Como
Trump está militarizando a fronteira dos EUA com o México
O ponto
mais alto do Monte Cristo Rey, em El Paso, no Texas, é tão acidentado
que as altas barras de aço que formam o muro que separa os Estados Unidos do
México não alcançam.
Lá no
alto do morro, já na parte mexicana, avista-se um jovem. É o que os agentes da
Patrulha de Fronteira chamam de "falcão" — encarregado de vigiar e
decidir em que momento e por qual lugar os imigrantes cruzarão para o
território americano.
Ali, o
jovem é um dos poucos sinais visíveis do que o governo dos EUA descreve como uma
"invasão" e uma "crise" na fronteira.
No
setor de El Paso, que vai do oeste do Texas até Novo México — e que é o mais movimentado em termos de
travessias e detenções ao longo dos mais de 3 mil km da linha
divisória —, os agentes lembram quando havia 2,5 mil detenções por dia. Agora
são apenas 67.
Em
abril, 8 mil pessoas foram detidas em toda a zona de fronteira por entrarem
ilegalmente no país. Um ano antes, esse número era de 128 mil, segundo
as estatísticas do governo.
Apesar
da queda dos números, que começou nos últimos meses do governo de Joe Biden e
se acelerou com a política de linha dura de seu sucessor, Donald Trump, a fronteira passa
por um processo progressivo de militarização.
Ele
fica a alguns metros do muro, em uma zona desértica que faz parte de uma das
duas novas Áreas de Defesa Nacional, criadas em abril e maio, ao longo de uma
fronteira que, para Trump, é uma zona de emergência nacional.
Cerca
de 1,7 mil cartazes em inglês e espanhol foram colocados na área e alertam para
o risco de detenção ao entrar na zona militar.
Imigrantes que entram
nessas áreas são considerados intrusos e podem ser detidos temporariamente por
soldados americanos, até que cheguem os agentes da Patrulha de Fronteira.
O
comando militar afirma que sua missão é reter e alertar os agentes da fronteira
para que façam a detenção oficial. Com isso, querem evitar que as Forças
Armadas sejam acusadas de desempenhar funções policiais dentro do território
nacional, algo proibido por lei.
Trump,
como nenhum outro presidente antes dele, está utilizando o exército mais
poderoso do mundo para controlar a fronteira com o México, e estima-se que já
haja mais de 8 mil soldados ao longo da linha divisória, além de mais de 100
Strykers, assim como aviões e drones, e dois navios da Marinha que patrulham as
costas.
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'95% não é 100%'
"A
contenção é de 95%. Mas 95% não é 100%. O número de travessias é historicamente
baixo, mas não é zero", disse o general de brigada Jeremy Winters,
comandante adjunto de operações da Força-Tarefa Conjunta da Fronteira Sul, um
novo mecanismo para coordenar esforços dos diferentes corpos de segurança.
Recentemente,
aproveitando o que os especialistas consideram uma brecha na lei, Trump
concedeu aos militares ainda mais protagonismo nas tarefas de controle da
fronteira.
"A
complexidade da situação atual requer que nosso exército assuma um papel mais
direto na segurança de nossa fronteira sul", justificou Trump em um
decreto assinado no dia 11 de abril.
Com
isso, ele autorizou a criação das Áreas de Defesa Nacional ao transferir para o
Departamento de Defesa todos os terrenos fronteiriços federais que, até então,
eram administrados pelo Departamento do Interior.
Entre
18 de abril e 1 de maio, o Pentágono criou duas Áreas de Defesa Nacional, ambas
fazendo fronteira com o estado mexicano de Chihuahua, e as converteu, de fato,
em parte de bases militares já existentes.
A
primeira delas, que abrange 273 km no Novo México, é considerada parte de Fort
Huachuca, uma base militar situada a dezenas de quilômetros dali, no Estado
vizinho do Arizona.
E a
Área de Defesa Nacional do Texas compreende 85 km entre os municípios de El
Paso e Fort Hancock, e agora servem à Fort Bliss, uma das maiores instalações
militares do país.
Essas
seções "melhorarão nossa capacidade de detectar, interceptar e processar
imigrantes ilegais, grupos criminosos e terroristas, como os que invadiram
nosso país sem consequências nos últimos quatro anos", justificou a
secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt.
"E
também fortalecerá nossa defesa contra o fentanil e outras drogas
perigosas que
têm envenenado nossas comunidades", acrescentou.
"Nós
oferecemos uma variedade de capacidades militares únicas para complementar o
controle da fronteira", explica o general de brigada Winters.
Ele
enumera os recursos — helicópteros Black Hawk, Chinook o Lakota — destacando os
veículos blindados Stryker, com sua capacidade de avançar por terrenos
acidentados em uma velocidade maior do que os caminhões da Patrulha da
Fronteira e "seu impressionante sistema de sensores".
"E
como Forças Armadas, trazemos uma capacidade única: a de [obter] inteligência
que a Patrulha Fronteiriça não tem", ressalta.
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Brecha na lei
Blaine
Bennett, comandante adjunto de Alfândega e Proteção Fronteiriça da Força-
Tarefa Conjunta da Fronteira Sul, conta que a integração dos agentes na
fronteira é algo que não havia visto em 20 anos de serviço.
Ambos
os responsáveis pelas operações destacam também uma maior coordenação com as
forças do lado mexicano, com as quais já realizam "patrulhas espelho"
em alguns pontos.
O
aumento crescente da presença militar no território americano desperta temores e críticas que os
responsáveis tratam de minimizar.
"Se
identificamos alguém na zona nacional de defesa, obviamente entramos em contato
com as forças de segurança da área, porque não temos a autoridade para prender
pessoas", pontua Winters.
Isso
porque, nos Estados Unidos, a lei Posse Comitatus impede que as Forças Armadas
federais participem de tarefas de ordem pública, a menos que o Congresso tenha
autorizado expressamente.
"Contudo,
a proibição não se aplica se o propósito principal das ações das tropas for
militar", disse Elizabeth Goitein, diretora do Programa Liberdade e
Segurança Nacional do Centro de Justiça Brennan, um instituto sem fins
lucrativos especializado em direitos e políticas públicas.
É o que
se conhece como "doutrina do propósito militar".
"Um
caso caso típico que responde a essa doutrina é quando há uma base do exército
e alguém entra ilegalmente nela", explica a especialista.
"Porque,
nessa situação, os militares não podem se limitar a chamar a polícia e esperar
que cheguem enquanto a pessoa anda pela base. Eles precisam protegê-la",
esclarece.
Goitein
acredita que essa é a ferramenta legal que o governo Trump está usando para
justificar a criação dessas Áreas de Defesa Nacional.
"É
exatamente o que o governo está tentando fazer: transformar um terço da
fronteira sul em uma instalação militar para que, quando alguém entrar na área
e for detido, possam argumentar que a razão principal para isso é proteger a
base."
Desse
modo, segundo a especialista, conseguem "gerar menos resistência política
e legal".
Muito
mais oposição teria sido gerada se Trump tivesse invocado a Lei de Insurreição
de 1807, que permite ao Executivo deslocar tropas no território em caso da
rebelião.
O
presidente colocou a ideia na mesa durante seu primeiro mandato, após os
protestos provocados em 2020 pela morte do afro-americano George Floyd pelas
mãos de um policial branco.
Em
janeiro deste ano, ele trouxe a ideia de volta quando, ao emitir uma ordem
executiva que declarava emergência na fronteira, deu ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, e à secretária de
Segurança Nacional, Kristi Noem, 90 dias para aconselhá-lo sobre a
possibilidade de invocar ou não a Lei de Insurreição para ajudar a ter o
"controle operacional completo" da área que faz fronteira com o
México.
Trump
intensifica, assim, a militarização da fronteira com o argumento de uma
emergência, enquanto os números de travessias ilegais estão em níveis
historicamente baixos, o que para Goitein é uma clara contradição.
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Controle total
"Aceitar
que uma contenção de 95% [das travessias irregulares] é suficiente é como
aceitar que, conceitualmente, não há problema em desobedecer a lei, e não é
isso que estamos fazendo aqui", disse o general de brigada Winters.
"Nosso
trabalho é controlar completamente."
Segundo
o comando militar, em patrulhas combinadas eles detectaram e prenderam 150
"invasores".
Dezenas
deles já foram apresentados ao juiz no Tribunal do Distrito de Las Cruces, no
Novo México.
Além da
acusação de entrar ilegalmente nos EUA, os promotores os acusaram de violar
intencionalmente as regulamentações de segurança nas áreas agora declaradas
restritas.
Ambas
as acusações são classificadas como delitos menores. Enquanto entrar no país de
forma ilegal, por um local que não seja designado como posto de entrada, tem
pena máxima de seis meses de prisão e uma multa de até US$ 5 mil, a segunda
acusação aumenta a pena de prisão para até um ano e a multa para US$ 100 mil.
"Os
imigrantes continuam chegando como sempre, mas, de repente, enfrentam acusações
militares. E não entendem nada", afirma Carlos Ibarra, advogado de vários
detentos.
Para o
juiz Gregory B. Wormuth, contudo, não há confusão.
Na
quinta-feira da semana passada (15/05), ele afirmou que o governo federal não
havia demonstrado que os imigrantes sabiam que estavam entrando em uma zona
militar restrita. Por não encontrar causa provável, ele rejeitou as acusações
apresentadas contra 98 dos acusados.
Segundo
os advogados, alguns dos imigrantes cruzaram a fronteira antes de serem
colocados os cartazes, e outros atravessaram sem conseguir vê-los.
Os
cartazes, as novas Áreas de Defesa Nacional e os Strykers confirmam a gradual
militarização da fronteira que Trump já buscava em seu primeiro mandato, mas
que foi rejeitada na época pelos militares, algo que não acontece mais com o
secretário de Defesa, Pete Hegseth, alinhado com o presidente.
O
Exército vê sentido nessa missão interna.
"Temos
dados que mostram que o preço das drogas está aumentando porque a concorrência
está mais difícil, já que estamos protegendo a fronteira. Assim como também já
subiu o preço para atravessas alguém pela nossa fronteira. Estamos tendo um
impacto, mas ainda não é suficiente para nós", destaca Winters.
Ele
aponta que a militarização da fronteira vai continuar, algo que, segundo o
Pentágono, já custou mais de US$ 500 milhões.
Inclusive,
Trump chegou a dizer recentemente que pressionou a presidente do México, Claudia
Sheinbaum,
para permitir que o Exército cruzasse para o território mexicano a fim de
realizar operações contra os cartéis, algo que ela rechaçou veementemente.
Por
enquanto, as tropas estão do lado norte-americano da fronteira, perto do
México, mas longe das perigosas missões internacionais tradicionais.
"Essa
é a missão principal deles. Isso não é um treinamento. É uma operação para
proteger nossa fronteira, nosso país e as famílias nos Estados Unidos que estão
sendo destroçadas pela violência e pelas drogas", afirma Winters.
A
poucos metros do muro fronteiriço, sob um sol implacável, não há sinal de
movimento nem do lado dos Estados Unidos nem do lado do México.
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Oito soldados mexicanos mortos por dispositivo explosivo
improvisado
Oito
soldados mexicanos morreram após detonar um dispositivo explosivo improvisado
(DEI) no estado de Michoacán, ressaltando o uso crescente de minas por facções
do crime organizado.
Os
soldados patrulhavam um veículo blindado no município de Los Reyes, perto da
fronteira com o estado de Jalisco, quando a mina detonou na quarta-feira. Seis
soldados morreram instantaneamente, enquanto outros dois morreram
posteriormente devido aos ferimentos, segundo o El Universal.
O
procurador-geral do estado de Jalisco assumiu o comando da investigação,
enquanto uma força-tarefa militar especial vasculha a área em busca de mais
dispositivos explosivos.
Pouco
antes da explosão, o exército relatou ter encontrado e destruído 621 IEDs em Michoacán durante as
operações até o momento.
A
região fronteiriça entre Michoacán e Jalisco é palco de uma luta violenta entre o grupo
criminoso mais poderoso do México, o cartel Nova Geração de Jalisco, e grupos
locais que resistem à sua incursão em seu território.
Vários
grupos criminosos teriam recrutado ex-militares da Colômbia especialistas em
explosivos, levando à proliferação de minas improvisadas para controlar
territórios em toda a região.
Este
incidente marca o maior número de mortes militares causadas por um IED desde
que seu uso começou – mas não é o único .
Em
dezembro de 2024, quatro soldados foram mortos por minas em dois incidentes em
municípios vizinhos de Michoacán. E em janeiro daquele ano, mais quatro foram
mortos quando um comboio do exército entrou em uma cidade em Jalisco.
As
minas também causaram mortes de civis em Michoacán, desde um professor cujo veículo
detonou uma mina em janeiro até vários produtores de limão — incluindo um jovem de 15 anos em fevereiro .
Além de
usá-los como minas, grupos criminosos também começaram a anexar IEDs a drones e
jogá-los sobre oponentes de cima.
No
geral, de acordo com dados militares mexicanos obtidos pelo Insight Crime , as apreensões
de IEDs aumentaram de quase nenhuma em 2021 para bem mais de 1.000 todos os
anos desde então.
Embora
seu uso tenha se espalhado pelo México , ele continua concentrado na área de fronteira
entre Michoacán e Jalisco, que representa cerca de 40% de todas as apreensões.
As
minas semearam o terror na região, contribuindo para o deslocamento
forçado de algumas comunidades .
Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

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