Fiori:
derrota e desmonte da União Europeia
O
processo de unificação da Europa começou com a assinatura do Tratado de Roma,
em 1957, e atingiu seu apogeu com a assinatura do Tratado de Maastricht, em
1992, um pouco depois da criação do euro, em 1999, e da reunificação da
Alemanha, em 1990. E este foi, com certeza, um dos projetos utópicos mais
importantes do Século XX: com a sua proposta de pacificar e unificar um sistema
de poderes territoriais e de Estados nacionais que competiram e guerrearam
entre si, de forma quase contínua, durante 800 anos. Destacando-se o fato de
que este projeto de desmontagem de uma verdadeira “máquina de guerra europeia”
só foi possível depois das duas Grandes Guerras do século XX, que mataram cerca
de 100 milhões de europeus.
Não é
de estranhar, portanto, que este processo de construção da União Europeia tenha
enfrentado grandes limitações e contradições, que bloquearam de forma quase
permanente o seu avanço e a plena realização do seu ideal unitário. Para
começar, a União Europeia foi sempre extremamente heterogênea e desigual, e
nunca logrou constituir um “poder central” com capacidade de impor sua vontade
e suas decisões estratégicas ao conjunto dos Estados-membros. Menos ainda,
depois de 1991, quando os europeus foram obrigados a incorporar, de forma
apressada e desorganizada, os países do Leste Europeu, do antigo Pacto de
Varsóvia. Além disto, a União Europeia não tem, e nunca teve, um orçamento
fiscal unificado que lhe permita tomar decisões e implementar políticas econômicas
e estratégicas, de curto, médio, e longo prazo, que lograssem diminuir a
desigualdade interna dos seus Estados-membros. E além disto, depois de 1991,
tornou-se uma “organização caolha”, que passou a ter uma moeda única sem ter um
orçamento fiscal unificado. Por fim, mesmo depois da assinatura do Tratado de
Maastricht, a União Europeia nunca teve uma política externa comum, soberana e
ativa, e muito menos uma política de segurança e defesa que fosse administrada
pelos próprios europeus.
a
verdade, depois da II Guerra Mundial, e mais ainda depois da assinatura do
Tratado do Atlântico Norte, em 1949, o continente europeu delegou sua soberania
militar para os EUA, e transferiu a responsabilidade de sua defesa para a OTAN.
Ou seja, do ponto de vista do Sistema de Westfália, os Estados nacionais
europeus se transformaram em “vassalos militares” do EUA, submetendo-se à sua
estratégia global de contenção da União Soviética e de combate ao comunismo ao
redor do mundo.
Não é
casual, portanto, que o Tratado de Maastericht só tenha sido possível depois do
fim da Guerra Fria, que permitiu a unificação da Alemanha. Mas, paradoxalmente,
o fim da URSS e a reunificação da Alemanha também podem ser considerados como o
momento inicial de um processo inverso, de desmontagem progressiva da União
Europeia. Em grande medida, devido ao desaparecimento do “inimigo comum” que
ajudou a mantê-la unificada até 1991, mas graças também ao “retorno” da
Alemanha à condição “maior país”, e maior potência demográfica e econômica da
Europa. Depois de ter sido o pivô das duas grandes guerras mundiais do século
XX, na condição de inimiga direta da URSS, da França e da Grã-Bretanha.
Em
2003, Alemanha se opôs abertamente à invasão do Iraque pelas tropas dos EUA e
da Grã-Bretanha, levada à frente sem a aprovação do Conselho de Segurança da
ONU. Logo em seguida, em 2005, a França, a Holanda e a Irlanda rejeitaram um
projeto de Constituição da Europa, proposto e engavetado pelo Conselho da União
Europeia. Por sua vez, na crise financeira de 2008, a Alemanha voltou a
divergir da França, mas sobretudo da Grã Bretanha. que acabou tomando uma
posição isolada dentro do grupo. E uma vez mais, no mesmo ano de 2008, os
europeus se dividiram frente à proposta norte-americana de incorporação da
Geórgia e da Ucrânia à OTAN, apoiada pela Grã-Bretanha, mas rejeitada pela
Alemanha. E em 31 janeiro de 2020, finalmente, a Grã Bretanha decidiu abandonar
a União Europeia, abrindo um precedente que vem ecoando até hoje em vários
outros países da comunidade.
Mas não
dúvida que esta divisão interna da União Europeia adquiriu uma dimensão
completamente diferente depois que os EUA, a OTAN e vários governos europeus se
envolveram e apoiaram o golpe de Estado que derrubou o presidente da Ucrânia,
Viktor Yanukovich. Começou ali a chamada “crise da Ucrânia” que se prolongou
até o início das hostilidades militares, em 22 de fevereiro de 2022, quando as
tropas russas invadiram o território ucraniano, e a guerra voltou para dentro
da Europa, depois de 77 anos.
Sobretudo
depois que os EUA e a Grã-Bretanha impediram as negociações de paz que estavam
em pleno curso na cidade de Istambul, no mês de março daquele mesmo ano. A
partir daquele momento o conflito ucraniano se transformou numa guerra
europeia, entre os EUA/OTAN e a Rússia, que envolveu também um “ataque
econômico” massivo da União Europeia contra a Rússia. Duas decisões que
acabaram atingindo a própria Europa e contribuindo decisivamente para o
desmonte atual da União Europeia.
Em
primeiro lugar, porque o ataque econômico fracassou com relação aos seus
objetivos fundamentais. A economia russa não parou de crescer, o governo russo
redirecionou seus fluxos comerciais e financeiros para a Ásia, e a tecnologia
de guerra dos russos deu saltos verdadeiramente impressionantes. Enquanto a
economia europeia entrou em crise e recessão, liderada pela economia alemã que
segue estagnada há praticamente três anos, sofrendo um acelerado processo de
desindustrialização. Em segundo lugar, porque apesar do apoio financeiro dos
EUA e do apoio militar da OTAN, a União Europeia foi derrotada no campo
militar, independente do tempo que ainda possa durar a resistência dos
ucranianos. E três anos depois do início da guerra, os governos das principais
“potências ocidentais” envolvidas no conflito foram derrubados pelos seus
próprios eleitores, na Itália, na Grã-Bretanha, na França, na Alemanha, e nos
Estados Unidos.
Com
tudo isto, o golpe mais importante que atingiu em cheio a unidade da União
Europeia foi sem dúvida a eleição de Donald Trump, com sua política
internacional de aproximação da Rússia, de pacificação da Ucrânia e de
distanciamento – quase hostil – dos europeus e da própria OTAN. De um só golpe,
a Rússia está sendo trazida de volta à “comunidade econômica ocidental” pelas
mãos dos EUA, e a Europa está perdendo seu principal aliado e protetor atômico.
Neste
momento da derrota europeia, várias propostas vêm sendo colocadas sobre a mesa,
apressadamente, sobretudo pela França e pela Grã-Bretanha, mas nenhuma delas
tem a menor possibilidade de reverter no curo prazo, este quadro de derrota
militar, crise econômica e insatisfação social. Tramita neste momento uma
acusação de corrupção contra a presidente do
Conselho
Europeu, a alemã Ursula von der Leyen, e a sua representante para Negócios
Estrangeiros, a jovem estoniana Kaja Kallas, é pouco representativa e parece
inteiramente despreparada para o exercício do cargo. Por outro lado, os
social-democratas perderam sua identidade, e hoje são partidos belicistas e
ferrenhos defensores do “globalismo neoliberal” atacado por Donald Trump.
Enquanto
os partidos conservadores e liberais querem apostar na remilitarização da
economia europeia, mesmo sem contar com a unidade e os recursos necessários. E
mesmo assim precisariam pelo menos de uma década ou mais para se equiparar à
atual tecnologia militar da Rússia. Seu período de vassalagem militar foi muito
longo e tomará muito tempo para que os europeus possam retomar em suas próprias
mãos a sua soberania. E não é improvável que neste tempo as “grandes potências”
europeias voltem a se dividir, competir e a brigar entre si, como sempre
fizeram nos últimos 800 anos. Como já estão fazendo com relação às acusações de
corrupção que pairam sobre a atual presidente da Comisssão Europeia, a alemã
Ursula von der Leyen.
Foi
isto pelo menos o que já ocorreu no caso do “acordo comercial” recém-assinado
pelos EUA e pela Grã-Bretanha, que mais parece uma capitulação do que um acordo
comercial. De fato, a Grã-Bretanha submeteu-se à pressão dos EUA e correu na
frente dos demais países europeus para conseguir assinar, separadamente, o que
o jornal Financial Times, descreveu como sendo “um pacto que está
mais próximo de um pagamento de proteção a um chefe de máfia do que de um
acordo de liberalização entre países soberanos”.1 E o mais
provável é que os demais países europeus acabem fazendo o mesmo, aprofundando o
desmonte da União Europeia.
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'Potências vivem drama de países latino-americanos', diz
diretor-executivo do Brasil no FMI
Combater
a queda da produtividade se tornou o grande desafio das economias globais após
a pandemia. Os esforços vinham num crescente e a tendência era positiva até
Donald Trump embaralhar o cenário com o anúncio de sua guerra comercial. O clima agora é de
profunda incerteza. “Todo mundo está questionando o que vai acontecer após a
guinada comercial dos EUA”, observa André Roncaglia, diretor-executivo do
Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Professor
de economia da Universidade de Brasília (UnB) até assumir o posto no FMI,
Roncaglia destacou que, hoje, as grandes economias mundiais, como os Estados
Unidos e os países europeus, vêm experimentando dramas típicos de países
latino-americanos, submetidos à forte pressão inflacionária e a juros altos
sobre suas dívidas públicas.
Roncaglia
mencionou que existe um cenário de endividamento e alta de juros cobrados das
dívidas dos países. Um processo típico das economias latino-americanas que
agora afeta as grandes potências. “Países que historicamente tinham taxas de
juros muito baixas, e pouca pressão sobre os seus orçamentos, estão tendo que
lidar com problemas tipicamente latino-americanos. Essa é a novidade. Estamos
falando de Alemanha, França, Itália, Portugal, Estados Unidos, que tipicamente
não tinham esses problemas”, destacou.
“Em
meio a esse processo, a principal ferramenta de ajuste é a dívida pública”,
afirmou, ao explicar que os títulos dos governos, que são vendidos no mercado
de ações, possuem um perfil de dívida que oscila. Há países com títulos de 10,
50 anos, outros possuem títulos centenários.
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Cenário pós-pandêmico
Roncaglia
contou que até a chegada do governo Trump, os países seguiam uma trajetória de
diminuição da ociosidade generalizada da economia, após a crise de
produtividade gerada pela pandemia da covid-19. “Estávamos ocupando cada vez
mais a capacidade produtiva, com queda do desemprego voltando a níveis
pré-pandêmicos, economias mais aquecidas e sob um processo de desaceleração da
inflação. Uma trajetória benigna em termos sistêmicos, com pontos de tensão
mais ou menos generalizados”, detalhou.
O ponto
central, destacou, é que os países conseguiram retomar suas atividades
econômicas, mas em um nível muito menor. Isso levou à busca pelo aumento da
produtividade, por uma melhor qualidade dos empregos e pela elevação da renda
para combater as pressões inflacionárias.
Segundo
ele, o desafio foi respondido de forma heterogênea entre os países, com
destaque para a China, que conseguiu manter o crescimento tanto da
produtividade quanto o da renda. A Europa, por sua vez, apresentou “um problema
gravíssimo em termos de produtividade, gerando tensões internas acopladas por
pressões imigratórias”.
Roncaglia
observou que, diferentemente dos Estados Unidos, o arranjo econômico europeu
incorpora direitos sociais e trabalhistas, o que é visto negativamente pelo
mercado financeiro. “Do ponto de vista social, ele é muito mais sustentável do
que o norte-americano, mas ele não está conseguindo vencer esta corrida.
A Europa rediscute seu redesenho industrial, em meio à forte divisão
interna de opiniões sobre qual caminho seguir, se o norte-americano ou o
chinês, de planejamento”, apontou.
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Estados Unidos
A queda
da produtividade também afetou os Estados Unidos. Embora sejam a economia mais
produtiva do mundo, a parte que representa ganho de produtividade no país é
muito pequena perto de todo o território norte-americano, onde existem grandes
vazios de atividades produtivas e uma forte desigualdade regional, explicou o
economista.
“No Vale do Silício, a Califórnia é a
sétima economia do mundo, um estado entre 50. E o resto do país? É muito
difícil imaginar que uma economia como esta garantirá emprego de qualidade para
todo mundo”, avaliou.
É
justamente essa situação que Trump está tentando reverter com sua política
tarifária. “Podemos criticar os seus métodos, se a maneira como ele está
fazendo isso é correta, mas o plano dele não é muito diferente do plano do
[Joe] Biden. Ele apenas usa mecanismos diferentes para reindustrializar o
país”, afirmou. Em sua avaliação, “o grande equívoco de Trump é que ele está
tentando reindustrializar para trás, reanimando indústrias que não mais existem
em vez de criar as indústrias que ainda não existem”.
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Brasil no FMI
Questionado
por Opera Mundi sobre a visão do FMI sobre o Brasil, o economista
salientou que o país tem um espaço consolidado no órgão multilateral. “Nós
temos mandato, somos cotistas do órgão e o Brasil é incrivelmente respeitado
dentro do FMI”, afirmou.
“A
cadeira brasileira é ouvida por todos os demais países. Eles nos procuram,
inclusive, porque temos autonomia para dizer o que muitos não têm. Esse é o
resultado de uma longa trajetória de participação brasileira no FMI”, destacou.
Em
termos gerais, pontuou, “o Brasil é visto como um país com um grande desafio
fiscal. O principal elemento que chama atenção é o custo de rolagem da dívida,
tanto o serviço de juros muito elevado da dívida pública, quanto o custo de
serviço dessa dívida. Isso nos coloca o desafio de estabilizar a dívida a longo
prazo”.
Do
ponto de vista fiscal, o FMI reconhece os esforços brasileiros. “O Brasil é
visto como um país que está tentando obter um ajuste fiscal com equilíbrio,
moderação das despesas e aumento da arrecadação, com base em maior
progressividade de sua estrutura tributária e maior eficiência, por meio da
reforma tributária encampada recentemente pelo governo Lula”.
Fonte:
Outras Palavras/Opera Mundi

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