sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Eloisa Machado: O extermínio venceu a Constituição

Mesmo após 37 anos de promulgação da Constituição Federal de 1988, algumas áreas parecem estar imunes às suas disposições, resistindo em aceitar sua lógica democrática e a prevalência dos direitos fundamentais. É o caso da violência policial.

A Constituição traz uma série de dispositivos voltados a prevenir, reparar e responsabilizar episódios de violência policial. Demanda que ninguém será submetido à tortura ou a tratamento cruel e degradante; que são assegurados o direito à vida, à integridade física e moral a qualquer pessoa presa ou investigada; que deve ser respeitado o devido processo legal, com a vedação do uso de provas ilícitas, com julgamento por autoridade judicial competente, direito a recursos e garantia de habeas corpus contra qualquer prisão ilegal. A Constituição ainda incorpora os tratados internacionais de direitos humanos sobre o tema.

Não bastasse a enunciação de direitos humanos e fundamentais de qualquer pessoa acusada, a Constituição incumbiu o Ministério Público do controle externo da atividade policial e municiou o Judiciário de prerrogativas de independência e imparcialidade para cumprir essa função.

Ainda assim, as instituições do sistema de justiça resistem em cumprir a Constituição quando o tema é violência policial. Persistente, sistemática e sem controle, a violência policial parece ter vencido a Constituição. Dados de violência policial no país são aterradores. Dados da ausência de responsabilização são ainda piores.

As instituições policiais não só resistem em incorporar a lógica constitucional democrática e centrada no respeito aos direitos humanos como adotam estratégias para enfraquecê-la. Desde o registro das mortes em ocorrências policiais (com descrições como “encontro de cadáver” e “resistência seguida de morte”), passando pelas câmeras corporais desligadas, com problemas técnicos ou sem bateria durante megaoperações, instituições policiais criam uma realidade fictícia para sustentar a violência.

O Ministério Público, por sua vez, tem revelado uma incapacidade profunda e estrutural em promover o controle externo das polícias e responsabilizar os envolvidos em chacinas – da base até o topo da cadeia de comando. A ausência de uma resposta por parte do Ministério Público é tão significativa que se torna conivência. O Judiciário, na maior parte das vezes, endossa a violência policial.

Nem mesmo as mudanças constitucionais voltadas a enfrentar a persistência da violência policial, criadas pela Emenda Constitucional 45/2004, surtiram efeito. A federalização de graves violações de direitos humanos se tornou um instrumento inócuo. A Procuradoria-Geral da República se contém em pedi-la; o Superior Tribunal Justiça se contém em aplicá-la, independentemente da gravidade do caso. Tal como interpretada atualmente, a federalização somente pode ocorrer após anos de inépcia comprovada da justiça estadual.

Quando são iniciadas as investigações federais, não sobraram mais provas sobre o caso. Outra reforma constitucional, que criou o Conselho Nacional do Ministério Público para exercer o controle externo do Ministério Público, deu recentemente sua maior contribuição para a continuidade da política de extermínio ao afastar instâncias federais de atuação no caso. Sucumbiram à lógica do extermínio de Estado, para o qual todas as instituições concorrem.

Carandiru, Jacarezinho, Crimes de Maio, Vigário Geral, Corumbiara, Candelária, Eldorado dos Carajás, Vila Cruzeiro, Baixada Santista, o mais recente Massacre da Penha e do Alemão e muitos outros. De chacina em chacina, sob o olhar complacente das instituições, o extermínio vence a Constituição.

•        EXTREMA-DIREITA: E o que os afetos têm a ver com a política?

Foi esta a pergunta que guiou nossa pesquisa durante os últimos três anos.  Nós do Núcleo de Práticas Sociais, Estética e Política (NUPRA), da Universidade Federal de Santa Catarina queríamos entender como as emoções e afetos compõem o posicionamento político das pessoas. Quando falamos em política, quase sempre pensamos em partidos, ideologias ou crises econômicas, longe de rejeitarmos a importância destes fatores, acreditávamos que as emoções também se constituem como um dos fatores primordiais das escolhas políticas dos sujeitos. Para compreender as emoções em jogo na cena política contemporânea do Brasil entrevistamos eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e que pretendem votar na direita em 2026. A maioria dos entrevistados fazia parte das classes C e D, trabalhadores, donas de casa, pequenos comerciantes, agricultores, aposentados que vivem as incertezas de um país desigual e atravessado pela sensação permanente de ameaça. Nessas incertezas, vimos como as emoções se tornaram matéria-prima da política.

Para compreender o que são afetos e emoções partimos das reflexões de Spinoza e de Sara Ahmed. Spinoza nos ensina que os afetos são os modos pelos quais a vida se movimenta. Quando aumentam nossa potência de agir, de sentir e de compreender o mundo de múltiplas formas, são chamados de afetos alegres; quando diminuem nossa potência, são afetos que ele chama de paixões tristes, aquelas que nos mantêm presos ao medo, à raiva e à impotência e a superstição. Os afetos, em Spinoza, podem ser compreendidos como a interface que conecta o sujeito à sociedade. Ahmed, por sua vez, mostra que as emoções são também forças sociais: circulam, colam em corpos, constroem fronteiras e hierarquias. O “nojo”, o “medo” ou o “amor à pátria” não são sentimentos privados, mas modos de organizar o mundo coletivo e de dizer quem pertence e quem deve ser afastado.

Nas entrevistas, o medo apareceu de forma quase onipresente. Medo da violência, da corrupção, do desemprego, da perda material e simbólica, das incertezas próprias à condição de se estar vivo. Uma mulher paulistana dizia: “A esquerda é muito frouxa, ainda mais quando se trata de segurança pública mais rígida, como a que precisamos. O bandido tem mais direito do que a gente”. O medo, aqui, não é só de algo concreto. Ele expressa uma sensação difusa de perda de controle, um mal-estar diante da mudança e da incerteza. Esse medo se transforma em desejo de ordem, em nostalgia de uma autoridade que nutra uma ilusão de estabilidade. Não à toa a mesma entrevistada dizia “amar quando via a Rota na rua”; sentia saudades de políticos como Maluf, como se a ordem militar pudesse reorganizar seu medo difuso. E é justamente aí, no discurso de ordem autoritária que se produz o terreno da extrema direita. Não esqueçamos que muitas pessoas ligadas a esses setores vão às ruas clamar pelo retorno à ditadura militar, que está ligada a esse desejo de “ordenamento”.

O amor, por outro lado, aparece como um afeto ligado a um falso nacionalismo, típico das extremas direitas que, em vez de ampliar o comum, delimita quem pode ser incluído nele. “O Brasil precisa voltar a ser um país de família, de valores”, dizia um entrevistado no Rio de Janeiro. Trata-se de um amor moralizado, que protege uns em detrimento de outros, e para isso precisa excluir. Um amor que não se mistura com o diferente, e que vê ameaça onde há diversidade. Esse mesmo entrevistado dizia: “Eu vi uma coisa que me revoltou bastante, né? Que foi essa coisa de ‘projeto de criança trans’. Que é um projeto, cujo a criança se identifica, se for homem, se identifica como mulher, ela já faz a cirurgia, né? Se os pais aprovarem. Mas, cara, que poder de escolha uma criança tem, né? Olha as pautas da esquerda: eles não querem melhoria para o Brasil, querem banheiro trans, projeto criança trans, só coisa inútil.” Essa fala condensa o modo como o amor, nas narrativas bolsonaristas, é mobilizado como discurso de proteção, um amor às crianças, à moral, à nação que, na verdade, se transforma em ferramenta de exclusão. Nos termos de Sara Ahmed, é o “amor” que organiza o pertencimento e define o que deve ser amado e o que deve ser rejeitado. O amor à família ou à infância funciona como fronteira: para amar a criança “de verdade”, é preciso odiar a que desafia o modelo normativo. O afeto que se apresenta em discursos de “cuidado e proteção”  converte-se em ódio à diferença. E essa forma de amor moralizado é também uma paixão triste, pois reduz a potência da convivência, alimentando a intolerância em nome de uma pureza que rapidamente se transforma na narrativa do cidadão de bem x outros. Esses muitos outros que, ao serem vistos como inimigos, inclusive, podem ser eliminados, uma expressão da violência política cada vez mais crescente no cenário brasileiro.

A esperança também apareceu nas entrevistas, mas de um modo ambíguo. Em vez de se ligar a um projeto de transformação, ela se associava a um desejo de destruição. “Tem que acabar com tudo isso aí e começar do zero”, disse um homem de Santa Catarina. É uma esperança que se liga ao discurso antissistêmico, que não confia nas instituições e sonha com uma reconstrução total, como se o mundo pudesse renascer depois de um colapso purificador. Quando perguntamos a um entrevistado do Rio de Janeiro qual era sua esperança para o Brasil, ele respondeu com firmeza: “O apocalipse.” Explicou que acreditava estarmos vivendo a batalha final entre o bem e o mal, em que o Anticristo já estaria agindo no mundo, encarnando, segundo ele,  os estereótipos da esquerda, do feminismo e das agendas de diversidade. Essa narrativa apocalíptica traduz a esperança em um registro religioso, em que a salvação só pode vir depois da destruição completa. A expectativa de um recomeço passa, então, pela ideia de guerra espiritual, pela necessidade de eliminar o mal que corrompeu o mundo. É uma esperança que não abre caminho para o novo, mas apenas inverte o desespero em vontade de aniquilação. Outra paixão triste,  fantasiada de desejo de recomeço, em que o fim do mundo aparece como a única possibilidade de redenção.

O ressentimento, talvez o afeto político mais visível do nosso tempo, apareceu em falas que revelam como a impotência é convertida em acusação. “A aldeia do lado pode fazer picada e demarcar terra porque é de indígena. A gente, que é caboclo, não pode nada. Eles ganham tudo”, dizia uma mulher ribeirinha do Amazonas. A frase mostra o mecanismo típico do ressentimento: a dor se desloca para o outro mais próximo. A culpa pela perda não recai sobre o sistema econômico, o Estado ou as políticas neoliberais, mas sobre quem está ao lado: o negro, a mulher, o indígena, o LGBTQIA+, o “esquerdista”. As políticas de reconhecimento e inclusão aparecem como causa da própria exclusão. A lógica é perversa: o outro que conquista um direito se torna responsável por qualquer falta que se apresente em meu cotidiano.

Nas falas mais marcadamente anti-identitárias, surgia algo que Ahmed ajuda a compreender. Termos como “feminista”, “negro militante” ou “esquerdista” vinham acompanhados de palavras como “nojento”, “insuportável”. Uma entrevistada dizia: “Essas feministas são nojentas, me ofendem ao mostrar os peitos” Outra dizia: “O problema é esse povo negro que não para de se vitimizar.” Ahmed mostra que o nojo é uma emoção política que delimita fronteiras de contato: o que é visto como sujo ou impuro deve ser mantido à distância. O nojo não descreve o outro, ele o produz transformando pessoas e grupos em corpos que não devem ser tocados, ouvidos ou levados a sério.

Esses afetos, ao mesmo tempo individuais e coletivos, produzem formas de pensar e de se relacionar com o mundo que escapam à ideia de uma identidade política tradicional regida por ideias e projetos. É por isso que a extrema direita consegue mobilizá-los com tanta eficácia, especialmente através das fake news. As notícias falsas não convencem pela lógica, mas porque ativam emoções profundas. Elas reforçam o medo, alimentam o ressentimento, confirmam o nojo, elaboram a esperança. Circulam entre familiares e vizinhos, não como informação, mas como gesto afetivo, um modo de pertencer a um grupo e reafirmar o que se sente. Ou seja, para além dos extremismos políticos que nos saltam aos olhos, a exemplo de células nazistas encontradas com recorrência nos diferentes estados do Brasil, há que se considerar que esse circuito de afetos, que possibilita inclusive o pertencimento, está aqui, entre nós.

Compreender o lugar dos afetos na política é fundamental para entender o Brasil de hoje. As paixões tristes, como o medo e o ressentimento, diminuem a potência de agir e paralisam a imaginação política, sendo, portanto, terreno fértil para lideranças que prometem devolver sentido e segurança de forma autoritária, de maneira que é nestas paixões que o fascismo contemporâneo alimenta a adesão à extrema direita. Se queremos, de algum modo, modificar esse cenário, é necessário apostarmos na construção de um corpo coletivo capaz de romper com o medo paralisante e o desamparo e, simultaneamente, mobilizar afetos de alegria que sejam potencializadores de ações para a criação de alternativas anticapitalistas que não sejam pela via da reprodução de autoritarismos.

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Este texto foi produzido a partir dos resultados do projeto de pesquisa Afetividade, extremismos políticos, bolsonarismo e psicologia social, coordenado pelos(as) professores(as) André Strapazzon, Lia Vainer Schucman e Tatiana Minchoni, e desenvolvido com a participação de Enzo Alexandre Odorizzi, Felipe Valente Antonakopoulos, Heloísa Petry, Leticia Silveira Correa, Maria Eduarda das Chagas, Matheus Manfroi Tanaka, Pedro Henrique de Melo e Silva e Victoria Imhof Correa. Todos(as) os(as) integrantes participaram ativamente do grupo de estudos, das entrevistas, das transcrições e das discussões que fundamentaram as análises apresentadas neste trabalho. Os agradecimentos são integralmente dedicados a eles(as), cujo compromisso intelectual e ético tornou esta pesquisa possível.

 

Fonte: PlatôBR/Le Monde

 

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