Castor
Mari Martín Bartolomé Ruiz: ‘Eichmann em Gaza’
O que
mais assusta da barbárie é sua normalidade. O genocídio do
holocausto nazista só
atingiu tal grau de brutalidade porque muitas pessoas, que não
eram nazistas, o normalizaram na sua consciência moral. Olharam
silenciosamente a repressão política dos judeus, silenciaram docilmente
sua prisão massiva e acharam normal a condução para campos de milhões de
pessoas como se fossem gado levado ao matadouro. Essas cumplicidades
silenciosas viabilizaram a barbárie nazista da aniquilação em massa
de milhões de inocentes nos fornos crematórios.
A
barbárie só pode atingir o patamar de genocídio quando
a consciência moral de muitas pessoas envolvidas no processo apaga
qualquer vestígio de interpelação moral na consciência subjetiva, e como
consequência anula os rasgos de humanidade do outro que vai ser violentado. Ao
normalizar a violência da barbárie se criam as condições sociais e políticas
para que ela se implemente em grande escala, como se fosse parte de um processo
qualquer. A normalização da barbárie inicia-se pelo apagamento ético da
consciência moral de muitas pessoas comuns, quase que até secundárias no
processo global da violência, porque elas simplesmente cooperam de modo
colateral, sem sentir-se responsáveis direitas pelas decisões que são tomadas
na aniquilação do outro.
Um dos
paradigmas da normalização da barbárie foi Adolf Eichmann. Ele foi responsável
por uma grande parte do aparato logístico do translado dos prisioneiros judeus
para os campos de extermínio. No seu julgamento em Jerusalém, 1961,
argumentou insistentemente que ele era um mero cumpridor do dever de
ofício e que só obedecia ordens. Ainda que esta argumentação não era
real, Eichmann se apresentou como uma pessoa comum, que nunca tinha
matado a ninguém, que nem tinha ódio dos judeus, e que simplesmente era um
funcionário exemplar que cumpria as ordens que recebia sem nunca as
questionar. Eichmann se apresentou como um modelo de obediência ao
dever da função. Inclusive invocou em vários momentos a ética kantiana do dever
ser, como sendo seu modo ético de comportamento. Segundo ele, o seu
sentimento do dever era o valor moral superior que guiava seus comportamentos e
decisões. Pelo cumprimento do dever, ele obedecia cegamente, sem questionar, as
ordens que recebia. Eichmann tinha como valor ético principal a
obediência aos superiores, sendo este o máximo dever do bom funcionário, de um
funcionário de excelência, que ele se considerava.
Hannah Arendt, que acompanhou o
julgamento de Eichmann em
Jerusalém,
escreveu suas impressões numa obra com esse mesmo título: “Eichmann em
Jerusalém”. Arendt entendeu que realmente Eichmann era
cínico em muitas de suas afirmações, pois era consciente e responsável da
barbárie que cometeu contra milhões de pessoas inocentes.
Contudo, Arendt também percebeu que o mais assustador
de Eichmann é que ele não era um monstro
da violência,
nem sequer era um fanático nazista. Ele era uma pessoa comum, muito normal,
quase que uma pessoa socialmente medíocre, que viu no nazismo uma oportunidade
de crescimento social. Filiou-se ao partido nazista não por suas
convicções ideológicas, mas como uma oportunidade que se apresentava para
crescer socialmente. Vendo a oportunidade, Eichmamm quis ascender
socialmente filiando-se a um grupo que estava vencendo politicamente
na Alemanha, mesmo que ele não era nazista e diz que nem sequer leu
a obra de Hitler, Mein
Kampf (Minha luta). Essa aspiração tipicamente burguesa de
obter ascensão social, foi a motivação principal que levou Eichmann a, pouco a
pouco, ir se dobrando aos modelos comportamentais nazistas, apagando quaisquer
vestígio na sua consciência moral sobre as consequências da violência
impetrada. Ele simplesmente pretendia se mostrar como um eficiente funcionário
do III Reich. Em Eichmann destaca seu senso de oportunidade para
se aproveitar dos acontecimentos que lhe envolviam com o objetivo de crescer
social e economicamente. A final, Eichmann é o protótipo do pequeno
burguês que está na espreita das oportunidades de negócio e lucro, sem medir as
consequências finais dessas opções.
Foram
estes rasgos biográficos que fizeram a Arendt perceber que o
assustador de Eichmann era sua normalidade. Ou seja, que seu
comportamento era muito similar ao de qualquer funcionário
ou burocrata que se limita a cumprir seu dever de ofício,
independentemente de sua consciência moral a respeito do que lhe é solicitado
fazer. Eichmann normalizou a barbárie a partir de um paradigma de
subjetivação produzido pela burocracia.
O
terrível da normalidade de Eichmann é que ele, de fato, representa
o paradigma do funcionário moderno. Ele não era um monstro sanguinário,
nem um fanático político, mas um funcionário exemplar que sacrificou sua
consciência moral ao dever de sua função para poder crescer socialmente na
hierarquia da burocracia. Eichmann representa o processo normal
através do qual as barbáries se normalizam porque existe um exército obediente,
silencioso e cúmplice de funcionários que não matam diretamente, mas fazem funcionar
a maquinaria da letalidade.
A
figura do funcionário exige que este se limite a cumprir seu dever de
oficio, sem interpelar as demandas ou ordens que lhe são dadas. O modelo de
subjetivação do funcionário modela um comportamento fiel e dócil às
funções encomendadas ou as ordens ditadas. Para criar a figura do funcionário
se exige a cisão interior entre a consciência moral do sujeito e o dever da
função. Ele é obrigado a cumprir seu dever de função independentemente de sua
consciência moral. Nessa cisão interior da consciência moral entre o dever a
ser cumprido e a própria consciência é pressuposta a superioridade moral da
obediência ao dever da função sobre qualquer resquício de consciência moral
subjetiva. Ao funcionário se lhe exige que no agir funcional se perceba como
representante do dever da função e não como pessoa moral subjetiva. Desse modo,
também se lhe exime de qualquer responsabilidade moral no cumprimento do dever
da função, pois ele só está obedecendo ordens. Moralmente, se doutrina ao
funcionário para transferir a responsabilidade moral de seus atos como
funcionário para os superiores que lhe ditam ordens. O modelo de subjetivação
do funcionário foi produzido na modernidade concomitantemente com a implantação
da burocracia do Estado e também com as burocracias
corporativas.
·
Gaza: o novo Campo
Hoje,
quase um século depois daqueles terríveis acontecimentos protagonizados
por Eichmann, nos enfrentamos a um novo genocídio na
população palestina da faixa de Gaza. A figura do campo muda suas
versões, porém a realidade continua nos assombrando. O campo só existe conexo
com a violência de um poder soberano que suspende a vigência de direitos
fundamentais sobre a vida de determinados grupos sociais. O campo é o espaço
que se abre quando a exceção se torna a norma. O campo é o espaço da
exceção onde os direitos fundamentais são suspensos e deste modo as vidas
nele capturadas se tornam vulneráveis ao arbítrio de qualquer violência de modo
inimputável. As vidas capturadas na exceção do campo podem ser
violentadas ou até mortas com total inimputabilidade. Por isso, o campo se
torna o dispositivo
biopolítico mais
eficiente para controlar ou exterminar populações indesejáveis ou perigosas.
Gaza é
o espaço geográfico onde, nestes momentos, o estado de exceção é a
norma. Gaza é um espaço anômico, onde há um vazio de direitos fundamentais
e as vidas ali capturadas encontram-se expulsas do direito e capturadas
na anomia. Nesse espaço, todas as vidas capturadas existem fora do
direito, com todos os seus direitos suspensos, sobrevivendo ao arbítrio de
uma violência soberana que a qualquer momento pode decidir sobre sua
vida ou morte. Em Gaza há uma mortandade indiscriminada com total
impunidade. As vidas mortas em Gaza não requerem imputabilidade de ninguém,
pois o arbítrio de uma violência soberana é que decide quem pode morrer e quem
deixa viver. A violência em Gaza está fora do direito, pode se violentar com
total impunidade, porque no espaço anômico do campo o direito é substituído
pela força de um poder soberano.
No
campo, o vazio do direito é preenchido pela violência de um poder que
decide arbitrariamente sobre a vida e a morte das vidas que aqui se encontram
capturadas. Neste caso, é o governo de Benjamin Natanyahu, Israel, e seus
militares, que agem com poder soberano de vida e morte sobre toda a população
de Gaza.
Há um
direito de defesa do governo de Israel contra os ataques de Hamas. Mas esse direito
não consegue justificar, nem de perto, os mais de 50.000 mortos de uma guerra
cujo objetivo final parece ser a expulsão ou aniquilamento total
da população palestina, para poder ocupar totalmente o território de
Gaza e, desse modo, conseguir anexá-lo ao Estado de Israel. Entre
esses mortos, há dezenas de milhares de crianças e adolescentes, assim como
mulheres e idosos que continuam sendo assassinados de modo sistemático como
efeitos colaterais de uma estratégia bélica. As dezenas de milhares de mortes
de inocentes são contabilizados como efeitos colaterais necessários para a
lógica estratégica traçada pelo poder soberano.
·
Vestígios de interpelação moral: como isso é possível?
Atingidos
pela sombra desta barbárie, ainda com o vestígio de consciência
moral que nos resta antes da normalização definitiva do mal, temos que nos
questionar: como é moralmente possível que alguém programe o lançamento
de mísseis de alta
precisão contra hospitais, contra escolas, contra meros acampamentos onde sabem
que com certeza dormem famílias inteiras e dezenas e até centenas de inocentes
irão morrer nesse ato? Como é possível moralmente que alguém possa lançar
bombas de alta precisão contra concentrações de população, sabendo que vai ter
que matar a centenas, talvez milhares de inocentes? Como é possível que alguém
dirija um ataque contra as caravanas de
refugiados que
se deslocam de um lado para outro sendo um alvo fácil, sabendo que muitos
inocentes serão mortos como se fossem gado a abater? Como é possível moralmente
que alguém execute ataques contra comboios de ajuda humanitária, cientes de que
esses medicamentos e comida são questão de vida ou morte para milhares de
pessoas? Como alguém pode utilizar a fome e a inanição como uma arma de guerra
a céu aberto e perante todos os holofotes e redes tecnológicas do mundo? Como
alguém pode moralmente lançar ataques de drones contra barcos
de ONGs humanitárias que levavam comida, mantimentos e medicamentos
para os habitantes famintos e até moribundos sitiados de Gaza? Como
alguém pode moralmente planejar a morte por fome e desnutrição de milhares de
bebes e crianças que estão sem comida, de tal modo que sua morte poderá evitar
que essa população tenha continuidade no futuro?
·
A sombra de Eichmann
Definitivamente
a sombra de Eichmann se projeta sobre Gaza. Esta, como tantas
barbáries, não é obra de um monstro, senão de uma racionalidade estratégica,
que está utilizando a vida da população de Gaza como meio tático para
conseguir ampliar o domínio deste território pelo Estado de Israel. O
sofrimento, a morte e no extremo o extermínio desta população, são analisados
pela estratégia do poder violento como meros efeitos colaterais necessários
para esses objetivos estratégicos. A racionalidade estratégica opera além da
figura da monstruosidade, e se apresenta como normalidade estratégica.
Tanta
barbárie normalizada ocorrendo à luz midiática do mundo não poderia acontecer
se não tivesse a cumplicidade silenciosa e anônima de milhares de
“funcionários” que cumprem ordens obedientemente como um dever de função.
Alguém toma a decisão e da ordens para matar populações de inocentes. Alguém,
no anonimato de sua função, programa os
algoritmos dos mísseis para atingir com alta precisão uma escola, um
hospital, um acampamento. Alguém, também no anonimato de funcionário, guia os
misseis, os drones, as bombas inteligentes para seus objetivos. Alguém, sempre
no anonimato de sua função, cumpre a ordem de disparar e finalizar a
matabilidade inimputável das vidas inocentes, as vidas nuas ceifadas pelo
arbítrio de uma nova violência soberana, num novo campo de extermínio.
Ainda
cabe nos questionar moralmente: e se esses assassinatos
massivos fossem realizados na modalidade das guerras antigas? Eles
deveriam de ser fuzilados e enterrados em grandes covas coletivas secretas,
para que não os encontrassem. Ou talvez queimados para que não deixassem
rastro. De qualquer modo, os genocídios tradicionais deixavam rastros
de barbárie que possibilitavam identificar os responsáveis por estes crimes
contra a humanidade. Os nazistas que não tinham ainda a sofisticada
tecnologia atual, pensaram no que eles denominava de “Solução final” como um extermínio
que não deixaria vestígios. Mas, apesar de todos seus intentos foi possível
identificar a uma grande parte dos responsáveis do genocídio nazista.
Desse modo foi possível identificar Eichmann. Em Gaza, não é possível
identificar os responsáveis. Embora os mísseis produzem uma matabilidade muito
superior à dos fuzilamentos tradicionais, os funcionários responsáveis pela
execução permanecem invisíveis em seus bunkers bélicos. Em Gaza se
cumpre o objetivo de invisibilizar os responsáveis diretos e toda a cadeia de
funcionários que operam a maquinaria da letalidade.
Eichmann retornou
com toda sua imoralidade do dever de função a agir contra as dezenas de
milhares de vidas inocentes ceifadas de modo deliberado e estratégico
em Gaza. Porém, Eichmann agora se oculta sob a tecnologia de
alta precisão, que também oculta duplamente a responsabilidade de tanta
matabilidade. Neste sentido, Gaza tornou-se um laboratório de
imoralidade. Conseguiu superar a Eichmann na sua irresponsabilidade
da execução do dever de função, pois Eichmann, a pesar dos seus
argumentos, foi encontrado, julgado e condenado. Os novos Eichmann de
Gaza são funcionários anônimos que se ocultam sob o véu da alta tecnologia
para que sua consciência moral continue sem ser atingida, e no anonimato também
conseguem evitar qualquer responsabilidade jurídico-política perante
um Tribunal Penal Internacional. Gaza representa uma interpelação ética
similar e ainda mais grave que o julgamento
de Eichmann em Jerusalém, pois nos enfrentamos a uma nova versão
da irresponsabilidade moral do dever da função, ou do funcionário que meramente
cumpre seu dever permitindo que a barbárie se naturalize.
¨
No México, acadêmicos fazem greve de fome e pressionam
Sheinbaum a romper relações com Israel
Um
grupo de professores e professoras universitárias mexicanas iniciou neste
domingo (25/05) uma greve de fome em solidariedade ao povo palestino, que vem
sendo vítima de um genocídio cometido desde 7 de outubro de 2025 pelas forças
invasoras de Israel na Faixa de Gaza.
A
iniciativa tem, como principal objetivo, convencer a presidenta do México,
Claudia Sheinbaum, a decidir pelo rompimento das relações diplomáticas e
comerciais entre a Cidade do México e Tel Aviv.
Em um
comunicado difundido logo após o início do jejum, o grupo de professores
justificou a medida afirmando que “na situação atual, as instituições
israelenses, em todos os níveis de atuação, empregam o pensamento xenófobo e o
uso de tecnologias de controle, hipervigilância e expulsão em detrimento da
vida digna da população palestina. Em suma, justificam a desumanização dos
palestinos e seu extermínio”.
“Entendemos
que o México é o segundo maior parceiro comercial de Israel na América Latina e
que Israel é o primeiro parceiro do México no Oriente Médio. Portanto, a
pressão econômica pode servir de plataforma para a moderação diante de qualquer
pronunciamento mexicano. No entanto, a continuidade desses acordos nos
preocupa, dadas as vantagens que Israel tem para continuar suas ações atrozes
contra a população palestina”, acrescenta o documento.
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Entidades envolvidas
O jejum
mobilizou professores das três maiores casas se estudo da Cidade do México; a
Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a Universidade Autônoma
Metropolitana (UAM) e a Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM).
Também
há entre os participantes alguns acadêmicos de universidades do interior do
país e ativistas ligados a organizações de direitos humanos.
Em um
princípio, a greve está prevista para durar apenas 24 horas, mas seus
organizadores disseram não descartar que alguns dos participantes decidam
estender seu protesto, “a depender das decisões individuais de cada um dos
envolvidos”.
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Postura de Sheinbaum sobre Israel
Apesar
de sua origem judia, Sheinbaum tem demonstrado desde a campanha eleitoral sua
postura fortemente crítica às ações de Israel em Gaza, e também tem defendido
abertamente a criação de um Estado Palestino como solução para o conflito.
A
posição da mandatária mexicana é similar à demonstrada por seu homólogo
brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que tem dado declarações fortes contra o
governo de Benjamin Netanyahu desde o início da invasão militar à Faixa de
Gaza.
Porém,
assim como Lula, essa postura crítica ao genocídio não se traduziu em um
rompimento das relações com Tel Aviv, situação que tem provocado
questionamentos por parte de alguns grupos defensores dos direitos humanos.
Fonte:
IHU/Opera Mundi

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