A
chacina como estratégia e a máquina de terror estatal
A
coletiva de imprensa da cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro dada na
tarde do dia 29 de outubro de 2025 acerca da operação das polícias nos
Complexos da Penha e do Alemão, que resultou, até o momento em que escrevo este
texto, em mais de 130 mortos, não deixa dúvidas sobre os objetivos e o caráter
da operação. Tratou-se de uma chacina planejada. As cúpulas das forças
policiais buscaram reafirmar a retórica oficial que é paradigma das gestões
Witzel e Castro: uma polícia de segurança na qual a Constituição, o direito
penal e o regramento internacional dos Direitos Humanos não têm vigência e a
menor importância.
Os
secretários e os chefes da operação tentaram, com a truculência correspondente
à letalidade de suas ações, justificar e naturalizar uma atuação na qual o
“combate ao crime” resultou em mais de uma centena de mortes. Aí é preciso
reafirmar o óbvio. Não há nenhum dispositivo legal e nenhuma retórica possível
que dê amparo a uma operação dessa natureza. O que vimos foi uma tentativa de
virar do avesso o Estado, o direito e os horizontes de uma sociedade
democrática.
A
ilegalidade e o disparate dessa forma de atuação policial têm amparo na própria
fala do Secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, que afirmou que “nenhuma
polícia do mundo faz o que a Polícia Civil e a Polícia Militar do Rio de
Janeiro fazem”. O secretário está correto: nenhuma polícia do mundo age assim
porque não há qualquer elemento técnico, jurídico ou político que dê amparo
para uma polícia que executa centenas de pessoas ao cumprir mandados de prisão
e apreensão. Frise-se que a justiça não emite mandados que determinem a
liberdade para matar indiscriminadamente. Não há nenhuma chance de que as
forças de segurança consigam justificar a licitude dessas mortes, por isso se
antecipam em enunciar uma retórica política que demande a aceitação tácita de sua
legalidade. Por isso os responsáveis pela operação precisam se amparar em um
discurso que coloque a marca de “narcoterriristas” em todos os mortos e de
“narcoativistas” em todos os que procurem exigir a apuração das ilegalidades
cometidas e o cumprimento da lei por parte das forças de segurança.
“Narcoterrorismo”
e “narcoativismo” são expressões que precisam ser enfocadas com atenção. Elas
fazem parte de uma inflexão importante da política de guerra às drogas em curso
na Casa Branca. O atual mandato de Donald Trump tem mobilizado essas expressões
como uma ferramenta de retomada geopolítica de influência dos Estados Unidos na
América Latina. Ao equiparar a atuação de agentes do tráfico de drogas ao
terrorismo, Washington tem buscado um duplo efeito: por um lado, abre um flanco
de intervenção nos países do continente, por outro, aciona a construção de um
inimigo público racializado que abrange a população imigrante, alvo de sua
plataforma de governo no sentido de um fechamento autoritário do regime. Da
mesma forma que Trump reduz a população imigrante e os governos
latinoamericanos não alinhados como “narcoterroristas”, Castro avança para cima
da população favelada e periférica do Rio de Janeiro e tenta arrastar para o
centro de seu movimento político o governo federal.
Já o
termo “narcoativistas” é um recurso de desmoralização pública das vozes que
procurarem se opor a essa máquina de terror estatal. Aqueles que reivindicarem
explicações que tenham os horizontes da legalidade do uso da força policial e
do respeito aos direitos fundamentais por parte do Estado, serão reduzidos pelo
governo Castro à condição de aliados dos grupos criminosos. Os especialistas e
ativistas que atuam no campo da segurança pública que historicamente exigem do
Estado Brasileiro uma política de segurança eficaz e baseada nos princípios da
lei e da democracia serão taxados dessa forma e associados na opinião pública
como aliados dos traficantes.
Não é,
portanto, uma coincidência que Castro tenha adotado, de imediato, uma
estratégia política para a ação policial que ordenou. Ele interpelou o governo
federal e caracterizou a questão do tráfico no Rio de Janeiro como uma questão
de soberania. Notícias dão conta de que ele enviou para o governo estadunidense
um relatório caracterizando as facções cariocas como grupos terroristas. Castro
deixa claro, assim, que sua associação ao bolsonarismo não é mera aliança
eleitoral e circunstancial, ele tenta ocupar o centro do golpismo continuado
que é a marca da extrema direita no poder.
Toda
pretensão de constituição de um governo autoritário requer a construção de um
inimigo, caracterizado como abjeto e matável. Isso é fundamental para que
mandatários eleitos democraticamente atuem ao arrepio do ordenamento jurídico
na mobilização de forças de segurança. Essa é a condição para que lancem mão da
lógica da exceção no uso da força estatal de modo ilegítimo. A chave retórica é a da exceção: se os
criminosos não cumprem a lei, as políticas também não teriam a obrigação de
cumpri-la. É importante não perder isso de vista porque não se trata apenas de
uma inadequação técnica do modus operandi da operação. Estamos diante do
coração de uma forma autoritária de poder e os responsáveis devem ser
interpelados, investigados e avaliados à luz do confronto ao ordenamento
jurídico e político que promovem.
Não é
sob a ótica da falta de planejamento ou da inaptidão que a crítica a essas
formas de atuação policial deve se guiar. A cúpula da segurança pública deixou
evidente um elemento fundamental para a avaliação e julgamento futuro dessa
operação: ela foi meticulosamente planejada. A tática planejada e exibida na
coletiva de imprensa tinha como aspecto central o empurramento de pessoas,
todas elas consideradas a priori como criminosas, para uma região de mata e ali
promover as execuções extrajudiciais.
Os
responsáveis pela operação desejam que todos aceitem pacificamente que todas as
pessoas mortas eram criminosas e que estavam em situação de confronto armado. O
governador Cláudio Castro disse no dia da operação que as únicas vítimas foram
os quatro policiais mortos, todos os outros consistiriam em mortes amparadas
pela lógica do excludente de ilicitude. O Secretário de Polícia Civil chegou a
afirmar o seguinte: “não se surpreendam se aparecerem lesões, lesões a faca,
para tentar incriminar os policiais”, antecipando que as perícias futuras dos
cadáveres encontrarão provas do cometimento de execuções sumárias.
O que o
governador Castro e sua cúpula da segurança pública buscam é a cumplicidade
pública com uma lógica criminal de Estado, um poder sem lei, uma máquina de
matar movida por uma ideologia radicalizada e autoritária. O resultado dessa
política continuada de chacinas aprofundada nos governos Witzel-Castro não é o
controle e repressão à criminalidade, pelo contrário. O que vimos durante esses
dois governos foi o crescimento e fortalecimento dos confrontos e da ocupação
armada de favelas e periferias. A finalidade não é o combate ao crime, porque o
crime se combate pela cúpula e não pelas linhas baixas. Os verdadeiros chefes
do tráfico vivem uma vida de luxo e frequentam os salões das elites
brasileiras. O objetivo de Castro é a formação de corporações policiais que
abracem a ilicitude e o crime como o cerne de seus mandatos, polícias que
tenham um papel cada vez mais ativo e central nos agenciamentos das políticas
do crime.
Hoje só
nos cabe a perplexidade, a revolta e a solidariedade a todas as pessoas que
foram atingidas pelo terror do Estado, moradores dos Complexos do Alemão e da
Penha, trabalhadores dos subúrbios e periferias do Rio de Janeiro que se viram
desamparadas em uma cidade sob a batuta de um governo autoritário e desumano. O
futuro aguarda o governador Cláudio Castro e sua cúpula de segurança pública na
mira da justiça.
• A chacina fluminense e o estado
permanente de guerra. Por Rachel Gouveia Passos
No dia
28 de outubro de 2025, o governo do estado do Rio de Janeiro realizou a maior
operação policial da história levando a 119 mortos, dentre civis e policiais, e
113 presos. A ação nos Complexos da Penha e do Alemão teve início logo pela
madrugada, atravessando a região e, posteriormente, toda a capital. Como
consequência tivemos diversas ruas e avenidas com barricadas, serviços de saúde
e assistência fechados, pânico e violência em todos os lugares. Cabe lembrar
que a pior chacina ocorrida anteriormente foi na favela do Jacarezinho, em
2021, levando a óbito 28 pessoas.
A
“Guerra às Drogas” é a justificativa utilizada para estabelecer o estado
permanente de guerra e exterminar todos aqueles que são “reconhecidos” como
perigosos e inimigos. No Brasil não temos pena de morte como mecanismo legal,
mas existe uma autorização social, política e econômica para chegar nas favelas
e regiões periféricas “atirando na cabecinha”, conforme anunciou, em 2018, o
ex-governador Wilson Witzel. Ou seja, o Estado autoriza-se a exterminar a
população negra, pobre, periférica e favelada, sem o menor constrangimento.
A
megaoperação policial não apenas demonstra a falência da política de segurança
no estado do Rio de Janeiro, como declara o ódio destinado a população pobre e
favelada. O lastro da morte e da destruição não cabem nos dados divulgados
oficialmente, pois ainda temos aqueles que ficam pelo caminho sem identificação
e reconhecimento. A eliminação proporcionada pelas operações tem consequências
físicas, psíquicas e simbólicas marcando seriamente a população.
O
estado permanente de guerra naturalizado no cotidiano fluminense ainda não
entra na estatística oficial dos serviços de saúde mental, o que é de
fundamental importância para compreendermos os impactos da violência armada na
saúde da população. A bala que executou os 119 mortos oficiais – e daqueles não
oficiais – continua girando e atravessando o peito das mulheres, das crianças,
dos adolescentes, dos jovens, dos idosos e de toda a população desse
território. Por consequência, em breve, teremos as vítimas indiretas dessa
chacina e infelizmente não haverá dados estatísticos demonstrando que a
política de extermínio continua operando cotidianamente.
No
livro Na mira do fuzil: a saúde mental das mulheres negras em questão,
publicado em 2023, pela Editora Hucitec e o Selo Diálogos da Diáspora, tratamos
sobre os impactos do estado permanente de guerra na saúde mental de mulheres
mães de vítimas de violência armada. Nos depoimentos coletados foi possível
identificar o processo de adoecimento psicossocial gerado pela morte ou
mutilação dos filhos. Grande parte apresentou adoecimento físico, como
hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares, dentre outros, assim
como o adoecimento psíquico. Em alguns casos, temos depoimentos que lembram de
outras mulheres que “morreram de tristeza” e não resistiram ao tamanho da dor.
Dessa
maneira, podemos dizer que temos estabelecido como sociabilidade, e projeto
político o tombamento de corpos, a dilaceração simbólica dessas pessoas e a
mortificação em vida. Ou seja, não basta exterminar, é preciso demostrar que
tais mortos são da “pior espécie” e, por isso, mereceram a eliminação. Por
outro lado, deixa-se registrado para a comunidade e a família que existe uma
vigilância permanente tendo a violência como linguagem corporal e psíquica. Já
as vítimas indiretas vão ser atravessadas por uma dor que não poderá ser
arrancada ou “curada”, tendo que adaptar-se ou sucumbir, tornando-se mais um
afetado.
O
projeto político de extermínio continuará produzindo dor e destruição, o que
significa que não estamos tratando apenas de segurança pública. A pauta da
saúde mental é fundamental, uma vez que estamos lidando com um estado
permanente de guerra que continuará perpetuando o extermínio físico e psíquico.
Diariamente temos a produção do trauma psicossocial que precisa ser tratado
como caso de saúde pública e criado dispositivos de cuidado em saúde mental, na
perspectiva da atenção psicossocial, para viabilizar suporte e reparação para
as pessoas que foram lesionadas pela violência armada. Ou continuaremos
produzindo dor e destruição?
É
urgente que seja implementada uma política pública que objetive o acesso à
justiça, reparação e atenção psicossocial, já que a estratégia de destruição
está legitimada. Não podemos avançar no campo dos direitos sociais sem que
tenhamos mudanças concretas e efetivas para garantir o direito ao cuidado, a
saúde mental e ao bem-estar. Agora é o momento de reconhecer os mortos e
contabilizar os estragos produzidos pela política do extermínio, mas não sem
esquecer que a chacina fluminense marcou para sempre nossas vidas. Afinal, quem
contabiliza os nossos mortos?
• Ministra quer perícia independente após
reunião com famílias no Rio
A
ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, classificou hoje (30) como “um
fracasso” a operação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no início da
semana, e que deixou ao menos 121 pessoas mortas. Ela disse que está empenhada
em garantir uma perícia independente para averiguar as circunstâncias dos
assassinatos na ação.
A fala
da ministra contrasta com a declaração do governador Cláudio Castro que, nesta
quarta-feira (29) classificou a Operação Contenção como um “sucesso”.
“A
gente teve uma demanda da comunidade de estabelecer a perícia independente e
autônoma. Nosso Conselho Nacional de Direitos Humanos já nos comunicou sobre
isso e estamos trabalhando para que isso se efetive”, afirmou à imprensa, após
encontro de mais de duas horas com lideranças da comunidade e familiares das
vitimas da Operação Contenção.
A
Operação Contenção, das polícia Civil e Militar, tinha a intenção de combater o
tráfico de drogas e enfrentar a expansão da facção Comando Vermelho pelo país.
Além das 121 pessoa mortas, incluindo quatro policiais, 80 pessoas foram
presas. A polícia também apreendeu 118 armas e drogas.
Devido
à alta letalidade, no entanto, a ministra Macaé Evaristo condenou a operação,
chamada de “abominável” e “um horror” por também expor pessoas inocentes ao
risco de morte.
“Essa
operação foi um fracasso. É inadmissível uma operação para o combate ao crime
organizado, que é o que nós defendemos, não usar inteligência para garantir a
sua efetividade”, afirmou .
“Ninguém
tem objetivo de matar as pessoas, se a gente quer combater o crime, temos que
começar chegando aonde está o dinheiro. Porque se tem crime organizado, tem
setores que estão lucrando com esse crime organizado.”
No
encontro, a ministra Anielle Franco, da Igualdade Racial, acrescentou que
“nenhum corpo tombado” deve ser aceitável, reforçando a crítica à letalidade.
As
ministras, ao lado de parlamentares federais e estaduais, participaram do
encontro com a comunidade na sede da Central Única de Favelas (Cufa), a poucos
metros de onde a comunidade de Vila Cruzeiro expôs cerca de 80 corpos retirados
da mata pelos moradores, nesta quarta-feira (29).
Os
representantes do Poder Público também receberam demandas por atendimento
psicossocial, serviços públicos, além de alternativas de trabalho para a
juventude local.
Macaé
prometeu uma comissão emergencial integrada por vários ministérios para atender
às reivindicações.
“A
comunidade, além de apresentar toda a dor desse processo, trouxe um olhar, um
pedido de paz, mas ela também quer ter direitos, direito à educação, saúde,
assistência e, especialmente, direito a um trabalho decente para a juventude “.
A
comissão deve ser integrada pelos ministérios da Saúde, Educação, Assistencial
Social, Igualdade Racial e Mulheres.
Fonte:
Por André Rodrigues, em A Terra é Redonda/Le Monde/Agencia Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário