sábado, 31 de maio de 2025

Como os Houthis do Iêmen paralisaram o capitalismo marítimo

 Em 12 de maio, um artigo do New York Times  intitulado “Por que Trump declarou de repente vitória sobre a milícia houthi” revelou inadvertidamente a verdade sobre o fracasso da coalizão liderada pelos EUA no Iêmen. O artigo observou que, enquanto os Estados Unidos gastavam munições, os Houthis do Iêmen, ou Ansar Allah, continuavam atirando contra navios e abatendo drones impunemente.

Em outras palavras: o Iêmen, um dos países mais pobres do mundo, impôs com sucesso um bloqueio no Mar Vermelho — uma das rotas de navegação mais importantes do mundo — enquanto os EUA e seus aliados fracassaram, desperdiçando bilhões em defesa antimísseis contra um oponente que os superou em todas as manobras.

As operações militares dos EUA no Iêmen resultaram em baixas civis significativas, com estimativas extremamente conflitantes. A Airwars, uma agência de monitoramento de conflitos sediada no Reino Unido, documenta centenas de mortes de civis iemenitas em 181 ações militares dos EUA desde 2002. Esses números contrastam dramaticamente com os relatórios do Pentágono, que reconhecem apenas treze mortes de civis. A guerra civil iemenita, em curso desde 2014, provou ser ainda mais devastadora. Segundo especialistas independentes, os bombardeios da coalizão liderada pela Arábia Saudita — com apoio dos EUA — e o bloqueio imposto são responsáveis por mais de 150.000 mortes, em um conflito que já matou centenas de milhares de iemenitas no total.

Qual o resultado? Três fatores-chave explicam a capacidade dos houthis de manter o bloqueio apesar da oposição ocidental: o controle de um ponto geográfico vital, seu arsenal de mísseis e drones de produção nacional e as vulnerabilidades inerentes a uma indústria naval global hiperconsolidada.

<><> O bloqueio que abalou o mundo

Em 19 de novembro de 2023, combatentes houthis embarcaram no Galaxy Leader, ligado a Israel,  no Mar Vermelho, marcando o primeiro bloqueio naval da história imposto por uma força sem marinha própria. A partir daquele momento, o Iêmen efetivamente bloqueou uma das rotas comerciais mais vitais do mundo, interrompendo um terço do tráfego global de contêineres e quase um quarto de todo o comércio marítimo entre países não vizinhos. O choque econômico foi imediato. Gigantes da navegação redirecionaram navios ao redor do Cabo da Boa Esperança pela primeira vez em mais de 150 anos, elevando os tempos de trânsito, os custos e os valores de seguro.

Quando o bloqueio começou, em 14 de novembro de 2023, inicialmente visava apenas navios com destino a Israel. Desde o início, os Houthis estavam comprometidos em pôr fim ao genocídio em Gaza, exercendo pressão econômica sobre Israel. Os Estados Unidos responderam com a Operação Guardião da Prosperidade, uma coalizão de vinte nações — alguns dos quais se recusaram a ser identificadas publicamente — com o objetivo de garantir o comércio no Mar Vermelho.

“No passado, os estivadores movimentavam a carga peça por peça, criando uma margem de segurança inerente. Hoje, máquinas automatizadas movimentam montanhas de contêineres em horas — até que algo dá errado.”

No entanto, o bloqueio de Ansar Allah continuou. Sua estratégia expôs uma mudança fundamental na guerra naval: um ator não estatal, utilizando tecnologia barata e produzida internamente, havia superado a aliança militar mais poderosa da história.

No início de 2025, um frágil cessar-fogo se consolidou — e com ele, o bloqueio do Mar Vermelho foi temporariamente suspenso. Mas em março, quando Israel rompeu a trégua e intensificou sua campanha de fome em Gaza, os Ansar Allah agiram rapidamente para reimpor seu cerco marítimo. Desta vez, os EUA lançaram uma campanha de bombardeio unilateral contra o Iêmen, com a Grã-Bretanha — sempre o leal parceiro minoritário — rapidamente se alinhando.

O poder dos pontos de estrangulamento geográficos

OEstreito de Bab el-Mandeb, uma passagem de 32 quilômetros de largura entre o Iêmen e o Djibuti, é um dos gargalos mais críticos do comércio global. Cerca de 12% a 15% de todo o comércio global passa por ele, incluindo 12% do petróleo mundial e 30% das mercadorias em contêineres. Quando o Ansar Allah o fechou, as consequências econômicas foram enormes.

As interrupções no estreito de Bab el-Mandeb custam à economia global cerca de US$ 23 bilhões anualmente em condições normais — sem falar em um bloqueio total. Sem acesso ao estreito, os navios foram forçados a fazer o longo e tempestuoso desvio ao redor do Cabo da Boa Esperança, na África, adicionando semanas ao tempo de trânsito e milhões em custos de combustível por viagem.

Os Estados Unidos e seus aliados não podiam simplesmente bombardear para se livrar desse problema. O controle do litoral pelo Iêmen significava que mesmo alguns mísseis ou drones bem posicionados poderiam deter a navegação comercial por tempo indeterminado.

Produção nacional de armas e apoio iraniano

Ageografia por si só não explica o sucesso da estratégia do Ansar Allah. Na última década, o país construiu uma formidável indústria nacional de armamentos, produzindo mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e drones capazes de atingir navios a centenas de quilômetros de distância.

O Irã desempenhou um papel crucial nesse desenvolvimento, fornecendo conhecimento técnico, componentes de mísseis e treinamento. Desde pelo menos 2014, a Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica contrabandeia assessores e armas para o Iêmen por via aérea e marítima, ajudando o Ansar Allah a estabelecer instalações de produção de mísseis em Sadah.

Mas a capacidade do Iêmen de adaptar tecnologia comercial para uso militar — como drones chineses reaproveitados — foi igualmente importante. Essa combinação de inovação nacional e apoio estrangeiro permitiu que o Ansar Allah travasse uma guerra assimétrica contra adversários muito mais ricos.

<><> A fragilidade do transporte marítimo global

Aincapacidade dos Estados Unidos e seus aliados de deter o bloqueio do Ansar Allah expôs os custos subjacentes à eficiência do capitalismo marítimo moderno. A marcha de décadas da indústria naval rumo à consolidação e à escala minou a estabilidade das rotas comerciais marítimas. Essa fragilidade tem sido explorada com efeitos devastadores por grupos como o Ansar Allah.

Hoje, o comércio global flui por um funil cada vez mais estreito. Na última meia década, três a quatro alianças de transporte marítimo controlaram mais de 90% do tráfego de contêineres entre Ásia, Europa e América do Norte. As frotas dessas alianças são compostas por navios porta-contêineres ultragrandes (ULCVs), o que seria inimaginável há apenas algumas décadas. Na década de 1980, os maiores navios transportavam 4.500 contêineres; hoje, um ULCV típico transporta 24.000.

“Este é o paradoxo do capitalismo do século XXI: as mesmas eficiências que geram lucros impressionantes também criam vulnerabilidades catastróficas.”

Mas a adoção do transporte em larga escala também teve um custo. Esse novo modelo teve três consequências principais:

  • A crise portuária: os ULCVs exigem portos de águas profundas com infraestrutura especializada, restando apenas um pequeno número de hubs globais capazes de lidar com eles. Onde centenas de portos antes participavam do comércio global, agora uma interrupção em Singapura, Roterdã ou Xangai causa um impacto global.
  • A armadilha da eficiência: A busca pela maximização da capacidade eliminou toda a margem de operação do sistema. O transporte marítimo moderno opera com precisão just-in-time, onde atrasos medidos em horas podem gerar congestionamentos de semanas. Quando o Ever Given bloqueou o Canal de Suez em 2021, ele sufocou 12% do comércio global por seis dias.
  • O domínio das alianças: Com controle quase total de rotas vitais, as alianças de transporte marítimo criaram um sistema em que sua aversão ao risco se tornou uma profecia autorrealizável. Quando as seguradoras se opõem ao aumento dos valores pagos pelo seguro, as alianças redirecionam as rotas em massa — como fizeram durante o bloqueio do Ansar Allah.

A revolução dos contêineres da década de 1960 tornou esse sistema possível, aumentando a produtividade portuária em cem vezes. Mas também eliminou os amortecedores que antes absorviam os choques. No passado, os estivadores movimentavam a carga peça por peça, criando uma margem de segurança inerente. Hoje, máquinas automatizadas movimentam montanhas de contêineres em horas — até que algo dê errado.

O Ansar Allah aparentemente entendeu esse cálculo perfeitamente. Não precisava derrotar a Marinha dos EUA; simplesmente precisava fazer com que os custos dos seguros pelo risco do Mar Vermelho superassem os lucros. O comandante Eric Blomberg, que supervisionou a Operação Guardião da Prosperidade, admitiu, relutantemente, que “nós [os Estados Unidos] só precisamos errar uma vez… para os houthis acertarem uma”.

Este é o paradoxo do capitalismo do século XXI: as mesmas eficiências que geram lucros exorbitantes também criam vulnerabilidades catastróficas. A maior força do sistema — sua interdependência intrinsecamente entrelaçada — tornou-se sua maior fraqueza quando confrontado com um movimento capaz de explorar seus pontos críticos.

<><> Crise econômica de Israel

Obloqueio atingiu Israel de forma particularmente dura. Cerca de 60% do seu PIB provém do comércio, e 99,6% desse valor (em peso, 65% em volume) é proveniente do transporte marítimo. Isso torna Israel um Estado insular de fato, dependente de importações de matérias-primas, bens de consumo e recursos energéticos, excluindo o gás natural. Três portos — Haifa, Ashdod e Eilat — movimentam 80% do tráfego marítimo do país.

Mas em meados de 2024, Eilat — a linha vital de Israel para a Ásia no Mar Vermelho — estava efetivamente morta, tendo oficialmente declarado falência ao Knesset. Os navios se recusaram a arriscar a viagem, optando pelo desvio de 17.700 quilômetros ao redor da África. Os valores de seguro aumentaram 900% e os custos de transporte da China para a Europa quadruplicaram.

Até mesmo as alardeadas exportações de gás natural de Israel foram prejudicadas. Israel perdeu a oportunidade de realizar seu sonho de se tornar um polo regional de exportação de gás natural liquefeito (GNL), devido à dificuldade e ao custo de transportar grandes petroleiros para seus portos.

Um novo capítulo no conflito assimétrico

Obloqueio do Mar Vermelho pelo Ansar Allah representou mais do que um sucesso tático — revelou como atores menores podem explorar as vulnerabilidades de uma economia global interconectada. Ao interromper uma das rotas marítimas mais críticas do mundo, demonstrou que, em uma era de comércio hipereficiente, mesmo capacidades militares limitadas podem ter efeitos estratégicos desproporcionais.

Os Estados Unidos e seus aliados, apesar de seu poder de fogo avassalador, lutaram para conter uma campanha que visava não apenas navios, mas também a economia atrelada ao comércio marítimo. Enquanto a doutrina militar tradicional prioriza a força bruta, a abordagem do Ansar Allah explorou fragilidades sistêmicas — rotas de navegação consolidadas, logística just-in-time e mercados de seguros avessos ao risco. O resultado foi uma crise que não poderia ser resolvida apenas com mísseis.

Este conflito tem implicações mais amplas para a forma como o poder é projetado no século XXI. O domínio militar não garante mais o controle quando os pontos críticos econômicos — rotas de navegação, cadeias de suprimentos, sistemas financeiros — podem ser ameaçados por meios não convencionais. As ferramentas da globalização, projetadas para maximizar a eficiência, também criaram novas vulnerabilidades.

¨      Israel confirma planos para criar 22 novos assentamentos na Cisjordânia ocupada

Israel disse que estabelecerá 22 novos assentamentos na Cisjordânia ocupada , incluindo a legalização de postos avançados já construídos sem autorização do governo, após uma votação do gabinete de segurança realizada em segredo na semana passada.

Israel ocupou a Cisjordânia, capturando-a da Jordânia, na guerra dos seis dias de 1967. Desde então, sucessivos governos tentaram consolidar permanentemente o controle israelense sobre a terra , em parte declarando áreas como "terras estatais", o que impede a propriedade privada palestina.

A moção teria sido apresentada pelo ministro da defesa de extrema direita, Israel Katz, e pelo ministro das finanças, Bezalel Smotrich, que vive no assentamento de Kedumim, na Cisjordânia, considerado ilegal pelo direito internacional.

Katz disse que a decisão do assentamento "fortalece nosso domínio sobre a Judeia e a Samaria", usando o termo bíblico para a Cisjordânia, "ancora nosso direito histórico na Terra de Israel e constitui uma resposta esmagadora ao terrorismo palestino".

Ele acrescentou que também se trata de “um movimento estratégico que impede o estabelecimento de um estado palestino que colocaria Israel em perigo”.

Um porta-voz do grupo israelense de direitos humanos B'Tselem afirmou: “Israel continua a promover a supremacia judaica por meio do roubo de terras palestinas e da limpeza étnica na Cisjordânia. O governo israelense está aberta e descaradamente trabalhando para destruir o povo palestino e qualquer chance de um futuro normal para as pessoas que vivem entre o Rio Jordão e o mar.”

O porta-voz acrescentou: “A comunidade internacional está permitindo os crimes de Israel ao ficar de lado enquanto milhões de palestinos são submetidos a esse regime racista e brutal do governo israelense”.

O governo pretende usar os 22 assentamentos para reforçar a presença de Israel ao redor da Rota 443, que conecta Jerusalém e Tel Aviv via Modiin e foi descrita por Israel Ganz, chefe do grupo que reúne o conselho Yesha dos municípios judeus da Cisjordânia, como "a decisão mais importante desde 1967".

O ministro disse no X: “Tomamos uma decisão histórica para o desenvolvimento de assentamentos: 22 novas comunidades na Judeia e Samaria, renovando os assentamentos do norte de Samaria e reforçando o eixo oriental do estado de Israel”.

Em julho passado, Israel aprovou a maior apreensão de terras na Cisjordânia ocupada em mais de três décadas, de acordo com um relatório divulgado pela Peace Now, uma organização israelense de vigilância anti-assentamentos.

Na época, o governo israelense aprovou a apropriação de 12,7 km² (quase 5 milhas quadradas) de terra no vale do Jordão, indicando que era “a maior apropriação única aprovada desde os acordos de Oslo de 1993 ”, referindo-se ao início do processo de paz.

Em uma gravação vazada capturada pelo Peace Now no ano passado, Smotrich, durante uma conferência de seu Partido Religioso Nacional-Sionismo Religioso, revelou que os confiscos de terras em 2024 superaram as médias dos anos anteriores em aproximadamente dez vezes.

Ele disse: “Isso é megaestratégico e estamos investindo muito nisso. É algo que mudará o mapa drasticamente.”

Em maio de 2023, Smotrich, que disse que sua "missão de vida é impedir o estabelecimento de um estado palestino", instruiu os ministérios do governo israelense a se prepararem para que mais 500.000 colonos israelenses se mudassem para a Cisjordânia ocupada.

Em 20 de junho, o Guardian revelou como os militares israelenses entregaram discretamente poderes legais significativos na Cisjordânia a funcionários públicos pró-colonos que trabalhavam para Smotrich.

Uma ordem publicada pelas Forças de Defesa de Israel em seu site em maio de 2024 transfere a responsabilidade por dezenas de estatutos da Administração Civil — o órgão israelense que governa na Cisjordânia — dos militares para autoridades lideradas por Smotrich no Ministério da Defesa.

Em março, um comunicado emitido pela Peace Now afirmou que entre 1º de janeiro e 19 de março, 10.503 unidades habitacionais foram promovidas, superando as 9.971 unidades aprovadas ao longo de todo o ano de 2024.

A aprovação de novos assentamentos pelo governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu representa uma implementação adicional de seu objetivo de longa data de anexar o território palestino ocupado – um objetivo reforçado pelo governo Trump.

Mike Huckabee, nomeado novo embaixador de Trump em Israel , sinalizou seu apoio às reivindicações israelenses sobre a Cisjordânia em uma entrevista no ano passado. Ele disse: “Quando as pessoas usam o termo 'ocupada', eu digo: 'Sim, Israel está ocupando a terra, mas é a ocupação de uma terra que Deus lhes deu há 3.500 anos. É a terra deles.'”

Colonos de direita descreveram altos funcionários do novo governo Trump, que revogou sanções impostas a grupos violentos de colonos israelenses, como um "time dos sonhos" que ofereceria uma "oportunidade especial" para acabar permanentemente com qualquer perspectiva de um estado palestino.

 

Fonte: Por Ashok Kumar – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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