“Vivemos
um novo ‘boom’ da psicanálise, o anterior foi na ditadura militar”, afirma
psicanalista
Brasil
e Argentina hoje estão entre os mais importantes territórios psicanalíticos do
mundo. Isso se deve, paradoxalmente, à expansão durante os períodos
ditatoriais. Além de crescer, esta ciência e sua prática clínica se adaptaram
muito bem às ditaduras, revela o mestre e doutor em Psicologia Clínica pela
Universidade de São Paulo (USP). Nesse contexto, a estratégia foi gerar uma
espécie de conivência indireta, ou uma aliança tácita, o que considera um
psicologismo que vai desencadeando uma falsa equivalência de ideias. O pesquisador
destaca que na área havia uma ala conformista e outra conservadora ou
reacionária. “A ditadura revelou o aprofundamento dessas fendas na psicanálise,
um aprofundamento que nada mais é do que o resultado da luta de classes que lhe
é intestina”. Para ele, “na ditadura, em que a liberdade da palavra e as
condições mínimas para a mobilidade social estão severamente comprometidas, as
elites se bastam, em um círculo vicioso”.
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Confira a entrevista.
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Em Psicanálise na Ditadura (1964-1985), você
evidencia que, além de sobreviver bem ao regime militar, a psicanálise se
desenvolveu e cresceu no período. Por que e como aconteceu isso?
Rafael
Alves Lima – Pois é, esta é exatamente a contradição que me intrigou e levou à
pesquisa. De fato, há muitos elementos na teoria e na clínica psicanalítica que
idealmente não são compatíveis com regimes não democráticos. A liberdade de
poder falar o que vier à cabeça, que é a condição elementar para o exercício da
clínica, fica severamente ameaçada em uma ditadura. Por meio dessa liberdade da
palavra, chegamos a camadas profundas da teoria e da prática, como o
compromisso com a verdade daquilo que se diz, ou mais ainda, com a coragem da
verdade que fundamenta a ética da psicanálise. São princípios inegociáveis e,
naturalmente, inconciliáveis com tudo o que caracterizou a ditadura militar no
Brasil: censura, mentira, fraude, autoritarismo, golpe, violência e
intolerância. Durante a Alemanha nazista ou o fascismo italiano, a psicanálise
esteve em condições tão deploráveis de sobrevivência que a gente pode até dizer
que ela deixou de existir. Mesmo que ela não tenha desaparecido por completo,
podemos verdadeiramente nos perguntar o que havia de psicanálise naquelas
circunstâncias, porque em larga medida ela se tornou irreconhecível. São
cenários como esses que alguém como Elisabeth Roudinesco, uma das maiores
historiadoras da psicanálise, tem em vista quando pensa na extinção da
psicanálise em regimes não democráticos.
·
Já no Brasil e na América Latina, o movimento floresceu
no período?
Rafael
Alves Lima – Nas ditaduras latino-americanas se deu o contrário. Não há dúvidas
de que Brasil e Argentina hoje estão entre os mais importantes territórios
psicanalíticos do mundo. Isso se deve, em parte, a essa paradoxal expansão pela
qual os movimentos psicanalíticos passaram durante os períodos ditatoriais
nesses dois países, um tanto parecido também com o Chile e com outros países da
América Latina. Se eu puder arriscar uma analogia para tentar resumir o que fui
formulando ao longo do livro, diria que a ditadura impôs aos movimentos
psicanalíticos nacionais algo como agitar um vasilhame com água e óleo. Em
condições normais de temperatura e pressão, a oposição de valores elementares
“democracia x autoritarismo”, “verdade x mentira”, “liberdade x censura”,
“transparência x fraude”, tenderia à separação nítida. Mas quando sacudidos, a
olho nu, parecem misturados. É nesse sentido que se pode observar no período
ditatorial uma psicanálise dominante que parecia não incomodar o regime. O que
não é o mesmo que dizer que não havia resistência. Havia, e ela era bastante
expressiva, ao menos internamente. Entretanto, ela não era propriamente visível
a olho nu. Para o regime, esse estado de coisas teria sido suficiente, pois as
resistências seriam toleradas se elas se imiscuíssem na desestabilização do
vasilhame. É fato que a psicanálise cresce e se desenvolve no período, mas
quando olhamos para tamanho desequilíbrio de forças, devemos nos perguntar:
cresceu em que direção? É o que eu tento avaliar no meu livro, agora, sob o
olhar da história, com água e óleo um pouco mais separados.
·
A criação da Comissão da Verdade, em 2011, teve algum
papel na sua investigação?
Rafael
Alves Lima – Certamente sim. A pauta da justiça de transição e a luta por
memória, verdade e justiça na época, eram muito fortes. Mergulhei de cabeça na
questão da reparação. Foi uma espécie de sorte ter feito a pesquisa em um
momento em que se realizava um documento oficial, investigando profundamente os
crimes perpetrados pelo Estado, produzindo ao fim um relatório oficial com
dados inéditos, possibilitando o reconhecimento de tantas pessoas mortas e
desaparecidas, dando nome e endereço daqueles que torturaram e mataram. E,
inclusive, havia uma psicanalista na Comissão da Verdade, a Maria Rita Kehl,
uma referência para mim e para muitos da minha geração. O que, para mim, pelo
menos, não era acidental – a psicanálise tinha muito a dizer sobre o problema
que estava sendo enfrentado. Diria que mais decisivo do que a Comissão da
Verdade foi, para mim, especificamente, o projeto Clínicas do Testemunho, um
projeto da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Digo que foi mais
decisivo porque, de fato, fiz parte do Clínicas do Testemunho junto ao coletivo
no qual atuei por doze anos, o Margens Clínicas. Em paralelo, via grandes
trabalhos de história da psicanálise sendo consagrados, recebendo prêmios
Jabuti, como o “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica” do Christian
Dunker (que foi meu orientador e assina o prefácio do livro), ou “O Tronco e os
Ramos” do Renato Mezan. Livros que articulavam psicanálise, política, cultura e
sociedade, como os livros do Paulo Endo, da já citada Maria Rita Kehl, da
Miriam Debieux, da Tania Rivera e do Joel Birman, entre outros, foram
igualmente premiados. Muitos desses foram meus professores na USP e, de algum
modo, estar imerso nisso tudo fez uma síntese impremeditada das três dimensões
que dão o subtítulo do meu livro: história, clínica e política. É claro que
nada disso foi calculado, simplesmente queria fazer algo na linha do que esses
psicanalistas e pesquisadores faziam. Virei professor logo depois do meu
mestrado, em 2013, e testemunhei o nascimento de diversas clínicas públicas e
coletivos de psicanálise no Brasil, fiz amizades e parcerias muito importantes
nessa circulação. Minha pesquisa foi gestada nessa ambiência.
·
O filme “Ainda Estou Aqui” remonta a duas teorias: de
memória coletiva e de lugar de memória. Isso também dialoga de alguma forma na
sua pesquisa?
Rafael
Alves Lima – Certamente. Há uma enorme discussão sobre a relação, ou não
relação, entre história e memória, é um debate gigantesco com autores de grande
envergadura (M. Halbwachs, P. Ricoeur, P. Nora e tantos outros) que não tenho
condições de esmiuçar aqui. Posso dizer brevemente que é um filme que expressa
de forma brilhante um certo regime de sensibilidades que é fundamental de ser
trabalhado para pensar a ditadura. Para mim é curioso, porque remete a tempos
muito anteriores à minha pesquisa – li Feliz Ano Velho na
minha pré-adolescência (como tantos da minha geração), e anos depois fui aluno
de Psicologia Social da Vera Paiva na USP. A vida deu suas piruetas, e lá
estava eu, no Margens Clínicas, quando aconteceu aquele episódio asqueroso do
cuspe do Bolsonaro (na época deputado) no busto do Rubens Paiva em 2014 em
Brasília. Eram conflitos que já estavam lá. Com a Clínica do Testemunho, que
convivia politicamente com a Comissão da Verdade e com a Comissão Especial de
Mortos e Desaparecidos, toda essa sensibilidade dava sentido ao nosso trabalho.
A trajetória de Eunice Paiva e de toda a família na busca por verdade, memória
e justiça é exemplar nesse sentido, e é preciso saudar muito “Ainda Estou Aqui”
e comemorar toda a justa repercussão que ele tem gerado. A memória coletiva
reivindica as necessidades do tempo presente. O filme resgata essa chance de
construirmos uma sensibilidade mais complexa, criar alternativas para além do
estigma dos “porões”. Não para negar a tortura e a morte que a ditadura levou a
cabo, evidentemente, mas para possibilitar a empatia com o sofrimento daqueles
que ficam – afinal, quando falamos de mortos e desaparecidos, falamos também de
seus familiares, que por sua vez são igualmente vítimas da violência de Estado.
·
Os movimentos psicanalíticos se aliaram ao regime militar
brasileiro ou, no mínimo, foram coniventes com a ditadura?
Rafael
Alves Lima – Pode parecer um truque retórico aqui, mas a resposta precisa ser:
sim e não. Lembrando da analogia do frasco com água e óleo, sempre precisamos
dizer: sim, mas não só, ou nem sempre, ou nem todos. Afinal, o que seria essa
aliança e essa conivência? Uma boa pista que trabalho no livro é inspirada no
que o historiador da psicanálise Ely Zaretsky chamou de “ética da maturidade”.
Idealmente, as perspectivas desenvolvimentistas da psicanálise não
corresponderiam imediatamente a uma ideologia conservadora ou algo assim. O
desenvolvimentismo está na teoria freudiana da sexualidade, tem uma versão em
Abraham, e o arco chega até, se quisermos esticar um pouco mais, a perspectiva
winnicottiana do amadurecimento emocional ou a teoria do apego de Bowlby. Ou
seja, penso que o desenvolvimentismo em psicanálise é uma perspectiva
epistemológica legítima, e não um problema político em si. Os sinais de
deturpação começam a aparecer quando vemos derivações, por exemplo, da
adolescência à rebeldia, da imaturidade à insubordinação. Nessa linha
rapidamente se chega ao elogio da adaptação do sujeito à sociedade, ou à
conclusão de que “contestar é infantil” e “suportar é adulto”. É um
psicologismo que vai encadeando uma falsa equivalência de ideias gerando uma
espécie de conivência indireta, ou uma aliança tácita. Pois não é preciso
confirmar publicamente essa cumplicidade ideológica, bastaria envergar a teoria
e a prática em certa direção para que o regime não se sentisse especialmente
incomodado pela psicanálise dominante.
·
Houve um conformismo dos psicanalistas na prática clínica
durante a ditadura?
Rafael
Alves Lima – Vou pegar carona porque talvez haja uma diferença entre
conformismo e conservadorismo. Até porque os estratos mais conservadores dos
movimentos psicanalíticos da época eram mais catastrofistas do que propriamente
conformistas. O termômetro para analisar esse pêndulo para um lado ou para
outro é a atividade editorial da época. Na segunda metade dos anos 1970, com o
retorno dos psicanalistas que se exilaram na Europa, junto com a chegada dos
psicanalistas argentinos, os movimentos psicanalíticos foram paulatinamente se
transformando, com uma maior abertura crítica, que se refletiu na qualidade e
na tendência das publicações de livros e revistas da época. Temas “tabus” que
relacionavam psicanálise, política, teoria social, estética passam a circular
sem maiores prestações de conta. Sob os ventos da iminente abertura política,
os movimentos psicanalíticos mais tradicionais precisam rever suas condutas
institucionais mais conservadoras, ao passo em que novas instituições eram
fundadas na dianteira dos debates mais progressivos da época. Os debates
acompanhavam essa divisão. Na ala mais conservadora ou reacionária, o debate
dominante era catastrofista, como se estivéssemos à beira de uma grande
desorganização social com a queda da autoridade edípica e da família
tradicional, rumo a um caos pulsional irreversível ou algo que o valha. Não era
uma leitura social passiva, que se conformava com o que estava posto, percebe?
É um discurso mais abertamente retrógrado, convicto, argumentado, como se a
solução para os problemas sociais fosse retornar a um estado anterior, que no
fundo é sempre uma miragem, uma mentira. Do outro lado, na oposição, em uma
crítica verdadeiramente sofisticada, começaram a circular obras de autores
fundamentais da França de 68, da Escola de Frankfurt, da luta antirracista, da
análise institucional, do freudo-marxismo latino-americano e tantos outros.
Esse conjunto de obras que não eram necessariamente de psicanálise, mas que se
valiam dela como expediente de construção do pensamento crítico – eu chamei no
livro de “biblioteca crítica psicanalítica” – teve um impacto muito duradouro
na psicanálise no Brasil. No contexto da abertura ela se tornou na verdade a
biblioteca que preparou a formação dos psicanalistas da minha geração, são
livros que se tornaram obrigatórios nas nossas prateleiras. A biblioteca
psicanalítica crítica é a expressão editorial desse caldeirão intelectual que
transformou a psicanálise no Brasil, na potência que ela é hoje.
·
Como compreender a psicanálise brasileira antes de 1964,
durante o regime de repressão, e depois desse período? Quais as principais
diferenças a se destacar?
Rafael
Alves Lima – Já adiantei alguns contrastes com o momento atual, mas posso
acrescentar ao menos mais dois. Um que me parece absolutamente positivo diz
respeito à condição das formações em instituições de psicanálise. Há muito mais
instituições legítimas para realizar sua formação do que antes. Para quem chega
de paraquedas no campo um cenário repleto de possibilidades, como este
provavelmente, irá confundir ou se sentir perdida, desorientada ou algo assim. Se
você se fiar à história, procurar saber quem são as pessoas, a história do
grupo que fundou a instituição, o que chamo no livro de “rotas filiatórias e
migratórias”, que compuseram um movimento psicanalítico local, terá bons
critérios para diferenciar o que é legítimo e o que é charlatanismo ou oportunismo,
e saberá escolher. Quer uma formação tradicional, em uma instituição filiada à
IPA? Tem. Quer em uma instituição também tradicional, mas fora da IPA? Tem
também. Instituições lacanianas? Tem muitas. Tem também percursos de formação
“fora” das instituições, como que passando por mais de uma delas, privilegiando
grupos de estudos, circulações em espaços alternativos e afins. Para aqueles
que não têm condições de circular presencialmente pelos espaços, há
possibilidades online – supervisões, estudos e até análise assim. É certo que
fica mais difícil se localizar em um campo que conta com mais espaços legítimos
para viabilizar uma formação em psicanálise do que conseguimos contar nos dedos
das mãos. Posso estar sendo otimista, mas, se compararmos com o período
ditatorial, penso que hoje estamos em um cenário bem mais interessante. Uma
outra diferença que faço questão de sublinhar diz respeito aos movimentos que
poderíamos chamar de clínicas públicas de psicanálise no Brasil. Há diversos
coletivos espalhados no Brasil todo, fazendo um trabalho incrível de ampliar o
acesso ao tratamento psicanalítico a quem quer que seja. Havia trabalhos sendo
desenvolvidos nessa direção durante a ditadura, no RJ nos anos 1970, em SP nos
anos 1980. Mas com o tamanho que vemos hoje, não consigo ver nada nem perto
daquela época. Nesse sentido, somos vanguarda, é um movimento nosso. E é
interessantíssimo. Para mim, é a prova de que a psicanálise no Brasil deu
certo. Há quem diga que vivemos hoje um segundo boom da psicanálise, se
considerarmos os primeiros anos da psicanálise no Brasil, poderíamos até
arriscar que estamos já em um terceiro boom. Seja como for, é de fato um
momento importante para a psicanálise.
·
A psicanálise foi e é feita pela e para a elite?
Rafael
Alves Lima – É um tema interessante, e que está na pauta do dia por várias
razões. Afinal, o que estamos chamando de elite? Elite é uma categoria
sociológica que tende a ser usada para validar a posição social dos “mais
ricos”, mas, ao mesmo tempo, é uma categoria que não se encerra neles. Grosso
modo (penso aqui em Charles Wright Mills e em Pierre Bourdieu), arriscaria
dizer que a elite se caracteriza menos por esse tipo de recorte de validação
imediata, e mais pela facilitação no tráfego entre os mais diversos núcleos
sociais dominantes. Ilustramos com um cenário que, não por acaso, costuma se
repetir: militares de alta patente organicamente ligados a grupos de grandes
empresários e bilionários, cujos filhos estudam nas mesmas escolas dos filhos
de políticos poderosos, que, por sua vez, são primos dos donos dos maiores
jornais ou sobrinhos dos artistas mais influentes na cena cultural local –
todos são sócios mais ou menos dos mesmos clubes de campo, estudam nas mesmas
escolas e vão a vernissages nas mesmas galerias, convidados para os mesmos
jantares nos mesmos salões nobres onde, em suma, a vida nacional é decidida. A
elite, nesse sentido, é elite do poder, no sentido de inventar ativamente
distintos espaços sociais para que a manutenção do poder se autorregule. Bem, é
evidente que no caso de um país absurdamente desigual como o Brasil, o dinheiro
viabiliza esse tráfego. A classe trabalhadora não pertence à elite do poder. Na
ditadura, em que a liberdade da palavra e as condições mínimas para a mobilidade
social estão severamente comprometidas, as elites se bastam, em um círculo
vicioso.
·
Você também trata da criação da “Revista Brasileira de
Psicanálise” (RBP) e do embate com a imprensa da época. O que pode elencar de
mais relevante e singular a respeito?
Rafael
Alves Lima – A RBP foi a primeira revista oficial especificamente de
psicanálise publicada no Brasil, em 1928. Durou um só volume, passou uma longa
temporada em hibernação editorial, e voltou a ser publicada em 1967. Toda
revista desse porte representa para aqueles que publicam nela um momento no que
poderíamos chamar de o longo rito da consagração intelectual. A pessoa submete
o artigo, ele passará pelo crivo pelos editores, que por sua vez encaminharão
para os avaliadores, que dirão sim ou não para aquela publicação caso o
conteúdo seja condizente com a linha editorial da revista – que por sua vez é
também uma linha política que, em tempos de censura, faz cálculos do que pode
ou não ser ali veiculado, e por aí vai. Veja que são muitas e muitas camadas,
são muitos tributos pagos a muitos intermediários até o texto vir a público. No
caso de livros, que conta com paratextos (prefácio, quarta capa, orelha), que
preparam a recepção do livro, os ritos de consagração são igualmente
explícitos, mas uma revista como a RBP evidencia posições de toda uma
instituição. Ou seja, tanto revistas do tipo RBP quanto livros são materiais
para pesquisas históricas incríveis, e foi nessa aventura que eu embarquei. Ter
artigo publicado em uma revista como a RBP era como ganhar um selo de
autenticidade, uma garantia simbólica de pertencimento ao campo. Ou seja, não é
apenas uma questão de conteúdo, publicar é entrar no jogo do reconhecimento
pelos pares como um agente legítimo. Não é por acaso que os embates que
apareciam na imprensa da época eram majoritariamente dedicados à formação dos
psicanalistas. Havia muito charlatanismo e oportunismo no contexto do boom. Um
caso que eu analiso no livro é o da autodeclarada “Escola Superior de
Psicanálise”, cujo nome já diz muito, um nome que emula a academia, mas que de
acadêmico não tinha nada. Muitos psicanalistas que veiculavam suas produções na
RBP se viram impelidos a explicar o que é a formação de psicanalistas, o que
fazia sentido naquele contexto histórico. Virginia Bicudo, por exemplo,
escreveu artigos em que fazia uma defesa quase intransigente da instituição
ipeísta.
·
Segundo o “Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais”, em 1952 havia 128 categorias para a descrição de
modalidades de sofrimento psíquico. Em 2013, passou para 541 categorias. O que
justifica tão amplo aumento nas formas de nomear o sofrimento psíquico em 60
anos?
Rafael
Alves Lima – Esse aumento é estarrecedor e ainda precisa ser muito mais
estudado e combatido do que vem sendo. Estive no Latesfip desde o ano que ele
foi fundado, participei como coautor de alguns capítulos de dois livros que
lançamos há alguns anos, o “Patologias do Social” e o “Neoliberalismo como
Gestão do Sofrimento Psíquico”. Analisamos, por exemplo, como categorias
diagnósticas tradicionais, como a neurose, foram paulatinamente desaparecendo
(o que é muito esquisito, acho impossível pensar a psicopatologia psicanalítica
sem a categoria de neurose), enquanto outras como paranoia ou mesmo fetichismo
foram se tornando subespécies de “transtornos” ou “distúrbios”, o que emula uma
falsa equivalência em psicopatologia. Essas categorias tinham e seguem tendo
altíssima valência política (o fetichismo da mercadoria em Marx, a
indissociabilidade entre capitalismo e esquizofrenia em Deleuze) e a
pertinência delas indica exatamente a convivência produtiva entre crítica
social e psicopatologia. Nem precisamos apelar para a psicanálise aqui,
bastaria notar que outras tradições em psicopatologia, como a fenomenológica,
também estão sendo asfixiadas por essa esmagadora “manualização” da
psicopatologia dos DSMs dos últimos anos. Não é por acaso que temos, de um lado,
categorias impertinentes ou de reputação duvidosa como alguns transtornos
ligados à infância (opositor-desafiador, hiperatividade e outros) se
multiplicando de forma perigosa, autojustificada, quase uma reprodução por
partenogênese. De outro, categorias como a “personalidade antissocial” ou as
ditas “disforias” ou “incongruências de gênero” sendo adotadas de modo
negligente, como se fosse possível etiquetar o sofrimento psíquico e tratá-lo
desconsiderando a singularidade da experiência do sujeito em termos de raça,
território, gênero e classe.
O
despreparo em relação a estes atravessamentos sociais leva a diagnósticos
descontextualizados muito nocivos, nos quais pobres e negros são lidos como
antissociais, pessoas não binárias como “disfóricas” e coisas nessa linha. Tudo
isso vai na mais absoluta contramão daquilo que deve ser uma psicopatologia
crítica, voltada a pensar a clínica e a cura como liberdade e emancipação, e
não como uma rotulação despropositada. A multiplicação incalculável de
categorias diagnósticas é diretamente proporcional à multiplicação das formas
mais sofisticadas da dominação capitalista na contemporaneidade. Uma depende da
outra. É por isso que a crítica deve seguir seu curso nas duas frentes
simultaneamente.
·
Atualmente, há um alto índice de uso de drogas
psiquiátricas, uma mercantilização do bem-estar. Como vê e avalia esta
realidade?
Rafael
Alves Lima – É sempre importante lembrar que a história dos homens é também uma
história do recurso a substâncias para obter prazer por meio da alteração dos
estados de consciência. Para retomar o belo título do livro do Rodrigo Alencar,
é a fome da alma, e ela atravessa os tempos. Freud nos traz essa advertência da
modernidade em “O mal-estar na civilização”, de que a intoxicação nunca será um
atalho para a felicidade, muito embora prometa sê-lo. Acho que hoje, sob o
neoliberalismo, essas promessas dobraram a aposta, e o efeito é que cada vez
mais a gente tem recolhido os efeitos deletérios de um uso crônico de
medicações. Esse uso indiscriminado tem se revelado bastante perigoso. Tendo a
pensar que a incompetência diagnóstica, quando reduzida a um mero checklist de
sintomas, é o caminho mais curto para a medicalização do sofrimento. O
neoliberalismo precariza a clínica porque o sonho neoliberal é poder prescindir
do clínico. Imagine um cenário em que o sujeito se autodiagnostica pelo app e
pede o remédio pelo delivery. Seria a morte da clínica, certo? Daí eu pergunto:
será que estamos mesmo tão longe desse cenário? Ou ele está mais próximo do que
estamos dispostos a aceitar? Sempre tendo a achar que o pior não é a substância
em si, mas a indústria que fabrica, vende, torna-a necessária. Esse regime de
necessidade, em que a pessoa precisa dormir, precisa acordar, precisa
desempenhar certos papéis na família e no trabalho, é o problema. A
medicalização do sofrimento nada mais é do que a extensão inevitável dessa
nossa forma de vida orientada por falsas urgências.
·
No fim de 2024, houve um debate, na Escola Nacional de
Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), sobre a possibilidade de retirada dos fármacos na
vida dos pacientes. Considera positiva e viável essa mudança?
Rafael
Alves Lima – Retirar as medicações abruptamente poderia ser algo clinicamente
irresponsável, afinal, seria como jogar o sujeito no lugar mais adoecedor que é
a própria sociedade. Retirar os recursos que ele tem pode ser temerário. Agora,
certamente há uma mudança viável que seria a suspensão dessa imediaticidade
cultural da medicação. É espantoso como o sujeito, diante do sofrimento, pensa
primeiro em remédio, depois em outro remédio, depois em talvez tentar uma
substância que ainda não foi autorizada pela Anvisa. E, lá em último da fila,
como a última opção, enfim, a palavra, a partilha, a experiência comunitária
como saída do sofrimento. Parece, que salvo exceções pontuais, sequer tentamos
viabilizar essas formas de vida comunitárias, nosso hiperindividualismo ignora
completamente a possibilidade de outras formas de existir, ignora aquilo que os
saberes originários e indígenas entendem por saúde e bem-estar, por exemplo. Estamos
insistindo no erro há décadas e isso é evidente. Retirar os fármacos para jogar
as pessoas na lama neoliberal é piorar o erro, mas se formos capazes de
reinventar a sociedade, talvez isso se torne uma medida interessante. Seguindo
o raciocínio de que a indústria farmacológica tentacular é mais nefasta do que
a substância em si, penso que mais do que retirar os fármacos, precisamos
realmente tomar os meios de produção.
Penso
no caso inspirador do Coletivo Socialista de Pacientes (SPK), de Heidelberg.
Talvez as clínicas públicas de psicanálise possam almejar uma radicalidade mais
enérgica em algum momento. De todo modo, só no interior de um processo de
transformação mais arrojado que eu consigo imaginar uma mudança como essa sendo
realmente positiva e viável.
Fonte: Entrevista
com Rafael Alves Lima por Elstor Hanzen, em IHU

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