quinta-feira, 29 de maio de 2025

O Terror Lilás: a guerra dos EUA contra a comunidade LGBT

Há 60 anos, as autoridades em Washington eram surpreendidas por uma manifestação pequena, mas inédita. Em frente à Casa Branca, servidores públicos marchavam segurando cartazes nos quais denunciavam a perseguição governamental contra gays e lésbicas.

Era o ápice do “Terror Lilás” (ou “Lavender Scare”) — a “caça às bruxas” contra homossexuais que o governo dos Estados Unidos manteve ao longo da Guerra Fria. Sob o pretexto de que homossexuais representavam um “risco à segurança nacional”, o governo norte-americano criminalizou, demitiu e encarcerou milhares de servidores públicos e institucionalizou uma série de políticas homofóbicas.

Tributária da paranoia macarthista, a campanha de perseguição aos homossexuais teve consequências devastadoras, alimentando o pânico moral e a violência homofóbica e reforçando estigmas e estereótipos negativos sobre a comunidade LGBT.

·        O Macarthismo

O breve período de tolerância que o governo norte-americano manteve em relação à União Soviética se esgotou assim que a Segunda Guerra Mundial terminou. Começava agora a Guerra Fria, com o mundo dividido pelas disputas geopolíticas, ideológicas e militares entre os polos capitalista e socialista.

Em 1947, os Estados Unidos instituíram a Doutrina Truman, que determinava que o combate ao comunismo e a contenção da União Soviética eram as prioridades máximas da política externa de Washington.

O anticomunismo também seria a pauta predominante no âmbito da política doméstica. Entre o fim dos anos 40 e o início dos anos 50, o senador Joseph McCarthy lideraria a uma virulenta campanha que visava expurgar as supostas “influências comunistas” na sociedade e nas instituições norte-americanas — dando origem ao fenômeno do “macarthismo”.

Insuflado pela imprensa e encampado pela Casa Branca, o macarthismo mobilizou a sociedade no combate à “Ameaça Vermelha”. O medo da “infiltração comunista” alimentou uma paranoia generalizada e pregações histéricas sobre a subversão das instituições, da juventude e da cultura norte-americana.

A “Ameaça Vermelha” seria combatida através de uma série de políticas criminalizantes e de expurgos de “infiltrados”. Apoiado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, McCarthy deu início a uma perseguição em massa contra funcionários públicos, professores, cientistas, artistas, intelectuais, ao mesmo tempo em que pavimentava o caminho para suprimir as organizações políticas de esquerda.

O macarthismo teve um impacto extremamente negativo, fomentando um clima permanente de medo, desconfiança e repressão. Milhares de pessoas perderam seus empregos e tiveram suas carreiras e suas vidas destruídas, muitas vezes com base em denúncias anônimas e infundadas.

·        O Terror Lilás

Os comunistas não eram os únicos alvos da perseguição macarthista. Quaisquer grupos ou indivíduos que fossem percebidos como “subversivos”, ou que contrariassem os valores conservadores da sociedade norte-americana, também eram assediados e reprimidos. Foi o que ocorreu com militantes do movimento negro, ativistas dos direitos civis, sindicalistas e membros da comunidade LGBT.

A homossexualidade foi estigmatizada como uma vulnerabilidade que poderia ser explorada pelos soviéticos. Os macarthistas argumentavam que os homossexuais, forçados a manter sua orientação sexual em segredo, eram mais suscetíveis às chantagens de agentes externos. Temendo o risco da exposição, os homossexuais estariam mais propensos a colaborar com os comunistas e a atuar como espiões.

Essa percepção foi amplamente aceita e utilizada para justificar o chamado “Terro Lilás” — alcunha dada à política oficial de criminalização e repressão aos homossexuais mantida pelo governo dos Estados Unidos desde o fim dos anos 40. O termo também é empregado para se referir ao fenômeno do “pânico moral” contra homossexuais que foi incitado na sociedade pelas medidas discriminatórias e pela atuação da imprensa.

O “Terror Lilás” era também um reflexo da reação conservadora que surgiu nos Estados Unidos a partir dos anos 30. Durante os “Loucos Anos 20”, o país havia registrado uma fase de transformações culturais progressistas, marcada pela tendência na liberalização de costumes e pela maior visibilidade das minorias sexuais nos grandes centros urbanos.

No entanto, com a crise financeira instaurada após 1929 e a Grande Depressão, fortaleceu-se o discurso institucional do “retorno à ordem” e aos “valores tradicionais”. O “Terror Lilás” serviria então como um instrumento de controle social que buscava atrelar a sexualidade às relações de produção capitalista, reforçando a moral sexual conservadora, a idealização da família nuclear, o fortalecimento dos papéis de gênero e a repressão aos comportamentos considerados “desviantes”.

Transcorrendo de forma paralela à “Ameaça Vermelha” e à paranoia anticomunista, o “Terror Lilás” também seria pautado por estigmas sobre a revolução sexual soviética. Em 1917, apenas um mês após o triunfo da Revolução de Outubro, a Rússia Soviética se tornaria um dos primeiros países do mundo a descriminalizar a homossexualidade — uma medida que seria revertida posteriormente.

O governo soviético também promoveu internacionalmente os estudos pioneiros de Grigorii Batkis, que afirmavam que a homossexualidade era uma expressão natural da sexualidade humana. Por fim, a homossexualidade assumida de Georgy Chicherin, o Ministro das Relações Exteriores do governo soviético, também escandalizava os norte-americanos.

·        A guerra contra a comunidade LGBT

Apoiado por congressistas eleitos com pautas moralistas e forte lobby de pastores neopentecostais, o governo dos Estados Unidos passou a naturalizar discursos de ódio contra gays e lésbicas, rotulando-os como “grandes ameaças à segurança nacional”. Homossexuais também começaram a ser preteridos em vagas no serviço público.

A perseguição do governo norte-americano contra a população LGBT se intensificou nos anos 50, quando a legislação federal passou a descrever homossexuais como “subversivos”, “pervertidos” e uma “ameaça ao estilo de vida americano”.

As relações homossexuais foram criminalizadas em todos os estados, sob a tipificação de “sodomia”, punível com prisão. Na Carolina da Norte, réus primários acusados de sodomia poderiam ser condenados a até 60 anos de cadeia.

Difusão de boatos e teorias da conspiração para alarmar a população e colocar a opinião pública contra os homossexuais eram frequentes. Jornais e revistas participavam ativamente da campanha persecutória, publicando artigos que associavam homossexuais à depravação e à criminalidade. Também costumavam divulgar dicas de “como identificar homossexuais” e exortavam o público a denunciá-los às autoridades.

Refletindo o ambiente reacionário, muitos órgãos científicos respaldaram a narrativa discriminatória do governo norte-americano. Médicos e cientistas que desmentissem a alegada correlação entre homossexualidade e desequilíbrio psiquiátrico tornavam-se alvos do governo e sofriam sanções das próprias associações de classe.

·        A Ordem Executiva 10.450

Em 1953, o presidente Dwight D. Eisenhower promulgou a ordem executiva 10.450, que institucionalizou o “Terror Lilás”. A ordem redefiniu os critérios de segurança para funcionários do governo federal, listando “perversão sexual” (código então frequentemente utilizado como sinônimo de homossexualidade) como motivo para demissão sumária.

A medida expandiu o escopo das investigações de segurança, que passaram a incluir não apenas lealdade política, mas também comportamento pessoal. Com a nova ordem, agências como o FBI e a Comissão do Serviço Civil intensificaram seus esforços para identificar e expurgar os funcionários “desviantes”.

Os funcionários suspeitos ou denunciados eram convocados para interrogatórios conduzidos por agentes federais, onde eram pressionados a confessar e a delatar colegas, familiares e amigos. Em algumas ocasiões, os servidores eram forçados a realizar testes poligráficos.

As “acusações de homossexualidade” muitas vezes se baseavam em evidências circunstanciais ou estereótipos. Homens solteiros, mulheres que não se conformavam a papéis tradicionais de gênero ou indivíduos com amizades próximas com pessoas do mesmo sexo eram alvos frequentes.

Além das denúncias, os agentes também realizavam a vigilância de bares, clubes e locais frequentados pela comunidade LGBT. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas foram submetidas a espionagem e monitoramento.

Entre 1947 e 1961, mais de 5.000 funcionários federais foram demitidos ou forçados a pedir demissão devido às acusações de homossexualidade. O número exato de vítimas certamente é bem maior, já que boa parte dos casos não eram notificados ou registrados.

Além de serem demitidos, os servidores delatados tinham seus nomes inclusos em listas públicas. A exposição resultava na rejeição por parte de familiares e amigos e na exclusão das comunidades. Muitos eram forçados a se mudar para outras cidades.

Perseguições jurídicas eram comuns, muitas vezes terminando em prisões ou internações compulsórias. Centenas de servidores, sobretudo das Forças Armadas, foram encarcerados por “suspeita de homossexualidade”. Os linchamentos também eram frequentes e muitas pessoas cometiam suicídio após terem seus nomes elencados em listas públicas.

Entre as décadas de 1950 e 1970, vários estados aprovaram o uso de castração química para punir homossexuais. Leis autorizando terapias de conversão, incluindo práticas como lobotomia e choques elétricos, também foram promulgadas.

A criminalização da comunidade LGBT também teve impactos na indústria cultural. Filmes, livros e programas de televisão frequentemente retratavam homossexuais como vilões ou figuras trágicas, reforçando estereótipos que dificultavam a aceitação social —e que até hoje são recorrentes.

·        A reação

A intensificação da perseguição aos homossexuais estimulou o nascimento dos movimentos de defesa dos direitos da população LGBT em medos da década de 50. Organizações pioneiras como a Sociedade Mattachine e a Daughters of Bilitis surgiram como resposta direta à opressão do Terror Lilás.

A partir dos anos 60, o movimento LGBT passou a fazer forte oposição às medidas discriminatórias governamentais, organizando protestos e movendo batalhas legais. Ao mesmo tempo, as organizações promoviam a autoaceitação e contestavam a narrativa dominante de que a homossexualidade era uma doença ou um desvio de caráter.

A Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969, se tornaria um marco da resistência LGBT, galvanizando a mobilização popular e inspirando a formação de novas organizações, reunidas em torno da Gay Liberation Front.

Bem articulado, o movimento LGBT lograria importantes avanços a partir dos anos 70, enfraquecendo o “Terror Lilás”. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria removeu a homossexualidade da lista de transtornos mentais. E em 1975, a Comissão de Serviço Civil dos Estados Unidos anunciou que a homossexualidade não seria mais um critério para exclusão no serviço público federal.

Malgrado os avanços, o Terror Lilás deixou profundas marcas na sociedade norte-americana. A ordem executiva 10.450, que autorizava a perseguição de homossexuais, somente foi revogada em 1995. O ingresso de LGBTs no serviço público continuou limitado em alguns estados e a política de investigação da vida sexual de funcionários públicos seguiu como norma em algumas localidades ao longo dos anos 90.

Em diversos estados, a homossexualidade era proibida por lei até 2015, quando um julgamento da Suprema Corte definiu jurisprudência sobre o assunto.

¨      A estudante chinesa que acusa universidade de fazê-la 'tirar as calças' para dar licença menstrual

Uma faculdade privada de Pequim, na China, passou a ser alvo da fúria popular, por ter supostamente solicitado a uma estudante que comprovasse que estava menstruada para ter direito a licença durante o período.

Um vídeo filmado no interior do que parece ser um consultório médico viralizou ao ser postado nas redes sociais, neste mês de maio. Ele mostra uma jovem perguntando a uma mulher mais velha: "Toda garota que menstrua precisa tirar suas calças e mostrar a você para conseguir uma licença?"

"Basicamente, sim", responde a mulher. "Esta é uma norma da escola."

A imprensa local identificou a localização do vídeo como uma clínica do Instituto Gengdan, em Pequim.

A universidade publicou uma declaração, afirmando que a funcionária havia "seguido o protocolo". Mas os usuários das redes sociais criticaram o ocorrido como uma séria invasão de privacidade.

A estudante envolvida e o Instituto Gengdan não responderam aos pedidos de comentários enviados pela BBC News até a publicação desta reportagem.

O vídeo da estudante e a declaração da escola, aparentemente, foram retirados da internet. Mas capturas de tela e trechos do vídeo voltaram a circular online e foram divulgados pela própria imprensa estatal.

No aplicativo Douyin (o TikTok chinês), uma usuária que afirma ser a estudante envolvida declarou que sua conta foi suspensa por 30 dias após ter postado o vídeo, por "conteúdo pornográfico".

Na sua declaração de 16 de maio, o Instituto Gengdan supostamente afirmou que os vídeos do incidente que circularam online foram "distorcidos" - e que a instituição se reservava o direito de tomar medidas jurídicas contra os "vídeos mentirosos divulgados maliciosamente".

A universidade também declarou que a funcionária havia seguido o procedimento adequado durante o ocorrido, "iniciando o trabalho clínico depois de obter o consentimento da estudante". E que ela não usou ferramentas, nem realizou exame físico.

No vídeo, a funcionária não respondeu quando a estudante pediu comprovação por escrito do regulamento da escola para verificar a situação menstrual das alunas. Em seguida, ela pediu à estudante que visitasse um hospital.

Nas redes sociais, o incidente ocasionou uma enxurrada de raiva e sarcasmo em relação às normas da escola.

"Tenho dor de cabeça, devo abrir meu crânio e dizer que é normal?", questionou um usuário de rede social.

"Vamos simplesmente tirar o absorvente e colar no atestado médico", disse outra usuária do Weibo.

<><> Questão de bem-estar psicológico

Uma funcionária do Instituto Gengdan contou ao jornal local Dute News que a escola pode ter criado a regra de comprovação da menstruação para impedir que as alunas fingissem estar menstruadas para conseguir atestados médicos. Mas este argumento pareceu falso para os usuários das redes sociais.

"Se eles receiam que as estudantes estejam usando seu período menstrual como desculpa várias vezes por mês, por que simplesmente não mantêm um registro? Não é tão complicado", escreveu uma pessoa no Weibo.

A imprensa estatal chinesa também entrou no debate.

"A menstruação já é um tema íntimo para as mulheres. Normas como esta irão fazer as estudantes se sentirem muito desconfortáveis e até prejudicar o seu bem-estar psicológico", segundo um editorial da rádio estatal chinesa CNR.

O incidente fez com que o Instituto Gengdan passasse a fazer parte de uma lista de instituições de ensino superior em todo o país que sofrem críticas pelo que muitos consideram tentativas desastradas e autoritárias de controlar seus estudantes.

No ano passado, houve críticas a universidades que proibiram o uso de cortinas nos leitos em seus dormitórios. Os estudantes utilizam as cortinas com frequência para terem privacidade em quartos coletivos, mas os diretores das escolas afirmaram que elas representavam risco de incêndio e segurança.

Além disso, na época do popular feriado de Primeiro de Maio no ano passado, algumas universidades emitiram orientações rigorosas para os estudantes que planejavam viajar.

Elas incluíam evitar viajar sozinhos, por via rodoviária e de bicicleta, por questões de segurança. Muitos consideraram que as instituições estavam excedendo sua autoridade sobre a vida privada dos alunos.

No site de rede social Xiaohongshu, uma usuária que afirma ser estudante do Instituto Gengdan afirmou que "a clínica da escola merece todas as críticas que está recebendo".

"Ouvi de algumas estudantes mais velhas que este tipo de coisa acontece há algum tempo", escreveu ela. "Algumas meninas denunciaram antes, mas nada foi feito."

"Fico feliz pelo assunto ter viralizado desta vez. As pessoas quebraram o silêncio."

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi/BBC News

 

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