“Lula
está entregando a Amazônia para os países ricos”, diz Alessandra Munduruku
A
liderança indígena Alessandra Korap Munduruku criticou duramente a visita do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (2) às comunidades
indígenas e ribeirinhas de Santarém (PA), na região do Baixo Rio Tapajós. A
poucos dias do início da COP30, em Belém, ela classificou a presença do
presidente como “incoerente” diante do Decreto nº 12.600, de 28 de agosto, que
incluiu as hidrovias dos rios Tapajós e Tocantins-Araguaia, no Pará, e Madeira,
no Amazonas e Rondônia, no Programa Nacional de Desestatização (PND). O projeto
promete entregar mais de 3 mil quilômetros de trechos navegáveis dos rios
amazônicos para a iniciativa privada e atende aos interesses do agronegócio e
de outros setores econômicos.
“Mesmo
o presidente Lula andando com os povos indígenas, mesmo que o presidente Lula
às vezes demarque uma terra ou duas terras indígenas como ele vem fazendo,
parece que ele está na contramão. Parece que, se ele dá uma terra, você tem que
dar o seu rio, sua floresta em troca. E não adianta falar pelo nome do meio
ambiente, não adianta falar pelos povos indígenas, se ele está entregando a
Amazônia para os países ricos”, disse Alessandra em entrevista à Amazônia Real
nesta terça-feira (04).
O
presidente Lula esteve na comunidade Jamaraquá, na Floresta Nacional do Tapajós
e na Aldeia Vista Alegre do Capixauã, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns,
para participar de reuniões e rodas de conversas.
Na
Aldeia Vista Alegre do Capixauã, o presidente prometeu o fornecimento de
energia para mais de 4 mil famílias que vivem no território, além da criação de
uma Universidade Indígena, com sede em Brasília.
Durante
a visita, Lula participou de várias atividades do cotidiano dos ribeirinhos e
quilombolas. Ele presenciou uma coleta
de cacho de açaí, participou de uma produção de farinha e comeu bolo de
macaxeira, no que ele chamou de “maratona de sabores”. Todos os registros foram
postados de forma entusiasmada em suas redes sociais.
Conforme
a Agência Brasil, em conversa com lideranças locais, Lula disse ter ficado
surpreso com a falta de energia elétrica na comunidade e prometeu que resolverá
o problema.
“Uma
coisa que eu estranhei. Eu pensei que tinha energia, porque eu estou vendo uma
luz acesa aqui, e eu vi que todo mundo se queixou de energia”, disse o
presidente.
“Hoje a
energia é a coisa mais fácil para a gente fazer, porque a gente pode fazer
placa solar, a gente pode preservar o ambiente, pode trazer energia para vocês.
E eu prometo para vocês que vocês vão ter energia aqui na comunidade de vocês”,
reforçou Lula.
O
presidente Lula está na região Norte desde o dia 1º de novembro. A visita a
comunidades indígenas e ribeirinhas faz parte da agenda prévia de Lula antes da 30ª Conferência das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima (COP30), que acontecerá no período de 10 a 21 de
novembro, em Belém.
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Líder diz que Lula foi fazer “maquiagem”
A
visita e a fala do presidente na região do Tapajós-Arapiuns revoltaram
lideranças indígenas e movimentos locais devido à incoerência na retórica de
Lula. Muitos apontaram para a contradição entre o discurso e as ações do
governo federal sobre os direitos dos povos indígenas e do meio ambiente.
“O povo
Munduruku, nas discussões que a gente tem, as mulheres mais velhas se preocupam
com isso. Porque era um presidente para respeitar os povos indígenas e não está
respeitando. Está negociando, está vendendo a Amazônia, está negociando a nossa
paz, que a gente já não tem há 525 anos e ainda continuam vendendo a nossa
paz”, disse Alessandra Korap Munduruku.
O
Conselho Indigena Tupinambá do Baixo Tapajós – Amazônia (CITUPI) publicou uma
nota criticando a exclusão das lideranças do povo na agenda do presidente, uma
vez que o território fica próximo das áreas visitadas por Lula.
“Nós,
povo Tupinambá, consideramos uma afronta às nossas aldeias, ele vir tão próximo
de nós, ao lado do nosso Território e nossos caciques e representantes não
serem convidados a participar e levar nossa voz, nossas demandas. Estamos sendo
envenenados pelo mercúrio presente no nosso rio, temos nossas terras inseguras
e agora véspera de COP30, não aceitamos que use a imagem da Amazônia, dos povos
indígenas para dizer que está tudo bem”, diz um trecho da nota.
À
Amazônia Real, o cacique-geral das 28 aldeias do povo Tupinambá, Gilson
Tupinambá, disse que o desinteresse de Lula em não dialogar com as lideranças
da etnia tem a ver com o projeto da Ferrogrão, que vai afetar várias
comunidades indígenas e a concessão do rio Tapajós para beneficiar o
agronegócio. Para ele, Lula não quis ouvir os indígenas contrários a esses
empreendimentos e foi ao Tapajós “fazer maquiagem”.
A
ferrovia é um dos empreendimentos mais controversos para esta região do
Tapajós. Ela vai afetar comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e
assentamentos.
“Não
fomos consultados sobre esses projetos. Ele quer privatizar quatro rios,
inclusive o Tapajós. Isso faz parte do projeto da Ferrogrão. É um desrespeito
com nosso modo de vida, nossa cultura, nossa vida. Querem escavar um rio que é
largo, mas não é fundo. A gente depende do pescado. Escavar o rio, além de
desrespeito, é dizimar os povos”, disse Gilson, nesta terça.
Mesmo
com a autodemarcação em curso há pelo menos cinco anos, a TI Tupinambá no
Tapajós (que está sobreposta à Reserva Extrativista Tapajós – Arapiuns) tem
também um processo de regularização na Fundação Nacional dos Povos Indígenas
(Funai), segundo Gilson.
Os
Tupinambá do Baixo Tapajós se preparam para ir a Belém, onde participarão da
COP30. Conforme Gilson, seu povo vai fazer “seu grito ancestral em ato
político”. “Temos que ter vez e voz”, afirmou.
O
Movimento Tapajós Vivo, organização que reúne comunidades indígenas,
ribeirinhas e populações tradicionais da região em defesa do rio Tapajós,
também publicou uma nota de repúdio nas redes sociais.
Além de
criticar o decreto que privatiza os rios
Tapajós, Madeira e Tocantins-Araguaia para uso logístico do agronegócio, a
organização destacou o apoio do Governo Federal ao projeto de exploração de
petróleo na foz do rio Amazonas.
“Medidas
que ameaçam diretamente nossos territórios, modos de vida e ecossistemas
fundamentais para a Amazônia. Não aceitamos ‘jardinagem’ no período da COP30
sem a devida coerência e compromisso socioambiental”, afirmou a organização.
Após
publicação dessa reportagem, a Secretaria de Comunicação Social do governo
federal enviou nota dizendo que “a visita do presidente Lula à Aldeia Vista
Alegre do Capixauã, no último domingo (2), teve como propósito conhecer a
realidade da comunidade que vive na Resex Tapajós Arapiuns”.
Conforme
a nota, “as lideranças presentes, dentre elas o vice-presidente do Conselho
Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), Lucas Tupinambá, e Maria José, que
representou a organização das associações da Resex, foram a pedido da
comunidade, a qual se organiza no CITA e desenvolve parcerias com os demais.”
A nota
conclui dizendo que “a agenda não se tratou de uma mesa de negociação ou mesmo
uma reunião com lideranças indígenas, de modo que a Presidência não fez nenhum
convite a entidades. A agenda foi uma visita para aquela comunidade específica,
para conhecer a realidade local”.
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Privatização dos rios
O rio
Tapajós já sofre múltiplas pressões com contaminação por mercúrio, projetos de
barragens e hidrelétricas, portos construídos para o escoamento do agronegócio
e o impacto de agrotóxicos e estiagens severas. Um exemplo é a tentativa de
construção do Complexo Hidrelétrico do Tapajós, um conjunto de hidrelétricas
planejadas para o rio Tapajós, que inclui as usinas de São Luiz do Tapajós,
Jatobá, Jamanxim, Cachoeira do Caí e Cachoeira dos Patos, entre outras
propostas.
Graças
a luta dos povos indígenas, sobretudo os Munduruku com a autodemarcação, e
comunidades tradicionais do Médio Tapajós, apoio do MPF e protocolos de
consulta, atualmente o projeto está paralisado. O licenciamento ambiental da
Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós foi arquivado pelo Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), embora a
retomada do projeto não tenha sido descartada para o futuro.
A
recente decisão de ampliar a participação privada em setores de infraestrutura
faz parte de um processo de avanço da política de privatizações do governo
Lula. O atual projeto de leilão das hidrovias foi lançado em 2023 com o nome
Plano de Geral de Outorgas (PGO) Hidroviário, pela Agência Nacional de
Transportes Aquaviários (Antaq) e Ministério dos Portos e Aeroportos (Mpor). No
início deste ano, o programa incluiu o rio Tapajós no Plano para transporte de
soja, minérios e outras commodities do agronegócio.
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A floresta como mercadoria
Para
Alessandra Munduruku, o decreto desrespeita até mesmo o mundo espiritual dos
povos indígenas do Tapajós, que entendem a floresta e o rio como seres sagrados
e não como moeda de troca.
“A
riqueza para nós não é o que está debaixo da terra, são os recursos naturais.
Quando o Karosakaybu [ancestral Munduruku criador do mundo] criou o rio
Tapajós, ele tinha uma sabedoria ancestral. E o Lula, quando veio, entregou a
nossa vida para o agronegócio. Sem nos consultar, o próprio presidente viola
nossos direitos, viola a nossa vida. Ele está violando o mundo espiritual e o
conhecimento tradicional. Ele não está respeitando”, manifestou a liderança.
O
projeto da Hidrovia do Tapajós contempla cerca de 250 quilômetros de via
navegável entre os municípios de Itaituba e Santarém, no Pará. No rio
Tocantins, o traçado deve se estender por 1.731 quilômetros, entre Belém (PA) e
o município de Peixe (TO). Já a Hidrovia do Madeira prevê a navegação entre
Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM), conectando-se ao rio Amazonas em um
percurso estimado de 1.075 quilômetros. Os trechos atravessam territórios
quilombolas, ribeirinhos, indígenas, além de unidades de conservação. O rio
Madeira é um dos principais afluentes do rio Amazonas.
Os
estudos específicos para a concessão da hidrovia do Tapajós ainda não foram
concluídos. No entanto, o governo afirma que análises preliminares realizadas
pelo Departamento Nacional de
Infraestrutura e Transportes (Dnit) apontam que o rio tem potencial para
receber navegação de cabotagem (entre portos do próprio país) e de longo curso
(ligação com portos internacionais), desde que sejam feitas obras de dragagem
corretiva e aprofundamento do canal.
Caso
essas intervenções ocorram, o volume de embarcações que circulam pelo Tapajós
poderá ser ainda maior do que o inicialmente previsto pelo governo. Mas o
trecho do rio Tapajós entre as cidades Itaituba e Santarém já é ameaçado pelo
avanço do escoamento de cargas do agronegócio.
“Mesmo
ele [Lula] falando para o mundo todo, que todo mundo tem que ter soberania, mas
que soberania é essa? Se nós não podemos ter acesso ao nosso rio, se os povos
indígenas não estão sendo consultados, de forma livre, prévia, informada. A
gente está enfrentando uma barra esse ano antes da COP30. O que que mais o
presidente Lula vai vender? A floresta virou uma mercadoria”, afirmou
Alessandra Munduruku
Segundo
o governo federal, a promessa é modernizar a navegação e reduzir custos
logísticos no transporte de grãos e minérios do Mato Grosso para o chamado Arco
Norte, complexos de transporte rodoviário, ferroviário e hidroviário
responsáveis pelo escoamento dessas cargas e insumos pelos portos ao Norte do
Brasil. As futuras concessionárias deverão assumir a responsabilidade de
executar serviços de dragagens, balizamentos, sinalização, gestão ambiental e
controle de tráfego aquaviário nos rios, atualmente feitos pelo Dnit.
Outras
obras que ameaçam a vida e os territórios dos povos tradicionais da Amazônia
estão na rota do Arco Norte, como a construção da ferrovia conhecida como
Ferrogrão e a ampliação do asfaltamento da BR-163, considerada rota essencial
para o escoamento da produção do agronegócio da região Centro-Oeste, com acesso
direto ao porto de Miritituba (PA). Os principais investidores portuários
privados do Arco Norte incluem grandes corporações do agronegócio e mineradoras
como Hydro, Alunorte, Bunge, Cargill, Grupo André Maggi e Vale.
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Demarcações paralisadas
O povo
Munduruku trava uma luta histórica em defesa das terras indígenas Sawré Ba’pim
e Sawré Muybu, localizados na área do Médio Rio Tapajós, nas cidades paraenses
de Itaituba e Trairão. As demarcações desses territórios ancestrais estão
ameaçadas ou paralisadas.
Em
abril de 2023, durante o último dia do Acampamento Terra Livre (ATL), Joenia
Wapichana, presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), assinou
os Despachos Decisórios que reconheceram a Terra Indígena Sawre Ba’pim como
ocupação tradicional dos Munduruku. A identificação e a delimitação do
território pela Funai é o primeiro passo do procedimento administrativo de
demarcação das terras indígenas, regido pelo Decreto 1.775/1996, que efetiva os
direitos territoriais. Já em setembro de 2024, depois de mais de 17 anos de
luta, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, assinou a Portaria 779/2024,
demarcando e declarando a posse permanente do povo Munduruku sobre a Terra
Indígena Sawré Muybu.
A
assinatura ocorreu em Brasília e contou com a presença do cacique Juarez
Munduruku, liderança histórica que há anos alerta para os riscos do avanço do
garimpo e do desmatamento na região. A TI Sawré Muybu é considerada emblemática
devido às ameaças constantes de garimpo ilegal e empreendimentos do
agronegócio. A próxima etapa é a homologação pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, ainda sem data definida.
Fonte:
Por Nicoly Ambrosio, em Amazônia Real

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