Trabalho
digno: uma exigência de saúde mental
No
Brasil, já há alguns anos, o mês de maio dá palco às manifestações e atividades
culturais e políticas promovidas nas ruas das cidades e nos equipamentos da
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por trabalhadores, usuários e familiares
ligados aos serviços de saúde mental. As ações remetem ao 18 de maio, aclamado
como Dia da Luta Antimanicomial pelo Encontro de Bauru (1987), um importante
marco na trajetória da Reforma Psiquiátrica brasileira.
Hoje em
dia, por meio dessas mobilizações, “a gente continua se articulando e
participando da cena política para fazer a política antimanicomial e da RAPS
acontecer, assim como prevê a lei”, explica Israel Almeida de Oliveira, membro
do Movimento Nacional de Luta Antimanicomial (MNLA) no Amapá. Por um lado, os
atos mantêm um fio de continuidade de várias décadas de atuação política em
defesa do cuidado em liberdade, em uma história que remonta aos anos 1970. Por
outro, ao levantarem novas bandeiras ligadas às principais necessidades
percebidas nos territórios, também atualizam as pautas do movimento, renovando
seu enraizamento na sociedade.
Para
além das demandas locais, ativistas de todo o país sentem a necessidade de levar a luta antimanicomial às ruas em um
contexto geral de “retomada de um processo psiquiátrico muito intenso, avanço
de uma ação farmacológica e sucateamento das políticas públicas” da saúde
mental, como define Daniel Bermudes, psicólogo e membro do MNLA do Espírito
Santo. Em meio ao aumento do sofrimento psíquico e do crescimento dos
diagnósticos de depressão e ansiedade entre a população, um conjunto de
bandeiras, distintas mas interconectadas, se destacou: aquelas ligadas ao
trabalho.
“Quando
a gente fala de trabalho e de trabalhadores, a gente não está falando só dos
trabalhadores dos serviços de saúde mental. A gente também está falando dos
usuários e dos familiares, e o tema se articula com o debate que vem
acontecendo nacionalmente sobre o fim da escala 6×1, a redução da jornada de
trabalho sem redução salarial, políticas de pleno emprego e, no específico, de
políticas de geração de emprego para os usuários da saúde mental”, resumiu um
membro do Núcleo Estadual do Movimento de Luta Antimanicomial no Rio de
Janeiro. Na capital fluminense, o slogan escolhido para o ato de 18 de maio –
“Ainda estamos aqui na luta: antimanicomiais contra a precarização do trabalho
e da vida” – sintetizou essa visão.
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Uma história de lutas
Até a
década de 1980, o Brasil era um verdadeiro polo manicomial, com dezenas de
milhares de leitos em hospitais psiquiátricos onde pessoas passavam por vezes
suas vidas inteiras subjugadas em condições desumanas. Contrapondo-se a esse
cenário, os movimentos de luta antimanicomial e seus apoiadores foram os
principais protagonistas de uma grande pressão social que levou o Brasil a
empreender uma grande transformação no modelo de cuidado em saúde mental – para
muitos, até pela dimensão do país, uma das maiores do mundo. (Sobre o tema,
Outra Saúde publicou no ano passado o dossiê Reforma e Contrarreforma
Psiquiátrica no Brasil).
Através
de décadas de luta, os movimentos tiveram conquistas fundamentais como a Lei nº
10.216/2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, que estabeleceu os
direitos das pessoas com transtornos mentais no Brasil, priorizando o
tratamento em liberdade, a inclusão social e a substituição progressiva das
internações em hospitais psiquiátricos por cuidados em serviços comunitários.
A
partir da lei, estabeleceu-se então uma institucionalização parcial de uma rede
de atenção em saúde mental de base comunitária no país, a exemplo dos CAPS, de
forma simultânea a uma redução expressiva da oferta de leitos em hospitais
psiquiátricos. Entre 2002 e 2024 tivemos a abertura de 2.595 Centros de Atenção
Psicossociais e o fechamento de 41.049 leitos em hospitais psiquiátricos no
Sistema Único de Saúde (SUS), segundo o Ministério da Saúde.
No
entanto, mais recentemente, os setores mobilizados da sociedade – articulados
em movimentos e redes nacionais, a exemplo do Movimento Nacional da Luta
Antimanicomial (MNLA) e da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial
(RENILA) – identificam que, no campo do
cuidado às pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas, uma visão
social higienista foi se estabelecendo no país, levando ao crescimento das
Comunidades Terapêuticas, instituições de internação prolongada, muitas vezes
de cunho religioso e que ressoam diversas práticas manicomiais.
Além
disso, frente ao aumento vertiginoso do sofrimento psíquico na sociedade,
acompanhado do crescimento dos diagnósticos de ansiedade e depressão, os
movimentos apontam que as políticas públicas têm se movimentado de forma
insuficiente para se estruturar frente a essa demanda, gerando casos de
desassistência e medicalização. Nesse contexto, torna-se ainda mais urgente a
luta por mais serviços comunitários de saúde mental no país, além da melhoria
das condições daqueles já existentes – que enfrentam dificuldades de
infraestrutura, interferências políticas e, crucialmente, forte precarização
dos vínculos trabalhistas.
Essas e
outras observações se explicitaram nas entrevistas concedidas a este boletim
por representantes de diversos estados do país.
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Precarização do trabalho
Em meio
à multiplicidade de pautas que marca o Dia da Luta Antimanicomial, atento às
demandas específicas dos territórios, nenhuma pauta foi tão unânime quanto a do
trabalho.
Em
parte, porque a fragilização dos vínculos trabalhistas dos funcionários dos
CAPS e demais serviços – cada vez mais geridos por Organizações Sociais da
Saúde e submetidos a lógicas privatistas contrárias ao projeto do SUS – ameaça
a própria capacidade de mobilização do movimento. “No ano passado, o ato na
cidade do Rio de Janeiro foi muito tenso porque houve muitas ameaças e muito
assédio para que os profissionais da rede não comparecessem. A gestão dizia em
reuniões de equipe que haveria consequências para os que fossem”, exemplifica o
psicólogo carioca e membro do NEMLA, que preferiu não se identificar.
O temor
se torna mais forte porque cada vez menos profissionais da saúde mental são
servidores concursados, que podem enfrentar a interferência política com mais
tranquilidade devido à estabilidade no emprego. Os próprios gestores de
unidades, que já foram importantes aliados, recuam de qualquer abertura ao
movimento. Em sua maioria, chegam ao posto por indicação – e também receiam
perder seus empregos, como os demais funcionários.
Além
disso, o processo fragiliza o próprio cuidado oferecido aos usuários dos
serviços. “A falta de suporte e de atividades coletivas também precisa ser
inserida num contexto de precarização do trabalho dos profissionais. Eles estão
sobrecarregados e não recebem condições estruturais para fazer o trabalho de
cuidado, para que aquele seja um espaço promotor de saúde, que produz
acolhimento e laços. Aí é que isso se articula com o processo de privatização
dentro do SUS. A gestão das OSS mudou o clima de trabalho nos CAPS”, reflete o
trabalhador carioca.
Em
síntese, “resistir, hoje, exige mais”, afinal, “É preciso enfrentar o desmonte
silencioso que avança sob a lógica da terceirização, das OSS, da precarização
do trabalho e da negação do vínculo”, define David dos Santos, membro do Fórum
Popular de Saúde Mental da Zona Leste de São Paulo e do Fórum Kilomboleste.
A
atenção às problemáticas do mundo do trabalho também se estendeu para além das
portas dos CAPS, em tempos de mobilização na sociedade contra a exploração nas
relações laborais. No ano passado, como destacou Outra Saúde, o Brasil
registrou 400 mil afastamentos do trabalho por razões de saúde mental. Por
isso, também estiveram presentes em diversos atos do Dia da Luta Antimanicomial
ao redor do país alguns cartazes e bandeiras pelo fim da escala 6×1 – associada
ao sofrimento psíquico dos trabalhadores, devido ao caráter extenuante das
jornadas.
Palavras
de ordem também destacaram a importância das políticas de geração de empregos e
atividades ocupacionais para os usuários dos serviços de saúde mental, cada vez
mais precarizadas pelo subfinanciamento da RAPS.
Na
avaliação dos entrevistados, retomar a radicalidade e a ligação íntima com a
mobilização dos trabalhadores que caracterizavam os primeiros dias da luta
antimanicomial será essencial para atravessar o atual momento. “Em meio ao
avanço das políticas neoliberais e a toda a instabilidade política que a gente
vive no Brasil a nível da democracia e da participação social, fazer uma
retomada histórica disso é muito fundamental, porque vai refletir diretamente
na capacidade de mobilização social”, avalia Daniel Bermudes.
“Em
alguns colegas, percebemos um certo entristecimento, um desânimo na
continuidade desse trabalho por se acreditar que ele não faz mais sentido, como
se fosse uma causa perdida. Relembrar que os avanços foram fruto de muita luta
pode retomar o interesse em fazer um trabalho que pense um novo futuro para o
cuidado em saúde mental. Não um futuro ideal, mas um horizonte muito possível”,
ele completa.
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O que corrói a Rede de Atenção Psicossocial
O
problema do subfinanciamento, dizem os ativistas, vem se agravando no último
período. Por isso, a demanda por investimento nos serviços de saúde mental
também apareceu fortemente nos atos, conta Daniel: “A gente coloca como pauta o
investimento na RAPS, principalmente a ampliação dos serviços CAPS e das
equipes eMulti, mas também uma maior formação e capacitação das equipes de
saúde mental. É preciso retomar os investimentos até em condições básicas de
trabalho e de assistência que os usuários precisam, como alimentação, material
para oficinas, transporte para poder fazer passeios, estrutura física para
poder beber água, coisas simples”.
Como
consequência do subfinanciamento dos serviços comunitários, “a rotatividade de
profissionais, a ausência de educação continuada e a substituição da escuta
pela meta corroem a Rede de Atenção Psicossocial. Em seu lugar, cresce o
discurso da abstinência como única saída, o retorno de práticas higienistas e o
silenciamento das pautas humanitárias”, explica David.
Por
essa razão, as manifestações também denunciaram as parcerias de governos locais
com comunidades terapêuticas e outros “novos manicômios” que se infiltram nas
políticas voltadas para o cuidado com pessoas que fazem uso abusivo de álcool e
drogas. No Espírito Santo, essa denúncia se concentrou na Rede Abraço, um
programa do governo estadual que “está concentrando investimentos em detrimento
da RAPS e que incentiva as internações e a abstinência, e não a redução de
danos”, revela Daniel.
No ano
passado, o ato do Dia da Luta Antimanicomial no Rio de Janeiro fez críticas
similares ao programa Seguir em Frente, iniciativa para a população de rua
implementada pela Prefeitura da capital que “vai na direção oposta do que deve
ser a atenção psicossocial”, opina o psicólogo carioca ouvido por este boletim.
Já neste ano, a manifestação em São Paulo desfraldou na avenida Paulista uma
grande faixa com os dizeres “Não às comunidades terapêuticas”.
Na
visão do psicólogo capixaba Daniel Bermudes, o momento também é de “ascensão de
novos discursos sobre saúde mental” no país, muitos deles contrários aos
princípios da Reforma Psiquiátrica. Por isso, os atos do dia 18 de maio também
tiveram o papel de “divulgar informações sobre a luta antimanicomial e combater
estigmas, como as piadinhas de CAPS que são a nova moda”, complementou Israel
Almeida.
Para
David, o trabalhador da RAPS paulista, “frases como ‘CAPS não é piada, é
liberdade’ e ‘Loucura não se prende’ reafirmaram a centralidade dos CAPS como
territórios de cuidado em liberdade, contrapondo o estigma que ainda ronda a
saúde mental com a urgência de políticas que acolham sem punir”.
Fonte:
por Guilherme Arruda e Denis Saffer, em Outra Saúde

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