Como
os Houthis do Iêmen paralisaram o capitalismo marítimo
Em 12 de maio, um artigo do New York
Times intitulado “Por que Trump declarou de repente vitória
sobre a milícia houthi” revelou inadvertidamente a verdade sobre o fracasso da
coalizão liderada pelos EUA no Iêmen. O artigo observou que, enquanto os
Estados Unidos gastavam munições, os Houthis do Iêmen, ou Ansar Allah,
continuavam atirando contra navios e abatendo drones impunemente.
Em
outras palavras: o Iêmen, um dos países mais pobres do mundo, impôs
com sucesso um bloqueio no Mar Vermelho — uma das rotas de navegação mais
importantes do mundo — enquanto os EUA e seus aliados fracassaram,
desperdiçando bilhões em defesa antimísseis contra um oponente que os superou
em todas as manobras.
As
operações militares dos EUA no Iêmen resultaram em baixas civis significativas,
com estimativas extremamente conflitantes. A Airwars, uma agência de
monitoramento de conflitos sediada no Reino Unido, documenta centenas de mortes
de civis iemenitas em 181 ações militares dos EUA desde 2002. Esses números
contrastam dramaticamente com os relatórios do
Pentágono,
que reconhecem apenas treze mortes de civis. A guerra civil iemenita, em curso
desde 2014, provou ser ainda mais devastadora. Segundo especialistas
independentes, os bombardeios da coalizão liderada pela Arábia Saudita — com
apoio dos EUA — e o bloqueio imposto são responsáveis por mais de 150.000
mortes, em um conflito que já matou centenas de milhares de iemenitas no total.
Qual o
resultado? Três fatores-chave explicam a capacidade dos houthis de manter o
bloqueio apesar da oposição ocidental: o controle de um ponto geográfico vital,
seu arsenal de mísseis e drones de produção nacional e as vulnerabilidades
inerentes a uma indústria naval global hiperconsolidada.
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O bloqueio que abalou o mundo
Em 19
de novembro de 2023, combatentes houthis embarcaram no Galaxy Leader,
ligado a Israel, no Mar Vermelho, marcando o primeiro bloqueio naval
da história imposto por uma força sem marinha própria. A partir daquele
momento, o Iêmen efetivamente bloqueou uma das rotas comerciais mais vitais do
mundo, interrompendo um terço do tráfego global de contêineres e quase um
quarto de todo o comércio marítimo entre países não vizinhos. O choque
econômico foi imediato. Gigantes da navegação redirecionaram navios ao redor do
Cabo da Boa Esperança pela primeira vez em mais de 150 anos, elevando os tempos de
trânsito, os custos e os valores de seguro.
Quando
o bloqueio começou, em 14 de novembro de 2023, inicialmente visava apenas
navios com destino a Israel. Desde o início, os
Houthis estavam comprometidos em pôr fim ao genocídio em
Gaza, exercendo pressão econômica sobre Israel.
Os Estados Unidos responderam com a Operação Guardião da Prosperidade, uma
coalizão de vinte nações — alguns dos quais se recusaram a ser identificadas
publicamente — com o objetivo de garantir o comércio no Mar Vermelho.
“No
passado, os estivadores movimentavam a carga peça por peça, criando uma margem
de segurança inerente. Hoje, máquinas automatizadas movimentam montanhas de
contêineres em horas — até que algo dá errado.”
No
entanto, o bloqueio de Ansar Allah continuou. Sua estratégia expôs uma mudança
fundamental na guerra naval: um ator não estatal, utilizando tecnologia barata
e produzida internamente, havia superado a aliança militar mais poderosa da
história.
No
início de 2025, um frágil cessar-fogo se consolidou — e com ele, o bloqueio do
Mar Vermelho foi temporariamente suspenso. Mas em março, quando Israel rompeu a
trégua e intensificou sua campanha de fome em Gaza, os Ansar Allah agiram
rapidamente para reimpor seu cerco marítimo. Desta vez, os EUA lançaram uma
campanha de bombardeio unilateral contra o Iêmen, com a Grã-Bretanha — sempre o
leal parceiro minoritário — rapidamente se alinhando.
O poder
dos pontos de estrangulamento geográficos
OEstreito
de Bab el-Mandeb, uma passagem de 32 quilômetros de largura entre o Iêmen e o
Djibuti, é um dos gargalos mais críticos do comércio global. Cerca de 12% a 15%
de todo o comércio global passa por ele, incluindo 12% do petróleo mundial e
30% das mercadorias em contêineres. Quando o Ansar Allah o fechou, as
consequências econômicas foram enormes.
As
interrupções no estreito de Bab el-Mandeb custam à economia global cerca
de US$ 23 bilhões anualmente em
condições normais — sem falar em um bloqueio total. Sem acesso ao estreito, os
navios foram forçados a fazer o longo e tempestuoso desvio ao redor do Cabo da
Boa Esperança, na África, adicionando semanas ao tempo de trânsito e milhões em
custos de combustível por viagem.
Os
Estados Unidos e seus aliados não podiam simplesmente bombardear para se livrar
desse problema. O controle do litoral pelo Iêmen significava que mesmo alguns
mísseis ou drones bem posicionados poderiam deter a navegação comercial por
tempo indeterminado.
Produção
nacional de armas e apoio iraniano
Ageografia
por si só não explica o sucesso da estratégia do Ansar Allah. Na última década,
o país construiu uma formidável indústria nacional de armamentos, produzindo
mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e drones capazes de atingir navios a
centenas de quilômetros de distância.
O Irã
desempenhou um papel crucial nesse desenvolvimento, fornecendo conhecimento
técnico, componentes de mísseis e treinamento. Desde pelo menos 2014, a Força
Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica contrabandeia assessores e
armas para o Iêmen por via aérea e marítima, ajudando o Ansar Allah a
estabelecer instalações de
produção de mísseis em
Sadah.
Mas a
capacidade do Iêmen de adaptar tecnologia comercial para uso militar — como
drones chineses reaproveitados — foi igualmente importante. Essa combinação de
inovação nacional e apoio estrangeiro permitiu que o Ansar Allah travasse uma
guerra assimétrica contra adversários muito mais ricos.
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A fragilidade do transporte marítimo global
Aincapacidade
dos Estados Unidos e seus aliados de deter o bloqueio do Ansar Allah expôs os
custos subjacentes à eficiência do capitalismo marítimo moderno. A marcha de
décadas da indústria naval rumo à consolidação e à escala minou a estabilidade
das rotas comerciais marítimas. Essa fragilidade tem sido explorada com efeitos
devastadores por grupos como o Ansar Allah.
Hoje, o
comércio global flui por um funil cada vez mais estreito. Na última meia
década, três a quatro alianças de transporte marítimo controlaram mais de 90%
do tráfego de contêineres entre Ásia, Europa e América do Norte. As frotas
dessas alianças são compostas por navios porta-contêineres ultragrandes
(ULCVs), o que seria inimaginável há apenas algumas décadas. Na década de 1980,
os maiores navios transportavam 4.500 contêineres; hoje, um ULCV típico
transporta 24.000.
“Este é
o paradoxo do capitalismo do século XXI: as mesmas eficiências que geram lucros
impressionantes também criam vulnerabilidades catastróficas.”
Mas a
adoção do transporte em larga escala também teve um custo. Esse novo modelo
teve três consequências principais:
- A crise
portuária:
os ULCVs exigem portos de águas profundas com infraestrutura
especializada, restando apenas um pequeno número de hubs globais capazes
de lidar com eles. Onde centenas de portos antes participavam do comércio
global, agora uma interrupção em Singapura, Roterdã ou Xangai causa um
impacto global.
- A armadilha da
eficiência:
A busca pela maximização da capacidade eliminou toda a margem de operação
do sistema. O transporte marítimo moderno opera com precisão just-in-time,
onde atrasos medidos em horas podem gerar congestionamentos de semanas.
Quando o Ever Given bloqueou o Canal de Suez em 2021, ele sufocou 12% do
comércio global por seis dias.
- O domínio das
alianças:
Com controle quase total de rotas vitais, as alianças de transporte
marítimo criaram um sistema em que sua aversão ao risco se tornou uma
profecia autorrealizável. Quando as seguradoras se opõem ao aumento dos
valores pagos pelo seguro, as alianças redirecionam as rotas em massa —
como fizeram durante o bloqueio do Ansar Allah.
A
revolução dos contêineres da década de 1960 tornou esse sistema possível,
aumentando a produtividade portuária em cem vezes. Mas também eliminou os
amortecedores que antes absorviam os choques. No passado, os estivadores
movimentavam a carga peça por peça, criando uma margem de segurança inerente.
Hoje, máquinas automatizadas movimentam montanhas de contêineres em horas — até
que algo dê errado.
O Ansar
Allah aparentemente entendeu esse cálculo perfeitamente. Não precisava derrotar
a Marinha dos EUA; simplesmente precisava fazer com que os custos dos seguros
pelo risco do Mar Vermelho superassem os lucros. O comandante Eric Blomberg,
que supervisionou a Operação Guardião da Prosperidade, admitiu,
relutantemente, que “nós [os
Estados Unidos] só precisamos errar uma vez… para os houthis acertarem uma”.
Este é
o paradoxo do capitalismo do século XXI: as mesmas eficiências que geram lucros
exorbitantes também criam vulnerabilidades catastróficas. A maior força do
sistema — sua interdependência intrinsecamente entrelaçada — tornou-se sua
maior fraqueza quando confrontado com um movimento capaz de explorar seus
pontos críticos.
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Crise econômica de Israel
Obloqueio
atingiu Israel de forma particularmente dura. Cerca de 60% do seu PIB
provém do comércio, e 99,6% desse valor (em peso, 65% em volume) é proveniente
do transporte marítimo. Isso torna Israel um Estado insular de fato, dependente
de importações de matérias-primas, bens de consumo e recursos energéticos, excluindo
o gás natural. Três portos — Haifa, Ashdod e Eilat — movimentam 80% do tráfego
marítimo do país.
Mas em
meados de 2024, Eilat — a linha vital de Israel para a Ásia no Mar Vermelho —
estava efetivamente morta, tendo oficialmente declarado falência ao Knesset. Os
navios se recusaram a arriscar a viagem, optando pelo desvio de 17.700
quilômetros ao redor da África. Os valores de seguro aumentaram 900% e os
custos de transporte da China para a Europa quadruplicaram.
Até
mesmo as alardeadas exportações de gás natural de Israel foram prejudicadas.
Israel perdeu a oportunidade de realizar seu sonho de se tornar um
polo regional de exportação de gás natural liquefeito (GNL), devido à
dificuldade e ao custo de transportar grandes petroleiros para seus portos.
Um novo
capítulo no conflito assimétrico
Obloqueio
do Mar Vermelho pelo Ansar Allah representou mais do que um sucesso tático —
revelou como atores menores podem explorar as vulnerabilidades de uma economia
global interconectada. Ao interromper uma das rotas marítimas mais críticas do
mundo, demonstrou que, em uma era de comércio hipereficiente, mesmo capacidades
militares limitadas podem ter efeitos estratégicos desproporcionais.
Os
Estados Unidos e seus aliados, apesar de seu poder de fogo avassalador, lutaram
para conter uma campanha que visava não apenas navios, mas também a economia
atrelada ao comércio marítimo. Enquanto a doutrina militar tradicional prioriza
a força bruta, a abordagem do Ansar Allah explorou fragilidades sistêmicas —
rotas de navegação consolidadas, logística just-in-time e mercados de seguros
avessos ao risco. O resultado foi uma crise que não poderia ser resolvida
apenas com mísseis.
Este
conflito tem implicações mais amplas para a forma como o poder é projetado no
século XXI. O domínio militar não garante mais o controle quando os pontos
críticos econômicos — rotas de navegação, cadeias de suprimentos, sistemas
financeiros — podem ser ameaçados por meios não convencionais. As ferramentas
da globalização, projetadas para maximizar a eficiência, também criaram novas
vulnerabilidades.
¨ Israel confirma
planos para criar 22 novos assentamentos na Cisjordânia ocupada
Israel
disse que estabelecerá 22 novos assentamentos na Cisjordânia ocupada , incluindo a legalização de
postos avançados já construídos sem autorização do governo, após uma votação do
gabinete de segurança realizada em segredo na semana passada.
Israel
ocupou a Cisjordânia, capturando-a da Jordânia, na guerra dos seis dias de
1967. Desde então, sucessivos governos tentaram consolidar
permanentemente o controle israelense sobre a terra , em parte
declarando áreas como "terras estatais", o que impede a propriedade
privada palestina.
A moção
teria sido apresentada pelo ministro da defesa de extrema direita, Israel Katz, e pelo ministro das finanças, Bezalel
Smotrich, que vive no assentamento de Kedumim, na Cisjordânia, considerado
ilegal pelo direito internacional.
Katz
disse que a decisão do assentamento "fortalece nosso domínio sobre a
Judeia e a Samaria", usando o termo bíblico para a Cisjordânia,
"ancora nosso direito histórico na Terra de Israel e constitui uma
resposta esmagadora ao terrorismo palestino".
Ele
acrescentou que também se trata de “um movimento estratégico que impede o
estabelecimento de um estado palestino que colocaria Israel em perigo”.
Um
porta-voz do grupo israelense de direitos humanos B'Tselem afirmou: “Israel
continua a promover a supremacia judaica por meio do roubo de terras palestinas
e da limpeza étnica na Cisjordânia. O governo israelense está aberta e
descaradamente trabalhando para destruir o povo palestino e qualquer chance de
um futuro normal para as pessoas que vivem entre o Rio Jordão e o mar.”
O
porta-voz acrescentou: “A comunidade internacional está permitindo os crimes de
Israel ao ficar de lado enquanto milhões de palestinos são submetidos a esse
regime racista e brutal do governo israelense”.
O
governo pretende usar os 22 assentamentos para reforçar a presença de Israel ao
redor da Rota 443, que conecta Jerusalém e Tel Aviv via Modiin e foi descrita
por Israel Ganz, chefe do grupo que reúne o conselho Yesha dos municípios
judeus da Cisjordânia, como "a decisão mais importante desde 1967".
O
ministro disse no X: “Tomamos uma decisão histórica para o desenvolvimento de
assentamentos: 22 novas comunidades na Judeia e Samaria, renovando os
assentamentos do norte de Samaria e reforçando o eixo oriental do estado de
Israel”.
Em
julho passado, Israel aprovou a maior apreensão de terras na Cisjordânia
ocupada em mais de três décadas, de acordo com um relatório divulgado pela Peace Now,
uma organização israelense de vigilância anti-assentamentos.
Na
época, o governo israelense aprovou a apropriação de 12,7 km² (quase 5 milhas
quadradas) de terra no vale do Jordão, indicando que era “a maior apropriação
única aprovada desde os acordos de Oslo de 1993 ”, referindo-se
ao início do processo de paz.
Em
uma gravação vazada capturada pelo Peace
Now no ano passado, Smotrich,
durante uma conferência de seu Partido Religioso Nacional-Sionismo Religioso,
revelou que os confiscos de terras em 2024 superaram as médias dos anos
anteriores em aproximadamente dez vezes.
Ele
disse: “Isso é megaestratégico e estamos investindo muito nisso. É algo que
mudará o mapa drasticamente.”
Em maio
de 2023, Smotrich, que disse que sua "missão de vida é impedir o
estabelecimento de um estado palestino", instruiu os ministérios do
governo israelense a se prepararem para que mais 500.000
colonos israelenses se
mudassem para a Cisjordânia ocupada.
Em 20
de junho, o Guardian revelou como os
militares israelenses entregaram discretamente poderes legais significativos na
Cisjordânia a funcionários públicos pró-colonos que trabalhavam para Smotrich.
Uma
ordem publicada pelas Forças de Defesa de Israel em seu site em maio de 2024
transfere a responsabilidade por dezenas de estatutos da Administração Civil —
o órgão israelense que governa na Cisjordânia — dos militares para autoridades
lideradas por Smotrich no Ministério da Defesa.
Em
março, um comunicado emitido pela Peace Now
afirmou que entre 1º de janeiro e 19 de março, 10.503 unidades habitacionais
foram promovidas, superando as 9.971 unidades aprovadas ao longo de todo o ano
de 2024.
A
aprovação de novos assentamentos pelo governo de extrema direita de Benjamin
Netanyahu representa uma implementação adicional de seu objetivo de longa data
de anexar o território palestino ocupado – um objetivo reforçado pelo governo
Trump.
Mike
Huckabee, nomeado novo embaixador de Trump em
Israel ,
sinalizou seu apoio às reivindicações israelenses sobre a Cisjordânia em uma
entrevista no ano passado. Ele disse: “Quando as pessoas usam o termo
'ocupada', eu digo: 'Sim, Israel está ocupando a terra, mas é a ocupação de uma
terra que Deus lhes deu há 3.500 anos. É a terra deles.'”
Colonos
de direita descreveram altos funcionários do novo governo Trump, que revogou
sanções impostas a grupos violentos de colonos israelenses, como um "time
dos sonhos" que ofereceria uma "oportunidade especial" para acabar
permanentemente com qualquer perspectiva de um estado palestino.
Fonte:
Por Ashok Kumar – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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