Douglas
Barros: A paz (que nunca houve) acabou
O céu
amanheceu acinzentado quando os primeiros corpos começavam a ser enfileirados.
Vizinhos, amigos e parentes retiravam das matas os “sem nomes”. Indigentes — em
todo caso, sem nenhum julgamento — prontamente sentenciados como bandidos
mortos. Tiros na nuca e corpos decapitados eram expostos. Para quem ainda
estava acordando e coçando os olhos, confundia-se a cena com algo ocorrido em
Gaza.
Um
espetáculo de horror. Seria algo inaceitável, não fosse ter acontecido num país
chamado Brasil. No dia anterior, uma “operação” deflagrada pelo governador
bolsonarista Cláudio Castro teria sido considerada desastrosa, não fosse, mais
uma vez, ter acontecido num país chamado Brasil. Sessenta e quatro mortos
oficiais já seriam motivo de escândalo; o número de vítimas, entretanto,
continuou crescendo à medida que o dia chegava ao fim. Quando acordamos, ainda
aterrados, o total havia dobrado.
O
quadro de uma tragédia anunciada, todavia, já havia sido pintado. O crescimento
do crime organizado e a disputa por territórios no Rio de Janeiro, aliados a
políticas de (extrema) direita ao longo de mais de vinte anos, azeitaram uma
violência naturalizada porque tornada norma. Do filme Tropa de Elite, passando
pelo assassinato de Marielle Franco e pelo jargão “bandido bom é bandido
morto”, o terreno se preparava para o último ato.
Uma
solução final orquestrada pelo conluio entre polícias, governo e facções. Algo
que vai aos poucos se evidenciando porque não há armas que consigam reprimir a
verdade. O decisivo nesse acontecimento, todavia, se põe às vistas: a extrema
direita redefiniu os limites do negociável, e a esquerda governista sucumbiu à
chantagem. Aceitou os pressupostos lógicos de uma guerra interna que se volta
contra os pobres, já violentados pelo conluio acima.
Apesar
da aparente mesmice, trata-se, afinal, de um novo regime de violência: uma
redefinição do jogo traduzida na aceitação, por parte do progressismo, dos
limites redefinidos pela extrema direita. Aceitou-se a gramática da guerra. Mal
os corpos eram expostos pelos familiares, Lula sancionava o projeto de lei de
autoria de Sergio Moro, num gesto friamente calculado. Nem mesmo o esperado
apelo aos direitos humanos ou às garantias constitucionais foi até ali
mencionado.
No dia
seguinte, ainda da parte do governo federal, assistimos a uma adesão
envergonhada à chamada “operação”, quando a parceria com o governo do Rio de
Janeiro passou a ser negociada, seguida de uma campanha publicitária
vergonhosa. A capitulação seria coroada com a partilha do imaginário populista
da “guerra às drogas” e com a adesão implícita ao discurso trumpista, que busca
construir a ideia do narcotráfico como própria ao terrorismo.
E,
desse modo, o recuo e a capitulação da esquerda impediram-na de colocar em
questão as condições de possibilidade para a produção do massacre que atende
pelo nome de “guerra às drogas”. Essa questão nem sequer entrou minimamente no
horizonte, o assunto não dá votos. O fato é que os crimes relacionados ao
tráfico de drogas correspondem a quase 30% do total, sendo uma das principais
causas do encarceramento, e a guerra que se sustenta em torno dele é
responsável por cerca de um terço dos assassinatos no país. Cabe a pergunta se
essa guerra interna não se tornou rentável condicionando os pressupostos
lógicos do massacre.
O
cálculo, porém, tanto da extrema direita quanto da esquerda governista, não
dizia respeito aos 121 mortos dessa tragédia — tampouco da guerra permanente às
drogas cujos números, nesses cinquenta anos, são catastróficos — mas às
eleições. A guerra interna tornou-se popular, dá votos. Cláudio Castro sabe
disso e comemora a vitória. Enquanto deputados de esquerda preferiram marcar
posição defendendo abstratamente os direitos humanos e fazendo as devidas
acusações de massacre e chacina sem questionar, no entanto, a ilegalidade das
drogas como causa fundamental do conflito.
Assim,
diante do descalabro e do recuo da esquerda em problematizar, refletir e
produzir alternativas para a questão da segurança pública, a extrema direita
reafirmou sua receita: a produção da morte por meio de guerras
territorializadas nas favelas. Por trás da chamada “guerra às drogas”, e da
falta de debate real e profundo sobre a legalização, oculta-se um dado
estruturante: o racismo como princípio formador do país.
Já se
sabe que a violência assistida nos últimos dias não é uma anomalia social, mas
o modo pelo qual a própria sociedade brasileira se estruturou por meio da
racialização de toda sua arquitetura social. A novidade é que, agora, com a
ultrapolítica da extrema direita, somada à crise permanente do capitalismo, ela
se expõe sem o véu da ideologia. Uma estratégia bem-sucedida que tem feito
parte da esquerda abraçar os pressupostos lógicos da extrema direita.
Tentando
entender o descalabro, algumas questões pairam sobre o espetáculo do horror: a
mídia contemporizou o evento, a esquerda da ordem manteve-se dentro dos limites
impostos pela extrema direita — respondendo com as platitudes de sempre — e até
mesmo vozes que defendem a formalidade legal do Estado democrático de direito
tornaram-se marginais para a grande imprensa. Isso parece sugerir que a
passividade do consenso chegou ao fim.
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A manutenção do ascenso da extrema direita
A
extrema direita acentua sua ofensiva em todo o mundo. A partir da crise de
2008, quando, do ponto de vista técnico, as saídas neoliberais se mostraram
socialmente ineficazes — saídas estas que foram ardorosamente impostas pelos
governos ditos de esquerda no mundo —, a instabilidade política se acentuou.
A
pobreza compartilhada tornou-se evidente. A impossibilidade de manutenção da
taxa de lucro, os ideais da modernidade solapados pela desestruturação social,
cidades arruinadas, Gaza e a guerra na Ucrânia, a maior crise econômica da
história e uma massa de trabalhadores endividados são os adubos no solo de uma
desintegração social que o progressismo busca gerir, enquanto a extrema direita
busca superá-la através de uma revolução da ordem.
Na
arena política, há disputas e esvaziamento de conceitos caros à tradição
socialista, perdidos no jogo de instantaneidade da internet. Elaborações e
reflexões críticas são subvertidas de seu sentido pelo descompromisso com
qualquer noção de verdade factual. Há uma profunda crise da crítica e um
espírito antiteórico espalhado aos quatro ventos. Tudo se torna questão de
afetos e de como despertá-los.
Do
ponto de vista da manutenção da ordem, muito antes da crise de 2008, porém, já
se organizava uma completa indistinção entre esquerda e direita, e é nesse
espaço vazio que a extrema direita se engaja, colocando-se como revolucionária.
Enquanto gestora do “capital de rosto humano”, a esquerda se esvaziou.
Tornando-se um alvo fácil, ela abriu-se à ideia de fim da história e
implicitamente abraçou a ideologia de que “não há alternativas”. Curiosamente,
mas nem tanto, essa simbiose da esquerda com a direita só poderia ser
totalmente transparente em um país como o Brasil, sendo plenamente realizada no
consórcio Lula-Alckmin.
É
preciso levar em consideração as condições que impuseram esse quadro: paralela
às transformações no mundo social e revolucionárias na gestão do capitalismo,
uma força aglutinadora passava a ocupar de forma vanguardista (do atraso) os
espaços que se generalizariam. Nos anos 1980, os pentecostais já eram a maioria
entre os trabalhadores informais engrossando uma força que se tornaria
política. Essa análise, apresentada por André Castro em A luta que há nos
deuses, abre caminho para uma sólida interpretação do pentecostalismo como
força política1.
Essa
força religiosa, espraiada pelo mundo a partir de um novo senso de missão
evangélica, se sobressai justamente quando a crise do valor se pronuncia de
maneira definitiva nos anos 1970. Organizando uma ligação teológico-política
radicada na experiência comunitária, sobretudo nas favelas, essa prática
religiosa, marcada pela crise do mundo do trabalho, elabora uma visão
apocalíptica que busca respostas aos eventos de desagregação social.
Revela-se,
portanto, uma escatologia marcada pelo encontro entre crise social, política e
econômica. Operando uma temporalidade organizada pela ideia de “fim dos
tempos”, o evangelicalismo forma uma cosmovisão, do ponto de vista da crise do
capital, realista. Marcada pela ideia de que algo realmente acabou e muita
coisa precisa acabar, essa cosmovisão, advinda da intuição geral de que não há
mais possibilidade de ascensão social, utiliza tendências apocalípticas —
afinal, “é chegada a hora” — para justificar injustiças que se encontrará com
uma ultrapolítica emergindo na direita.
Quando
esse encontro — entre uma prática religiosa mediada pelas ruínas da
modernização e uma racionalidade que coloca a concorrência como regra universal
— ocorrer, a guerra de todos contra todos será mediada pela noção de salvação
individual. No futuro, o messias, encarnado por Jair, se tornará um instrumento
divino para acabar com “tudo que está aí!”.
Ao seu
lado, mas do outro lado do mundo, Netanyahu e Israel defendem a Terra Santa,
demonstrando que a promessa se cumprirá (pouco importa a recusa radical do
cristianismo por parte do fundamentalismo sionista). Essa distorção
fundamental, impregnada de medo e ódio, entretanto, repousa numa realidade em
que as únicas expectativas possíveis são as da salvação individual e realização
por meio da concorrência universal.
Assim,
em um mundo depauperado, que não fornece nenhuma expectativa — e no qual a
esquerda se relegou a gerir a barbárie —, as forças institucionais encarnam o
mal, e o inimigo se apresenta como perpetuador de um mundo em declínio moral,
social e espiritual. A esquerda e todo o mainstream midiático surgem
transfigurados como encarnação da besta. Afinal, seriam servos do demônio.
Essa
representação imagética do evangelicalismo pentecostal reflete um contexto de
desintegração social, marcada pela crise de valorização do valor, que assume
uma forma apocalíptica, na qual as forças do bem e do mal se tornam políticas e
uma guerra se apresenta: trata-se não de um niilismo sem horizonte, mas de um
niilismo diante da vida social, tal como ela se apresenta, que luta pelo novo
céu e pela nova terra herdada por todos os homens de bens que aceitaram as
palavras de ordem: Deus, Pátria e Família. Uma torção que reflete um espírito
de utopia às avessas, endossado por uma politização às avessas.
Quando
a extrema direita se encontrou com o sentido teológico-político do
evangelicalismo — empenhado no assistencialismo e na construção de um horizonte
além-túmulo —, abriu-se o caminho para a militarização social. Numa militância
encarnada nas favelas e quebradas de todo país, o evangelicalismo organizou uma
visão de mundo estruturada a partir da realidade degradada do capitalismo fim
de linha e subalternizado do Brasil. O seu apelo parte não só da denúncia do
“fim de um mundo” como da possibilidade de encontrar refúgio na partilha de um
mesmo horizonte guiado pela igreja.
Assim,
a força da extrema direita brasileira não está na personalização bolsonarista,
mas na capilaridade de sua verdade propagada alto e bom som: não resta mais
nenhum horizonte de progresso social senão um salve-se quem puder orientado por
um deus imaginário e vingativo. As igrejas aparecem como lugares possíveis de
fuga, sociabilidade e horizonte de sentido partilhado.
Quando
o teológico e o político se encontram, num horizonte de expectativas rebaixado
em que a extrema direita ousa falar a verdade — que o progressismo oculta em
nome da gestão — as serpentes vão a campo. Escolhem-se os culpados, criam-se os
inimigos imaginários que, evidentemente, são aqueles que se opõem à sua visão
de mundo, e estrutura-se uma ultrapolítica que não busca o consenso ou a
mediação — já que foram justamente esses mecanismos que nos trouxeram até aqui
— mas a erradicação do diferente.
O
paradoxal é que, enquanto o progressismo busca o convencimento por meio da
gestão da barbárie, a extrema direita enuncia a verdade: não há saídas senão
pela imposição da força, ou seja, pelo conflito. Endossado agora pelo caráter
teológico-político, o conflito se torna guerra e imposição de visão de mundo.
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O massacre anunciado
No dia
28 de outubro, um novo capítulo da violência cotidiana no Brasil se escreveu
com contornos ainda mais trágicos. Um novo massacre, o mais letal desde o
Carandiru, parece ter redefinido os limites do jogo posto. A violência contra a
pobreza, cuja versão brasileira é centrada no racismo, redesenhou os contornos
da violência do Estado armado.
Com a
manutenção do ascenso da extrema direita por anos consecutivos, a guerra
interna tornou-se popular. A linguagem da violência enraizou-se no discurso que
vai de Guaianazes ao extremo sul de Santo Amaro e, em vez de provocar repulsa,
corpos enfileirados passam a produzir gozo.
Outra
característica importante é o grau de organização e capilaridade da extrema
direita: mal os corpos tinham esfriado, governadores bolsonaristas já se
perfilavam em defesa de Cláudio Castro. Além desse traço organizativo, sua
atuação, no nível simbólico, excede as fronteiras nacionais.
Internacionalizada, a extrema direita brasileira acompanha os movimentos da
extrema direita norte-americana e europeia: a suposta “operação” ecoa a
tentativa de Donald Trump de tornar tráfico de drogas e terrorismo sinônimos.
Assim,
numa Blitzkrieg muito bem-organizada, no dia 3 de novembro um projeto de lei
que equipara organizações criminosas a grupos terroristas foi incluído na pauta
de votações da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da
Câmara dos Deputados. O relator foi Nikolas Ferreira, que percebendo a abertura
do governo Lula (que aprovou diversas leis “anticrime”), encaminhou a proposta.
O gesto
do governo federal diante do acontecimento foi o de contemporizar e reduzir
tudo ao cálculo eleitoral, redefinindo as formas do jogo agora delimitado pelas
pressões e imposições do terror orquestrado pela extrema direita. Trata-se da
manipulação do medo e da fabricação de um ódio dirigido contra os pobres, que
são negros, e que são negros porque são pobres. Tudo sob o regime de uma
justificativa injustificável: o suposto combate às drogas.
Se as
políticas de segurança de um suposto governo de esquerda são ditadas pela sanha
assassina da extrema direita, então que diferença resta? Exceto pelos discursos
grandiloquentes de parlamentares que falam apenas à própria base, a esquerda
governista tende a ignorar conscientemente o tendão fundamental dessa violência
rentável: o fracasso reiterado, ano após ano, da chamada “guerra às drogas”.
A paz —
mesmo a ideológica — já não interessa mais.
Fonte:
Blog da Boitempo

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