sexta-feira, 7 de novembro de 2025

James Neimeister: Zohran Mamdani é um de nós

Zohran Mamdani é um de nós. Há cerca de 9 anos, eu me filiei aos Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (DSA, na sigla em inglês), junto com milhares de outras pessoas — muitos deles jovens, desapontados e indignados com o sistema político estadunidense, em busca de uma alternativa. No mesmo ano em que Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, Bernie Sanders, o senador independente e socialista, conquistou mais de 13 milhões de votos nas primárias presidenciais do Partido Democrata.

Foi num âmbito de derrota que fomos reconstruindo das cinzas o que é hoje a maior organização socialista na história estadunidense, com mais de oitenta e cinco mil membros. Nesse meio tempo, pouca gente acreditaria que, num dia não tão distante, um de nós iria conquistar mais de um milhão de votos e virar prefeito da maior cidade do país.

Nesse caminho, entre dúvidas e controvérsias, temos discutido a relação entre DSA e Partido Democrata, levantado questões sobre coalizão e independência programática e a relação entre DSA, seus candidatos e mandatos — ao longo dos anos, sem resolver definitivamente essas questões, tanto Zohran quanto todos nós aprendemos muito.

Em 2017, a seção nova-iorquina do DSA votou para apoiar duas candidaturas a vereador: a do pastor luterano palestino Khader El-Yateem, que competiu nas primarias democratas num bairro com grande população de imigrantes árabes e muçulmanos; e a do professor Jabari Brisport, que disputou as eleições gerais como candidato do Partido Verde e numa linha independente socialista. Ambos os candidatos perderam. O pastor El-Yateem fez quase 3.000 votos contra 3.600 de seu adversário; e o professor Brisport, 9.000 votos contra 21.000.

Apesar da derrota, militantes do NYC-DSA ganharam experiência, organizando uma forte campanha de rua, formando novos laços nas comunidades e ganhando novos membros — um deles foi Zohran Mamdani, que havia atuado como voluntário na campanha do pastor El-Yateem.

Naquela época, Seth Ackerman publicou o texto “A Blueprint for a New Party” na revista Jacobin, que até hoje é referência nos debates sobre o DSA e o Partido Democrata. Ele investiga a pergunta clássica: Por que não existe um partido trabalhista nos Estados Unidos, algo que torna o país quase único entre as democracias do mundo? O fato é que o bipartidismo estadunidense é batizado pela lei e peça cultura política. A eleitora democrata média odeia partidos alternativos por serem “sabotadores que só ajudam os republicanos”. Até a constituição estadual de Nova York garante que a gestão das eleições seja controlada por oficiais nomeados pelos líderes dos dois partidos políticos, como se fossem os únicos possíveis.

No texto, Ackerman propõe que candidatos trabalhistas concorram nas primárias democratas, usando a linha que eles têm quase garantida e levando a luta de classes com eles em um eventual mandato, a fim de ampliar uma base socialista. Em média, as primárias são muito mais fáceis de ganhar em termos financeiros e em termos do número de votos necessários, o que dá mais chances pras campanhas insurgentes ganharem com um número menor de eleitores.

“A nossa situação é mais parecida com a dos partidos da oposição em países autoritários, como Rússia e Singapura”, conclui Ackerman. Eu diria que é até mais parecida com a situação da oposição consentida e a oposição antiautoritária dentro do MPB durante a ditadura militar brasileira. Amando ou odiando, e tendemos odiar, estamos juntos num único partido legalizado.

Sem contar toda a história do resto dos últimos 9 anos, essa continua sendo a posição mais ou menos de consenso dentro do DSA no geral, e NYC-DSA, em particular. Em 2018 na cidade de Nova York elegemos a senadora estadual Julia Salazar e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, atraindo uma nova onda de filiações ao DSA, ao redor dos EUA. Em 2019, fizemos campanha a favor de uma série de reformas que fortaleciam o controle sobre o preço dos aluguéis contra a forte oposição dos proprietários e do então governador Andrew Cuomo. Em 2020 elegemos mais quatro legisladores estaduais, sendo um deles Zohran. Logo depois das eleições, lançamos uma campanha para taxar os ricos e financiar políticas públicas para enfrentar a pandemia e a crise econômica. Em 2021 apoiamos seis candidatos a vereador e elegemos dois. Em 2022 apoiamos 11 candidatos, defendendo 6 e ganhando mais um mandato, numa campanha focada no combate à crise climática. Em 2023 aprovamos a lei de energia pública de Nova York, obrigando a autarquia de hidroelétricas do estado a investir diretamente em parques solares e eólicos.

Não é à toa que um grupo de apenas seis deputados e três senadores estaduais, numa legislatura com centenas de membros, conseguiu fortalecer o controle de aluguéis, taxar os ricos e impulsionar o investimento público em fontes energéticas renováveis. Enquanto NYC-DSA, a nossa estratégia é baseada no aumento de pressão dentro e fora do legislativo. Com uma bancada disciplinada e ágil, influenciando outros legisladores progressistas e reformistas a apoiar nossas pautas, com campanhas de rua em apoio a essas ações e lançando candidaturas contra nossos opositores — ganhando e perdendo —, vimos nosso poder crescer.

Durante esse tempo, Zohran serviu informalmente como líder da bancada, sustentando nossas maiores conquistas e lidando com as contradições e controvérsias internas. A relação entre o DSA e seus mandatos, já que DSA não é um partido legalizado nem a única força política no campo progressista, além do fato de que nossos mandatos são ganhos na linha Democrata, é uma questão complicada. Nos momentos de maior tensão em nosso campo, Zohran sempre escutava os seus colegas e o movimento. Ele sempre utilizou sua voz para lembrar a bancada e o nosso movimento do que a gente tem em comum, de que apesar das contradições, nós temos que seguir em frente unidos, porque temos um mundo a ganhar.

Essa campanha começou com escuta — com Zohran entrevistando eleitores e perguntando por que tantos nova-iorquinos haviam votado em Donald Trump. E a resposta foi simples: foi Trump quem mais havia falado sobre os problemas atuais da população, principalmente sobre o custo de vida. E o custo de vida virou o tema principal da campanha, com uma agenda simples de entender e lembrar: tarifa zero nos ônibus, congelamento de aluguéis e cuidado infantil universal.

Durante essa campanha, eu até me questionava: por que a esquerda não critica ele mais? Na minha vida política curta, eu tenho observado que a esquerda tende a ser mais cética e crítica de quem exerce o poder. E com razão. Uma ou outra vez, o Zohran deu respostas e tomou posições que não agradaram todos no nosso movimento e fora dele, por exemplo: Desde o começo, ele falou que, se fosse eleito, ele não iria retirar orçamento da polícia. Recentemente, ele prometeu manter Jessica Tisch, herdeira de uma família bilionária e punitivista que também supervisionou uma queda no crime e combateu a corrupção no alto escalão da força, como Comissária do Departamento de Polícia de Nova York. Perguntado inúmeras vezes sobre Israel, Zohran tende a responder que o Estado de Israel tem direito de existir — como um Estado democratico com direitos humanos para todos.

Muitas vezes durante esta campanha, Zohran citou o ex-prefeito Ed Koch, que falou “If you agree with me on 9 out of 12 issues, vote for me. If you agree with me on 12 out of 12 issues, see a psychiatrist” [se você concorda comigo em 9 de 12 assuntos, vote em mim. Se concorda em todos eles, procure um psiquiatra]. Zohran ganhou tanta nossa confiança porque ele vem falando desde o começo que, ao ser eleito, teria que governar uma cidade diversa, complexa, e lidar com contradições impossíveis de resolver. Dizendo desde o começo que ele não está acima de qualquer crítica, mas sem tergiversar quanto ao tema básico da campanha, o custo de vida, ele inspirou e apaziguou até as pessoas mais céticas que eu conheço.

Em nossa curta história como movimento, nunca elegemos um prefeito e nunca exercemos o poder executivo. E nunca estivemos tão preparados quanto agora. Num cenário em que o governo Trump sequestra nossos vizinhos imigrantes, provoca aumentos surreais no custo de vida e começa novas guerras, não tem como não disputar o poder. Temos que construir um movimento majoritário.

Ontem, Zohran ganhou mais de 1 milhão de votos, a maior votação obtida por qualquer prefeito em Nova York desde 1965. Durante a campanha toda, mais de 100.000 voluntários tocaram mais de 3 milhões de portas, escutando e conversando com o povo.

Zohran é um de nós, sim. Mas ele é só um, e nós somos milhões.

¨      O que a vitória de Mamdani e de outros democratas significa para Trump

Zohran Mamdani protagonizou, na terça-feira (4/11), um dos triunfos mais simbólicos obtidos pelos democratas durante o segundo mandato do presidente americano Donald Trump.

Com 34 anos, muçulmano e socialista, Mamdani será o próximo prefeito de Nova York. Ele venceu por ampla margem o ex-governador do Estado Andrew Cuomo, que se apresentou como candidato independente, e o republicano Curtis Sliwa.

Com 91% das urnas apuradas, Mamdani obteve 50,4% dos votos, contra 41,6% de Cuomo e 7,1% de Sliwa.

Mas o que representa sua vitória para o presidente americano, com quem já se enfrentou publicamente? E quais as consequências deste e de outros resultados favoráveis ao Partido Democrata, que vem encontrando dificuldades para fazer frente a Donald Trump?

<><> 'E assim começa!'

No seu primeiro discurso após a publicação dos resultados da eleição, Mamdani se dirigiu abertamente ao presidente.

Com tom desafiador, ele declarou: "Por isso, Donald Trump, eu sei que você está assistindo. Só tenho estas palavras para você: aumente o volume!"

"Em última análise, se alguém pode demonstrar a uma nação que foi traída por Donald Trump como é possível derrotá-lo, é a cidade que o viu surgir", prosseguiu o prefeito eleito.

"E, se existe alguma forma de aterrorizar um déspota, é desmantelando as mesmas condições que permitiram que ele acumulasse seu poder. É assim que vamos parar não só Trump, mas é assim que vamos parar quem vier depois dele."

O presidente americano já havia ameaçado reter fundos federais para Nova York, se Mamdani vencesse as eleições. E, na própria terça à noite, Trump postou na sua rede Truth Social: "E ASSIM COMEÇA!"

Ainda que sem se referir diretamente à vitória de Mamdani, Trump atribuiu a derrota dos republicanos em diversos pleitos, também pela Truth Social, à ausência do seu nome nas cédulas de votação e ao fechamento do governo americano — que, com 35 dias, já se transformou no mais longo da história do país.

"À noite, como sabem, não se esperava uma vitória", afirmou Trump, em um evento com senadores. Ele também reconheceu que as eleições foram "muito democráticas" e não foram "boas para os republicanos".

Donald Trump havia chamado Mamdani de "comunista lunático" e apoiou o ex-governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo. Por isso, a vitória do socialista é considerada uma derrota para as aspirações do presidente na cidade.

Prevê-se que a relação entre ambos será tumultuada e é preciso esperar para ver se, de fato, Trump irá cumprir ou não com sua ameaça de um possível bloqueio de fundos destinados a Nova York.

Novamente se dirigindo a Trump, Mamdani declarou que, "para chegar a qualquer um de nós, você terá que passar por cima de todos nós".

<><> Outros triunfos

O triunfo de Mamdani não foi o único registrado pelos democratas na terça-feira (4/11).

Nos Estados americanos de Nova Jersey e da Virgínia, a oposição ao governo federal também conseguiu impor seus candidatos.

A democrata Abigail Spanberger, por exemplo, venceu as eleições para o governo da Virgínia, após uma acirrada disputa eleitoral. A ex-congressista e agente da CIA derrotou a vice-governadora republicana do Estado, Winsome Earle-Sears.

As eleições da Virgínia eram consideradas um indicador do sentimento das pessoas em relação às políticas do governo federal americano.

O Estado do leste dos Estados Unidos abriga o Pentágono e muitos funcionários públicos federais, que foram afetados pelos drásticos cortes de gastos do presidente Donald Trump.

Já em Nova Jersey, a deputada democrata Mikie Sherrill também venceu as eleições para o governo do Estado, sucedendo o democrata Phil Murphy após dois mandatos. Ela venceu o ex-legislador estadual Jack Ciattarelli, apoiado por Trump.

Na Califórnia, os eleitores aprovaram a Proposição 50, um plano para redesenhar os distritos eleitorais, em contraponto ao novo mapa eleitoral do Texas, promovido por Trump, frente às eleições americanas de meio de mandato em 2026.

Analistas indicam que este triunfo coloca o atual governador democrata da Califórnia, Gavin Newson, como principal oponente de Trump em nível nacional.

O correspondente da BBC na América do Norte, Anthony Zurcher, destaca ainda o resultado das duas eleições distritais da Comissão de Serviços Públicos do Estado da Georgia.

Nelas, os democratas tomaram para si os dois cargos ocupados pelos republicanos. Foi a primeira vez desde 2006 em que o partido ganhou uma eleição estadual, não federal, naquele Estado.

"É claro que Joe Biden ganhou na Georgia por estreita margem em 2020. E os democratas venceram ali as três últimas eleições para o Senado", explica Zurcher. "Mas esta é outra indicação que prevê bons resultados para o partido que procura vencer os fantasmas de 2024."

Para o correspondente, "embora Donald Trump não figurasse na cédula eleitoral na terça-feira (4/11), sua sombra pairou sobre todas estas disputas".

"E os resultados enviarão uma mensagem clara: que os democratas, um ano depois da sua dolorosa derrota nacional, podem voltar a obter vitórias."

"Este resultado pode não alterar a postura de Trump nos próximos dias. Mas os políticos republicanos (particularmente os que ocupam o Congresso e se candidatarão à reeleição nas legislativas do próximo ano) certamente irão tomar nota", conclui Anthony Zurcher.

<><> A necessária reflexão dos democratas

Análise de Nada Tawfik, da BBC News em Nova York

O impressionante crescimento de Zohran Mamdani obrigou os democratas a iniciar um debate necessário sobre o futuro do partido, a um ano das eleições de meio de mandato.

Sua campanha deixou claras as divisões geracionais e ideológicas na base do partido, com visões muito diferentes sobre como devem enfrentar o presidente Donald Trump no seu segundo mandato, que vem rompendo com todas as normas existentes.

É melhor adotar a moderação? Ou o antídoto seria contra-atacar com a mesma mensagem populista e antissistema que levou Trump à vitória, mas com a imagem da esquerda?

Em Nova York, pelo menos, o socialista democrata Zohran Mamdani demonstrou que os eleitores estão ávidos pela segunda opção. E no resto do país?

O controlador da cidade (responsável pelo controle das finanças) e aliado de Mamdani, Brad Lander, declarou em entrevista à BBC que não há uma solução única para todos.

Mas ele afirmou que os líderes democratas devem reconhecer que cada parte do país funciona de uma maneira e deixar que o processo das eleições primárias siga seu caminho.

Por outro lado, Andrés Bernal, ex-assessor político de outra estrela progressista, a deputada de Nova York Alexandria Ocasio Cortez, afirma que os democratas podem aprender com a capacidade de Mamdani de se conectar às preocupações das pessoas, de forma percebida como autêntica.

"Os republicanos de hoje em dia dão forma ao discurso público e tentam moldar a consciência política neste país, enquanto os democratas dão como certo que as pessoas mantêm crenças fixas", explica Bernal.

"Eles olham as pesquisas e dizem: 'Bem, como fazemos para que o nosso discurso coincida com o que acreditamos que as pessoas pensam?'"

 

Fonte: Blog da Boitempo/BBC News

 

Nenhum comentário: