Margem
equatorial – ser ou não ser?
O
excelente diálogo entre Luiz Marques e Michael Löwy, organizado pelo site A
Terra é Redonda, trouxe à baila muitas questões relevantes – e urgentíssimas.
Pessoalmente, concordo quase integralmente com suas opiniões. Com uma ressalva,
cujo debate, creio, é fundamental neste momento: como o setor que poderíamos
definir como “esquerda ecológica” deve abordar a questão da exploração de
petróleo na margem equatorial (mais precisamente, o licenciamento para
perfuração exploratória no bloco FZA-M-59 pela Petrobras).
Mais
recentemente, Jean Marc von der Weid[i] lançou dramático repto pela não
exploração daquelas reservas, cujos fundamentos endosso integralmente: o
desastre planetário se aproxima rapidamente. Mas… qual a forma e a intensidade
da postura crítica que nós, conscientes da situação, devemos adotar?
Antes
de entrar nessa discussão, gostaria de expor meu lugar de fala: me considero
socialista e com consciência ecológica. Aliás, estou próximo da visão de Kohei
Saito,[ii] que levanta com propriedade um ponto sobre Karl Marx: este não teve
apenas uma “intuição” sobre os efeitos deletérios do capitalismo ao planeta; ao
contrário, tais efeitos eram consequência lógica da teoria que desenvolvia.
Pois, evidentemente, se acumular é natureza intrínseca do capitalismo, em algum
momento atingiríamos um limite dos recursos naturais.
Creio
que Marx só não avançou mais nessa questão por conta de sua busca incansável
pela demonstração científica desse fato. Para isso, focando no esgotamento dos
solos, estudou profundamente química e o que seriam as atuais ciências
agrárias, tentando fundamentar aquela conclusão racional. Infelizmente, como
sabemos, as ciências do século XIX não poderiam dar conta dessa missão – como
hoje podem e fazem (exceto para os ecossuicidas, negacionistas e fascistas).
A
partir dessa perspectiva pessoal, tenho absoluta concordância com a urgência,
existencial para a humanidade, em abandonar (para ontem) a petroeconomia, a
matriz energética fóssil. E, para isso, concordo com a imperiosa necessidade de
redução do consumo por quem pode fazê-lo, os extratos mais ricos.
A
desaceleração do “desenvolvimento”, até atingirmos o decrecimento, em uma nova
sociedade plural, no arcabouço de um socialismo necessariamente democrático,
tudo isso é a minha referência de luta político-social. E concordo que a
exploração de petróleo deve ser interrompida se quisermos minimizar o desastre
climático dentro de limites suportáveis.
Isso
posto, volto à exploração da margem equatorial pela Petrobras. E coloco desde
já o que considero o núcleo do problema: qual deve ser nossa proposta sobre
essa questão, de forma a minimizar os impactos deletérios ao ecossistema global
causados pelo capitalismo?
Nesse
ponto, abro uma divergência com relação à tática política adotada por alguns
setores da esquerda que têm preocupações ecológicas, como é o caso dos autores
citados. Já tratei dessa questão, embora de forma tangencial, por ocasião da
primeira negativa de licenciamento de poço exploratório pelo Ibama, em
2023.[iii] Gostaria de aprofundar aqui esse ponto.
Afirma-se
que Lula ainda tem como referência propostas dos progressistas do século XX –
vamos chamá-los de desenvolvimentistas prometéicos (“a natureza a serviço do
homem”). Por exemplo, nosso presidente frequentemente menciona a importância do
aumento da produção de automóveis (claro, de preferência elétricos) para o
desenvolvimento do Brasil.
Podemos
criticar essa postura a partir de várias perspectivas. Por um lado, o automóvel
é parte importante para a sustentação da ideologia das classes dominantes, pelo
seu papel como fetiche individualista, refletido na ambição popular pelo
“carrinho na garagem”. Nós, conscientes do impacto ambiental da produção e uso
do automóvel (inclusive o elétrico, com sua bateria que nada tem de
“sustentável” ou “limpa”), temos que nos contrapor, colocando como alternativas
o transporte público de qualidade, bicicletas e o andar a pé.
Entretanto,
é importante lembrar que as posições de Lula evoluíram muito desde a década de
1970. E que hoje o Brasil é um dos pilares internacionais, no mínimo pelo
reconhecimento da crise climática gerada por emissões provenientes do petróleo.
E pela transição para uma economia que pelo menos minimize a possibilidade de
um ecocídio. Evidentemente, devemos fazer críticas, mesmo ácidas, à
desarticulação do governo, à falta de planos consistentes para a transição
energética, etc, como bem faz Jean Marc von der Weid.
Mas, se
quisermos realmente avançar com nossas propostas, não podemos perder de vista a
dimensão política, a conjuntura terrível que vivemos em nível mundial. A luta
contra o fascismo, que foi ainda mais alavancado pela vitória de Donald Trump,
é, também, uma luta contra o ecossuicídio. E a importância do Brasil na
resistência democrática na América Latina e no mundo é imensurável.
Se
perdermos em 2026, talvez não seja exagero dizer que o mergulho no precipício
se tornará inevitável, com negacionistas governando um país-chave para mitigar
a crise ambiental. A frente ampla foi a salvação da democracia brasileira – e
da esperança de um planeta habitável. E ganhamos em 2022 com 50,9% dos votos,
não vamos nos esquecer disso. Ademais, seria uma ingenuidade trágica achar que
em 2026 haverá alternativa “mais avançada”.
Lula
continua sendo a esperança de que o dique antifascista não desmorone,
mergulhando o Brasil nas trevas e o planeta no desastre final, com todas
boiadas passando aqui. Tornarmo-nos em uma esquerda sectária é tudo que devemos
evitar nestes tempos trágicos.
Ora,
uma análise da conjuntura mais consistente mostra que abandonar a exploração da
margem equatorial seria um desastre político para o governo, talvez
insuperável. Isso é um fato, mesmo que não gostemos. Então, nessa lógica, temos
que ter o máximo cuidado para não transformar nossa postura crítica em linha
auxiliar da extrema direita ecocida em 2026.
Mas
então devemos nos calar? Certamente não! Nossa militância, nossa práxis, é para
transformar o mundo, voltando a Karl Marx. E nosso fazer político não pode
prescindir de um horizonte: a transformação democrática radical da sociedade.
Para que Pacha Mama não morra. Mas isso sem jogar o bebê fora junto com a água
do banho. Para nós, manter a democracia é imprescindível.
Por
isso, em primeiro lugar, é preciso ter consequência nas críticas. Podemos dar
alguns exemplos.
O
primeiro é quanto a um possível desastre ambiental decorrente da exploração na
margem equatorial. Claro, toda atividade exploratória envolve risco, é questão
probabilística. Mas qual o risco real aqui? A Petrobras hoje não é a BP no
Golfo do México em 2010. Ao contrário, tem histórico de décadas de operação no
pré-sal sem nenhum incidente grave.
E os
protocolos de contenção e mitigação que vão ser agora testados (avaliação
prévia operacional, APO, aprovada pelo IBAMA em 19/06/25[iv]), se passarem na
avaliação técnica criteriosa que será feita, são mais um fator de redução
desses riscos. Claro, aqui podemos dizer que risco zero só proibindo a
perfuração, mas essa crítica tem que ser realista – riscos mínimos não são o
mesmo que tragédia anunciada…
Um
segundo exemplo é o argumento do declínio da demanda por petróleo a partir da
próxima década. Aí surge uma confusão entre o que seria absolutamente
necessário para minimizar os impactos da crise climática e o que de fato vai
ocorrer. Não podemos confundir as duas coisas. Temos que conscientizar a
população de que é preciso zerar a extração de óleo, mas isso é diferente de
assumir como verdade uma projeção que tem níveis de incerteza absurdos. De
fato, estimativas da Petrobras indicam que, sem a margem equatorial, logo
importaríamos óleo. Mentiras? Não creio que tenhamos base científica para
afirmar isso.
Bem,
mas então que fazer? Silenciar? Claro que não.
Devemos
ganhar corações e mentes. Missão difícil, mas não impossível. Precisamos
aproveitar a liberdade que temos agora, sob um governo que preserva a
democracia (ainda que formal, longe das periferias, etc), para trabalhar muito.
A
articulação entre movimentos sociais como o MST, indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, deve se somar à atuação nas cidades: comunidades, igrejas,
associações de bairro, escolas, sindicatos. Uma boa nova, citada por Michael
Löwy, é a adesão de sindicatos na França às nossas pautas. Poderíamos pensar,
no Brasil, na criação de seções ou comitês ambientalistas em sindicatos,
associações, etc, etc.
Desconheço
se os trabalhadores da Petrobras já têm esse tipo de organização em seus
sindicatos ou na FUP. Mas seria importante que os petroleiros atuassem
fortemente para acelerar a transição da Petrobras, de uma empresa petrolífera
para uma de energia sustentável. Temos que aproveitar todos espaços existentes,
como por exemplo a COP 30, com a bandeira “petróleo zero”. Aqui concordo
integralmente com Luiz Marques e Michael Löwy, provavelmente o único saldo
concreto da COP 30 será a aceleração da articulação dos movimentos sociais.
Nada a esperar no plano institucional.
A
prática de articular movimentos tão distintos, de forma ampla e plural,
certamente não é simples, mas talvez a resistência que hoje se constrói contra
o PL da destruição (PL 2159/2021) nos ajude a abrir mais espaços a partir de
experiências concretas.
Assim,
talvez a postura mais coerente para nós seja dizer que somos pelo fim de toda
extração de óleo, em todo o mundo. A margem equatorial deve ficar intocada, não
pelos argumentos frágeis que foram criticados aqui. Mas porque o petróleo deve
ficar no subsolo, se quisermos ter alguma esperança no futuro da humanidade.
Agora, essa crítica não pode levar água ao moinho da extrema direita. E se
perdermos essa batalha do pré-sal, como parece provável, não significa que Lula
seja um traidor ecocida.
Enfim,
a questão da exploração da margem equatorial não deveria ser reduzida a um ser
ou não ser defensor(a) da mãe natureza. Ao contrário, podemos usá-la para
alavancar a consciência ecossocial de nosso povo. Com perdão do lugar comum
aristotélico, neste caso a virtude está no meio.
Fonte:
Por Roberto de Campos Giordano, em A Terra pe Redonda

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