James
Neimeister: Zohran Mamdani é um de nós
Zohran
Mamdani é um de nós. Há cerca de 9 anos, eu me filiei aos Socialistas
Democráticos dos Estados Unidos (DSA, na sigla em inglês), junto com milhares
de outras pessoas — muitos deles jovens, desapontados e indignados com o
sistema político estadunidense, em busca de uma alternativa. No mesmo ano em
que Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, Bernie Sanders, o
senador independente e socialista, conquistou mais de 13 milhões de votos nas
primárias presidenciais do Partido Democrata.
Foi num
âmbito de derrota que fomos reconstruindo das cinzas o que é hoje a maior
organização socialista na história estadunidense, com mais de oitenta e cinco
mil membros. Nesse meio tempo, pouca gente acreditaria que, num dia não tão
distante, um de nós iria conquistar mais de um milhão de votos e virar prefeito
da maior cidade do país.
Nesse
caminho, entre dúvidas e controvérsias, temos discutido a relação entre DSA e
Partido Democrata, levantado questões sobre coalizão e independência
programática e a relação entre DSA, seus candidatos e mandatos — ao longo dos
anos, sem resolver definitivamente essas questões, tanto Zohran quanto todos
nós aprendemos muito.
Em
2017, a seção nova-iorquina do DSA votou para apoiar duas candidaturas a
vereador: a do pastor luterano palestino Khader El-Yateem, que competiu nas
primarias democratas num bairro com grande população de imigrantes árabes e
muçulmanos; e a do professor Jabari Brisport, que disputou as eleições gerais
como candidato do Partido Verde e numa linha independente socialista. Ambos os
candidatos perderam. O pastor El-Yateem fez quase 3.000 votos contra 3.600 de
seu adversário; e o professor Brisport, 9.000 votos contra 21.000.
Apesar
da derrota, militantes do NYC-DSA ganharam experiência, organizando uma forte
campanha de rua, formando novos laços nas comunidades e ganhando novos membros
— um deles foi Zohran Mamdani, que havia atuado como voluntário na campanha do
pastor El-Yateem.
Naquela
época, Seth Ackerman publicou o texto “A Blueprint for a New Party” na revista Jacobin, que
até hoje é referência nos debates sobre o DSA e o Partido Democrata. Ele
investiga a pergunta clássica: Por que não existe um partido
trabalhista nos Estados Unidos, algo que torna o país quase único entre as
democracias do mundo? O fato é que o bipartidismo estadunidense é
batizado pela lei e peça cultura política. A eleitora democrata média odeia
partidos alternativos por serem “sabotadores que só ajudam os republicanos”.
Até a constituição estadual de Nova York garante que a gestão das eleições seja
controlada por oficiais nomeados pelos líderes dos dois partidos políticos,
como se fossem os únicos possíveis.
No
texto, Ackerman propõe que candidatos trabalhistas concorram nas primárias
democratas, usando a linha que eles têm quase garantida e levando a luta de
classes com eles em um eventual mandato, a fim de ampliar uma base socialista.
Em média, as primárias são muito mais fáceis de ganhar em termos financeiros e
em termos do número de votos necessários, o que dá mais chances pras campanhas
insurgentes ganharem com um número menor de eleitores.
“A
nossa situação é mais parecida com a dos partidos da oposição em países
autoritários, como Rússia e Singapura”, conclui Ackerman. Eu diria que é até
mais parecida com a situação da oposição consentida e a oposição
antiautoritária dentro do MPB durante a ditadura militar brasileira. Amando ou
odiando, e tendemos odiar, estamos juntos num único partido legalizado.
Sem
contar toda a história do resto dos últimos 9 anos, essa continua sendo a
posição mais ou menos de consenso dentro do DSA no geral, e NYC-DSA, em
particular. Em 2018 na cidade de Nova York elegemos a senadora estadual Julia
Salazar e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, atraindo uma nova onda de
filiações ao DSA, ao redor dos EUA. Em 2019, fizemos campanha a favor de uma
série de reformas que fortaleciam o controle sobre o preço dos aluguéis contra
a forte oposição dos proprietários e do então governador Andrew Cuomo. Em 2020
elegemos mais quatro legisladores estaduais, sendo um deles Zohran. Logo depois
das eleições, lançamos uma campanha para taxar os ricos e financiar políticas
públicas para enfrentar a pandemia e a crise econômica. Em 2021 apoiamos seis
candidatos a vereador e elegemos dois. Em 2022 apoiamos 11 candidatos,
defendendo 6 e ganhando mais um mandato, numa campanha focada no combate à
crise climática. Em 2023 aprovamos a lei de energia pública de Nova York,
obrigando a autarquia de hidroelétricas do estado a investir diretamente em
parques solares e eólicos.
Não é à
toa que um grupo de apenas seis deputados e três senadores estaduais, numa
legislatura com centenas de membros, conseguiu fortalecer o controle de
aluguéis, taxar os ricos e impulsionar o investimento público em fontes
energéticas renováveis. Enquanto NYC-DSA, a nossa estratégia é baseada no
aumento de pressão dentro e fora do legislativo. Com uma bancada disciplinada e
ágil, influenciando outros legisladores progressistas e reformistas a apoiar
nossas pautas, com campanhas de rua em apoio a essas ações e lançando
candidaturas contra nossos opositores — ganhando e perdendo —, vimos nosso
poder crescer.
Durante
esse tempo, Zohran serviu informalmente como líder da bancada, sustentando
nossas maiores conquistas e lidando com as contradições e controvérsias
internas. A relação entre o DSA e seus mandatos, já que DSA não é um partido
legalizado nem a única força política no campo progressista, além do fato de
que nossos mandatos são ganhos na linha Democrata, é uma questão complicada.
Nos momentos de maior tensão em nosso campo, Zohran sempre escutava os seus
colegas e o movimento. Ele sempre utilizou sua voz para lembrar a bancada e o
nosso movimento do que a gente tem em comum, de que apesar das contradições,
nós temos que seguir em frente unidos, porque temos um mundo a ganhar.
Essa
campanha começou com escuta — com Zohran
entrevistando eleitores e perguntando por que tantos nova-iorquinos haviam
votado em Donald Trump. E a resposta foi simples: foi Trump quem mais havia
falado sobre os problemas atuais da população, principalmente sobre o custo de
vida. E o custo de vida virou o tema principal da campanha, com uma agenda
simples de entender e lembrar: tarifa zero nos ônibus, congelamento de aluguéis
e cuidado infantil universal.
Durante
essa campanha, eu até me questionava: por que a esquerda não critica
ele mais? Na minha vida política curta, eu tenho observado que a
esquerda tende a ser mais cética e crítica de quem exerce o poder. E com razão.
Uma ou outra vez, o Zohran deu respostas e tomou posições que não agradaram
todos no nosso movimento e fora dele, por exemplo: Desde o começo, ele falou
que, se fosse eleito, ele não iria retirar orçamento da polícia. Recentemente,
ele prometeu manter Jessica Tisch, herdeira de uma família bilionária e
punitivista que também supervisionou uma queda no crime e combateu a corrupção
no alto escalão da força, como Comissária do Departamento de Polícia de Nova
York. Perguntado inúmeras vezes sobre Israel, Zohran tende a responder que o
Estado de Israel tem direito de existir — como um Estado democratico com
direitos humanos para todos.
Muitas
vezes durante esta campanha, Zohran citou o ex-prefeito Ed Koch, que falou “If
you agree with me on 9 out of 12 issues, vote for me. If you agree with me on
12 out of 12 issues, see a psychiatrist” [se você concorda comigo em 9 de 12
assuntos, vote em mim. Se concorda em todos eles, procure um psiquiatra].
Zohran ganhou tanta nossa confiança porque ele vem falando desde o começo que,
ao ser eleito, teria que governar uma cidade diversa, complexa, e lidar com
contradições impossíveis de resolver. Dizendo desde o começo que ele não está
acima de qualquer crítica, mas sem tergiversar quanto ao tema básico da
campanha, o custo de vida, ele inspirou e apaziguou até as pessoas mais céticas
que eu conheço.
Em
nossa curta história como movimento, nunca elegemos um prefeito e nunca
exercemos o poder executivo. E nunca estivemos tão preparados quanto agora. Num
cenário em que o governo Trump sequestra nossos vizinhos imigrantes, provoca
aumentos surreais no custo de vida e começa novas guerras, não tem como não
disputar o poder. Temos que construir um movimento majoritário.
Ontem,
Zohran ganhou mais de 1 milhão de votos, a maior votação obtida por qualquer
prefeito em Nova York desde 1965. Durante a campanha toda, mais de 100.000
voluntários tocaram mais de 3 milhões de portas, escutando e conversando com o
povo.
Zohran
é um de nós, sim. Mas ele é só um, e nós somos milhões.
¨
O que a vitória de Mamdani e de outros democratas
significa para Trump
Zohran
Mamdani protagonizou, na terça-feira (4/11), um dos triunfos mais simbólicos
obtidos pelos democratas durante o segundo mandato do presidente
americano Donald Trump.
Com 34
anos, muçulmano e socialista, Mamdani será
o próximo prefeito de Nova York. Ele venceu por
ampla margem o ex-governador do Estado Andrew Cuomo, que se apresentou como
candidato independente, e o republicano Curtis Sliwa.
Com 91%
das urnas apuradas, Mamdani obteve 50,4% dos votos, contra 41,6% de Cuomo e
7,1% de Sliwa.
Mas o
que representa sua vitória para o presidente americano, com quem já se
enfrentou publicamente? E quais as consequências deste e de outros resultados
favoráveis ao Partido Democrata, que vem encontrando dificuldades para fazer
frente a Donald Trump?
<><>
'E assim começa!'
No seu
primeiro discurso após a publicação dos resultados da eleição, Mamdani se
dirigiu abertamente ao presidente.
Com tom
desafiador, ele declarou: "Por isso,
Donald Trump, eu sei que você está assistindo. Só tenho estas palavras para
você: aumente o volume!"
"Em
última análise, se alguém pode demonstrar a uma nação que foi traída por Donald
Trump como é possível derrotá-lo, é a cidade que o viu surgir", prosseguiu
o prefeito eleito.
"E,
se existe alguma forma de aterrorizar um déspota, é desmantelando as mesmas
condições que permitiram que ele acumulasse seu poder. É assim que vamos parar
não só Trump, mas é assim que vamos parar quem vier depois dele."
O
presidente americano já havia ameaçado reter fundos federais para Nova York, se
Mamdani vencesse as eleições. E, na própria terça à noite, Trump postou na sua
rede Truth Social: "E ASSIM COMEÇA!"
Ainda
que sem se referir diretamente à vitória de Mamdani, Trump atribuiu a derrota
dos republicanos em diversos pleitos, também pela Truth Social, à ausência do
seu nome nas cédulas de votação e ao fechamento do governo americano — que, com 35
dias, já se transformou no mais longo da história do país.
"À
noite, como sabem, não se esperava uma vitória", afirmou Trump, em um
evento com senadores. Ele também reconheceu que as eleições foram "muito
democráticas" e não foram "boas para os republicanos".
Donald
Trump havia chamado Mamdani de "comunista lunático" e apoiou o
ex-governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo. Por isso, a vitória do
socialista é considerada uma derrota para as aspirações do presidente na
cidade.
Prevê-se
que a relação entre ambos será tumultuada e é preciso esperar para ver se, de
fato, Trump irá cumprir ou não com sua ameaça de um possível bloqueio de fundos
destinados a Nova York.
Novamente
se dirigindo a Trump, Mamdani declarou que, "para chegar a qualquer um de
nós, você terá que passar por cima de todos nós".
<><>
Outros triunfos
O
triunfo de Mamdani não foi o único registrado pelos democratas na terça-feira
(4/11).
Nos
Estados americanos de Nova Jersey e da Virgínia, a oposição ao governo federal
também conseguiu impor seus candidatos.
A
democrata Abigail Spanberger, por exemplo, venceu as eleições para o governo da
Virgínia, após uma acirrada disputa eleitoral. A ex-congressista e agente da
CIA derrotou a vice-governadora republicana do Estado, Winsome Earle-Sears.
As
eleições da Virgínia eram consideradas um indicador do sentimento das pessoas
em relação às políticas do governo federal americano.
O
Estado do leste dos Estados Unidos abriga o Pentágono e muitos funcionários
públicos federais, que foram afetados pelos drásticos cortes de gastos do
presidente Donald Trump.
Já em
Nova Jersey, a deputada democrata Mikie Sherrill também venceu as eleições para
o governo do Estado, sucedendo o democrata Phil Murphy após dois mandatos. Ela
venceu o ex-legislador estadual Jack Ciattarelli, apoiado por Trump.
Na
Califórnia, os eleitores aprovaram a Proposição 50, um plano para redesenhar os
distritos eleitorais, em contraponto ao novo mapa eleitoral do
Texas,
promovido por Trump, frente às eleições americanas de meio de mandato em 2026.
Analistas
indicam que este triunfo coloca o atual governador democrata da
Califórnia, Gavin Newson, como principal
oponente de Trump em nível nacional.
O
correspondente da BBC na América do Norte, Anthony Zurcher, destaca ainda o
resultado das duas eleições distritais da Comissão de Serviços Públicos do
Estado da Georgia.
Nelas,
os democratas tomaram para si os dois cargos ocupados pelos republicanos. Foi a
primeira vez desde 2006 em que o partido ganhou uma eleição estadual, não
federal, naquele Estado.
"É
claro que Joe Biden ganhou na Georgia por estreita margem em 2020. E os
democratas venceram ali as três últimas eleições para o Senado", explica
Zurcher. "Mas esta é outra indicação que prevê bons resultados para o
partido que procura vencer os fantasmas de 2024."
Para o
correspondente, "embora Donald Trump não figurasse na cédula eleitoral na
terça-feira (4/11), sua sombra pairou sobre todas estas disputas".
"E
os resultados enviarão uma mensagem clara: que os democratas, um ano depois da
sua dolorosa derrota nacional, podem voltar a obter vitórias."
"Este
resultado pode não alterar a postura de Trump nos próximos dias. Mas os
políticos republicanos (particularmente os que ocupam o Congresso e se
candidatarão à reeleição nas legislativas do próximo ano) certamente irão tomar
nota", conclui Anthony Zurcher.
<><>
A necessária reflexão dos democratas
Análise
de Nada Tawfik, da BBC News em Nova York
O
impressionante crescimento de Zohran Mamdani obrigou os democratas a iniciar um
debate necessário sobre o futuro do partido, a um ano das eleições de meio de
mandato.
Sua
campanha deixou claras as divisões geracionais e ideológicas na base do
partido, com visões muito diferentes sobre como devem enfrentar o presidente
Donald Trump no seu segundo mandato, que vem rompendo com todas as normas
existentes.
É
melhor adotar a moderação? Ou o antídoto seria contra-atacar com a mesma
mensagem populista e antissistema que levou Trump à vitória, mas com a imagem
da esquerda?
Em Nova
York, pelo menos, o socialista democrata Zohran Mamdani demonstrou que os
eleitores estão ávidos pela segunda opção. E no resto do país?
O
controlador da cidade (responsável pelo controle das finanças) e aliado de
Mamdani, Brad Lander, declarou em entrevista à BBC que não há uma solução única
para todos.
Mas ele
afirmou que os líderes democratas devem reconhecer que cada parte do país
funciona de uma maneira e deixar que o processo das eleições primárias siga seu
caminho.
Por
outro lado, Andrés Bernal, ex-assessor político de outra estrela progressista,
a deputada de Nova York Alexandria Ocasio Cortez, afirma que os democratas
podem aprender com a capacidade de Mamdani de se conectar às preocupações das
pessoas, de forma percebida como autêntica.
"Os
republicanos de hoje em dia dão forma ao discurso público e tentam moldar a
consciência política neste país, enquanto os democratas dão como certo que as
pessoas mantêm crenças fixas", explica Bernal.
"Eles
olham as pesquisas e dizem: 'Bem, como fazemos para que o nosso discurso
coincida com o que acreditamos que as pessoas pensam?'"
Fonte:
Blog da Boitempo/BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário