sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Gustavo Tapioca: A extrema direita brasileira de joelhos aos pés de Trump

Nixon afundou na guerra às drogas. Bush atolou o mundo na guerra ao terror. Agora Trump tenta ressuscitar dois cadáveres estratégicos — e a ultradireita brasileira, sem dignidade, sem projeto, sem soberania, bate continência e se ajoelha em adoração às vontades do Imperador. O futuro oferecido é um país submisso diante de Washington, preparado para servir de plataforma a guerras que não nos pertencem.

<><> Subserviência mascarada de patriotismo

Os grandes projetos militarizados dos EUA deixaram cicatrizes profundas. A guerra às drogas reforçou cartéis e prisões em massa. A guerra ao terror destruiu países e produziu caos. Agora Trump tenta reciclar esses fracassos com o rótulo de narcoterrorismo. E a extrema-direita brasileira foi a primeira a importar integralmente esse pacote antes mesmo de ser testado plenamente pelos EUA.

Governadores e parlamentares repetem o vocabulário imperial: “narcoterroristas”, “guerra total”, “inimigo interno”. Nada disso nasceu aqui. É importado, é copiado, é obedecido. É, em suma, subserviência mascarada de patriotismo.

<><> São Paulo: o centro operacional da submissão

Sob Tarcísio e Derrite, São Paulo se tornou o bunker do autoritarismo importado. Derrite quer reescrever a lei penal conforme as ordens da Casa Branca e o modelo Bukele. Zucco, Malta, Nikolas, os Bolsonaros Flávio e Eduardo e outros parlamentares da extrema-direita peregrinam a Bukele como discípulos fervorosos e estabelecem estreito contato com o presidente de ultradireita de El Salvador. Enquanto a PM paulista opera sob ethos militar-religioso, São Paulo testa o modelo autoritário de Bukele. E mata indiscriminadamente culpados e inocentes.

<><> O Rio como zona de sacrifício

No Rio, Cláudio Castro elevou a doutrina ao nível de política de Estado. A chacina de 121 mortos no Alemão e na Penha foi justificada com o termo imperial: “narcoterroristas”. O mesmo usado para bombardear pequenos barcos venezuelanas e matar pescadores no Caribe.

Aldo Fornazieri, na CartaCapital, afirma:

“Há indícios fortes de que a chacina no Alemão e na Penha foi deliberada para entregar à direita a bandeira da segurança pública. As articulações que Castro fez com governadores bolsonaristas evidenciam a manobra eleitoral.”

O alerta de Fornaziere relembra que a chacina ocorreu justamente quando Lula subia nas pesquisas. A direita precisava de um choque, de um trauma, de um banho de sangue para reposicionar sua narrativa. E executou.

<><> O Congresso ajoelhado

Hugo Motta nomeia Derrite como relator do PL Antifacção na tentativa de inscrever na legislação brasileira o manual militarizado de Trump. É o Estado policial permanente sendo arquitetado no Congresso.

Teologia da guerra santa; messianismo armado; algoritmo do medo. É assim que a extrema-direita brasileira constrói sua máquina de destruição — e sua conexão direta com o projeto imperial da ultradireita global.

Enquanto desloca porta-aviões, submarinos nucleares e navios de guerra para bombardear barcos de pesca e matar — já circula na mídia o número de 80 pescadores mortos no Caribe —, a direita brasileira prepara o ambiente político para servir ao império. É a volta da Doutrina Monroe, agora em português, com operadores locais.

<><> A ofensiva global da ultradireita

Há uma ofensiva coordenada da extrema-direita global. Trump exporta sua doutrina como franquia ideológica. Bukele vira o cardeal punitivista do império. Milei converte a Argentina em laboratório ultraliberal e vassalo econômico dos EUA. A Europa vê neofascismos avançarem. A extrema-direita brasileira se integra a essa estrutura como colônia ideológica — feliz e voluntariamente.

Enquanto o BRICS cresce e o Sul Global se reorganiza para romper com a hegemonia dos EUA, a extrema-direita brasileira faz o contrário: entrega soberania, território e narrativa ao império.

Há um movimento internacional em curso — uma ofensiva coordenada, agressiva e bem financiada da ultradireita global para reorganizar o mundo segundo interesses de Washington, Wall Street e do complexo industrial-militar norte-americano. O Brasil não está fora desse tabuleiro. Pelo contrário: é peça decisiva.

<><> Trump redesenha o tabuleiro e exporta sua doutrina

Desde que reassumiu protagonismo político, Donald Trump opera abertamente para construir uma aliança autoritária global, baseada em violência estatal, demonização de inimigos internos, ataques a imigrantes e adoção de doutrinas militares para “resolver” problemas sociais.

A Doutrina Trump de “narcoterrorismo”, fechamento de fronteiras e militarização está sendo exportada como franquia ideológica para governantes submissos. E dois presidentes tornam-se peças-chave nessa engrenagem.

<><> Bukele: o cardeal punitivista do império

Nayib Bukele é hoje o principal garoto-propaganda de Trump na América Latina. Seu país virou vitrine de mega-presídios, laboratório de exceção jurídica, zona livre de direitos humanos. Bukele não governa El Salvador. Administra um protótipo para exportação.

E a extrema-direita brasileira vai a San Salvador — com dinheiro público de diárias gordas, sorridente como turistas em direção à Disneylândia — aprender com um tutor competente como aprimorar conhecimentos para destruir direitos, normalizar a barbárie, prender, torturar e matar.

Derrite, Zucco, Malta, Nikolas, os Bolsonaros Eduardo e Flávio e outros parlamentares da extrema-direita veem Bukele como inspiração — como se o fracasso humanitário salvadorenho fosse manual de governo.

<><> Milei: o vassalo econômico

Na Argentina, Javier Milei cumpre outro papel: converter uma nação inteira em experimento ultraliberal radical, colapsando o Estado para entregar o país às corporações internacionais via destruição acelerada de serviços públicos, entrega de recursos naturais, submissão irrestrita ao dólar, ataque direto aos direitos sociais.

A política externa de Milei é ainda mais explícita. Ele se coloca como súdito ideológico de Trump, como ponta avançada da ultradireita no Cone sul. E a extrema-direita brasileira vê em Milei o “modelo econômico” complementar ao “modelo policial” de Bukele.

<><> A Europa em chamas: a marcha dos neofascismos

A ofensiva da extrema-direita não se limita às Américas. Na Itália, Meloni reabilita teses autoritárias com verniz nacionalista. Na Hungria, Orbán converte o país em laboratório de democracia iliberal. Na França, a extrema-direita flerta com o poder. Nos EUA, governadores republicanos desafiam abertamente direitos civis.

Tudo isso acontece sob a sombra do trumpismo internacional e de uma doutrina que combina ódio, militarização, xenofobia e perseguição a adversários políticos. A extrema-direita brasileira se integra a esse movimento com entusiasmo de colônia e dedicação sem reservas e sem limites.

<><> Brasil: peça-chave do imperialismo do século XXI

É neste contexto global que a extrema-direita brasileira se entrega inteiramente ao papel de satélite militar, de plataforma de operações, testa de ferro regional e repetidora ideológica da nova Doutrina Trump.

Enquanto China, Índia e países do Sul Global se reorganizam para romper com a hegemonia norte-americana, a extrema-direita brasileira caminha na direção oposta: volta ao século XX, volta ao colonialismo, volta à lógica de tutela estrangeira.

E tudo isso ocorre justamente quando o Brasil recupera protagonismo diplomático, no momento em que Lula recoloca o país no centro do debate climático, o BRICS+ se expande e novas rotas tecnológicas e energéticas surgem fora do eixo EUA–Europa.

Trump sabe que não pode perder o Brasil — nem permitir um segundo mandato forte de Lula 4.0. Por isso, seu exército ideológico latino-americano em geral — e brasileiro, em particular — atua sem disfarces.

<><> A reeleição de Lula e o pânico no gabinete do imperador

As pesquisas apontam para a reeleição no segundo turno. Trump sabe disso — e não aceita. Prefere um Milei, um Bukele ou qualquer “brother” brasileiro disposto a obedecer. A histeria da direita brasileira — que sequer tem candidato indicado para concorrer contra Lula — é reflexo direto desse pânico geopolítico.

Trump tenta ressuscitar duas guerras fracassadas. A extrema-direita brasileira aceita ser seu capataz. O Brasil pode ser arrastado para conflitos que não são nossos.

<><> Uma escolha muito difícil

Mais uma vez, surge a célebre frase —  “Uma escolha muito difícil” —  título de editorial do jornal O Estado de S. Paulo, publicado em 8 de outubro de 2018, durante a corrida presidencial entre Bolsonaro e Haddad. Dessa vez, envolvendo Lula e um candidato que ninguém sabe ainda quem é. O dilema do Estadão em 2018 pode ressurgir a qualquer momento em forma de pergunta inquietante:

O Brasil continuará ajoelhado aos pés do Tio Sam  Imperador e Senhor da Guerra — ou dirá NÃO ao papel de colônia militar do império?  

¨      A ultra-simpatia do governo Milei com Trump. Por Maíra Vasconcelos

Javier Milei cumpriu com o que havia dito, em uma reunião do Mercosul, que faria acordos com os Estados Unidos fora do bloco. E assim foi, ainda que isso signifique a diminuição do peso da Argentina no Mercosul. Para alguns, um pacto desequilibrado. Evidentemente, com a balança pendendo com sobra para o lado de Washington. É histórico, mas não é um acordo de livre comércio, destacam. Em décadas, é o mais importante e opulento acordo entre os Estados Unidos e a Argentina.

Em resumidas linhas, os países darão início a uma relação comercial baseada na “livre empresa e abertura de mercado”, redução de tarifas aduaneiras, eliminação de travas comerciais e alinhamento regulatório. O acordo alcança diversos setores da economia. O agronegócio argentino festeja, ao menos assim afirmam os jornais locais.

O interesse de Donald Trump é também bloquear os acordos da Argentina com a China. Para alguns analistas, esse é o objetivo do governo ultra, muito além das relações comerciais ditadas pelo acordo. Tal postura abertamente anti-China do governo Milei é outro modo de se alinhar de modo irrestrito ao governo do Norte. Esse posicionamento tão radicalmente pró-Estados Unidos é algo inédito na política nacional, não visto, sequer, nos governos de Carlos Menem e Mauricio Macri. 

O jornalista Alejandro Rebossio escreveu no jornal “El DiarioAR”, “do texto de Washington, conclui-se que a Argentina cede em 30 itens específicos, enquanto os EUA cedem apenas em dois”. Talvez seja esse o preço que a Argentina tenha que pagar após o resgate econômico vindo do dos Estados Unidos, durante a campanha eleitoral de outubro.

Naquele então, Donald Trump surgiu como um novo protagonista da política local. Na prévia das eleições legislativas, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou um swap cambial de 20 bilhões de dólares para a Argentina e compra de dívida. O presidente estadunidense havia pedido um resultado concreto para logo após a eleição continuar apoiando o país financeiramente. A vitória da ultradireita chegou e o mileismo conquistou um Congresso reconfigurado a favor do governo.

Não é um dado menor, muito pelo contrário, que com o resultado favorável nas legislativas o governo passou a ter número suficiente nas duas Câmaras, por exemplo, para que o presidente não sofra nenhum processo político, como também para lograr aprovação de decretos e vetos presidenciais. Na Câmara dos Deputados, os libertários passaram de 39 a 96 cadeiras, e saíram de seis para 19 senadores.

Se era necessário mostrar apoio nas urnas, o governo de extrema-direita entregou à Casa Branca uma contundente vitória em nível nacional. A chamada eleição de meio de mandato teve um peso tão crucial que abriu-se um precedente para se repensar toda a política nacional. Quer dizer, existe um antes e um depois do 26 de outubro. No entanto, isso não necessariamente assegura uma vitória presidencial em 2027. Além do mais, uma das interpretações mais difundidas pela mídia local é que parte da cidadania argentina escolheu dar mais uma chance, talvez a última, ao mileismo.

Por isso, também, mesmo que o plano econômico de Milei fracasse, teria ficado evidente que qualquer alternativa ao peronismo poderia ser uma opção para suceder os libertários, seja um cozinheiro famoso, um político da direita tradicional, ou um novo Milei, como dito em um editorial do Le Monde Diplomatique.

Mesmo que seja um velho traço conhecido da sociedade argentina, o antiperonismo mostrou-se mais forte do que se esperava, ou contra todas as previsões pode ter sido o vencedor. Conseguiu se impor como força social capaz de passar por cima de supostos casos de corrupção que saíram à luz, envolvendo Karina Milei, secretária da Presidência, e um candidato-chave da lista de candidatos deputados do partido “A liberdade avança”, que teria recebido até 200 mil dólares de um acusado por narcotráfico e lavagem de dinheiro (há provas contundentes).

O resgate econômico pré-eleitoral vindo dos cofres de Washington, que pavimentou a vitória mileista, significou uma exceção dentro dos conhecidos salvamentos realizados pelo chamado Fundos de Estabilização Cambiária dos Estados Unidos, ativado historicamente em graves crises financeiras. Como México em 1995, Coréia do Sul em 1997, Brasil em 1999 ou Turquia em 2001, explicou em artigo o pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), Bernabé Malacalza.

Após Milei ter conseguido virar o jogo da política interna, não sem a “ajuda” dos Estados Unidos, que agora está de olho nos países da América do Sul (Colômbia, Brasil e Peru têm eleições em 2026), o acordo comercial é usado também como superexposição da relação carnal entre ambos governos de direita radical.

O presidente argentino irá viajar novamente aos Estados Unidos para então assinar o acordo que ainda entrará em vigência. Além do mais, os detalhes e implicações do chamado Marco para um Acordo sobre Comércio e Investimentos Recíprocos estão por serem conhecidos.  Apenas sobre um item, cito textual, “A Argentina e os Estados Unidos cooperarão para facilitar o investimento e o comércio de minerais críticos. Também concordaram em trabalhar para estabilizar o comércio global de soja”. A questão agora, se é que há alguma novidade, é como ocorrerá a abertura, principalmente, ao mercado de minerais, como no caso do tão comentado lítio argentino.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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