quarta-feira, 28 de maio de 2025

'Pena de morte financeira': o que poderia acontecer com Alexandre de Moraes caso ocorra sanções pelos EUA

A possível sanção ao ministro Alexandre de Moraes pelos Estados Unidos tem potencial de provocar uma crise institucional e diplomática sem precedentes entre os dois países.

A principal medida, chamada lei Magnitsky, vem sendo articulada por Eduardo Bolsonaro e aliados da extrema direita nos EUA.

Na prática, ela permite ao governo punir estrangeiros envolvidos em violações de direitos humanos ou em casos de corrupção.

No dia 21 de maio, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou, em audiência no Congresso americano, que há “grande possibilidade” de o governo aplicar sanções contra Moraes com base na Lei Global Magnitsky

Se sancionado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) enfrentaria severas consequências, como o bloqueio de contas bancárias, o cancelamento de cartões de crédito e restrições de entrada no país.

"Eles chamam de pena de morte financeira", explica a jornalista Malu Gaspar, em entrevista ao podcast O Assunto. "Os Estados Unidos podem obrigar as instituições financeiras do mundo todo a congelar ativos, a fechar contas, a tirar cartão de crédito de pessoas que classificam como violadoras de direitos humanos."

De acordo com o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV-SP e pesquisador do Observatório da Extrema-Direita, é a primeira vez em que um membro da Suprema Corte brasileira seria alvo de uma medida dessa natureza, o que poderia configurar uma interferência inédita do governo americano sobre o Judiciário de outro país democrático.

"É uma extrapolação, uma extrapolação muito complicada que certamente geraria uma resposta tanto por parte do judiciário, quanto por parte do executivo brasileiro."

<><> Por que Eduardo Bolsonaro quer sanção contra Moraes?

Moraes é acusado por bolsonaristas de violar direitos humanos ao tomar decisões contra desinformação e discursos de ódio nas redes sociais. Após anunciar que tiraria licença do mandato de deputado para morar nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro ameaçou o ministro.

"Só retornarei quando você estiver devidamente punido pelos seus crimes, pelo seu abuso de autoridade."

Eduardo Bolsonaro também chegou a dizer que quanto mais o processo contra o pai, Jair Bolsonaro, andar, maior será a pressão sobre o relator do processo, Alexandre de Moraes.

Segundo a PGR, que nesta segunda (26) pediu ao Supremo que Eduardo Bolsonaro seja investigado por coação e obstrução de Justiça, 'há um manifesto tom intimidatório' contra agentes públicos nas ações de Eduardo, que estariam voltadas a interferir no julgamento da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, processo que tem Alexandre de Moraes como relator.

<><> Tensão diplomática inédita

Nos bastidores, há receio sobre o impacto de uma eventual sanção americana. Embora Moraes tenha dito a interlocutores que não se preocupa com a possibilidade, outros ministros que têm bens ou interesses nos Estados Unidos estariam apreensivos.

A fala de Rubio elevou o nível de tensão entre Brasília e Washington. Enquanto isso, o governo brasileiro opta por agir com discrição e priorizar a diplomacia reservada para evitar o agravamento da crise.

"Qualquer tentativa de escalar o conflito nesse momento se torna muito perigosa", afirma Casarões. Primeiro porque Trump joga com a incerteza o tempo todo. Escalar, nesse momento, seria muito complicado porque o Brasil se colocaria em posição de fragilidade diplomática no momento em que a gente precisa de manter boas relações com os Estados Unidos no campo econômico."

¨      Governo Lula conversa com EUA nos bastidores após ameaça de sanção a Alexandre de Moraes

O governo do Brasil iniciou conversas reservadas com autoridades dos Estados Unidos após o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmar que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pode ser alvo de sanções pelo governo americano.

A articulação ocorre em alto nível, ou seja, entre integrantes dos altos escalões. A informação, à qual a GloboNews teve acesso, havia sido revelada pelo jornal O Globo.

<><> Fala de Rubio preocupa Brasília

No último dia 21, Rubio afirmou em audiência no Congresso americano que há “grande possibilidade” de o governo aplicar sanções contra Moraes com base na Lei Global Magnitsky. Essa lei permite punir estrangeiros envolvidos em violações de direitos humanos ou corrupção.

A fala causou incômodo no Itamaraty, que vê na declaração uma tentativa de interferência nos assuntos internos do Brasil e uma afronta ao Judiciário nacional.

<><> Clima tenso, mas diplomacia prega pragmatismo

Embora Lula e Donald Trump estejam em campos opostos — Lula apoiou a chapa de Kamala Harris, enquanto o ex-presidente e rival de Lula Jair Bolsonaro é próximo de Trump —, diplomatas ouvidos pela GloboNews afirmam que a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos deve ser conduzida com pragmatismo.

Isso significa manter laços comerciais e diplomáticos sólidos mesmo diante de divergências políticas. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

<><> Moraes no centro das tensões

O ministro Alexandre de Moraes é alvo constante de ataques da base bolsonarista. Ele é relator da ação penal que acusa Jair Bolsonaro e aliados de tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022.

A denúncia foi aceita pelo STF e inclui Bolsonaro como integrante do “núcleo crucial” da trama. O processo está na fase de depoimentos de testemunhas. Ao final, Moraes apresentará seu voto, que será julgado por outros quatro ministros da Primeira Turma da Corte.

Moraes também está na mira de Cory Mills, deputado considerado fiel a Donald Trump e próximo da família Bolsonaro.

Na sessão da Câmara do último dia 21, em que Marco Rubio estava presente, Mills afirmou que o Brasil enfrenta um "alarmante retrocesso nos direitos humanos" e disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estaria prestes a se tornar um preso político.

Em seguida, Mills perguntou a Rubio se os Estados Unidos estavam avaliando aplicar sanções contra Moraes com base na lei, quando Rubio afirmou haver "grande possibilidade".

¨      Lula coordena ação do Itamaraty nos EUA e mantém Moraes informado

O presidente Lula tem coordenado de perto a articulação do Itamaraty junto ao governo Donald Trump para evitar sanções dos Estados Unidos ao ministro do STF Alexandre de Moraes.

Segundo fontes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, Lula tem sido informado pelo chanceler brasileiro, Mauro Vieira, de todas as conversas com a gestão Trump sobre o assunto.

O trabalho, segundo fontes do Ministério das Relações Exteriores, é liderado por Lula e pelo chanceler Mauro Vieira diretamente de Brasília, mas tem sido executado de forma “coletiva”.

Nos Estados Unidos, quem está à frente das conversas é a atual embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, como informou o Metrópoles, na coluna Paulo Cappelli.

A diplomata iniciou as conversas ainda na semana passada, após o secretário de Estado americano, Marco Rubio, dizer publicamente haver “grande possibilidade” de sanções contra Moraes.

Nas conversas, a embaixadora tem destacado a relação histórica de cooperação entre Brasil e Estados Unidos e ressaltado que eventuais sanções a Moraes serão vistas como “ataque à soberania brasileira”.

A ordem no Itamaraty, contudo, é evitar reagir “pela mídia”. Por isso, a orientação é não expor detalhes das conversas que têm sido feitas por diplomatas brasileiros com o governo Trump.

>>>> Governo Lula mantém Moraes informado

Desde a fala e Marco Rubio, cujo cargo equivale ao de chanceler no Brasil, Lula ordenou que o Itamaraty reagisse “com firmeza”. O petista, porém, ainda não teve conversas diretas com autoridades americanas.

O governo, segundo fontes do Planalto, tem mantido Moraes informado sobre as articulações. A comunicação tem sido feita por meio do Itamaraty e de ministros do governo que têm boa interlocução com o magistrado.

O próprio Lula, de acordo com auxiliares presidenciais, também conversou por telefone diretamente com Alexandre de Moraes, na semana passada, após a declaração do chanceler do governo Trump.

¨      Embaixadora mergulha em missão anti-Eduardo e em apoio a Moraes

Embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti recebeu do Itamaraty a missão de neutralizar Eduardo Bolsonaro, que atua por sanções do governo Donald Trump ao ministro Alexandre de Moraes (STF).

Nos últimos dias, a embaixadora procurou membros da diplomacia dos Estados Unidos e da cúpula da secretaria de Estado, comandada por Marco Rubio, para tentar demover Trump de avançar em punições contra autoridades brasileiras.

Segundo fontes do Itamaraty, Viotti destacou a cooperação histórica entre os dois países e argumentou que sanções a Alexandre de Moraes têm o condão de implodir a aliança, uma vez que serão interpretadas como ataque à soberania brasileira.

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Atualmente, há cerca de 4 mil empresas dos Estados Unidos fazendo negócios em solo brasileiro. Já no quesito balança comercial, o país chefiado por Trump é o segundo maior parceiro do Brasil, atrás apenas da China.

Na posse de Donald Trump, em Washington, o Brasil foi representado pela embaixadora Viotti. Indicada por Lula em 2023, ela se tornou a primeira mulher brasileira a comandar a embaixada brasileira nos Estados Unidos.

Embaixadora recebeu missão após alerta no Planalto

Na última quinta-feira (22/5), Marco Rubio afirmou haver “grande possibilidade” de que os EUA sancionem Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky. A declaração acendeu alerta vermelho no Palácio do Planalto.

Além de Moraes, estão na mira dos EUA outros magistrados da Corte, além de membros da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

<><> Líder do PT protocola denúncia pedindo cassação de Eduardo Bolsonaro

Líder do PT na Câmara dos DeputadosLindbergh Farias protocola, nesta terça-feira (27/5), uma representação contra Eduardo Bolsonaro (PL) no Conselho de Ética do parlamento.

Na denúncia obtida pela coluna, o líder petista e o senador Humberto Costa (PT) acusam Eduardo Bolsonaro de abuso das prerrogativas constitucionais e de quebra de decoro parlamentar por articular sanções ao ministro Alexandre de Moraes (STF). Lindbergh Farias e Humberto Costa pedem a cassação do mandato do político do PL.

Diz a ação: “O representado, deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, vem desde março de 2025 atuando, de forma sistemática e deliberada, em território estrangeiro estadunidense, com o objetivo de promover ataques institucionais contra o Supremo Tribunal Federal, constranger o exercício da jurisdição constitucional e articular sanções internacionais contra autoridades brasileiras.

De maneira pública e reiterada, Eduardo Bolsonaro declarou que “só retornará ao Brasil quando o ministro Alexandre de Moraes for sancionado pelos EUA”. A declaração foi acompanhada de articulações com parlamentares estrangeiros — como o senador Marco Rubio e o deputado Cory Mills — para a aplicação da chamada Lei Magnitsky, um instrumento de política externa dos Estados Unidos utilizado para punir supostos “violadores de direitoshumanos”.

“Essas ações foram articuladas com o objetivo de coagir, intimidar ou retaliar membros do Poder Judiciário brasileiro, em especial o relator da ação penal contra Jair Bolsonaro e do inquérito da tentativa de golpe de Estado em curso no STF. A conduta do representado configura interferência grave na independência entre os Poderes, com impacto direto sobre a soberania nacional, a separação dos Poderes e a ordem constitucional.

A atuação do representado desonra o mandato parlamentar, viola a dignidade da Câmara dos Deputados e compromete a imagem do Poder Legislativo, ao colocar-se como instrumento de ataque às instituições nacionais a partir de alianças com interesses políticos e estratégicos estrangeiros.

De maneira pública e reiterada, Eduardo Bolsonaro declarou que “só retornará ao Brasil quando o ministro Alexandre de Moraes for sancionado pelos EUA”. A declaração foi acompanhada de articulações com parlamentares estrangeiros — como o senador Marco Rubio e o deputado Cory Mills — para a aplicação da chamada Lei Magnitsky, um instrumento de política externa dos Estados Unidos utilizado para punir supostos “violadores de direitos humanos.

Essas ações foram articuladas com o objetivo de coagir, intimidar ou retaliar membros do Poder Judiciário brasileiro, em especial o relator da ação penal contra Jair Bolsonaro e do inquérito da tentativa de golpe de Estado em curso no STF. A conduta do representado configura interferência grave na independência entre os Poderes, com impacto direto sobre a soberania nacional, a separação dos Poderes e a ordem constitucional.

A atuação do representado desonra o mandato parlamentar, viola a dignidade da Câmara dos Deputados e compromete a imagem do Poder Legislativo, ao colocar-se como instrumento de ataque às instituições nacionais a partir de alianças com interesses políticos e estratégicos estrangeiros.”

<><> Fundamentos para a denúncia

Prossegue o líder do PT no documento: “A conduta do representado, deputado federal Eduardo Bolsonaro, caracteriza violação gravíssima aos deveres éticos e funcionais inerentes ao exercício do mandato parlamentar, incidindo nas hipóteses previstas nos arts. 55, inciso II, da Constituição Federal; 4º, I, Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados e artigo 244 do RICD, conforme demonstrado a seguir.

  1. A conduta de Eduardo Bolsonaro reúne todos esses elementos:  abusou da prerrogativa de representação política ao conspirar com autoridades estrangeiras contra instituições brasileiras;
  2. há fortes indícios de que se beneficiou, direta ou indiretamente, de recursos arrecadados sob finalidade distinta (campanha de Pix organizada por Jair Bolsonaro) para financiar uma estrutura externa de ataque ao sistema de justiça brasileiro; e,
  3. praticou atos com repercussão internacional que atacam diretamente o Supremo Tribunal Federal e a soberania brasileira, ferindo o núcleo ético da função legislativa.

Os atos praticados fora do Brasil e fora do Plenário da Câmara podem configurar quebra de decoro parlamentar, desde que afetem a dignidade da função, desmoralizem o Poder Legislativo ou comprometam os valores republicanos, pois o decoro não se restringe à tribuna ou ao exercício formal do mandato — mas abrange a conduta pública, institucional e política do parlamentar em qualquer foro.

O representado, embora licenciado formalmente, manteve o uso político, simbólico e diplomático do cargo, apresentando-se nos Estados Unidos e em eventos públicos como “deputado federal do Brasil” e utilizando esse status para legitimar articulações internacionais contra decisões de órgãos constitucionais brasileiros. A licença não extingue os deveres éticos e a responsabilidade política perante a Câmara.

O decoro parlamentar exige conduta proba, leal às instituições democráticas e compatível com os princípios do Estado de Direito, com dever de respeito à Constituição e às instituições republicanas. A tentativa de interferir no exercício da jurisdição constitucional por meio de articulações externas de sanção diplomática contra membros da Suprema Corte brasileira viola flagrantemente esse preceito.

Os pedidos do líder do PT

“A atuação do representado não se trata de mera crítica política, mas de ofensiva articulada, continuada e intencional para sabotar o funcionamento legítimo das instituições democráticas brasileiras. A instrumentalização do mandato parlamentar — mesmo em licença — para viabilizar ataques diplomáticos contra autoridades públicas no exercício de suas funções é expressão inequívoca de abuso de prerrogativa e de incompatibilidade absoluta com o decoro exigido de um deputado federal.

Por fim, a relação de lealdade institucional e respeito à soberania nacional não é apenas uma convenção ética, mas uma exigência constitucional e republicana. Um parlamentar que, diante de discordância com decisões judiciais, recorre a governos estrangeiros para retaliar e coagir os Poderes da República, quebra o pacto institucional que sustenta o exercício legítimo da representação popular.

Diante disso, é legítimo e necessário que esta Casa Legislativa, por meio de seu Conselho de Ética, reafirme os limites da atuação parlamentar e proteja a integridade da democracia brasileira, aplicando ao representado as sanções cabíveis, inclusive a perda do mandato, nos termos constitucionais e regimentais.”

A nova representação de Linddbergh será apensada a outra denúncia contra Eduardo Bolsonaro protocolada pelo líder do PT em fevereiro deste ano.

 

Fonte: g1/Metrópoles

 

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