Luís
Nassif: As novas lideranças surgirão da organização dos pequenos
Nos
próximos anos, o Brasil corre o risco do maior retrocesso da sua história,
capaz de jogar fora quase 40 anos de conquista democrática e avanços
sociais e 100 anos de esforço de
desenvolvimento. Enfim, um retrocesso capaz de devolver o país aos piores
tempos da Velha República.
Dias
atrás tentei projetar um hipotético governo Tarcísio de Freitas fincado na
aliança e milicialização da Polícia Militar, Forças Armadas, Centrão e mercado.
O período em que o Centrão passou a dominar o orçamento, ainda no governo
Bolsonaro, foi suficiente para consolidar o domínio cada vez maior do pior
fisiologismo político no comando do país. A cada eleição, o monstro do
orçamento secreto vai corroendo as entranhas do organismo democrático.
Agora,
com os ventos que sopram da Argentina de Milei, não se tenha dúvida de que o
tiro de partida de um eventual governo Tarcísio seria o seguinte:
• desvinculação final de todo orçamento;
• privatização das universidades federais
e início do desmonte da rede de cursos
médios;
• fim ou privatização dos institutos de
pesquisa;
• privatização do Banco Central e desmonte
dos quadros técnicos dos Ministérios;
• desmonte da estrutura de financiamento
de pesquisas;
• fim definitivo da CLT;
• liberação total da compra de armas;
• início do desmonte da Previdência
social, com a implantação de um modelo similar ao chileno;
• redução das políticas culturais;
• redução radical do BCP (Benefício de
Prestação Continuada).
A
receita já está dada. Cria-se uma enorme balbúrdia que joga a economia no
buraco. Depois, cada pequena melhora relativa, traz formas de apoio
No
plano mundial, o Ocidental entra na reta final do fim da era dos direitos, um
processo que se inicia no pós-guerra e sobrevive até o governo Nixon. Depois,
há o início da financeirização, com bolhas sucessivas e a frustração recorrente
de crescimento. Cria-se o mito da “lição de casa”, como pré-condição para
entrega de crescimento e de bem-estar social. No final de cada período, não se
entregava o combinado, mas se convencia a opinião pública de que a “lição de
casa” tinha sido insuficiente.
Sucessivas
crises, como as bolhas dos anos 2000, a crise de 2008, a pandemia,
paradoxalmente serviram de reforço à ideia do fim do Estado liberal. A crise se
agravou por falta de Estado. Mas vendeu-se o peixe que se agravou devido ao
Estado.
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A falta de futuro
A
rigor, a única maneira de deter essa maré seria a construção de consensos em
torno de temas civilizatórios e planos de metas de desenvolvimento, que dessem
clareza para as novas etapas do capitalismo brasileiro.
Planos,
existem, e estão sendo implementados. Tem a Nova Indústria Brasil (NIB), de
Geraldo Alckmin, a Transição Energética, de Fernando Haddad, o Brasil 2050, as
Rotas Bioceânicas, de Simone Tebet, e o Livro Verde, de Luciana Santos. Não tem
o plano definitivo, aquele que englobaria todos esses planos em um todo lógico,
sistêmico, interministerial, sob o comando direto de Lula, dando musculatura à
frente civilizatória – hoje em dia dispersa em brigas menores. Enquanto este
plano não vem – e provavelmente não virá – fica-se com essa sensação de vazio,
a ausência de sonhos que acaba alimentando o mal-estar geral.
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O caminho das águas
No
médio prazo, o grande desafio será tentar entender o caminho das águas, para
onde caminhará a sociedade.
Nos
últimos anos, testemunhamos os seguintes fenômenos:
• o enfraquecimento gradativo da CLT e do
sindicalismo tradicional;
• uma mudança na estrutura industrial e
agrícola com o avanço da robotização e da Inteligência Artificial, reduzindo as
possibilidades do emprego tradicional;
• como consequência dos dois processos
anteriores, o emprego indo se abrigar no bico, no pequeno comércio, na
agricultura familiar e no subemprego das plataformas.
E, aí,
se entra em um grande ativo nacional, que é a tradição de organização dos
pequenos. Na crise de 2008, as Conferências Nacionais se mostraram um
fantástico exemplo não apenas de organização setorial, mas de formação de
pactos. É só analisar os resultados das Conferências de Educação e de Ciência e
Tecnologia.
Organizações
como o Sistema S, o cooperativismo, as associações comerciais, as federações de
indústria, comércio e agricultura, o MST (Movimento dos Sem Terra), o MTST
(Movimento dos Trabalhadores sem Teto) e outros compõem um enorme acervo de
modelos associativos, formas de trabalho e produção. E, no financiamento, há a
experiência extraordinária do Banco do Nordeste do Brasil, além de empresas
públicas de alcance nacional, como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil
e os Correios.
Em mãos
competentes, esses ingredientes dariam uma receita campeã de organização dos
pequenos. Com exceção dos movimentos sociais, é justamente entre as pequenas e
médias empresas que a ultradireita joga suas sementes. Paradoxalmente, reside
nesse segmento o maior potencial futuro de organização econômica e social do
país. Será a única maneira de se sobreviver à concentração irresistível do
varejo, que ameaça esmagar o pequeno comércio e espremer até o talo a margem da
pequena indústria. E de permitir uma melhor distribuição dos resultados dos
programas de neo-industrialização.
Mas,
para tanto, o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de
Pequeno Porte teria que estar nas mãos de um Ministro de grande porte. Por
enquanto, o mundo de Lula ainda é o das relações trabalhistas nas grandes
corporações. Ainda não acordou para o novo mundo que se descortina e exige
políticas públicas para se consolidar.
Nem vai
dar tempo de organizar um discurso para os pequenos. Mas tenho convicção de que
a próxima grande liderança surgirá empunhando a bandeira da organização dos
pequenos.
• A manipulação linguística e o
ressurgimento do nazismo-fascismo. Por
Jair de Souza
Certamente,
estamos atravessando uma etapa muito significativa para o desenrolar das
sociedades humanas. O povo brasileiro está compartilhando um período crucial
para o futuro de toda a humanidade. Precisamos ter a certeza de que o desenlace
das lutas que estão sendo travadas no Brasil, por exemplo, também desempenharão
um papel relevante para ajudar a determinar os rumos que o mundo em seu
conjunto seguirá.
Lamentavelmente,
o que vem caracterizando o momento que estamos vivenciando é o ressurgimento
global de forças políticas de caráter fascista. E, ao analisar a evolução
histórica do capitalismo, concluímos que o fascismo é um dos recursos extremos
ao qual os defensores do grande capital recorrem em seus intentos de aniquilar
a resistência popular em tempos de sérias crises existenciais para esse sistema
de exploração social.
Como é
sabido, o fascismo adquire facetas diversificadas em função das peculiaridades
prevalecentes em cada país ou povo em que aparece. Assim que, devido a seu
passado acentuadamente racista e à base escravocrata em que se formou, no
Brasil atual o fascismo revela uma fisionomia muito mais afinada com o nazismo
da Alemanha hitlerista do que com a vertente mussoliniana que predominou na
Itália. Além disso, é imperativo que reconheçamos que, em nosso país, o
principal canal através do qual fluem o pensamento e a movimentação de cunho
nazista-fascista é o bolsonarismo. Portanto, o bolsonarismo encarna
inegavelmente a corrente política mais extremista e reacionária com a qual o
grande capital conta para fazer valer seus interesses em solo brasileiro. Em
vista disto, não me parece haver nenhuma incoerência quando equiparamos um
bolsonarista a um nazista.
No
entanto, assim como o que caracterizava os primórdios do nazismo alemão, a
inoculação intensa de um ódio cego e doentio contra certos grupos humanos é o
que dá o tom na aglutinação dos adeptos do bolsonarismo no Brasil. A herança
deixada pelo colonialismo escravista em nossas terras intensificou o ódio de
classe e o superpôs ao ódio racial, visto que, por aqui, os termos pobre e
negro costumam ser empregados quase que como equivalentes.
Evidentemente,
nem a ideologia bolsonarista nem sua inspiradora alemã, o nazismo, se sustentam
com base na verdade. Entretanto, seus propagadores jamais admitem a essência de
sua existência mentirosa. Então, o bolsonarismo costuma adotar palavras e explicações
inteiramente opostas aos objetivos práticos que persegue com tenacidade, no
intuito de eliminar, ou ao menos suavizar, mentalmente, a flagrante
perversidade destes. Em consequência, o que permeia, norteia e prevalece em
quase tudo o que diz respeito ao comportamento dos bolsonaristas é a velha e
conhecida hipocrisia.
Tanto
assim que os bolsonaristas fazem parte do grupo dos mais notórios entreguistas
e serviçais das potências estrangeiras que nossa pátria já produziu ao longo de
toda sua existência. A mera insinuação de que o Brasil deve se tornar uma nação
livre, independente e soberana provoca ódio e furor na maioria deles,
especialmente entre suas lideranças. O
lógico, segundo essa gente, é que nosso país se mantenha inteiramente subjugado
e atrelado ao controle das potências hegemônicas do capitalismo ocidental, principalmente
dos Estados Unidos.
Este
servilismo chega a ser tão indecente a ponto de um dos membros do clã
bolsonarista deixar o Brasil e se instalar nos Estados Unidos para atuar como
assessor do governo de Donald Trump em seus ataques para minar nossa soberania
e reinstalar seu completo domínio sobre nossa nação.
Porém,
a despeito de todo este comportamento lesivo aos interesses da pátria, os
bolsonaristas gostam de sair às ruas com a camiseta amarela de nossa seleção de
futebol, de cantar o hino nacional em todo e qualquer instante e enrolar-se em
nossa bandeira. Tudo isso enquanto se esmeram por entregar nossas riquezas
nacionais aos gringos, e se esforçam para fazer que nosso país volte a ser
parte do quintal dos Estados Unidos. Em outras palavras, os mais abjetos
traidores da pátria gostam de posar como se fossem verdadeiros patriotas.
Contudo,
o bolsonarismo não passaria de um insignificante grupelho que cultua a podridão
mais infame do nazismo da atualidade, se dele não participassem certos
capitalistas exploradores da fé. São os dirigentes dessas igrejas empresas os
que dão um alcance mais expressivo em termos numéricos à versão do neonazismo
brasileiro.
Não
obstante se dedicarem a impulsar e defender um grupo de expoentes políticos
conhecidos por seu elevado grau de depravação, por sua falta de apego à
moralidade ou à ética, os donos dessas igrejas bolsonaristas gostam de se
apresentar como paladinos da defesa das tradições familiares e dos bons
costumes. Apesar de se mostrarem insensíveis ao elevadíssimo nível de
desigualdade social existente no Brasil, eles persistem na afirmação de que
estão engajados numa guerra sem quartel em defesa dos valores da família.
No que
diz respeito especificamente à religião, os mercadores da fé bolsonaristas são
típicos inimigos de tudo o que a figura de Jesus simboliza. Muito embora o nome
de Jesus esteja indissoluvelmente ligado à justiça, à solidariedade, à
fraternidade, à paz e ao amor, a motivação desses falsos cristãos vai em
sentido diametralmente oposto. As igrejas bolsonaristas se enriquecem fazendo a
pregação do ódio aos mais carentes, a justificação da opressão exercida pelos
poderosos, a expansão da guerra, da injustiça e do egoísmo. Se em seu legado de
vida Jesus nos ensinou a repartir o pão e a amparar os mais necessitados, os
donos das igrejas bolsonaristas, por sua vez, cultuam a diabólica teologia da
prosperidade, ou seja, aquela ideologia com a qual seus adeptos se aferram a
seus mesquinhos interesses exclusivistas. Em resumo, não existe nenhuma
possibilidade de ser seguidor de Jesus tendo por base essa desumana maneira de
pensar.
Ainda
que entre os seguidores do cristianismo haja muita gente correta e instituições
sérias e respeitáveis, infelizmente, nos últimos anos, vem-se evidenciando que
a base de apoio do bolsonarismo político está constituída majoritariamente por
seguidores de alguns empreendimentos comerciais que se autodenominam cristãos.
Isto ocorre tanto em denominações que se consideram evangélicas como em
católicas.
Entretanto,
como admitir que um cristão de verdade seja também um bolsonarista convicto? Há
uma contradição insuperável entre essas duas categorias. Para nos atermos a um
linguajar religioso, assim como ninguém pode servir a Deus e ao diabo ao mesmo
tempo, não existe nenhuma possibilidade de se estar bem com Jesus e com o
bolsonarismo. Isto se dá simplesmente porque o bolsonarismo sintetiza a
perversidade contra a qual Jesus sempre lutou.
Ninguém
em sã consciência refutaria que os postulados da famigerada teologia da
prosperidade vão inteiramente na contramão de tudo o que Jesus sempre pregou em
sua vida. Aqueles que se atrevem a fazer a defesa do bolsonarismo por meio do
nome de Jesus sabem que estão agindo sorrateiramente para inculcar nos mais
incautos certos valores que têm muito mais a ver com a maldade inerente ao
capitalismo selvagem, com a essência do nazismo, ou seja, em nosso caso, do
bolsonarismo. Além disso, para explicitá-lo de um ponto de vista religioso, a
maldade é coisa exclusiva do diabo, e nunca de Jesus.
Assim,
não podemos aceitar que os nazistas-fascistas recorram à manipulação de
conceitos e palavras com o objetivo de impor interesses que atentam contra o
conjunto de nosso povo e nossa nação. Aspiramos a um mundo de justiça, de
solidariedade, de amparo aos mais carentes, de amor e de paz. Cabe a nós travar
uma forte batalha contra os preconceitos e as manipulações do nazismo-fascismo,
mormente em sua versão brasileira, o bolsonarismo. Pois, ainda quando apela à
deturpação da linguagem, o bolsonarismo continua se caracterizando por sua
maldade intrínseca.
Sabemos
que a linguagem exerce um grande poder sobre nossa própria mente. Não raro,
recorre-se a certas palavras com o propósito de autoenganar-se, numa tentativa
de justificar para si próprio posicionamentos e posturas sabidamente indignos e
injustos. A mentira que convence ao mentiroso que a utiliza, com frequência,
atua como a anestesia aplicada para que não se sinta dor numa operação. Mesmo
que nos ajude a suportar o mal momento pelo qual estamos passando, não serve
para eliminar de vez a causa que o provocou. Por isso, é mister desmascarar a
hipocrisia praticada pelos bolsonaristas em sua tentativa de aliviar sua
consciência diante das atrocidades geradas por suas práticas malignas.
Fonte:
Jornal GGN/Brasil 247

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