respeito a todos nós e que parece não termos
maneira de inverter – tem sido analisado pormenorizadamente por abordagens
diferentes.
O termo
mutação antropológica não parece exagerado. O capitalismo das plataformas está
moldando o ser humano por formas desconhecidas há vinte anos. As constantes
conexões com máquinas produtoras de informação – elaboradas por meio da
“mineração” nos nossos corpos -, às quais todos nós pertencemos, produzem um
novo ente, cuja subjetividade e identidade não podem prescindir da ligação
estreita entre homem e máquina. As peculiaridades do ente homem-máquina, no que
diz respeito às funções relacionais primárias, resultam significadamente
mudadas. A produção e função da linguagem, a abordagem aos saberes, a formação
e gestão das relações e da afetividade, o sentido da criação artística, passam
por canais e ferramentas que atuam numa “colonização epistêmica”. As
consequências estão inscritas no que Dona Haraway definiu o processo de
constituição da subjectividade no cyborg.
O
predomínio absoluto do digital na configuração das “formas de vida”, mudou,
irreversivelmente, a velocidade imposta aos tempos das relações e do
desenvolvimento dos processos, de qualquer natureza que sejam. Tudo colapsa num
eterno presente. É ai onde se formam as identidades – sempre múltiplas e em
transformação – e com essas, as relações e sobreposições entre as esferas do
online e do offline dos sujeitos normatizados pela “maquinaria de
ordinalização”. A combinação de tecnologia, conhecimentos, organização e
informação traduz-se numa planificação minuciosa das nossas vidas, como nunca
foi experimentado antes. O terreno para a extração, produção e gestão das
informações – a sua transformação em informação “abstrata” – é a vida em si, em
todos os seus aspectos.
Nesse
cenário – que não tem nada de distópico, pois é já o nosso quotidiano – o que
temos à nossa frente é a questão que marca a história do capitalismo e das suas
estruturas de governação desde do início. De que ferramentas precisamos para
captar os pormenores, os pontos de fraqueza e as fissuras que – do ponto de
vista de quem se opõe às condições de vidas atuais – permitam levar a luta para
o interior da “caixa preta”? Tal como sempre foi no passado, trata-se dum
desafio muito complexo.
Um
desafio que só pode passar por uma pesquisa ativista, que deve ter como ponto
central da análise a constituição de novas subjetividades. Isso porque – como
sempre foi no passado – a subjetividade é a consequência das relações entre as
forças que definem um dado contexto. Precisamos, portanto, investigar como nos
constituimos no cenário da plataformização da sociedade, entre “técnicas de
domínio” e “técnicas do si”. Uma pesquisa desta natureza alcança o seu objetivo
se assentar teórica e praticamente na co-pesquisa (conricerca). Romano Alquati
cunhou esse termo nos anos 1960, quando de suas investigações acerca dos
“operários-massa” – os operários da fábrica fordista – da Fiat, em Turim. A
ideia central era produzir conhecimento não acerca deles, mas com eles e para
eles. Cada participante deixava de ser um “objeto de estudo”, para se tornar um
co-pesquisador. O trabalho ficava por ali, não ia parar na academia. Continuava
ali o seu percurso de valorização de conhecimentos que se transformavam logo em
ferramenta de luta quotidiana.
Alquati
e os outros operaístas compreenderam que o cenário tinha mudado drasticamente
em relação ao primeiros anos do pós-guerra. Era preciso atualizar teoria,
prática política, relações, linguagem, conforme a nova subjectividade que o
“operário-massa” – imigrantes do Sul da Itália – exprimia. Isso para poderem
desafiar o capital no seu próprio terreno, e antecipá-lo. Essa foi a grande
lição e o legado que o operaísmo nos deixou. Cabe a nós dar continuidade a esse
trabalho.
Trata-se
– como já foi dito – de um trabalho pormenorizado. Implica, para nós, uma
pesquisa focada nas características que parecem mais relevantes, no que diz
respeito às relações que estão na base do funcionamento das plataformas, e que
estas, por sua vez, reproduzem e multiplicam. São as relações entre indivíduos
e coletividades, nos domínios do corpo social, econômico e político. São também
relações que envolvem o indivíduo consigo mesmo, a percepção do seu ser, as
múltiplas identidades que constrói no dia-a-dia, os objetivos e as prioridades
que escolhe.
Uma
pesquisa deste gênero não é simples, tampouco rápida. A dificuldade maior será,
talvez, abandonarmos os nomes com que estamos habituados a lidar. Deixá-los
significa desprendermo-nos dos laços que nos ligam a uma época onde aqueles
nomes representavam significantes úteis, vivos, abrangentes. Deixá-los
significa sair de uma comfort zone onde tudo estava bem colocado em lugares
conhecidos, prestes a ser inquiridos pela ferramenta ideológica e semântica
habitual e eficaz que outrora serviam.
Deixar
aqueles nomes significa, em suma, não prestar ouvidos às sereias historicistas
que nos sugerem tomar como ponto de partida os significados de nomes e observar
de que maneira a história os modula e os coloca em relação entre si.
Do que
precisamos, portanto, é de novos nomes, que ainda não temos. Nomes que nos
facilitem a compreensão dos processos de constituição das subjetividades na era
do digital. Só a partir dai poderia ser possível recostruir uma articulação de
microestratégias que nos permitam reconquistar espaços de atuação no terreno
que a nova forma do capitalismo nos impõe.
Será,
por exemplo, que nomes como emprego precário – contraposto a uma estabilidade
cada vez mais anacrônica e pouco desejada –, ou futuro – como projeção dum
presente que permita vislumbrar um percurso baseado na confiança num ciclo que
envolve as diferentes esferas pessoais – nos permitem ainda captar as
especificidades que – sobretudo entre os mais jovens – definem alguns dos
elementos da produção de subjetividades? Qual é, hoje, o espaço físico e mental
para termos como solidariedade, comum, proximidade, num contexto dominado pela
centralidade do indivíduo, das relações virtuais, do empobrecimento de
contactos físicos?
Captar
os “comos” e os “ondes” se desdobram formas de valorização, às quais os
sujeitos dão relevância, constitui o papel fundamental que temos à nossa
frente. É a condiçaõ de possibilidade para voltarmos a exercer uma força de
reivindicação e produção de espaços de vida subtraídos à “maquinaria de
ordinalização” do capital.
Neste
sentido, consideremos a metrópole – mais do que o lugar de trabalho – o
contexto de referência prioritário para encetar uma análise de longo prazo.
Isso não significa que interesse apenas o que acontece ou aparece naquele
espaço, pelo contrário. A metrópole é, de fato, onde se mostram com mais
clareza as contradições inerentes à ordem global de valorização e das suas
cadeias; isto é, muito mais para além do seu perímetro sócio-territorial.
Seguindo
a linha traçada, há doze anos, por Mezzadra e Neilson em Border as a Method, a
referência à metrópole na sua interligação – e sobreposição – com os
territórios “periféricos” evidencia a relação entre digitalização e
multiplicação do trabalho.
Importa
salientar que divisão e multiplicação do trabalho não se opõem – ainda que soem
como antagônicas. São duas faces da mesma medalha: o processo de valorização do
capital. Todas as inovações tecnológicas – desde a altura de Babbage até hoje –
sempre foram focadas na divisão do trabalho, em função da procura de uma
crescente racionalização dos processos produtivos. Matteo Pasquinelli esclarece
esse ponto de forma brilhante no seu último livro.
A
digitalização e plataformização da economia segue o mesmo percurso, puxando-o a
níveis antes inimagináveis. Isso ocorre em dois sentidos.
O
primeiro tem a ver com o trabalho em si: os processos produtivos vêem uma
multiplicação das funções e dos dispositivos que os normatizam. Alastrando-se
para a inteira superfície global, aqueles processos criam diferentes formas de
“cidadanias laborais”, diferentes níveis de inclusão, conforme as “fronteiras”
que os constituem. Essas produzem áreas que atravessam os continentes e os
paises, criando continuidade entre espaços geograficamente longínquos. São
também áreas imateriais, correspondentes a mercados do trabalho que se colocam
um ao lado de outro, até nas mesmas empresas, sem que haja possibilidade de
passagem entre eles. Aqueles mercados baseiam-se em distinções entre etnias,
idades, gêneros, e produzem hierarquias e construções identitárias, geridas por
específicas políticas.
O
segundo sentido diz respeito às vidas em si. O trabalho multiplica-se enquanto
a vida inteira é tempo e espaço de produção. Qualquer atividade que nos conecte
às redes é uma atividade produtora de valor, os dados que todos geramos sem
interrupção. O sujeito plataformizado, portanto, não passa de un produtor
total. A sua “ilha de edição” obriga-o a uma conexão contínua, onde entram em
jogo técnicas de divisão por camadas e escalões de contatos, e de
multiplicação, por meio de “máscaras” e “encenações”. Essas – na medida em que
necessitam constantemente de partilhas, likes – têm a função de reproduzir ao
infinito o encadeamento de gostos, atitudes, preferências.
Em
suma, na medida em que as nossa vidas, os nossos trabalhos, tornam-se objeto de
divisão, produz-se uma multiplicação das tarefas através das quais produzimos
quotas variáveis do valor complexamente extraido da totalidade dos processos
que nos incluem.
Dois
exemplos contidos em pesquisas levadas a cabo nos últimos dois anos
permitem-nos pôr em evidência alguns pontos úteis para uma melhor explicação.
Bhavin
é um motorista TVDE, a entidade operadora em que a Uber se apoia para operar em
Lisboa. A sua história de migração desdobra-se em diferentes paises, da India,
à Península Arábica, à Europa.
A
experiência apresentada na nossa conversa condiz com um padrão de vivência –
comum a muitos migrantes, sobretudo os recém-chegados – designável por
exploração e auto-exploração. Um trabalho sem horário, dias e noites a fio,
voltado únicamente à maximização dos rendimentos, e com condições habitacionais
aceitáveis só pela necessidade de reduzir ao mínimo indispensável as despesas.
Não fala português, porque não precisa; a app trata de tudo o que Bhavin
necessita para cumprir as tarefas de motorista. As sua preocupações e os seus
projetos, não têm nada a ver com Lisboa. Estão a milhares de quilometros de
distância – no sul da Índia, de onde ele é originário.
A sua
vida está vinculada à sua habilidade – muito elevada – de interagir com as
apps, que lhe permitem de trabalhar ora num âmbito, ora num outro. Na Índia
trabalhava – por mais ou menos um dolar por hora – por uma agência
internacional de “limpeza” de uns dos sites mais vulgares das vig techs.
Chegado a Lisboa, Bhavin conseguiu levar consigo o mesmo emprego, utilizando a
lingua hindi (um exemplo do fenômeno chamado de migração das infraestruturas
por Xiang e Lindquist). Não obstante uma remuneração horária mais digna, aquele
emprego não lhe permitia levar a cabo o seu projeto, face aos custos mais
elevado da vida em Lisboa. Dai, a escolha, junto com um seu amigo, de alugarem
um carro da TVDE e começar a vida de motorista.
Nos
períodos de elevada presença turística, o carro nunca pára. Bhavin alterna-se
na condução do automóvel com o seu amigo dia e noite. À pergunta se achava
sustentável aquela condição laboral – e, em geral, de vida – a médio-longo
prazo, a resposta foi sem hesitação “não”. Ao mesmo tempo, porém, não conseguia
ver como poderia mudar algo naquele tipo de trabalho. A razão que deu foi muito
clara e não deixou espaço para contestá-la: cada um olhava para si mesmo.
“Estamos estimulados em acreditar que nós não somos trabalhadores, mas, sim,
empreendedores. Temos de suportar tudo ao máximo”.
O
transporte de pessoas por meio de apps pertence ao que a Organização
Internacional do Trabalho (OIT) clasifica como trabalho em “plataformas
baseadas localmente” (Location-based platforms). A mesma tipologia inclui os
riders que entregam comida e outros bens de bicicleta. Para esses
trabalhadores, porém, a situação está em evolução, com mudanças que variam de
paises a paises, de empresas a empresas.
Essa
diferença tem, para Bhavin, uma razão simples. “Eles encontram-se
frequentemente; conversam, trocam experiências, dicas, truques, que tornam o
trabalho mais partilhado. É mais fácil serem contactados por sindicalistas, ou
alguém que lhes explique os seus direitos. Nós, não: para além de uns amigos,
não nos é fácil estabelecer contatos com outros motoristas ao longo do dia de
trabalho. Não há locais de encontro entre nós. Essa é a minha experiência, mas
eu sou estrangeiro e não falo português; não sei como é a situação para os
portugueses”.
Na
altura da nossa conversa, Bhavin tinha tomado a decisão de tentar entrar na
Inglaterra, onde já vivem familiares e amigos, com a hipótese de arranjar
emprego numa empresa que presta serviços ao Facebook. “Para além do emprego, a
coisa mais importante é que ali terei um verdadeiro ambiente de referência, a
coisa que aqui faz mais falta”.
O que
importa salientar do testemunho do co-pesquisador é a clareza com que apresenta
os vários problemas e percalços enfrentados. Desses, Bhavin evidencia as
causas, geradas tanto por escolhas impostas, quanto por elementos que pertencem
inteiramente à esfera da subjetivação. Em outras palavras, o que pertence às
técnicas de domínio, num lado, e às técnicas do si, no outro. Daí, uma
subjetividade que se constitui no espaço que, num outro artigo, foi designado
como Quarto Mundo. É o espaço onde a economia das plataformas exercem o seu
poder imenso de “conduzir as vidas”, num movimento sem fim entre empregos,
paises, apps. Onde, enfim, a multiplicação do trabalho é a referência direta do
sujeito das plataformas.
Aqueles
trabalhadores podem ser definidos precários, ou, talvez, a sua condição seja
mais razoavelmente descrita como nómade? Quando as mudanças interessam não
apenas à vida laboral, mas à vida em si – num continuum que prevê múltiplas
migrações, acompanhadas por apps iguais em todo o mundo – o nomadismo parece
ser o nome mais adequado.
Os
segundo testemunho que se pretende apresentar está ligado à outra grande área
de trabalho desempenhado nas plataformas. O mencionado relatório da OIT
define-o como trabalho em modalidade remota em plataformas online.
Ângelo
trabalha no âmbito da BPO (Business Process Outsourcing). Licenciado em
Geografia Humana, escolheu de deixar o seu pais de origem, chegando a Lisboa em
2018. Peixe limpador do aquário: assim descreveu, de forma feliz, o seu
trabalho: limpa o aquário onde todos nós – navegantes na rede – nadamos,
sujando-o.
A BPO é
um serviço externalizado pelas big techs. Essas precisam de atividades
(serviços aos clientes, desenvolvimento tecnológico, controle sobre a violência
em rede, cyber security, etc.) indispensáveis ao seu funcionamento. As empresas
às quais é externalizado o projeto/serviço –todas de grande tamanho, que operam
a nível internacional – adquirem-no e gerem-no através de filiais espalhadas em
paises europeus e extraeuropeus, onde o custo do trabalho é mais baixo.
Os
trabalhadores das BPOs constituem uma multidão de mil nacionalidades
diferentes, contratados para trabalhar na sua própria língua materna, qualquer
seja o país onde se encontram. Ângelo trabalhava em Portugal, utilizando o
italiano.
“Os
contratos são ou temporários, de dois meses até um ano, ou permanentes. Na
realidade, o sentido dado a permanente indica que os contratos não têm um prazo
preestabelecido, como os precedentes, mas, sim, estão vinculados à duração do
projeto”.
As
atividades laborais desempenhadas nesse âmbito são inúmeras e abrangem o
inteiro leque do suporte técnico que as big techs e as plataformas por elas
gerenciadas precisam. Entre elas, “o content moderator controla tudo o que se
passa na rede, o rater analiza quantitativa e qualitativamente os produtos
comerciais, assim como são apresentados nas pesquisas, por exemplo, do Google
Search. Acima deste nível operativo, colocam-se o team leader, o quality
analyst e o supervisor. No topo desta pirâmide, encontra-se o project
co-ordinator: ele é o sujeito que coordena mais projetos e que relaciona-se
diretamente com o top management”.
As
tarefas mais básicas, nomeadamente o content moderator e o rater, são as que
servem principalmente para avaliar as respostas que a IA dá aos usuários que
pedem informações, no que diz respeito à sua aplicação em todas as atividades
de pesquisa em rede.
“A
relação entre trabalhador e empresa é bastante pobre: tudo o que tem a ver com
as condições laborais está delegado ao Team Leader, que funciona em interface
com a direção dos Recursos Humanos. As contratações são sempre a nível
individual: não existe uma contratação coletiva, que se refira, por exemplo, às
condições gerais de um país”.
O
trabalho em si tem ritmos intensos: “é necessário clicar na tela a cada dois
minutos, para não incorrer em penalidades de quinze minutos de trabalho
perdido. Isso produz um grande stress e ânsia no trabalhador. No caso se
escassa satisfação das performances de um trabalhador, são frequentes as ações
de mobbing, que induzem-no a deixar o emprego por iniciativa própria. Aquelas
empresas, em termos gerais, não despedem, mas “acompanham” o trabalhador a
tomar a decisão de ir embora”.
A
subida dos custos da habitação tornou Lisboa uma cidade insustentável para quem
trabalha em condições não muito favoráveis e, sobretudo para quem não é
proprietário de uma casa. Por essa razão, Ângelo decidiu “migrar” rumo a um
país onde as suas receitas sejam mais compatíveis com o custo da vida.
Assim
como foi para Bhavin, o emprego – e a sua ferramenta material e imaterial –
migrou com ele. Volta aqui, mais uma vez, a pergunta de qual seria a definição
mais adequada – admitindo, sem conceder, que seja necessário achá-la – que
permita às dezenas de milhares de Ângelos descreverem a relação que têm com as
suas vidas de trabalhadores. O fato de eles passarem de uma tarefa para outra –
content moderator, rater, quality analyst – dependendo do país onde se
encontram parece confirmar o que foi dito mais acima acerca da multiplicação do
trabalho induzida pelas tecnologias – e, portanto, da organização do trabalho e
social – que sustentam as redes digitais.
Para
concluirmos – provisoriamente – este artigo, importa salientar alguns pontos
que nos parecem bastante significativos, para os quais são necessários
aprofundamentos que estão fora do nosso alcance.
Estamos
cada vez mais convencidos que o terreno onde temos de levar o conflito é a
rede. Felizmente não é e não será o único terreno possível de conflito, pelo
contrário. As lutas que atravessam o mundo afora indicam que as praças, os
portos, os armazéns, as florestas, continuam sendo lugares de confrontação
entre duas visões contrapostas de vida. Levar o conflito para a rede, porém,
tem um sentido complementar e valorizante em relação àquelas lutas. Atacar o
poder onde ele tem a maior força de produção e gestão de “informações abstrata”
não pode ser uma opção. Por isso, é essencial a participação de
co-pesquisadores, como os nossos dois amigos.
Foram
feitas experiências para tornar a internet mais “democrática”, ou pública –
como relata Tarnoff -, por meio de projetos como Mastodon ou Fediverso. Da
mesma maneira, está sendo experimentada a promoção de uma gestão cooperativa de
plataformas, que favoreça um trabalho mais digno, para “co-empregados” que
sejam sustentados nas suas atividades por serviços partilhados.
Por sua
vez, Nick Srnicek tinha apresentado essas oportunidades já no 2017, no seu
livro Platform Capitalism, salientando, porém, alguns limites. “Se também a
totalidade do seu software fosse de livre acesso, uma plataforma como Facebook
manteria o peso dos dados atuais em sua posse, livre dos efeitos de rede e de
recursos financeiros para derrotar qualquer cooperativa rival”. A confiança que
Srnicek repõe, de outro lado, no papel do Estado para travar plataformas
públicas e regulamentar as plataformas das grandes corporações, parece, porém,
pouco viável, sobretudo à luz do que ocorre hoje. “De forma mais radical –
escreve Srnicek – pode-se empurar para plataformas pós-capitalistas, que
utilizem os dados recolhidos por essas plataformas com o fim de partilhar
recursos, facilitar a participação democrática, e gerar mais desenvolvimentos
tecnológicos”.
Também
Tim Berners-Lee, o criador da World Wide Web, contribuiu para este debate,
salientando a necessidade de “um órgão sem fins lucrativos semelhante ao Cern
(acrônimo para Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), para impulsionar
a pesquisa internacional em IA”. É preciso “resgatar a IA das mãos da big
techs”, porque – escreve Berners-Lee – “em muitas plataformas, já não somos os
clientes, mas sim o produto”.
São
todos elementos que podem contribuir à composição do quadro das iniciativas
possíveis, embora continuem as dúvidas acerca da eficácia dessas hipóteses e da
possibilidade de representarem uma alternativa realística.
Para
além disso, parece-nos que no cerne da questão esteja um assunto mais
problemático, mais complicado. Um assunto também difícil de ser claramente
definido, pelo menos no que nos diz respeito. Por essa razão, o que se propõe é
apenas a tentativa de formulá-lo sob a forma de quesito, ou pouco mais.
O
sucesso das plataformas enraíza-se na capacidade peculiar do sistema geral de
funcionamento do capitalismo – em qualquer altura – de se apropriar da
cooperação social, o alicerce dos processos produtivos e reprodutivos. A
característica do capitalismo digital, plataformizado, baseia a subsunção da
cooperação social no “conectivismo”, ou seja, na prática de extrair informações
– a serem transformadas em “auto-organização” do sistema cibernético – do
homem-máquina social, constantemente conexo e produtivo. O “intelecto geral”
amplia-se, em consequência de uma cooperação social que já não tem limites; a
sua subsunção torna a maquinaria de ordinalização cada vez mais sofisticada.
Isso
representa – parece-nos – as modalidades com que as relações sociais e as suas
consequências entram e animam a “caixa preta”. Ora, o problema principal que
temos à nossa frente poderia ser traduzido nos seguintes termos: como se pode
intervir no sistema do conectivismo? Como subtrair à maquinaria quotas de
cooperação social, de tal forma a produzirem outras conexões entre os múltiplos
sujeitos que intervêm na cadeia de processamento das plataformas? Os
crowdworkers, os “peixes limpadores”, os controlores, os estafetas e os
motoristas, podem encontrar ligações digitais que lhes permitam de agir de
forma comum, para reinvindicarem melhores condições de trabalho e não só?
Mas –
puxando um pouco mais para frente as nossas expectativas – o problema poderia
extender-se a um outro nível. Como promover formas de luta que envolvam, para
além dos sujeitos digitalizados, todos os que operam, principal o unicamente,
na esfera do analógico, ou seja, nos domínios onde hoje já se pode enxergar um
nível elevado de conflitualidade? Dito de outra forma: como conectar a
cooperação social do digital com a do analogico, produzindo saberes que não
sejam facilmente presas da maquinaria da ordinalização e que se articulem –
como força antagônica – ao longo da inteira cadeia de valorização?
As
experiências acima mencionadas para tornar a internet mais democrática, pública
e livre representariam com certeza um valor acrescentado nesta perspectiva. O
Turkopticon mencionado por Pasquinelli, criado por “interromper a
invisibilidade dos trabalhadores”, vai também na mesma direcção.
A
certeza que temos, para além disso, é que levar a luta para a “caixa preta”
seja cada vez mais a condição para começarmos novamente a respirar, uma vez
que, hoje em dia, “respirar é tão diffícil como conspirar”.
Fonte:
Por Stefano Rota, em Outras Palavras

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